Os fungos sob os nossos pés estendem-se por 110 mil biliões de quilómetros
- Maria do Rio

- há 4 dias
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Nos primeiros 15 centímetros dos solos da Terra existem cerca de 110 mil biliões de quilómetros de filamentos produzidos por fungos micorrízicos arbusculares. Colocados em linha, permitiriam percorrer aproximadamente 730 milhões de vezes a distância entre a Terra e o Sol.
Mapa revela 110 mil biliões de quilómetros de fungos no solo
A estimativa faz parte do primeiro levantamento global da densidade e da biomassa destas redes. O estudo, publicado na revista Science, reuniu medições de mais de 16 mil amostras de solo. Os investigadores usaram esses dados para treinar um modelo de aprendizagem automática e prever a presença dos fungos em regiões onde nunca foram feitas recolhas.
Não se trata de uma rede contínua a atravessar o planeta. O número resulta da soma de incontáveis filamentos microscópicos, conhecidos como hifas, que se estendem a partir das raízes das plantas. Os fungos recebem o carbono produzido através da fotossíntese e ajudam as plantas a obter água, fósforo e azoto. Cerca de 70% das espécies vegetais terrestres dependem desta relação.
A equipa compilou informação de 322 estudos realizados em nove biomas. Cruzou depois as medições com dados sobre o clima, a vegetação e a composição dos solos. O modelo calculou a densidade provável das hifas em áreas de aproximadamente um quilómetro quadrado.
Para estimar a biomassa, faltava conhecer a espessura dos filamentos. Um robô de imagem desenvolvido no instituto neerlandês AMOLF fotografou redes cultivadas em laboratório e efetuou mais de 300 mil medições. A largura média encontrada foi combinada com as previsões globais de comprimento.
Os investigadores calculam que os fungos vivos existentes na camada superficial do solo contêm cerca de 300 milhões de toneladas de carbono. Este valor corresponde a quatro a seis vezes o carbono presente na biomassa de todos os seres humanos. Ainda assim, representa uma parcela pequena das reservas totais dos solos.
O valor corresponde ao carbono contido nas hifas no momento da medição. Não permite saber quanto permanecerá no solo durante décadas ou séculos. As plantas transferem anualmente cerca de mil milhões de toneladas de carbono para estes fungos, mas os filamentos crescem, morrem e voltam a formar-se.
Depois da morte das hifas, alguns restos permanecem no solo. Parte desse material pode ligar-se aos minerais e integrar matéria orgânica capaz de persistir durante muito tempo. A dimensão global deste contributo continua por determinar, porque as estimativas sobre a velocidade de renovação dos filamentos variam consideravelmente.
As maiores densidades foram encontradas nas pradarias, estepes e pastagens naturais. Estes ecossistemas concentram cerca de 40% da biomassa global estimada dos fungos analisados. Nas pastagens de montanha, a densidade prevista foi 39% superior à das florestas tropicais húmidas de folha larga.
Entre as zonas destacadas no mapa publicado com o estudo encontram-se os Everglades, na Florida, as áreas alagadas do Sudd, no Sudão do Sul, e várias pradarias e estepes da Ásia Central. Uma parte importante da atividade biológica destes ecossistemas ocorre abaixo da superfície, embora muitos recebam menos proteção do que as florestas.
Nas amostras provenientes de terrenos agrícolas, a densidade das hifas foi, em média, cerca de 47% inferior à observada nos solos não cultivados. O estudo não permite atribuir a diferença a uma prática específica. Os fertilizantes, os fungicidas, o tipo de cultura e a intensidade da exploração podem influenciar os resultados, mas o modelo não conseguiu separar esses efeitos.
Também há regiões com poucas medições. Os desertos, as tundras e algumas florestas temperadas estão entre os ambientes menos estudados. As recolhas feitas a mais de 50 centímetros de profundidade são igualmente escassas, razão pela qual o cálculo global abrange apenas os 15 centímetros superficiais.
Os autores consideram prioritárias novas campanhas de recolha nas regiões onde as previsões são menos seguras. O mapa mostra onde estão essas lacunas e fornece uma primeira referência para medir futuras alterações nas redes fúngicas.




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