top of page

Proteínas: como um nutriente se tornou argumento de venda

há 7 dias
7 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

A proteína deixou de ser apenas uma referência nutricional para se tornar um argumento de venda. Encontra-se em iogurtes, cereais, bebidas, sobremesas e produtos que, até há poucos anos, dificilmente seriam apresentados como fontes especiais deste nutriente. A indústria descobriu que a indicação de um teor elevado de proteína pode distinguir produtos semelhantes e justificar preços superiores.


As proteínas sempre foram indispensáveis ao funcionamento do organismo. O que mudou foi a forma como são apresentadas aos consumidores e utilizadas pelas empresas para desenvolver novas categorias comerciais.


As proteínas desempenham funções essenciais na formação e manutenção dos tecidos, na produção de enzimas e de algumas hormonas e em numerosos processos do organismo. As necessidades variam em função da idade, da composição corporal, da atividade física e de determinadas condições fisiológicas. Durante muito tempo, a comunicação comercial associou o consumo sobretudo ao desporto e ao desenvolvimento muscular. Os suplementos proteicos eram dirigidos principalmente a praticantes de exercício físico, embora também existissem aplicações nutricionais específicas.


Os produtos com elevado teor proteico passaram a ser apresentados a consumidores que não procuram necessariamente aumentar a massa muscular. A proteína começou a surgir associada à saciedade, ao controlo do peso, ao envelhecimento saudável e à manutenção de uma alimentação equilibrada. Estas associações não têm todas o mesmo grau de sustentação científica, mas a publicidade tende a reuni-las numa mensagem simples: consumir mais proteína pode ser benéfico.


Proteínas: do alimento habitual ao produto especializado


Muitos produtos já continham quantidades relevantes deste nutriente. O leite, os iogurtes, os ovos, as leguminosas, o peixe e a carne fazem parte da alimentação habitual de diferentes populações.


A inovação comercial consistiu, em parte, em destacar a proteína como característica principal de alimentos que anteriormente eram apresentados através de outros atributos. Um iogurte pode deixar de ser promovido sobretudo pelo sabor ou pelo teor de gordura e passar a ser identificado pela quantidade de proteína por embalagem. Outros são reformulados para aumentar essa quantidade, recorrendo a ingredientes como proteínas do leite, do soro de leite ou de origem vegetal.


A reformulação pode alterar a textura, o sabor e o custo de produção. Também permite desenvolver versões de alimentos tradicionais destinadas a consumidores que procuram características nutricionais específicas. A indicação de proteína passa a funcionar como um sinal de diferenciação num mercado onde numerosas marcas competem por consumidores semelhantes.



O desenvolvimento de alimentos enriquecidos exige investimentos em formulação, produção, embalagem e distribuição. Estes custos podem justificar diferenças de preço relativamente a produtos convencionais. O valor cobrado também depende da posição comercial que as empresas pretendem atribuir ao produto. Um alimento apresentado como especializado pode ser vendido a um preço superior ao de uma alternativa nutricionalmente semelhante. Dois produtos podem fornecer quantidades próximas de proteína e apresentar preços muito diferentes.


A comparação exige considerar o peso da embalagem, a quantidade efetiva de proteína e os restantes ingredientes. O preço por unidade de produto não revela necessariamente o custo da proteína fornecida. Quando os consumidores procuram aumentar a ingestão proteica sem elevar excessivamente as despesas alimentares, a escolha entre um produto enriquecido e um alimento convencional deve considerar o conjunto da dieta e não apenas a informação destacada na embalagem.


O exercício físico, o envelhecimento saudável e o controlo do peso ganharam visibilidade na comunicação pública e nas redes sociais. A alimentação passou também a ser apresentada como uma dimensão da gestão individual da saúde. Esta evolução criou oportunidades para empresas capazes de associar os seus produtos a objetivos reconhecidos pelos consumidores.


As campanhas publicitárias, a disposição dos produtos nas lojas e a comunicação através de influenciadores contribuem para estabelecer determinados atributos como desejáveis. Quando uma característica nutricional passa a ser associada a uma alimentação considerada adequada, pode tornar-se um critério de compra mesmo para pessoas que não apresentam necessidades adicionais desse nutriente. Uma característica comercial transforma-se numa expectativa aplicada a alimentos de consumo corrente.


Mais proteínas não significa uma alimentação melhor


A presença de proteína num alimento não permite avaliar isoladamente o seu valor nutricional. Um produto pode apresentar um teor proteico elevado e conter simultaneamente quantidades significativas de açúcar, sal ou gordura saturada. A avaliação depende da composição global, das porções consumidas e do papel que o alimento desempenha na dieta. Existem diferenças entre as fontes proteicas.


As proteínas são constituídas por aminoácidos, alguns dos quais precisam de ser obtidos através da alimentação. A digestibilidade e a composição em aminoácidos variam entre alimentos, embora uma dieta diversificada possa fornecer as quantidades necessárias através de diferentes combinações de fontes animais e vegetais. O destaque comercial dado à quantidade pode desviar a atenção destas características. Um alimento não se torna automaticamente mais equilibrado por conter proteína adicional.


A Autoridade Europeia para a Segurança dos Alimentos estabeleceu para adultos saudáveis uma referência de ingestão proteica de 0,83 gramas por quilograma de peso corporal por dia. Trata-se de um valor de referência populacional, não de uma recomendação individual adequada a todas as circunstâncias. As necessidades podem ser diferentes durante o crescimento, a gravidez, em determinadas situações clínicas ou em pessoas com níveis elevados de atividade física.


