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- Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade?
O country club californiano que serve de palco a Beef não é cenário: é a condensação de uma divisão real. Os membros pertencem às gerações mais velhas; os funcionários, às mais novas — e por mais que trabalhem, nunca serão membros. A classe social deixou de ser tema na televisão americana. Passou a ser a variável que organiza tudo o resto — e há razões concretas para isso. Um ecrã aceso numa sala comum: a televisão americana continua a contar histórias privadas, mas já quase nunca consegue escapar ao pano de fundo da desigualdade. Como chegámos aqui A televisão americana não chegou ao tema da classe por opção programática. Chegou por esgotamento das alternativas. Durante boa parte dos anos 2000 e 2010, a ficção de prestígio organizou-se em torno do indivíduo excecional — o anti-herói, o génio torturado, o outsider que desafia o sistema. A estrutura social estava lá, mas servia a psicologia das personagens. Era fundo, não figura. O que mudou não foi a televisão. A combinação de estagnação salarial para a maioria dos trabalhadores com enriquecimento acelerado de uma minoria, a impossibilidade crescente de acesso à habitação para as gerações mais jovens, e a visibilidade amplificada das fortunas tecnológicas tornaram a fratura de classes um dado ambiental antes de ser uma escolha temática. Qualquer história minimamente credível sobre vida contemporânea passou a ter de a incorporar — independentemente do género, da plataforma ou da intenção do criador. Lee Sung Jin não partiu de uma tese. Partiu de um conflito doméstico observado numa rua do seu bairro californiano, que gerou reações radicalmente opostas consoante a faixa etária de quem estava presente. Os mais velhos reconheceram algo banal; os mais novos consideraram-no intolerável. Não era só uma diferença geracional de sensibilidade — era uma fratura na perceção do que é normal, do que é tolerável, do que conta como limite aceitável entre pessoas. Essa observação tornou-se o ponto de entrada da segunda temporada, muito antes de qualquer decisão sobre country clubs, bilionárias coreanas ou chantagem. Quem está envolvido e porquê A série constrói um espaço com três camadas sobrepostas que raramente aparecem juntas na ficção televisiva, e menos ainda sem que uma delas funcione como alvo moral das outras. Porque é que tantas séries americanas falam de desigualdade? — Atlantic Lisbon No topo, a Chairwoman Park — proprietária coreana do country club, cabeça de um conglomerado familiar. O capital está lá, mas o reconhecimento social ainda está por conquistar num meio que não é o seu. A sua presença introduz uma lógica de acumulação diferente da que domina o ambiente californiano: não é a fortuna do empreendedor tecnológico nem a herança fundiária, é capital industrial sul-coreano com protocolos de representação próprios, com uma relação com o poder que passa por cerimónia, decoro e hierarquia de forma diferente da transação direta que Lee Sung Jin identifica como traço do capitalismo americano. No meio, o casal de gestão — o diretor do clube e a mulher, designer de interiores. Pertencem à classe profissional estabelecida mas não são proprietários. Têm acesso, não pertença. A sua crise é conjugal na superfície — foram filmados em violência doméstica por dois subordinados — mas o que realmente está exposto é a superfície de normalidade que sustenta a sua posição. Sem essa superfície, o que fica? Um salário de gestão num clube que não é deles, numa cidade onde a habitação absorve quase tudo. Na base, Austin e Ashley — funcionários da geração Z, prestes a casar, com o vídeo nas mãos. Não há aqui a ilusão da mobilidade social: ninguém nesta camada da série acredita que trabalhar muito no country club abre portas para se tornar membro. O que há é o reconhecimento de que o percurso normal está fechado, e de que o material de chantagem é um ativo de negociação, não um instrumento de destruição. A lógica é racional dadas as condições. A série não a condena. O que cada ator ganha e perde Para a Chairwoman Park, a exposição pública de violência no seu clube não é apenas um problema de gestão — é uma ameaça à única coisa que o dinheiro ainda não comprou. Capital não é reputação. A série usa essa distinção para explorar o que separa ter recursos de pertencer a um meio, e porque a segunda coisa resiste ao dinheiro de formas que o dinheiro não antecipa. Para o casal de gestão, o risco é a perda do único território em que operam com autoridade reconhecida. A posição que ocupam depende de aparências que eles próprios sabem frágeis — e a câmara dos subordinados tornou essa fragilidade transferível para outras mãos. O que se segue não é só chantagem: é a redistribuição involuntária de um poder que nunca foi realmente deles. Para Austin e Ashley, a equação é diferente. Precisam de capital inicial para construir uma vida que o salário presente nunca vai dar. A janela existe. Usá-la tem custos morais que a série não esconde, mas também não amplifica em julgamento. A geração Z não inventou a lógica da oportunidade — herdou-a de toda a gente acima. O que fica por resolver Os detalhes narrativos completos da temporada não estavam disponíveis no momento em que este texto foi escrito — o que existe é o que Lee Sung Jin descreveu publicamente. O arco da Chairwoman Park termina com ela a chorar junto ao túmulo do seu primeiro amor, com todo o dinheiro do mundo e sem nenhuma das coisas que ele não comprou. É um final que a série construiu como reshoot, substituindo um plano original de formigas a cobrir o rosto da personagem por uma imagem de samsara budista — a roda da vida com o deus da morte a segurá-la. Não é subtil. Mas a escolha de ir para lá da ironia social e tocar em iconografia do ciclo eterno diz algo sobre o que a série acha que o tema exige. Lee Sung Jin disse que todos os projetos no seu quadro de desenvolvimento partilham a variável da classe e do capitalismo. Disse também que gostaria, na sua vida, de um dia poder trabalhar sobre outras coisas. Essa frase não é pessimismo nem declaração de princípios — é o reconhecimento de que o constrangimento é exterior ao criador e anterior à sua intenção. Enquanto a condição persistir, a ficção que a ignora é ficção sobre outro país. @ Imagem: - Alin Surdu
- As Laranjas de Sevilha | Conto real
