Os EUA abriram os ficheiros dos OVNIs. O que ficou secreto?
Washington está a divulgar documentos, vídeos e relatos militares sobre fenómenos anómalos não identificados. Parte do material continua classificado, e os ficheiros tornados públicos não contêm prova de que os Estados Unidos tenham encontrado tecnologia de origem extraterrestre.
Durante décadas, consultar os ficheiros norte-americanos sobre OVNIs significava procurar documentos dispersos por diferentes organismos, apresentar pedidos de acesso à informação e lidar com páginas censuradas ou arquivos incompletos. Em 2026, Washington começou a reunir e publicar deliberadamente parte desse material.
Os Estados Unidos abriram os ficheiros dos OVNIs.
A mais recente divulgação acrescentou 41 ficheiros desclassificados ao arquivo público dedicado aos chamados fenómenos anómalos não identificados, ou UAP. Os documentos abrangem várias décadas e incluem relatórios provenientes de estruturas militares, serviços de informações e outros organismos federais.
Entre eles há relatos associados a operações militares recentes. Num documento relacionado com a base aérea de Bagram, no Afeganistão, é descrita uma grande forma triangular e silenciosa observada no céu. Noutro caso, uma tripulação de um AC-130J registou, através de sensores térmicos, objetos descritos como orbes durante um exercício no golfo de Omã.
A coleção inclui também observações de pilotos, registos obtidos por sistemas militares e documentação histórica acumulada ao longo de décadas.
O facto de esses materiais pertencerem agora a um arquivo governamental demonstra que as ocorrências foram registadas. Não estabelece aquilo que provocou cada uma delas.
Um relatório pode confirmar que um piloto comunicou uma observação ou que uma unidade militar não conseguiu identificar imediatamente determinado objeto. Uma fotografia ou um vídeo podem igualmente ficar associados a um caso sem fornecer elementos suficientes para determinar a sua origem.
A sigla UAP substituiu progressivamente a designação UFO. Um fenómeno não identificado pode acabar por ser explicado como um balão, um drone, uma aeronave, um fenómeno atmosférico ou um efeito produzido por um sensor. Noutros casos, os dados disponíveis não são suficientes para uma identificação segura.
Os Estados Unidos criaram, entretanto, uma estrutura própria para tratar estes episódios. O All-domain Anomaly Resolution Office, ou AARO, recebe e analisa relatos de UAP. O Congresso aprovou regras sobre a conservação e divulgação da documentação, e os Arquivos Nacionais criaram o Record Group 615 para reunir registos provenientes das agências federais.
A coleção existe porque o Estado norte-americano acumulou, ao longo de décadas, informação classificada, investigada ou arquivada sob diferentes designações relacionadas com OVNIs e UAP.
A legislação aprovada no âmbito do orçamento da Defesa para 2024 obrigou os organismos federais a identificar os documentos que possuíam e a preparar cópias digitais para transferência para os Arquivos Nacionais.
A lei admite documentos integralmente públicos, versões com partes ocultadas e registos cuja divulgação pode ser adiada. As razões incluem a proteção de dados pessoais, compromissos de confidencialidade e informação classificada relacionada com a segurança nacional.
Há motivos militares evidentes para algumas dessas restrições. Um vídeo pode revelar as capacidades de um sensor, a distância a que determinada plataforma consegue detetar um alvo ou a localização de equipamentos. Um relatório pode identificar fontes ou métodos utilizados pelos serviços de informações.
Também pode acontecer que um episódio tenha ocorrido durante uma operação que continua secreta por razões sem relação com o objeto observado.
Para quem está fora do sistema de classificação, nem sempre é possível perceber por que razão determinado material permanece secreto.
Antigos militares e funcionários ligados à defesa afirmaram perante o Congresso que existem programas, materiais recuperados ou informações que não chegaram aos canais normais de fiscalização.
Até agora, as alegações mais extraordinárias apresentadas nessas audições não vieram acompanhadas de prova pública suficiente para confirmar a existência de tecnologia não humana.
As próprias audições trouxeram para o debate o grau de acesso que os representantes eleitos têm a programas classificados e à informação mantida nas estruturas de defesa e de informações.
Os governos democráticos mantêm documentos militares e de informações classificados. As dúvidas surgem quando os mecanismos de fiscalização podem não conhecer todos os programas que deveriam poder supervisionar.
Foi uma das razões para a pressão política no sentido da transferência de documentação para os Arquivos Nacionais.
O processo está longe de funcionar como a abertura de um único arquivo. Os documentos encontram-se espalhados por vários organismos, foram classificados em momentos diferentes e, em alguns casos, chegaram aos arquivos sem toda a documentação que permitiria reconstruir o episódio.
Muitas observações foram também mal documentadas desde o início.
Um piloto pode ter visto um objeto durante poucos segundos. Um sensor pode ter limitações conhecidas. A distância pode não ter sido determinada. Pode não existir um segundo registo independente. Décadas depois, um documento desclassificado não consegue recuperar informação que nunca foi recolhida.
À medida que os arquivos crescem, tornam-se públicos casos que antes eram desconhecidos. Alguns acabam por ser identificados. Noutros, aquilo que aparece é apenas a documentação de uma observação que continua sem dados suficientes para uma conclusão.
Os ficheiros recentemente divulgados contêm exemplos que chamam facilmente a atenção, como o objeto triangular descrito sobre uma instalação militar ou os registos obtidos por sensores no golfo de Omã. A possibilidade de avaliar esses episódios depende, porém, das condições da observação, dos dados originais, do equipamento utilizado e da existência de outros registos.
Sem esses elementos, a classificação de um caso como não identificado diz pouco sobre aquilo que esteve efetivamente no céu.
Um vídeo comprimido e separado dos dados técnicos do sensor pode ter enorme impacto público e pouco valor para uma análise independente. Um relatório escrito anos depois de uma observação pode preservar uma memória sem permitir testá-la.
A divulgação terá mais valor se os investigadores tiverem acesso aos materiais que permitem reconstruir as ocorrências, e não apenas às descrições finais.
Para as forças armadas, um objeto desconhecido próximo de uma instalação ou de uma aeronave pode representar um problema operacional, independentemente da sua origem.
Pode tratar-se de um drone de outro país, de uma nova plataforma de vigilância, de uma falha de equipamento ou simplesmente de algo que o observador não reconheceu. Em qualquer destes casos, saber o que foi observado tem utilidade militar.
Durante grande parte do século XX, os relatos de OVNIs ocuparam uma posição estranha. Eram matéria de cultura popular e, ao mesmo tempo, objeto de investigações governamentais que muitas vezes permaneciam classificadas. Pilotos e militares podiam recear que um relato prejudicasse a sua reputação profissional.
Hoje existem procedimentos formais para comunicar determinadas observações, um organismo encarregado de as analisar, audições no Congresso e uma coleção específica nos Arquivos Nacionais.
Os documentos públicos incluem ocorrências entretanto explicadas, outras que permanecem inconclusivas e algumas que continuam oficialmente sem identificação. Até agora, nenhum dos materiais divulgados fornece prova pública inequívoca de tecnologia de origem não humana.
O processo de transferência para os Arquivos Nacionais continua. Novos registos deverão ser publicados à medida que os organismos federais concluam a revisão dos materiais que possuem.
Alguns poderão esclarecer episódios antigos. Outros chegarão ao público com partes ocultadas ou sem informação suficiente para determinar aquilo que foi observado.
Os Arquivos Nacionais continuam a receber documentação de diferentes organismos federais, e parte dos registos permanece classificada ou sujeita a revisão antes de poder ser publicada.





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