A distribuição das proteínas ao longo das refeições e a qualidade global da alimentação também podem ser relevantes. Para muitos consumidores, a questão não consiste necessariamente em encontrar produtos com a maior quantidade possível de proteína. Consiste em perceber se a alimentação habitual já fornece o necessário.


A existência de uma oferta crescente de alimentos enriquecidos não demonstra que a população apresente, de forma generalizada, uma ingestão insuficiente. O crescimento das vendas não pode ser interpretado como prova de melhoria da alimentação sem dados sobre os padrões alimentares e as necessidades nutricionais.



O envelhecimento da população constitui uma das razões pelas quais as empresas atribuem importância ao mercado das proteínas. A manutenção da massa muscular e da capacidade funcional torna-se particularmente relevante com o avanço da idade. Uma alimentação adequada, em conjunto com a atividade física, pode contribuir para preservar estas funções.


As necessidades nutricionais das pessoas idosas não são uniformes. Dependem do estado de saúde, da atividade física, da ingestão energética e de outros fatores. A utilização de alimentos enriquecidos pode ser útil em determinadas circunstâncias, especialmente quando existem dificuldades em alcançar uma ingestão adequada através da alimentação habitual. Mas a existência de necessidades específicas não significa que todos os consumidores mais velhos devam recorrer aos mesmos produtos.


A expansão dos medicamentos utilizados no tratamento da obesidade introduziu outra variável nas estratégias das empresas alimentares. Alguns destes tratamentos podem reduzir o apetite e alterar a quantidade de alimentos consumidos.


A diminuição da ingestão torna importante assegurar que a dieta continua a fornecer energia e nutrientes suficientes. Os produtos que concentram determinados nutrientes em porções menores podem despertar interesse.


A indústria começou a considerar as necessidades dos consumidores que utilizam estes medicamentos como uma oportunidade de desenvolvimento comercial. A utilização de medicamentos para a obesidade não determina automaticamente a necessidade de consumir alimentos enriquecidos em proteína. As recomendações nutricionais devem considerar o tratamento, a situação clínica e os hábitos alimentares. A comercialização de produtos dirigidos a este público não substitui uma avaliação individual.


O mercado das proteínas e as regras da rotulagem


A expansão dos alimentos proteicos também beneficia as empresas que fornecem ingredientes. A produção de concentrados e isolados proteicos envolve processos de separação, purificação e transformação de matérias-primas.


As proteínas do soro de leite, por exemplo, podem ser obtidas a partir de um subproduto da produção de queijo. O aproveitamento industrial destes materiais permite desenvolver ingredientes utilizados em diferentes categorias alimentares.


As proteínas vegetais constituem outro segmento importante. A soja, a ervilha e outras matérias-primas podem ser processadas para utilização em bebidas, alternativas à carne e alimentos enriquecidos. A competitividade depende do custo das matérias-primas, da capacidade de processamento e das características funcionais dos ingredientes.


A indústria não procura apenas proteínas com determinado valor nutricional. Precisa de ingredientes que possam ser incorporados em alimentos sem comprometer excessivamente o sabor, a textura ou a estabilidade do produto.



Na União Europeia, as empresas não podem utilizar livremente qualquer alegação nutricional ou de saúde. O Regulamento (CE) n.º 1924/2006 estabelece condições para a utilização destas indicações na rotulagem e na publicidade alimentar. A alegação «fonte de proteínas» exige que pelo menos 12% do valor energético do alimento seja fornecido por proteínas. Para a indicação «rico em proteínas», ou outra com o mesmo significado para o consumidor, o limiar é de 20%.


Estes critérios ajudam a estabelecer regras comuns e a limitar a utilização de expressões sem fundamento regulamentar. Contudo, o cumprimento dos requisitos de uma alegação não significa que o alimento seja globalmente equilibrado. Um produto pode preencher as condições para destacar o teor proteico e apresentar outras características nutricionais menos favoráveis.


A multiplicação de alimentos enriquecidos oferece maior variedade de escolha. Pode facilitar a ingestão deste nutriente em situações específicas e permitir desenvolver produtos adaptados a diferentes preferências. Também torna mais complexa a comparação entre alternativas.


O consumidor encontra produtos convencionais e versões enriquecidas, frequentemente apresentados com mensagens comerciais diferentes. A decisão de compra pode ser influenciada por características que não correspondem necessariamente a uma necessidade nutricional. A quantidade de proteína por porção, a composição dos restantes ingredientes e o preço permitem uma comparação mais rigorosa.


Quando a nutrição se transforma em marca, a proteína mantém funções biológicas essenciais cujo valor não depende de tendências de consumo. O mercado pode atribuir-lhe significados que ultrapassam essas funções. A associação à força física, à saciedade, ao envelhecimento saudável ou ao controlo do peso permite dirigir produtos a públicos diferentes.


O crescimento da oferta não permite concluir que os consumidores estejam a alimentar-se melhor. Para avaliar esse resultado, seria necessário conhecer a evolução da dieta no seu conjunto, incluindo o consumo de frutas, hortícolas, cereais integrais e outros alimentos.


Fontes documentais







Continue a leitura



Uma perspetiva mais ampla sobre a produção de alimentos, a investigação agrícola e o financiamento dos sistemas alimentares.



Sobre os mecanismos de aprovação de medicamentos, incluindo tratamentos para a obesidade, e as questões de política de saúde que levantam.


Comentários

Avaliado com 0 de 5 estrelas.
Ainda sem avaliações

Adicione uma avaliação
bottom of page