Helena serviu o vinho branco e sentou-se à mesa com um suspiro. Do outro lado, Sofia mexia no telemóvel, provavelmente a ver as fotografias outra vez. Miguel estava na cozinha a falar de futebol com o Rui, as vozes abafadas pela porta entreaberta. "Então, vocês também foram à tal casa do Pilatos?" perguntou Helena, enchendo o copo de Sofia sem esperar por uma resposta. As Laranjas de Sevilha | Conto real — Atlantic Lisbon "Fomos sim. O Rui ficou fascinado com aquilo." Sofia largou o telemóvel, mas continuou a olhar de lado para ele. "Não parava de tirar fotografias aos azulejos. Eu é que fiquei enjoada ao fim de meia hora." "Pois." Helena bebeu um gole. "Nós também fomos. O Miguel fez questão. Mas sabes o que é que ele realmente queria ver? As mulheres em flamenco no bar à noite." Sofia riu-se, mas o riso saiu forçado. "O Rui também. Disse que era cultura, mas eu bem vi onde é que ele tinha os olhos." As duas ficaram em silêncio por um momento. Lá fora, uma buzina. Helena alisou a toalha da mesa com a mão, com um gesto nervoso que fazia desde miúda. "Vocês ficaram em que hotel?" perguntou Sofia. "Ah, um na zona histórica. Pequenino. O Miguel queria ir para um daqueles novos, mas eu achei demasiado caro." "Nós ficámos num Airbnb em Triana." Sofia fez uma pausa. "O Rui é que escolheu. Disse que era mais autêntico." Helena revirou os olhos. "Autêntico. O Miguel também anda com essa mania desde que começou a ler blogues de viagem. Autêntico é ficar em casa e poupar dinheiro." "Pois é." Sofia pegou no copo mas não bebeu. "Mas pronto, gostaste da cidade?" "Gostei, gostei." Helena encolheu os ombros. "É bonita. As ruas todas estreitas, as flores. Mas é estranha, não é? Aquele calor todo em fevereiro. E depois há turistas por todo o lado. No primeiro dia fomos àquele restaurante... como é que se chamava? Tinha um tigre pintado na parede." "Casa del Tigre?" "Esse! Como é que sabes?" Sofia corou um pouco. "Também fomos lá. Estava no artigo que eu tinha guardado." "Ah." Helena ficou tensa. "O do WP?" "Sim, esse." "Nós também seguimos esse." A voz de Helena saiu mais seca do que pretendia. "O Miguel imprimiu e levou na mala." Sofia mexeu-se na cadeira. "Nós vimos em online. O Rui fez uma lista." As duas olharam para os copos. Do interior da cozinha vinha agora uma gargalhada do Miguel. "E aquele museu de gravuras antigas?" perguntou Helena ao fim de um bocado. "Foste?" "Fomos. Sinceramente, achei uma seca. O Rui é que gostou, ficou meia hora a conversar com o tipo da loja sobre mapas do século XVI." Sofia fez uma careta. "Eu fingi que estava interessada mas só queria era ir embora. Tenho a certeza de que ele queria comprar uma gravura de cem euros qualquer." "Compraram alguma coisa?" "Não. Eu disse que não tínhamos espaço na mala." Helena sorriu pela primeira vez. "Fizeste bem. O Miguel comprou um chapéu ridículo. Disse que era típico. Gastou noventa euros num chapéu que nunca mais vai usar." "O Rui comprou cerâmica." Sofia revirou os olhos. "Tivemos de pôr na mala de cabine porque tinha medo que partisse. Ficámos sem espaço para as garrafas de vinho." "Nós trouxemos três garrafas," disse Helena com um ar triunfante. "Envolvi em roupa suja e veio tudo na perfeição." Sofia concordou, mas o olhar dela tinha qualquer coisa de ressentido. "Vocês almoçaram naquele sítio do rio? Com os mariscos?" "María Trifulca?" "Sim." "Fomos. Caríssimo." Helena baixou a voz, como se estivesse a contar um segredo vergonhoso. "Gastámos cento e cinquenta euros a dois. O Miguel pediu atum não sei de quê, eu comi umas gambas. Estava bom, sim, mas pelo mesmo preço comíamos no Ramiro três vezes." "Pois. Nós também achámos caro." Sofia olhou para a porta da cozinha. "Mas o Rui disse que era a experiência, que não era só a comida." "A experiência." Helena repetiu a palavra como se fosse uma ofensa pessoal. "Sabes o que é que foi a minha experiência? Ver o Miguel a olhar para a miúda da mesa ao lado durante todo o almoço." Sofia ficou calada. "Desculpa." Helena encheu o copo outra vez. "Estou a ser má língua. Foi uma boa viagem. Gostei mesmo." "Eu também gostei." Sofia pegou no telemóvel, desbloqueou-o, bloqueou-o outra vez. "Só que... não sei. Às vezes tenho a sensação de que fizemos exatamente o mesmo que toda a gente faz. Vimos o que toda a gente vê. Comemos onde toda a gente come." "Porque é que isso é mau?" "Não é mau. É só... não sei. Chato." Helena olhou para ela com curiosidade. "Querias ter feito o quê?" "Não sei. Algo diferente. Ter-me perdido numa rua qualquer. Ter comido numa tasca de bairro onde só vão espanhóis. Ter conhecido alguém." Sofia parou, como se tivesse dito demais. "Conhecido alguém?" "Esquece. É uma estupidez." "Não, diz." Sofia suspirou. "É só que... às vezes acho que a minha vida é como essas viagens. Tudo programado. Tudo previsto. O Rui com as listas dele, eu com os artigos guardados. Vamos aos sítios certos, comemos as coisas certas, tiramos as fotografias certas para pôr no Instagram. Mas não acontece nada de verdade." Helena ficou calada, a rodar o copo entre os dedos. Lá fora, a noite tinha caído completamente. "Sabes o que é que eu gostei mais da viagem?" disse Helena ao fim de um bocado. "O quê?" "Havia uma mercearia em Triana. Não era nada de especial. Vendia enchidos e azeitonas e essas coisas. Entrei lá sozinha porque o Miguel estava numa outra loja qualquer a olhar para camisolas de futebol. Estava lá uma senhora velhinha atrás do balcão. Não falava inglês, eu não falo espanhol. Mas comprei umas azeitonas e ela pôs num saco de papel e sorriu-me. E eu sorri de volta. E foi só isso." Sofia olhou para ela. "Foi só isso," repetiu Helena. "Mas fiquei a pensar naquilo durante dias. Naquele momento. Naquele sorriso. Porque era verdadeiro, percebes? Não estava em nenhum artigo. Ninguém tirou uma fotografia." "Sim," disse Sofia baixinho. "Eu percebo." A porta da cozinha abriu-se e os homens entraram, trazendo o cheiro do assado. Miguel trazia uma travessa fumegante, o Rui os pratos. "Pronto, meninas," disse Miguel, "vamos comer que já é tarde." "Estávamos a falar de Sevilha," disse Helena. "Ah, Sevilha!" Miguel pousou a travessa no centro da mesa com um estrondo. "Que saudades. Temos de voltar." "Temos de voltar," repetiu o Rui, distribuindo os pratos. Sofia e Helena trocaram um olhar por cima da mesa. Depois Sofia serviu-se de salada e Helena cortou o pão e ninguém disse mais nada sobre Sevilha até ao final do jantar. Mas mais tarde, quando os homens estavam na sala a ver televisão, as duas ficaram na cozinha a lavar a loiça. Sofia lavava, Helena secava. "Sabes," disse Sofia sem levantar os olhos do lava-loiça, "às vezes acho que a melhor parte da viagem é depois." "Depois?" "Sim. Quando voltas para casa e te lembras das coisas. Quando te lembras de como te sentiste. Não da fotografia que tiraste, mas de como te sentiste quando a tiraste." Helena secou um prato devagar. "Eu lembro-me do cheiro." "Que cheiro?" "Das laranjeiras. Havia milhares delas. O Miguel disse que eram quarenta mil, tinha lido não sei onde. E cheiravam tanto. À noite, quando passeávamos depois do jantar, era quase demasiado. Enjoativo. Mas também bonito. Estranho." Sofia desligou a água e ficou com as mãos na pia. "Nós também reparámos nas laranjeiras." "Pois." Um silêncio confortável desceu sobre a cozinha. Da sala vinha o murmúrio da televisão. "Helena," disse Sofia passado um bocado, "achas que somos felizes?" A pergunta ficou suspensa no ar como o cheiro das laranjeiras de Sevilha, doce e enjoativo e estranho. Helena pensou na gravura que o Miguel quase comprou, no chapéu ridículo que ele comprou, no almoço caríssimo à beira do rio. Pensou na rapariga da mesa ao lado. Pensou na senhora velhinha da mercearia. Pensou no cheiro das laranjeiras. "Não sei," disse Helena por fim, e era a primeira vez em muito tempo que dizia uma coisa completamente verdadeira. "Acho que sim. Às vezes." Sofia acenou em concordância e fê-lo devagar. Depois voltou a abrir a torneira e continuou a lavar a loiça. E assim ficaram as duas, lado a lado, na cozinha amarela de Helena, a pensar em Sevilha e em quarenta mil laranjeiras e em todas as pequenas mentiras e verdades que fazem uma vida. #AtlanticLisbon #AsLaranjasDeSevilha #Conto #Ficcao #Literatura #ContoLiterario #Sevilha #Relacoes #Casamento #Memoria #Melancolia #VidaDomestica Subscrever a Newsletter
- Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar Atlantic Lisbon
Eu estava a olhar para um mapa antigo — desses em que o mar parece sempre maior do que a terra — quando a frase chegou, vinda do século XXI com a brusquidão de um selo de borracha: uma ordem, alegadamente verbal, para “não deixar ninguém vivo” numa embarcação suspeita de tráfico. Trump, Venezuela e o segundo disparo - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon Quando o Estado decide que a dúvida já não merece tribunal - Ensaio Militar no Atlantic Lisbon O mapa era uma reprodução barata, comprada numa loja de museu; a frase vinha do lado frio do mundo, onde a política se escreve em plataformas e a guerra, muitas vezes, se anuncia com meia dúzia de palavras. Ficou-me a imagem: nessa zona como margem, como página molhada onde se tenta escrever um novo direito, mais rápido do que o antigo, mais útil ao instinto do que à lei. Não sei como explicar isto sem recorrer a uma lembrança que me acompanha desde cedo: nos manuscritos medievais, quando se descrevia o “direito da espada”, havia sempre uma preocupação em dizer quem podia levantar a lâmina e em que condições. O poder precisava de um ritual para não parecer apenas violência. A modernidade prometeu substituir o ritual por regras. E, durante algum tempo, até acreditámos. Depois vieram as guerras sem declaração, as operações com nomes assépticos, as justificações fechadas em gavetas. E voltámos ao princípio, com melhores ecrãs. O caso — a sequência de acontecimentos que, nos últimos dias, tem circulado entre Washington, quartéis e salas onde juristas falam baixo — é simples e, por isso mesmo, devastador. Um barco, apontado como parte de uma rota de tráfico ligada à Venezuela, é localizado ao largo de Trinidad e Tobago. Há um ataque. A embarcação arde. No acompanhamento da operação, surgem dois homens agarrados ao que resta, como náufragos de uma história antiga. E, segundo o relato, há um segundo ataque para “fechar” a missão. O detalhe — esse detalhe que não é técnico, é moral — é que o segundo ataque não teria como alvo um motor, um leme, uma ameaça altiva, mas dois sobreviventes na água. A Casa Branca nega a versão mais grave. O Pentágono rejeita a narrativa como um todo e insiste que a operação — e as outras que se seguiram — é legal, conforme a lei interna e o direito internacional, validada por advogados civis e militares ao longo da cadeia de comando. A frase “validada por advogados” é o novo incenso: serve para perfumar atos que, sem esse fumo, cheirariam demasiado a queimado. Também se diz — e isto é parte do mesmo quadro — que os EUA estão em “conflito armado” com “narco-terroristas”. É aqui que o mapa antigo volta a entrar na minha cabeça: a maneira como a palavra “guerra” cresce, como hera, por cima de uma casa. Começa numa parede, depois sobe, tapa janelas, e um dia damos por nós a viver no escuro, convencidos de que é normal. O que é, afinal, um “narco-terrorista”? A palavra parece ter sido escolhida com cuidado, como se alguém a tivesse testado em voz alta até perceber que ela faz duas coisas ao mesmo tempo: aproxima o traficante do inimigo militar e afasta o cidadão do tribunal. “Terrorista” é um rótulo que, na mente pública, autoriza quase tudo; “narco” acrescenta o veneno doméstico da droga, a dor real de bairros e famílias. O resultado é uma criatura nova, de propaganda e de direito: não é apenas um criminoso, é um inimigo existencial. E, quando se cria um inimigo existencial, a lei passa a ser tratada como obstáculo. Ora, há duas formas de um Estado lidar com o crime no mar. A primeira é a forma difícil e civil: vigilância, interdição, abordagem, detenção, recolha de prova, acusação. A segunda é a forma fácil e fatal: eliminar. É tentador chamar “eficácia” àquilo que, na verdade, é um atalho. E os atalhos, como se sabe desde as histórias de estrada, raramente levam a bom destino. O que se descreve nesta campanha — uma sequência de ataques a embarcações suspeitas, com dezenas de mortos — é uma mudança de gramática. Não se fala de apreender. Fala-se de “retirar a ameaça”. Não se fala de deter. Fala-se de “neutralizar”. É um vocabulário que, por si só, já é um sinal: quando a linguagem é feita para evitar a palavra “morte”, é porque a morte está demasiado presente. Mas o que, para mim, divide as águas não é a primeira explosão. É a segunda. Porque o mundo, depois de demasiadas carnificinas, foi obrigado a aceitar um princípio que parece banal, mas não é: até na guerra há pessoas que deixam de poder ser atacadas. O direito dos conflitos armados — aquele conjunto de regras que muitos citam sem ler — foi pensado para conter o pior, não para o decorar com fórmulas. E aqui entra uma palavra que me lembra sempre os claustros e a disciplina: honra. A honra, na tradição antiga, era um código ambíguo, muitas vezes violento; mas tinha um limite que a modernidade herdou, de forma mais clara e mais humana: não se mata quem já não pode combater. Um homem ferido, um prisioneiro, um náufrago. Não se mata porque, se se mata, o Estado torna-se aquilo que diz combater. O argumento que, segundo relatos, terá sido invocado para justificar o segundo ataque é de uma frieza que parece saída de um gabinete: os sobreviventes poderiam, teoricamente, comunicar com outros e facilitar um resgate da carga. Repare-se na palavra “teoricamente”. A teoria, quando serve para matar, é a máscara mais perigosa. Com “teoricamente”, tudo se torna possível. Um homem na água, “teoricamente”, pode fazer isto e aquilo. “Teoricamente”, qualquer sobrevivente é uma ameaça futura. “Teoricamente”, a compaixão é uma falha de segurança. O problema é que as regras não foram escritas para o “teoricamente”. Foram escritas para o que está diante dos olhos: um corpo a tentar não afundar. Se este segundo ataque aconteceu como descrito, não estamos perante um excesso de zelo. Estamos perante uma decisão que rasga uma linha fundamental: a linha entre combate e execução. E quando falo em “execução”, não o faço para dramatizar. Faço-o porque é isso que a execução é: morte deliberada de alguém que já não está em condições de lutar, sem julgamento, sem captura, sem processo, com a única legitimidade de uma ordem. A execução não precisa de pelotão, nem de parede; basta um míssil e um ecrã. Há quem responda com o argumento mais antigo e mais compreensível: “A droga mata. Isto é guerra.” Sim, a droga mata, e mata sem piedade. Mas é precisamente por isso que o Estado tem de ser mais cuidadoso, não menos. Se a dor social se torna autorização para abandonar regras, então qualquer dor social servirá, amanhã, para abandonar outras. A democracia não é testada nos dias em que é fácil ser justa; é testada nos dias em que a raiva pede sangue. A América, aliás, conhece bem esta tentação. Presidentes de vários partidos, em momentos diferentes, expandiram o uso unilateral da força, contornaram