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Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?

9 de out.
4 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

Nova Deli procura abrir espaço ao investimento chinês em alguns setores, enquanto mantém uma disputa fronteiriça com Pequim. Ambos enfrentam dificuldades com Washington, depois de anos em que a preocupação com a China aproximou a Índia dos Estados Unidos.


A Índia depende de produtos chineses para desenvolver parte da sua indústria. Ao mesmo tempo, restringiu a entrada de empresas e investimento da China depois do confronto fronteiriço de 2020, em que morreram militares dos dois países. Nova Deli procura agora facilitar algumas formas de cooperação económica com o vizinho.


Depois dos confrontos, dezenas de aplicações chinesas foram proibidas, incluindo o TikTok. A entrada de investimento ficou fortemente limitada e as empresas chinesas já instaladas passaram a enfrentar maior fiscalização. A Índia continuou, porém, a comprar à China bens e componentes utilizados pela sua indústria e pelo setor farmacêutico.


Nova Deli indicou que facilitaria a aquisição de participações minoritárias por entidades chinesas em setores como a produção de eletrónica e a energia solar. Pretende favorecer associações com empresas indianas. A fronteira continua em disputa, apesar do avanço nas negociações em 2024.


A abertura económica tem condições


Até onde pode ir a aproximação entre Índia e China?


Uma empresa indiana pode comprar componentes chineses sem que o fornecedor participe no seu capital. A abertura anunciada permite ir além dessa relação comercial: admite que entidades chinesas adquiram participações em empresas na Índia, dentro dos setores e das condições definidos pelas autoridades.


A opção por participações minoritárias delimita a presença dos investidores. Não corresponde a uma autorização geral para investir em qualquer atividade, nem implica, por si, entregar-lhes o controlo das empresas.


Nova Deli procura obter tecnologia e conhecimentos que ajudem a desenvolver a produção indiana. Para isso, as empresas terão de encontrar parceiros e negociar as atividades a realizar em conjunto. A autorização de investimento abre essa possibilidade; os anúncios ainda não esclarecem que tecnologia será disponibilizada ou que capacidades ficarão nas empresas indianas.


A Índia utiliza bens e componentes chineses na sua produção. As associações empresariais poderão mudar a forma dessa relação, consoante o que vierem a produzir dentro do país e os conhecimentos que disponibilizarem aos parceiros indianos.


As regras variam também com a atividade. Facilitar investimento em eletrónica ou energia solar não revoga automaticamente a proibição de uma aplicação digital.


O conflito fronteiriço permanece


Índia e China entraram em guerra em 1962 e tiveram vários confrontos fronteiriços desde então. As mortes de militares em 2020 agravaram a disputa e foram seguidas pelas restrições indianas à presença económica chinesa.


Em 2024, Índia e China avançaram nas negociações fronteiriças, depois de anos de deterioração das relações. A disputa territorial permanece.


Pequim mantém também uma relação estreita com o Paquistão, adversário da Índia. Os dois países competem no oceano Índico. Estas questões continuam a condicionar os contactos entre os governos, mesmo quando há interesse em admitir investimento ou aumentar a cooperação industrial.


Nova Deli pode autorizar uma participação chinesa numa empresa e manter as suas objeções em matéria de segurança. Os contactos diplomáticos permitem negociar os assuntos em disputa, mas os compromissos terão de ser definidos para cada um deles. Na fronteira, o avanço de 2024 é o passo concreto conhecido neste percurso.


Donald Trump e Xi Jinping numa reunião com as delegações no G20 de 2017; imagem de arquivo para o artigo sobre Índia e China.
Donald Trump e Xi Jinping no G20, em 8 de julho de 2017. As relações de Índia e China com Washington fazem parte do contexto da aproximação entre os dois vizinhos. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita.

As dificuldades com Washington


As tarifas de Donald Trump atingiram tanto a Índia como a China. No caso indiano, a deterioração dos contactos com Washington incluiu divergências sobre as compras de petróleo russo.


A Índia vinha a aproximar-se dos Estados Unidos, em parte devido ao interesse comum em contrariar a China. Passou a enfrentar dificuldades com esse parceiro ao mesmo tempo que recuperava contactos com Pequim.


Narendra Modi e Donald Trump sentados numa reunião na sede das Nações Unidas em 2019; imagem de arquivo sobre o contexto diplomático de Índia e China.
Narendra Modi e Donald Trump numa reunião na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, em 24 de setembro de 2019. Os contactos entre Nova Deli e Washington antecedem a atual aproximação entre Índia e China. Fotografia de arquivo: Shealah Craighead / Casa Branca. Domínio público, utilização gratuita.

As tarifas alteram as condições de acesso ao mercado americano. As divergências sobre o petróleo russo envolvem escolhas da política externa indiana. Os dois problemas pesam na relação com Washington, mas nenhum resolve os desacordos de Nova Deli com o vizinho chinês.


Modi deslocou-se à China para um fórum regional em que participou também Vladimir Putin. Índia e China integram igualmente os BRICS, grupo a que pertencem a Rússia e o Irão. Os encontros permitem manter contactos e anunciar cooperação entre países que continuam a ter disputas bilaterais.


Para Nova Deli e Pequim, essa participação coexiste com as negociações diretas sobre a fronteira e com as decisões de cada governo sobre o acesso ao seu mercado.


O que pode mudar entre Índia e China


A Índia anunciou uma abertura delimitada ao investimento chinês. O seu alcance dependerá dos setores abrangidos, das participações autorizadas e das associações que as empresas conseguirem concretizar. A cooperação industrial poderá avançar nessas condições, mesmo enquanto os governos continuam a negociar questões de segurança.

Nas empresas indianas que venham a receber investimento, será possível avaliar o que passa a ser produzido e que tecnologia os parceiros chineses disponibilizam. São resultados que o anúncio de uma abertura ainda não permite conhecer.


Na fronteira, os compromissos exigem um entendimento entre os Estados. O progresso das negociações de 2024 e a abertura a participações minoritárias pertencem ao mesmo período de recuperação dos contactos, mas têm aplicação em áreas diferentes. Os dois governos terão de decidir o que conseguem executar em cada uma delas, com os restantes conflitos ainda por resolver.


Capa: bandeiras da Índia e da China, símbolos de domínio público. Composição gráfica para o Atlantic Lisbon disponibilizada sob CC0, utilização gratuita. A aproximação entre Índia e China envolve comércio, investimento e negociações fronteiriças.


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