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Psilocibina e quimioterapia podem proteger os nervos

7 de set.
3 min de leitura

Psilocibina e quimioterapia entram na prevenção da neuropatia


A quimioterapia pode travar um tumor e deixar outra doença para trás. Em alguns doentes, a dor começa nas mãos ou nos pés. Vem como ardor, dormência, formigueiro, intolerância ao frio. Às vezes passa. Às vezes fica.


Num estudo publicado na Science, investigadores do MD Anderson Cancer Center, da Universidade do Texas, testaram em ratos uma substância inesperada para esse dano: a psilocibina, o composto psicadélico presente em alguns cogumelos. Foi administrada antes da quimioterapia. Os animais ficaram protegidos contra lesões nervosas associadas ao tratamento e, nos modelos testados, a quimioterapia manteve o efeito contra os tumores.

Imagem tipográfica sóbria com o texto Psilocibina e quimioterapia podem proteger os nervos.
Um estudo em ratos publicado na Science sugere que a psilocibina poderá prevenir lesões nervosas associadas à quimioterapia, ainda sem prova clínica em humanos.

Ainda não há tratamento para humanos, nem autorização clínica, nem prova de que o mesmo aconteça em doentes oncológicos. O que há é uma mudança na pergunta. Em vez de tratar a neuropatia depois de instalada, o estudo tentou impedir que ela começasse.


A neuropatia periférica induzida pela quimioterapia surge sobretudo com fármacos à base de platina e taxanos, usados em vários cancros. Pode afetar a sensibilidade, o equilíbrio, o sono, a mobilidade e gestos simples: apertar botões, pegar num copo, caminhar sem desconforto, tolerar o frio.


Quando se agrava, a equipa médica pode ter de reduzir doses, atrasar ciclos ou mudar o plano terapêutico. Um efeito secundário passa a entrar na decisão sobre o próprio tratamento do cancro.


Nos ensaios em ratos, duas doses de psilocibina antes da quimioterapia bastaram para prevenir sinais de neuropatia ao longo de ciclos repetidos. A proteção manteve-se em modelos com diferentes fármacos associados a lesão nervosa. Em animais com tumores, não foi observada perda da atividade antitumoral da quimioterapia.


Esse era o teste mais delicado. Proteger nervos durante a quimioterapia só faria sentido se o tumor não recebesse a mesma proteção.


Os investigadores associam o efeito aos recetores de serotonina 5-HT2A, conhecidos pela ligação aos efeitos psicadélicos da psilocibina. Neste caso, porém, a experiência mental da substância não é o centro do estudo. A equipa procurou perceber se essa via também participa na proteção do sistema nervoso periférico.


Nos neurónios, surgiram sinais de preservação da função mitocondrial. As mitocôndrias fornecem energia às células. Nos nervos sensoriais longos, essa energia tem de chegar às extremidades. Quando esse transporte falha, as pontas das fibras nervosas tornam-se mais vulneráveis. É muitas vezes nas mãos e nos pés que os sintomas aparecem primeiro.


A psilocibina, neste modelo, pareceu ajudar os nervos a resistir ao dano provocado pela quimioterapia. Não apenas a sentir menos dor depois.


A equipa testou ainda uma substância não alucinogénica que atua na mesma via. Também aí surgiram sinais de proteção. Se esse caminho se confirmar, poderá ser possível procurar compostos capazes de ativar o mecanismo sem provocar uma experiência psicadélica.


A distância até à prática clínica continua grande. Ratos não são doentes. Uma resposta robusta em laboratório pode enfraquecer ou desaparecer em ensaios humanos. A psilocibina é uma substância controlada em muitos países, pode ter efeitos psicológicos intensos e não deve ser usada fora de enquadramento médico.


Há ainda perguntas práticas. Dose. Segurança. Momento de administração. Interação com outros medicamentos. Diferenças entre regimes de quimioterapia. Benefício real na vida diária de quem faz tratamento.


O MD Anderson prepara um ensaio clínico de fase intermédia para avaliar se a proteção observada no laboratório se traduz numa redução da neuropatia em doentes com cancro submetidos a quimioterapia.


A psilocibina tem sido estudada sobretudo em depressão, ansiedade, perturbações do uso de substâncias e sofrimento psicológico associado a doença grave. Este trabalho leva-a para outro território: a proteção de nervos periféricos durante o tratamento oncológico.


Para muitos doentes, o fim da quimioterapia não encerra todos os seus efeitos. A neuropatia pode continuar a limitar movimentos, sono e autonomia quando o cancro já está controlado.


Por agora, há uma prova pré-clínica. Mas ela toca num problema que a oncologia ainda não resolveu bem: proteger o corpo da terapêutica sem enfraquecer a terapêutica.


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