autorizações, reconfiguraram palavras para fazer caber operações em molduras legais estreitas. Houve campanhas aéreas justificadas por urgências humanitárias, houve ataques “limitados” apresentados como excepção controlada, houve golpes cirúrgicos tratados como atos de responsabilidade global. Tudo isso abriu precedentes. Mas há uma diferença essencial entre atingir infraestruturas militares de um Estado em guerra ou numa intervenção, e escolher alvos humanos em embarcações de suspeitos criminais, usando a lei da guerra como chave mestra. O que está a ser tentado — e isto é o ponto mais inquietante — é transformar a perseguição penal num conflito armado por decreto conceptual. Uma designação administrativa (“terrorista”) passa a funcionar como transubstanciação: alguém deixa de ser suspeito de crime e passa a ser alvo militar. É uma alquimia perigosa. E qualquer jurista sério sabe que a palavra não cria, por si só, a realidade. Não é por chamar “ataque armado” ao tráfico que ele se torna um ataque armado no sentido em que o direito internacional reconhece. Não é por colar “terrorista” a uma rede criminosa que ela passa a estar automaticamente no mesmo plano de um grupo armado com controlo territorial e capacidade militar organizada. Chamar não é provar. E quando se começa a construir legalidade por chamamento, abre-se um mundo em que a lei é usada como decoração de atos já decididos. A parte política desta história é igualmente reveladora. Quando membros do Congresso, com passado militar e de inteligência, divulgaram uma mensagem pública lembrando aos militares que têm dever de recusar ordens ilegais, a resposta foi de intimidação. Chamou-se sedicioso ao gesto de recordar a regra básica que separa um exército de uma milícia: obedece-se ao que é legal; recusa-se o que é ilegal. Houve investigações anunciadas, ameaças implícitas de consequências graves, sinais de que o aparato do Estado poderia ser usado para punir a lembrança da lei. Isto, para mim, é tão grave como o episódio no mar. Porque mostra o ambiente em que certas ordens se tornam possíveis: um ambiente em que se procura ensinar, por medo, que questionar é traição. Quando a lei passa a ser tratada como insolência, a violência passa a ser tratada como virtude. Depois, surgiram promessas de supervisão e de escrutínio. Alguns republicanos disseram, com cautela, que se a história for verdadeira será ilegal; outros mostraram incredulidade, como quem tenta proteger a própria ideia de instituições. A incredulidade é humana, eu sei. Também me custa acreditar. Mas a incredulidade não é método. O método chama-se apurar. E apurar, neste caso, implica uma coisa que os governos detestam: transparência. Há ainda um elemento que paira como espada suspensa: existe registo visual da operação, e foi divulgada uma versão editada. O resto permanece oculto. Ninguém precisa de ser especialista para perceber o que isso significa. Se o vídeo completo mostrar claramente sobreviventes a serem mortos, os comunicados cairão como folhas secas. E o país chamado América será confrontado com a imagem que mais teme: não a de um inimigo a cometer atrocidades, mas a de si próprio a atravessar um limite. Há momentos — raros e decisivos — em que uma nação se recorda do que prometeu ser. Não acontece por discursos bonitos, nem por slogans patrióticos. Acontece quando a prova é demasiado evidente para ser absorvida pelo cinismo. Acontece quando a imagem quebra a narrativa. E, sim, há precedentes históricos de choques dessa natureza: episódios em que a violência, exposta, obrigou a sociedade a encarar a distância entre o ideal e o ato. O problema é que, depois do choque, há sempre uma tentativa de voltar ao normal, de tratar o caso como “excepção”. Só que a excepção, quando é tolerada, vira manual. O que me interessa, como "escritor" — e como alguém que desconfia tanto da vaidade como do desespero — é a pergunta que a história impõe ao leitor comum, não ao jurista nem ao militar: quando é que uma democracia decide que já não precisa de tribunal? Porque, no fundo, é disso que se trata. Se se aceita que o Estado mate suspeitos de crime em alto mar com base numa moldura de “guerra” criada por palavras, então aceita-se, implicitamente, que o processo é dispensável sempre que a urgência política o exigir. Hoje é nas Caraíbas; amanhã será outra margem. Hoje é um barco; amanhã será uma casa. Hoje são “narco-terroristas”; amanhã será outra etiqueta. A violência adora etiquetas. As etiquetas facilitam a distância. E a distância facilita o esquecimento. Volto ao mapa antigo: aquelas cartas navais eram desenhadas por homens que sabiam que o mar engole tudo, inclusive as certezas. Havia monstros desenhados nas margens, não porque acreditassem neles literalmente, mas porque queriam marcar o que não conheciam, o que não controlavam. Hoje, os monstros não são desenhados. São pronunciados. “Terrorista.” “Inimigo.” “Ameaça.” A palavra serve para ocupar o lugar da dúvida. E a dúvida é essencial numa democracia. A dúvida é uma forma de decência. Não estou a pedir indulgência para traficantes. Nem romantismo para cartéis. Estou a pedir que se compreenda o mecanismo: quando o Estado se habitua a matar sem prender, começa a perder o hábito de provar. E quando perde o hábito de provar, perde o hábito de ser justo. Há uma imagem que não me larga: dois homens na água, sem terra à vista. Não os conheço. Não sei o que fizeram. Podem ter transportado veneno. Podem ter mentido. Podem ter sido, como tantos na engrenagem do crime, peões descartáveis. Nada disso muda a pergunta central: estavam fora de combate? Se estavam, a linha é clara. E a clareza, aqui, é uma forma de revolução tranquila: dizer que há um “não” que nem a raiva pode revogar. Se o relato for falso, então é urgente desmontá-lo com factos, ponto por ponto, sem neblina institucional. A verdade não teme detalhes. Se for verdadeiro — mesmo em parte — então há um problema que não se resolve com demissões simbólicas nem com frases sobre “legalidade”. Resolve-se com investigação séria, responsabilização e, sobretudo, com a reposição de um princípio: o Estado não tem direito a transformar o mar em tribunal, nem o tribunal em mar. A diferença entre um país e um bando não está na capacidade de disparar. Está na capacidade de se impedir de disparar quando já não há combate. Se houver vídeo completo, ele virá. Talvez não amanhã, talvez não pela mão de quem governa. Mas a história tem uma mania: o que é gravado acaba por aparecer, nem que seja em pedaços. E quando aparecer, o público terá de decidir se prefere a mentira confortável — “foi preciso, foi guerra, foi inevitável” — ou a verdade difícil: que, algures, alguém escolheu um segundo disparo. E que esse segundo disparo, mais do que matar dois homens, feriu uma coisa maior e mais frágil: a ideia de que a lei não é adorno, é limite. O limite no mar #DireitoInternacional #UsoDaForça #GuerraSemGuerra #EstadoDeDireito #PoderELei
- Violência paterna: o que fica depois do medo
