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Valorização da habitação: casa mais cara, dinheiro contado

há 6 dias
3 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

A valorização da habitação aumenta o património de quem já é proprietário. O dinheiro disponível e o custo de mudar de casa determinam quanto desse ganho pode chegar à vida corrente.


Imagine-se uma família cujo apartamento poderá valer mais cem mil euros do que há alguns anos. A informação chega por uma venda na rua ou por uma estimativa imobiliária. Nenhum adulto recebeu um aumento por isso e o saldo da conta continua igual, mas a família passa a deter um bem que, se encontrar comprador por aquele preço, permitirá obter mais dinheiro.


Segundo a análise do Banco de Portugal, divulgada pela Lusa e baseada em estatísticas experimentais, a riqueza líquida das famílias portuguesas aumentou 67% em termos nominais entre 2010 e 2025, para 1196 mil milhões de euros. O valor dos imóveis passou de 473 para 708 mil milhões. A riqueza líquida corresponde ao património depois de deduzidas as dívidas e é uma medida diferente do rendimento mensal.


O crescimento nominal não equivale a igual aumento do poder de compra.


Casa paga, rendimento curto


Capa sobre a valorização da habitação: um prédio ilustrado sobre uma carteira aberta com poucas moedas.
A valorização do imóvel pode aumentar o património sem melhorar o dinheiro disponível. Ilustração conceptual gerada com IA para o Atlantic Lisbon.

Uma casa própria tem uma utilidade anterior a qualquer valorização: permite morar. Quando o empréstimo está pago, o proprietário continua a ter despesas de manutenção e impostos, mas já não tem uma prestação de crédito à habitação.


Essa proteção conta. Uma família com casa paga e rendimento modesto pode ter mais segurança habitacional do que outra com salário superior que suporta renda elevada. A subida do preço de mercado aumenta o que poderá obter numa venda, mas não melhora por si só o conforto. Se o telhado precisa de obras, continuará a precisar.


Num estudo publicado em 2014 na série de documentos de trabalho do Banco Central Europeu, Luc Arrondel, Muriel Roger e Frédérique Savignac mostraram, com famílias de 15 países europeus, que a posição na distribuição do rendimento não coincide necessariamente com a posição na distribuição da riqueza.


Mesmo que a casa tenha valorizado, uma reparação urgente de 1500 euros exige dinheiro disponível.


Comprar outra casa também fica mais caro


Num exemplo ilustrativo, um apartamento passa de 200 mil para 300 mil euros e uma casa maior passa de 300 mil para 450 mil no mesmo intervalo. O primeiro imóvel ganha cem mil, mas a diferença entre os dois passa de cem mil para 150 mil. Antes de impostos e comissões, a mudança torna-se mais exigente.


Fachadas de edifícios na Praça Luís de Camões, em Lisboa.
Edifícios na Praça Luís de Camões, Lisboa, em abril de 2007. Fotografia de arquivo para enquadrar a discussão sobre habitação e património; não representa os imóveis dos exemplos do texto. Fotografia: Sergio Calleja. CC BY-SA 2.0; sem alterações. Origem · Condições de utilização


O proprietário beneficia da valorização do que vende e enfrenta ao mesmo tempo o preço do que precisa de comprar. Quando ambos sobem, o ganho depende da relação entre os dois movimentos.


Vender uma casa numa zona cara e comprar outra numa zona mais barata pode libertar dinheiro. Essa possibilidade depende de conseguir conciliar a mudança com emprego, escola, saúde e apoios de proximidade.


Uma casa valiosa e pouco dinheiro disponível


Uma família pode ter casa valiosa e chegar ao fim do mês com quase todo o rendimento gasto. Essa combinação foi estudada por Greg Kaplan, Giovanni Violante e Justin Weidner em The Wealthy Hand-to-Mouth, de 2014, que identificam agregados com património em ativos difíceis de mobilizar, como habitação, e pouca liquidez.


Para converter parte do valor da casa sem a vender pode ser necessário obter crédito. O património serve de garantia, mas a dívida terá de ser suportada por rendimentos futuros.


Quem ganha com a valorização da habitação


Segundo a mesma análise do Banco de Portugal divulgada pela Lusa, os imóveis representavam cerca de 74% dos ativos do grupo de famílias com riqueza líquida abaixo da mediana em 2025. Entre os 10% com maior riqueza líquida, o peso era inferior a 40%.


Uma família pode possuir uma casa mais valiosa e continuar sem dinheiro para uma reparação. Se a vender, poderá realizar o ganho, mas terá de pagar pelo lugar onde vai viver a seguir. A melhoria das suas condições depende também dessa segunda conta.


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