Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?
Atualizado: há 8 horas
Nova Deli procura abrir espaço ao investimento chinês em alguns setores, enquanto mantém uma disputa fronteiriça com Pequim. Ambos enfrentam dificuldades com Washington, depois de anos em que a preocupação com a China aproximou a Índia dos Estados Unidos.
A Índia depende de produtos chineses para desenvolver parte da sua indústria. Ao mesmo tempo, restringiu a entrada de empresas e investimento da China depois do confronto fronteiriço de 2020, em que morreram militares dos dois países. Nova Deli procura agora facilitar algumas formas de cooperação económica com o vizinho.
Depois dos confrontos, dezenas de aplicações chinesas foram proibidas, incluindo o TikTok. A entrada de investimento ficou fortemente limitada e as empresas chinesas já instaladas passaram a enfrentar maior fiscalização. A Índia continuou, porém, a comprar à China bens e componentes utilizados pela sua indústria e pelo setor farmacêutico.
Nova Deli indicou que facilitaria a aquisição de participações minoritárias por entidades chinesas em setores como a produção de eletrónica e a energia solar. Pretende favorecer associações com empresas indianas. A fronteira continua em disputa, apesar do avanço nas negociações em 2024.
A abertura económica tem condições
Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?
Uma empresa indiana pode comprar componentes chineses sem que o fornecedor participe no seu capital. A abertura anunciada permite ir além dessa relação comercial: admite que entidades chinesas adquiram participações em empresas na Índia, dentro dos setores e das condições definidos pelas autoridades.
A opção por participações minoritárias delimita a presença dos investidores. Não corresponde a uma autorização geral para investir em qualquer atividade, nem implica, por si, entregar-lhes o controlo das empresas.
Nova Deli procura obter tecnologia e conhecimentos que ajudem a desenvolver a produção indiana. Para isso, as empresas terão de encontrar parceiros e negociar as atividades a realizar em conjunto. A autorização de investimento abre essa possibilidade; os anúncios ainda não esclarecem que tecnologia será disponibilizada ou que capacidades ficarão nas empresas indianas.
A Índia utiliza bens e componentes chineses na sua produção. As associações empresariais poderão mudar a forma dessa relação, consoante o que vierem a produzir dentro do país e os conhecimentos que disponibilizarem aos parceiros indianos.
As regras variam também com a atividade. Facilitar investimento em eletrónica ou energia solar não revoga automaticamente a proibição de uma aplicação digital.
O conflito fronteiriço permanece
Índia e China entraram em guerra em 1962 e tiveram vários confrontos fronteiriços desde então. As mortes de militares em 2020 agravaram a disputa e foram seguidas pelas restrições indianas à presença económica chinesa.
Em 2024, Índia e China avançaram nas negociações fronteiriças, depois de anos de deterioração das relações. A disputa territorial permanece.
Pequim mantém também uma relação estreita com o Paquistão, adversário da Índia. Os dois países competem no oceano Índico. Estas questões continuam a condicionar os contactos entre os governos, mesmo quando há interesse em admitir investimento ou aumentar a cooperação industrial.
Nova Deli pode autorizar uma participação chinesa numa empresa e manter as suas objeções em matéria de segurança. Os contactos diplomáticos permitem negociar os assuntos em disputa, mas os compromissos terão de ser definidos para cada um deles. Na fronteira, o avanço de 2024 é o passo concreto conhecido neste percurso.
As dificuldades com Washington
As tarifas de Donald Trump atingiram tanto a Índia como a China. No caso indiano, a deterioração dos contactos com Washington incluiu divergências sobre as compras de petróleo russo.
A Índia vinha a aproximar-se dos Estados Unidos, em parte devido ao interesse comum em contrariar a China. Passou a enfrentar dificuldades com esse parceiro ao mesmo tempo que recuperava contactos com Pequim.
As tarifas alteram as condições de acesso ao mercado americano. As divergências sobre o petróleo russo envolvem escolhas da política externa indiana. Os dois problemas pesam na relação com Washington, mas nenhum resolve os desacordos de Nova Deli com o vizinho chinês.
Modi deslocou-se à China para um fórum regional em que participou também Vladimir Putin. Índia e China integram igualmente os BRICS, grupo a que pertencem a Rússia e o Irão. Os encontros permitem manter contactos e anunciar cooperação entre países que continuam a ter disputas bilaterais.
Para Nova Deli e Pequim, essa participação coexiste com as negociações diretas sobre a fronteira e com as decisões de cada governo sobre o acesso ao seu mercado.
O que pode mudar entre Índia e China
A Índia anunciou uma abertura delimitada ao investimento chinês. O seu alcance dependerá dos setores abrangidos, das participações autorizadas e das associações que as empresas conseguirem concretizar. A cooperação industrial poderá avançar nessas condições, mesmo enquanto os governos continuam a negociar questões de segurança.
Nas empresas indianas que venham a receber investimento, será possível avaliar o que passa a ser produzido e que tecnologia os parceiros chineses disponibilizam. São resultados que o anúncio de uma abertura ainda não permite conhecer.
Na fronteira, os compromissos exigem um entendimento entre os Estados. O progresso das negociações de 2024 e a abertura a participações minoritárias pertencem ao mesmo período de recuperação dos contactos, mas têm aplicação em áreas diferentes. Os dois governos terão de decidir o que conseguem executar em cada uma delas, com os restantes conflitos ainda por resolver.
Capa: bandeiras da Índia e da China, símbolos de domínio público. Composição gráfica para o Atlantic Lisbon disponibilizada sob CC0, utilização gratuita. A aproximação entre Índia e China envolve comércio, investimento e negociações fronteiriças.






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