A mão do pai é maior do que o rosto do filho. Isso é um facto anatómico e é também a primeira coisa que o filho aprende sobre a diferença de tamanho entre os corpos — que essa diferença pode doer. O que faz a violência de um pai a uma criança de sete anos? Autor: João da Praça Tinha sete anos. Chamava-se, digamos, Tomás. Uma mão maior do que o rosto. O medo que fica quando a violência vem de quem devia proteger. Vivia num apartamento de três assoalhadas com o pai, a mãe e uma irmã mais nova. O pai trabalhava na construção, chegava a casa às seis e meia, lavava as mãos durante tempo suficiente para que o barulho da água servisse de aviso. Quando a água parava, todos ficavam muito quietos. Não havia nada de extraordinário no pai de Tomás. Era um homem de quarenta e dois anos com dores nas costas e dinheiro contado até ao fim do mês. Não bebia mais do que os vizinhos. Não tinha prontuário. Ia à missa no Natal. O que desencadeou aquela tarde de Outubro não importa — e é importante que não importe. O que se aprende da violência doméstica, quando se olha para ela com atenção, é que o desencadeador raramente tem escala proporcional ao que se segue. Um copo partido. Uma nota de escola. A demora a pôr a mesa. O filho que não ouviu à primeira. Tomás não tinha ouvido à primeira. O pai levantou-se da cadeira com uma lentidão que não era calma — era o tempo que levava a decidir. A mãe foi para a cozinha. A irmã ficou muito imóvel no sofá, o que é uma forma de desaparecer quando não se pode ir a lado nenhum. A bofetada foi única. Não foi uma surra — não houve cinto, não houve cena longa. Foi uma bofetada aberta na cabeça de uma criança de sete anos, com força suficiente para a desequilibrar. Tomás bateu com o cotovelo no ângulo da mesa e começou a chorar, não de dor emocional — de dor física, aquela que é involuntária e por isso mais humilhante, porque o corpo trai a tentativa de não mostrar nada. O pai disse: para de chorar. Essa instrução — parar de chorar depois de ter sido a causa do choro — é onde a violência não termina. É onde recomeça a violência. Há um equívoco persistente na forma como se fala de violência doméstica sobre crianças: fala-se de monstros. O monstro é útil porque resolve o problema da identificação — o monstro não sou eu, não é o meu vizinho, não é aquele homem perfeitamente normal que vi ontem no supermercado com um miúdo ao colo. O monstro existe algures fora do raio de visão moral do cidadão comum. Os números não confirmam essa topografia. Em Portugal, como em toda a Europa, a esmagadora maioria dos casos de violência sobre crianças é exercida por alguém dentro de casa — e dentro de casa, o pai biológico é o agressor mais frequente nas faixas mais jovens. Não o estranho. Não o perturbado clínico visível. O homem que conhece o nome completo da criança, que assinou o registo de nascimento, que tem sobre ela autoridade legal reconhecida pelo Estado. A violência doméstica sobre crianças é estruturalmente invisível não porque aconteça em sítios escondidos, mas porque acontece em sítios que a sociedade decidiu não olhar com atenção — o interior das famílias, o espaço protegido pelo princípio de não-intervenção na vida privada, o território onde se diz que cada um sabe o que é melhor para os seus filhos. O que Tomás aprendeu naquela tarde não foi que o pai era mau. Aprendeu algo mais complicado: que o pai podia ser mau. Que a fronteira entre a figura de autoridade e a ameaça física era uma fronteira que o pai podia atravessar sempre que quisesse — e que ninguém ia impedi-lo. A criança que foi batida uma vez sabe que pode ser batida outra vez. E passa a organizar o comportamento em função dessa possibilidade — não em função do que é certo ou errado, do que é seu ou do que gosta, mas em função do que provoca ou não provoca a travessia dessa fronteira. Chama-se a isso hipervigilância, nos manuais de psicologia do trauma. Nas casas onde acontece, chama-se crescer. Portugal tem uma relação particular com esta história. Durante décadas — e com cobertura ideológica explícita do Estado — o direito de correção paternal foi não apenas tolerado mas codificado numa visão de família em que a autoridade do pai era estruturalmente análoga à autoridade do Estado: inquestionável, benevolente por definição, e portanto imune à ideia de abuso. Quem corrige educa. Quem educa não pode abusar. Esse vocabulário sobreviveu ao Estado Novo. Sobreviveu à democracia. Ainda circula — com menos exposição, com linguagem atualizada — na ideia de que uma palmada a tempo não fez mal a ninguém, de que os miúdos de hoje não têm limites, de que os pais de antigamente eram mais duros e os filhos saíam melhores. Os filhos não saíam melhores. Saíam mais silenciosos. Às oito e meia dessa noite, o pai de Tomás sentou-se ao lado dele no sofá e perguntou-lhe se já estava bem. Tinha um tom diferente — não de arrependimento exatamente, mas de encerramento. A questão não era genuína: era o ritual de normalização que se segue, o gesto que permite que a noite continue, que o jantar seja comido, que a família sobreviva à sua própria violência e continue a ser reconhecível como família. Tomás disse que sim. Porque tinha sete anos e a única saída disponível era essa. A criança não pode não perdoar. Não tem acesso à categoria jurídica ou emocional da rutura, depende do agressor para comer, dormir, ir à escola — e aprende, portanto, a gerir a distância entre o que sente e o que mostra com uma precisão que nenhuma criança deveria ter de desenvolver. É essa precisão que os adultos sobreviventes de violência parental descrevem com mais frequência: não a dor das pancadas, mas o trabalho constante de calcular o estado de espírito do outro, de ler sinais antes de que se tornem ameaças, de habitar o próprio espaço doméstico como um território de risco que tem de ser navegado com cuidado. Há uma pergunta que não se faz suficientemente: o que é que o pai sabia? Sabia que tinha batido no filho. Sabia que o filho tinha chorado. Sabia que a mão aberta numa cabeça pequena desequilibra. Todas essas coisas eram conhecidas — e foram escolhidas, ainda que não deliberadamente no sentido de um plano, pelo menos no sentido de uma possibilidade não recusada. O argumento do descontrolo — perdi a cabeça, não sabia o que estava a fazer — é o argumento mais frequente e o menos sustentado pela evidência. A violência doméstica raramente é cega: tem alvos, tem limites, tem padrões de recorrência que pressupõem memória. O que se perde, no momento da violência, não é a consciência — é a inibição. E a inibição perdeu-se porque o custo de a perder era suportável. O filho tem sete anos. Não vai embora. Não chama a polícia. Não tem vocabulário para o que aconteceu. O cotovelo de Tomás ficou roxo durante uma semana. Ele disse à professora que tinha caído das escadas. Não mentiu por medo de consequências para o pai. Mentiu porque tinha aprendido — com uma eficiência que é uma das formas mais cruéis de inteligência infantil — que o mundo fora de casa não estava equipado para fazer algo útil com a verdade. Talvez estivesse errado. Provavelmente não estava. Rita Alarcão Júdice tem hoje a pasta que pode mudar isto — não sozinha, não de um dia para o outro, mas tem-na. Em 2025, Portugal registou 29.644 participações por violência doméstica, 27 mortos e 61,5% de inquéritos arquivados. Treze vírgula sete por cento resultaram em acusação. No mesmo ano, o apoio judiciário às vítimas caiu de 1,6 milhões para 916 mil euros — menos dinheiro para quem mais precisa de um advogado, no mesmo ano em que o Conselho da Europa identificou publicamente atitudes patriarcais em parte da magistratura portuguesa. O GREVIO e o RASI 2025, via Arcana News foram publicados no mesmo mês. Não dialogam entre si. Uma ministra que fala em tornar a justiça mais acessível e mais clara sabe, ou deve saber, que a criança que não tem vocabulário para o que lhe aconteceu também precisa de um sistema que não a obrigue a provar o que calou. O problema não é a falta de legislação. É a distância entre o que está escrito e o que chega a uma sala de aula em Outubro, quando uma professora olha para um cotovelo roxo e decide não perguntar. #Literatura #GREVIO #RASI #RitaAlarcãoJúdice #ViolênciaDoméstica #Portugal
