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Um homem vê-se fora do corpo. Uma mulher fala por um avatar

há 1 dia
4 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

José Morales recorda ter observado o próprio corpo inerte. Ann Johnson recupera a expressão através de um rosto digital construído para se parecer com o seu.


José Morales recorda ter visto o próprio corpo num canto da divisão, entre um móvel e a parede. Levantara-se de uma sesta e perdera os sentidos. Na imagem que conservou, estava de pé, à altura habitual dos seus olhos, enquanto a figura que reconhecia como sua permanecia imóvel. Parecia não respirar. Durante cerca de quarenta anos, sobretudo como médico rural, Morales examinara pessoas que tinham acabado de morrer. Naquele momento, julgou reconhecer em si os sinais que procurara nos outros.


Em O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão, não há um registo cardíaco, uma avaliação neurológica ou uma observação independente que permita determinar o estado do organismo durante o episódio. Desconhece-se quanto tempo durou a perda de consciência. A conclusão de que estava morto pertence à experiência narrada.


Capa em tons de azul e ocre com o título «Um homem vê-se fora do corpo. Uma mulher fala por um avatar», Percursos e Atlantic Lisbon.
Uma mulher diante de um rosto digital semelhante ao seu, com duas figuras masculinas ao fundo. Composição imaginária sobre os relatos de José Morales e a comunicação assistida de Ann Johnson. Ilustração gerada para o Atlantic Lisbon.

Morales continuava a olhar à altura de um homem de pé. Reconhecia a divisão, localizava o corpo e aplicava-lhe o conhecimento da sua profissão. A figura caída era sua, mas o lugar de onde julgava observá-la ficava noutro ponto do quarto. A recordação conservava até a posição habitual dos olhos.


Ann Johnson tinha trinta anos quando um acidente vascular cerebral no tronco cerebral a deixou gravemente paralisada. Conservou a consciência, a memória e a vontade de falar. Perdeu quase todos os movimentos necessários para dar expressão ao que pensava. Durante anos, comunicou através de dispositivos controlados por pequenos movimentos da cabeça. As palavras chegavam ao ecrã uma a uma, ao ritmo que esses movimentos permitiam.


Dezoito anos depois, uma equipa da Universidade da Califórnia em São Francisco implantou 253 elétrodos sobre regiões cerebrais envolvidas na produção da fala. Avatar cerebral devolve a voz a mulher paralisada descreve como os sinais associados à intenção de pronunciar palavras passaram a alimentar texto, uma voz sintetizada e os movimentos de um rosto digital. Ann não recuperou o movimento da boca. O sistema chegou a produzir 78 palavras por minuto.


A equipa aproximou o avatar das suas feições. Para reconstruir a voz, usou uma gravação com cerca de quinze minutos do discurso que Ann pronunciara no casamento, antes do acidente vascular cerebral. Quem a conhecera podia reencontrar elementos familiares no que ouvia. A voz vinha de uma ocasião anterior à paralisia; as frases eram produzidas a partir dos sinais recolhidos enquanto ela tentava falar.


Morales descreve uma experiência em que podia olhar para si sem ocupar, aparentemente, o lugar do próprio corpo. Ann permanecia no seu, consciente, mas durante anos dispusera de poucos meios para mostrar aos outros aquilo que queria dizer. O rosto digital acrescentava expressões às palavras: um sorriso, o movimento dos lábios, o franzir do sobrolho. O sistema procurava interpretar também sinais associados aos movimentos da face.


Uma frase como «estou bem» pode ser recebida de maneira diferente conforme a expressão de quem a pronuncia. O artigo sobre Ann demora-se nessa parte da comunicação que os dispositivos de texto deixam de fora. Recuperá-la exige inferências adicionais. Um sorriso mostrado quando havia desconforto alteraria o sentido da resposta, mesmo que as palavras estivessem certas. A semelhança com o rosto de Ann poderia tornar esse erro difícil de perceber para quem a escutasse.


Quando Morales certificava uma morte, examinava outra pessoa. Podia procurar sinais e registar o que encontrava. Na experiência que conta, esse procedimento surge dentro da própria recordação: observa a imobilidade, julga verificar a ausência de respiração e chega a uma conclusão. Falta alguém que tenha examinado o seu organismo durante aquele intervalo. O conhecimento médico ajuda a compreender a interpretação que fez, mas não fornece os dados que ficaram por recolher.


No caso de Ann, os elétrodos e os algoritmos fazem parte de um processo conhecido, construído e ajustado para ela. A equipa pode estudar o desempenho do sistema. Ainda assim, ouvir uma voz parecida com a sua não permite saber, por si só, se a palavra escolhida ou a expressão apresentada correspondem ao que pretendia comunicar. Essa confirmação depende também de Ann.


O artigo descreve uma intervenção que exigiu cirurgia, meses de treino e acompanhamento especializado. Não apresenta um dispositivo que Ann possa instalar e usar autonomamente em casa. Entre a intenção e a conversa permanecem uma equipa, equipamento e decisões técnicas. A possibilidade de corrigir uma palavra errada faz parte dessa relação, tal como a possibilidade de recusar uma expressão que lhe foi atribuída.


Morales pode regressar à experiência e procurar palavras mais exatas para a contar. Os registos clínicos ausentes não podem ser obtidos retroativamente. Ann precisa de continuar a intervir naquilo que o sistema apresenta enquanto fala. Se a máquina produzir uma expressão que ela não reconhece, terá de conseguir assinalá-lo através dos meios de comunicação de que dispõe, possivelmente a própria interface. Devolver-lhe uma voz inclui tornar essa correção praticável.


Composto em setembro de 2026


O Caderno,


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