Jorge Palma não cabe na fotografia da boémia
O estudo e as influências musicais de Jorge Palma ficam frequentemente de fora do retrato da boémia.
O cigarro, a madrugada e a voz tornam-no reconhecível. Nas canções de Jorge Palma há também estudo e escolhas musicais que essa imagem deixa de fora.
A palavra boémio chega depressa quando se fala de Jorge Palma. Traz consigo uma fotografia quase pronta: o cigarro, a madrugada, a voz, o piano. Reconhecemos o homem antes de ouvir a canção. Depois, por vezes, continuamos a vê-lo enquanto a música passa.
Jorge Palma e a construção de uma obra maior do que o mito
Uma noite pode dar-lhe um episódio, uma frase, uma disposição. Entre essa matéria e uma música que outra pessoa queira ouvir há palavras que funcionam numa conversa e falham quando são cantadas, relações entre sons, tentativas recusadas. A fotografia não mostra esse trabalho.
A maneira de cantar do Jorge Palma aproxima a canção da fala. Conserva uma aspereza que não disfarça o esforço e deixa o ouvinte chegar mais perto. Podemos imaginar que estamos a ouvi-lo antes de ter preparado o que vai dizer. Mas alguém escreveu o texto, escolheu a música e decidiu como os juntar. A voz dá-nos acesso ao resultado.
Em Lisboa, as ruas percorridas à noite, os bares e os encontros oferecem um cenário onde é fácil colocá-lo. O retrato parece dispensar mais perguntas. A cidade tem, porém, outras maneiras de entrar nas canções: através da música que chega de fora, do que se ouve e aprende, das experiências que deixam de caber no lugar onde aconteceram.
Com Jorge Palma, Lisboa pode ouvir-se também a partir dessas entradas. A familiaridade de uma canção não nos diz tudo sobre a sua origem.
O que se ouve antes de escrever
Lou Reed está na origem de «Bairro do Amor». Jorge Palma tentou escrever à sua maneira, tanto na letra como na música. A referência atravessou a sequência dos acordes e misturou-se com ambientes que o compositor conhecia.
O título convida a procurar um lugar. Palma, porém, não lhe atribui uma morada concreta. Reconhece no ambiente da canção uma relação com os que frequentou, incluindo um período de consumo de drogas injetáveis. Quis dar alguma luz a essa matéria.
Ficam próximas duas coisas que uma explicação apenas biográfica separaria mal: a experiência de Jorge Palma e o que aprendeu a ouvir em Lou Reed. Na canção, já não é possível distribuí-las por compartimentos. Nem cada palavra precisa de corresponder a um episódio.
Quem pouco sabe da vida do autor pode reconhecer aquele bairro. Leva para a música lugares e pessoas que Jorge Palma nunca conheceu. Quem sabe mais da sua história continua sem poder fixar a canção numa casa ou numa noite.
É frequente procurar nos artistas essa correspondência. Uma obra deveria confirmar a pessoa, e a pessoa explicar a obra. Quanto mais familiar é o rosto, mais depressa uma nova canção serve para provar aquilo que já se dizia dele. No caso de Jorge Palma, a reputação da boémia oferece respostas antes de se ter ouvido o que mudou.
Ficam de fora os outros músicos, os instrumentos, a aprendizagem. Ficaria de fora o regresso ao estudo académico do piano, quando já tinha um percurso profissional. Jorge Palma voltou às aulas aos 33 anos e concluiu o curso superior aos 40, enquanto gravava discos e dava concertos. Queria organizar os conhecimentos que possuía.
«Estrela do Mar» foi composta à guitarra quando já tinha retomado os estudos e trabalhava um prelúdio de Debussy. Dessa canção fez um arranjo para piano que considerava o seu melhor. Atribuía à formação a possibilidade de o ter conseguido.
O estudo entrou numa canção sua, longe das peças que tinha de preparar para as aulas. Quem ouve «Estrela do Mar» pode receber tudo isso sem conhecer Debussy. Não precisa de identificar a aprendizagem para sentir o que ela permitiu fazer.
Palma também não escolheu a carreira de solista. Conhecia a dedicação diária que exigia e não tinha feitio para ela. O curso deu-lhe recursos que levou para outros trabalhos. Uma canção composta à guitarra pôde ganhar no piano uma forma que antes estaria fora do seu alcance.
Reduzir tudo isto ao temperamento deixa por explicar uma parte substancial da autoria. Palma ouve, aprende e trabalha com o que recolhe. A experiência vivida entra nesse processo, mas não ocupa sozinha o lugar de compositor.
A canção deixa de lhe pertencer por inteiro
Jorge Palma achava «Encosta-te a Mim» banal e ponderou deixá-la fora do disco. Amigos músicos, e outros que não eram músicos, insistiram para que a incluísse. A canção encontrou um público que a sua avaliação inicial não antecipava.
Ele conhecia-a de dentro: as escolhas, o esforço, aquilo a que atribuía valor. Os ouvintes receberam-na sem essa história. Encontraram uma música para voltar a ouvir.
Uma passagem que deu pouco trabalho pode tornar-se a razão por que alguém guarda uma canção. O compositor não conhece o momento em que isso acontece. Não sabe a quem a música será associada, que ausência acompanhará, por que motivo será lembrada anos depois.
«Encosta-te a Mim» passa a existir nessas ocasiões. Sem alterar uma palavra, cada ouvinte acrescenta-lhe um contexto. Há quem a receba como declaração, quem procure consolo, quem se lembre de uma pessoa. A avaliação inicial de Palma fica cada vez mais distante dessas vidas.
O rosto do autor continua reconhecível. A familiaridade pode ajudar a chegar à música e pode também prender-nos à mesma leitura. Esperamos da figura pública aquilo que já conhecemos: um modo de estar, uma voz, um carácter. Até as fragilidades acabam por se tornar parte dessa expectativa.
Jorge Palma reúne trabalhos e exigências que não cabem todos na palavra boémio. O estudo do piano, a composição, o rock, a presença informal diante do público ocupam espaços diferentes. Por vezes aproximam-se; por vezes, um deles absorve a atenção e deixa os restantes na sombra.
Não é preciso atribuir aos excessos o mérito das canções para preservar esse retrato. Seria outra explicação fácil. As dificuldades de uma pessoa podem interferir no trabalho de muitas maneiras; a qualidade da música não demonstra que fossem necessárias.
O pianista com formação não tem de exibir o curso em cada canção. O compositor pode trabalhar com exigência e chegar ao ouvinte sem solenidade. A informalidade de Jorge Palma permite essa proximidade, embora não explique por si o que estamos a ouvir.
Voltamos ao piano, à voz e ao rosto conhecido. Sabemos que a fotografia deixa de fora o estudo e que algumas canções chegaram mais longe do que ele esperava. «Encosta-te a Mim» esteve perto de ficar fora do disco. Entrou, e os ouvintes continuam a encontrar-lhe razões.






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