- Violência doméstica em idosos: os 4.049 que o RASI não analisa
Apresentar uma queixa por violência doméstica quando se tem mais de sessenta e quatro anos é um gesto que o sistema não esperava de ti. Autor: Alberto Carvalho A esquadra foi construída para outro perfil de vítima. Os formulários também. A linguagem dos programas de apoio, a imagem nas campanhas, o rosto que aparece nos cartazes — tudo aponta para outro lugar. Chegaste até aqui na mesma, e isso já diz qualquer coisa sobre o que estava a acontecer em casa. Quantos idosos são vítimas de violência doméstica em Portugal? Em 2025, 4.049 pessoas com mais de 64 anos apresentaram queixa por violência doméstica em Portugal, mas o RASI não dedica a esse universo uma análise própria. Em 2025, quatro mil e quarenta e nove pessoas com mais de sessenta e quatro anos apresentaram queixa por violência doméstica em Portugal. O Relatório Anual de Segurança Interna regista o número numa linha, numa tabela, entre outros dados de caracterização. Não há secção própria. Não há análise. O número existe — e o relatório segue em frente. A violência doméstica sobre pessoas idosas tem uma geografia diferente da violência conjugal. Em mais de metade dos casos de violência doméstica registados no RASI, a relação entre denunciado e vítima é conjugal ou de coabitação. Mas quando a vítima tem mais de sessenta e quatro anos, o agressor é frequentemente um filho, um neto, um cuidador — alguém que entrou na casa não para fazer mal, ou pelo menos não era essa a narrativa, mas para ajudar. A inversão é total: a pessoa que devia proteger é a que ameaça. A casa que devia ser abrigo na última fase da vida é o sítio do perigo. Este padrão não é exclusivamente português. Mas Portugal tem condições específicas que o tornam mais opaco e mais persistente. O país tem uma das populações mais envelhecidas da Europa. Tem também uma tradição longa — anterior à democracia, mas que a democracia não desfez — de tratar o cuidado dos mais velhos como responsabilidade da família e não do Estado. Durante décadas, e ainda hoje em grande medida, o que acontecia dentro de casa entre gerações era assunto de família. A expressão não é metáfora. É doutrina. Há uma aritmética silenciosa por trás dos quatro mil e quarenta e nove. Para chegar à esquadra com mais de sessenta e quatro anos e formalizar uma queixa contra alguém da família, é preciso ter ultrapassado um conjunto de obstáculos que a idade e a dependência tornam maiores. A mobilidade pode estar reduzida. O acesso ao telefone pode estar controlado. A vergonha — de expor a família, de admitir que o filho ou a filha chegou a este ponto — pode ser paralisante. E há algo mais: a consciência de que, depois da queixa, a vida não fica necessariamente melhor. O agressor pode ser a única pessoa que trata das compras, dos medicamentos, do transporte ao médico. O sistema de queixa eletrónica — criado para baixar a barreira de acesso à denúncia — registou em 2025 apenas 349 participações de violência doméstica em todo o país. É difícil imaginar que muitas delas vieram de pessoas idosas. O canal pressupõe familiaridade com tecnologia, acesso a um dispositivo, privacidade para o usar. Três condições que a dependência pode eliminar de uma vez. Portugal criminalizou a violência doméstica como crime público em 2000. A alteração foi real e necessária — retirou à vítima o ónus exclusivo de manter o processo em curso. Mas o crime público pressupõe que alguém saiba que está a acontecer. A violência sobre pessoas idosas tem uma taxa de subparticipação que provavelmente excede a da violência conjugal: é menos visível para os vizinhos, menos reconhecida pelas próprias vítimas como violência, menos esperada pelas instituições que poderiam sinalizá-la. O médico de família que vê a pessoa de três em três meses. A enfermeira do centro de saúde. O funcionário da Segurança Social. São estes os pontos de contacto mais prováveis com alguém que está a ser maltratado em casa depois dos sessenta e quatro anos — não a esquadra, não o formulário, não a linha de apoio. O sistema de resposta à violência doméstica foi desenhado com uma porta de entrada que muitas destas vítimas não conseguem ou não sabem usar. O relatório do GREVIO, publicado em maio de 2025, identifica falhas estruturais no sistema judicial português — sanções desproporcionadas, atitudes patriarcais em parte da magistratura, demoras nos procedimentos de emergência. As recomendações são concretas e urgentes. Nenhuma delas é específica para vítimas idosas. Não é uma crítica ao GREVIO — o relatório tem um mandato definido e cumpre-o. É uma observação sobre o que fica fora do mandato: a violência que acontece não entre parceiros íntimos, mas entre gerações, no interior de uma relação de cuidado que se inverteu e que ninguém de fora vê bem. Visto de Lisboa, há uma camada adicional. Portugal construiu o seu modelo de envelhecimento sobre a família — não por opção ideológica explícita, mas por acumulação histórica de ausência de alternativa. O Estado Novo não tinha políticas sociais de envelhecimento dignas desse nome. A democracia herdou essa ausência e preencheu-a progressivamente, mas sem desfazer a premissa: a família cuida. Quando a família falha — quando o cuidado se transforma em controlo, em humilhação, em golpe —, o sistema não tem resposta pronta porque nunca esperou que a família falhasse desta forma. Os quatro mil e quarenta e nove que apresentaram queixa em 2025 são os que chegaram ao sistema apesar de tudo. O número que não chegou é desconhecido — e é provavelmente maior. O RASI de 2025 não tem uma secção sobre violência doméstica em pessoas idosas. Tem uma linha numa tabela de caracterização de vítimas, entre outras linhas, com outros grupos etários. O número está lá. O que não está é a pergunta que o número faz: quantos destes quatro mil casos resultaram em acusação, quantos foram arquivados, quantos tinham um agressor que era simultaneamente o único cuidador disponível, quantos voltaram para casa depois da queixa porque não havia para onde ir. O relatório do próximo ano terá provavelmente outra linha com outro número. Entre as duas linhas, a vida das pessoas continua — dentro da casa que já não é abrigo, com quem devia cuidar e não cuida. #ViolênciaDoméstica #JustiçaPortuguesa #RASI2025
- Violência doméstica em Portugal: 61% dos inquéritos arquivados em 2025
O ficheiro fecha com um clique. Ou com um carimbo. Ou com a frase que os juristas conhecem de cor e que os outros raramente lêem: não há indícios suficientes. O processo vai para o arquivo. A queixa existiu — está registada, tem número, tem data. O que não tem é consequência. Violência Doméstica em Portugal Por Alberto Carvalho Em 2025, fecharam 38.749 inquéritos por violência doméstica em Portugal. De entre eles, 23.836 foram arquivados. Não foram esquecidos, não foram perdidos, não foram desviados para nenhum limbo administrativo. Foram encerrados dentro do procedimento normal, com fundamentação jurídica, por magistrados que cumpriram a lei. Sessenta e um por cento. Quase dois em cada três inquéritos findos por violência doméstica em Portugal resultam em arquivo. Capa do Atlantic Lisbon para um artigo sobre o arquivamento de 61% dos inquéritos de violência doméstica em Portugal em 2025. Os restantes: 5.327 acusações deduzidas, 1.886 suspensões provisórias do processo, 7.700 encerrados por outros motivos. O Estado tem nome para cada uma destas categorias. Tem formulários. Tem prazos. Há um dado no Relatório Anual de Segurança Interna de 2025 que o próprio relatório apresenta como sinal positivo. A violência doméstica registou, no ano passado, uma "ligeira diminuição" de 1,9 por cento. Vinte e nove mil seiscentos e quarenta e quatro participações, menos quinhentas e setenta e sete do que em 2024. A frase existe no documento. A tendência existe nos gráficos. No mesmo ano, a violência doméstica contra menores subiu 8,6 por cento. Os homicídios cometidos em contexto de violência doméstica passaram de 23 para 27 vítimas. Vinte e uma eram mulheres. Duas eram crianças. A diminuição de 1,9 por cento pode ser simplesmente um sinal de que há menos fé no sistema. A mulher que não foi à esquadra porque já foi antes e não serviu de nada. O vizinho que ouviu e não ligou. O filho que aprendeu que aquilo é normal. O que não entra nas participações não desce em nenhum gráfico. Em maio de 2025, o governo aprovou a Portaria n.º 228/2025 para regular o novo Instrumento de Avaliação de Risco em Violência Doméstica — o RVD-R. Entrou em vigor a 1 de julho. É uma ferramenta que permite às forças de segurança avaliar o risco de reincidência quando atendem uma vítima: perguntas sobre a frequência dos episódios, sobre ameaças com armas, sobre filhos, sobre o grau de isolamento. O instrumento existe noutros países há décadas. Em Portugal, foi aprovado em 2025. No ano em que o RVD-R entrou em vigor, morreram quatro pessoas a mais do que no ano anterior em contexto de violência doméstica. O aparato existe e é visível. A GNR tinha, no final de 2025, 895 militares afetos ao projeto de investigação e apoio a vítimas específicas. A PSP dispunha de 428 efetivos dedicados à área da violência doméstica. Há dezoito estruturas especializadas de atendimento policial a vítimas distribuídas pelo país. Salas de atendimento à vítima em 75,8 por cento dos postos e esquadras. Programas para agressores que, em 2025, abrangeram pouco mais de quatro mil pessoas — num universo de quase trinta mil participações anuais. A vigilância eletrónica tem uma taxa de cumprimento de 97,4 por cento nas medidas associadas a violência doméstica. O agressor usa a pulseira. O sistema sabe onde ele está. Há uma memória mais longa do que qualquer portaria. Portugal criminalizou a violência doméstica conjugal como crime público em 2000. Não antes. Durante décadas, o que acontecia dentro de casa era assunto de família: a expressão não é metáfora, foi uma prática generalizada. O Estado Novo não inventou a violência doméstica, mas construiu as condições para a sua invisibilidade. A democracia chegou em 1974. A criminalização efetiva chegou vinte e seis anos depois. O que ficou é a memória institucional de não ver. Não a memória dos indivíduos: a dos procedimentos, dos critérios de arquivo, das culturas das esquadras. A crítica não é aos magistrados que aplicaram a lei. É a lei que foi construída de forma a tornar o arquivo o resultado mais provável. Visto de Lisboa — de um país que sabe o que é construir estruturas para gerir a aparência de uma resposta sem a resposta em si —, o problema não é de recursos nem de vontade declarada. É de arquitetura. Em 2024, o Ministério da Justiça pagou mais de 1,6 milhões de euros em apoio judiciário a advogados que acompanharam as vítimas de violência doméstica. Em 2025, esse valor caiu para 916 mil euros. O número de pagamentos passou de mais de seis mil para cerca de 3.400. No mesmo ano, o sistema de queixa eletrónica registou 349 participações de violência doméstica. Num país com quase trinta mil participações anuais totais, 349 chegaram por via eletrónica. Vinte e sete mortes num ano. Vinte e uma mulheres. Dois menores. Quatro homens. O RASI não tem fotografias. Tem tabelas, variações percentuais, setas a apontar para cima e para baixo. A seta da violência doméstica global aponta para baixo: menos 1,9 por cento. A seta dos homicídios em contexto de violência doméstica aponta para cima: mais quatro. O relatório apresenta as duas na mesma secção, com o mesmo peso gráfico, sem hierarquia moral entre elas. O próximo relatório terá as mesmas categorias, as mesmas taxas, a mesma frase sobre a ligeira diminuição — ou sobre o ligeiro aumento, consoante o ano. O ficheiro vai para o arquivo. O sistema fica aberto. Por que são arquivados dois em cada três inquéritos de violência doméstica em Portugal? #ViolênciaDoméstica #JustiçaPortuguesa #RASI2025
- A Identidade - A história de Frédéric Bourdin
HISTÓRIA · Atlantic Lisbon · EUA/França · Identidade. Aurelian Draven Em maio de 2005, num abrigo para jovens perto dos Pirenéus, em França, chegou um rapaz de quinze anos. Dizia chamar-se Francisco Hernandez Fernandez. Tinha documentos de identificação espanhóis. Os pais e o irmão tinham morrido num acidente de carro, explicou. Ele sobrevivera, mas ficara em coma. Depois fora viver com um tio que o maltratava. Fugiu. A História do Homem Que Passou Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa - A história de Frédéric Bourdin A história era convincente. O rapaz era magro, pálido, trémulo. Usava boné puxado sobre os olhos e cachecol a tapar boa parte da cara. Dizia que tinha cicatrizes do acidente. Não queria que ninguém as visse. Francisco foi matriculado numa escola local. Adaptou-se rapidamente. Tornou-se popular. Dançava como Michael Jackson nos espetáculos de talentos. Ajudava os colegas com os trabalhos. Conhecia gírias americanas. Tinha carisma. Até que uma administradora da escola viu um programa de televisão sobre impostores famosos. E reconheceu Francisco. Não era Francisco. Era Frédéric Bourdin. Tinha trinta anos. E passara a última década e meia a fingir ser criança. O Rei dos Impostores Quando a polícia o deteve, Bourdin admitiu tudo. Nos quinze anos anteriores, tinha inventado dezenas de identidades. Em mais de quinze países. Cinco línguas. Benjamin Kent. Jimmy Morins. Alex Dole. Giovanni Petrullo. Michelangelo Martini. Quase sempre a mesma personagem: uma criança abandonada ou maltratada. Infiltrou-se em abrigos, orfanatos, lares de acolhimento, escolas, hospitais pediátricos. Na Espanha, Alemanha, Bélgica, Inglaterra, Irlanda, Itália, Suíça, Bósnia, Portugal, Áustria, França, Suécia, Dinamarca. E na América. Era extraordinariamente hábil a transformar a aparência. Depilava-se meticulosamente. Mudava o peso. Mudava o andar. Mudava o maneirismos. "Posso tornar-me no que quiser", dizia. Em 2004, fingiu ser um rapaz francês de catorze anos em Grenoble. Um médico examinou-o a pedido das autoridades e concluiu que era, de facto, adolescente. Um capitão da polícia em Pau observou: "Quando falava espanhol, tornava-se espanhol. Quando falava inglês, era inglês." As autoridades nunca encontraram motivação sexual. Nunca encontraram motivação financeira. "Em vinte e dois anos de profissão, nunca vi um caso assim", disse o procurador Eric Maurel. "Normalmente as pessoas enganam por dinheiro. O lucro dele parecia ser puramente emocional." No antebraço direito tinha uma tatuagem: "caméléon nantais" — Camaleão de Nantes. O Caso Americano (Ou: Quando o Impostor Roubou Uma Identidade Real) Em outubro de 1997, Bourdin estava num lar de jovens em Linares, Espanha. Uma juíza de proteção de menores tinha-lhe dado vinte e quatro horas para provar que era adolescente. Caso contrário, recolheria impressões digitais, que estavam registadas na Interpol. Bourdin sabia que, como adulto com cadastro criminal, enfrentaria prisão. E fez algo que ultrapassou todos os limites anteriores. Em vez de inventar uma identidade, roubou uma. Assumiu a pessoa de um rapaz de dezasseis anos desaparecido do Texas. Ligou para o Centro Nacional para Crianças Desaparecidas e Exploradas, em Alexandria, Virgínia. Fingiu ser o diretor do abrigo. Disse que tinha lá um rapaz assustado que falava inglês com sotaque americano, mas não revelava a identidade. Descreveu-se a si próprio. A mulher do centro procurou na base de dados. Disse que podia ser Nicholas Barclay. Desaparecido em San Antonio a 13 de junho de 1994, aos treze anos. Bourdin pediu mais informação. A mulher enviou por fax uma fotocópia do cartaz de desaparecido. A imagem era tão fraca que mal se via. Mas Bourdin pensou: "Consigo fazer isto." Ligou de volta, fingindo ser um polícia espanhol. Disse que Nicholas Barclay tinha sido encontrado. No dia seguinte chegou uma cópia limpa do cartaz. Bourdin abriu o envelope. A fotografia mostrava um rapaz pequeno, pele clara, olhos azuis, cabelo castanho tão claro que parecia quase louro. O cartaz listava características identificadoras: uma cruz tatuada entre o indicador e o polegar direitos. Bourdin olhou para a imagem. Disse a si próprio: "Estou morto." Não tinha a tatuagem. Os seus olhos eram castanho-escuros e o cabelo, castanho-escuro. Queimou o cartaz no pátio do abrigo. Descolorou o cabelo na casa de banho. Pediu a um amigo que lhe fizesse uma tatuagem improvisada com agulha e tinta de caneta. Mas havia o problema dos olhos. Inventou uma história: tinha sido raptado por uma rede de tráfico sexual de crianças. Levado para a Europa. Torturado, abusado, experimentado. Os sequestradores tinham-lhe injetado químicos nas pupilas. Por isso os olhos castanhos. Tinha perdido o sotaque texano porque, durante mais de três anos de cativeiro, fora proibido de falar inglês. Era uma história louca. Violava a sua própria máxima: "Mantém simples." Mas teria de servir. A Família Que Quis Acreditar Dias depois, tocou o telefone. Era Carey Gibson, meia-irmã de Nicholas, de trinta e um anos. "Meu Deus, Nicky, és tu?" Bourdin não sabia como responder. Adotou voz abafada. Disse: "Sim, sou eu." A mãe de Nicholas, Beverly, falou depois. Trabalhava num turno noturno numa Dunkin' Donuts em San Antonio sete noites por semana. Era viciada em heroína, agora em metadona. Nunca casara com o pai de Nicholas. Criara Nicholas com os dois filhos mais velhos, Carey e Jason. Quando a voz infantil do outro lado disse que queria voltar para casa, Beverly ficou "aturdida e arrasada". Carey voou para Espanha. Quando chegou ao abrigo, Bourdin estava num quarto, a cara embrulhada num cachecol, boné, óculos de sol. Tinha a certeza de que Carey perceberia imediatamente que não era o irmão. Em vez disso, ela correu para ele e abraçou-o. Carey era, em muitos sentidos, a vítima ideal. Nunca viajara fora dos EUA exceto para festas em Tijuana. Não estava familiarizada com sotaques europeus. Depois do desaparecimento de Nicholas, assistira frequentemente a programas televisivos sobre raptos de crianças. E tinha o fardo de decidir, como representante da família, se este era o irmão há muito desaparecido. Embora Bourdin lhe chamasse "Carey" em vez de "mana" (como Nicholas sempre fizera), embora tivesse um traço de sotaque francês, Carey disse que teve poucas dúvidas. Não quando ele podia atribuir qualquer inconsistência à provação indescritível. Não quando o nariz parecia tanto com o do tio Pat. Não quando tinha a mesma tatuagem que Nicholas e parecia saber tantos detalhes sobre a família. "O coração assume o controlo e queres acreditar", diz Carey. Nem as autoridades americanas nem as espanholas levantaram questões depois de Carey ter confirmado. Nicholas desaparecera há apenas três anos. O FBI não estava preparado para suspeitar de alguém que alegava ser criança desaparecida. Foi-lhe concedido um passaporte americano a Bourdin. No dia seguinte estava num voo para San Antonio. Cinco Meses Como Filho de Outra Pessoa Em 18 de outubro de 1997, membros da família de Nicholas esperavam-no no aeroporto. Beverly, a mãe. Bryan Gibson, marido de Carey. Codey e Chantel, filhos de Carey e Bryan. Apenas Jason, irmão de Nicholas, estava ausente. Todos correram a abraçá-lo. Exceto Beverly. "Ela simplesmente não parecia entusiasmada", lembra Chantel. Bourdin perguntou se Beverly duvidava que fosse Nicholas. Mas, naturalmente, ela também o cumprimentou. Foram todos no Lincoln Town Car de Carey. Pararam num McDonald's. Bourdin ficou a viver com Carey e Bryan numa casa móvel/reboque habitável numa área arborizada desolada em Spring Branch, 55 quilómetros a norte de San Antonio. A casa móvel/reboque era apertada não era exatamente a visão da América que Bourdin imaginara dos filmes. Partilhava o quarto com Codey. Dormia num colchão de espuma no chão. Para se tornar Nicholas, Bourdin tinha de aprender tudo sobre ele. Começou a recolher informação secretamente. Vasculhou gavetas, álbuns de fotografias, viu vídeos caseiros. Quando descobria um detalhe sobre o passado de Nicholas através de um membro da família, repetia-o a outro. Beverly reparou que Bourdin se ajoelhava em frente à televisão. Como Nicholas fazia. Quando Bourdin parecia mais distante do que Nicholas ou falava com sotaque estranho, vários membros da família disseram que assumia ser por causa do tratamento terrível que dissera ter sofrido. À medida que Bourdin habitava a vida de Nicholas, ficou surpreendido com o que considerava serem semelhanças estranhas entre eles. Nicholas desaparecera no aniversário de Bourdin. Ambos vinham de famílias pobres e desfeitas. Nicholas era miúdo doce, solitário, combustível, que ansiava atenção e estava frequentemente em sarilhos na escola. Era fã incondicional de Michael Jackson quando jovem. Segundo Beverly, Bourdin rapidamente "fundiu-se". Foi matriculado no liceu. Jogava Nintendo com Codey. Quando via Beverly, abraçava-a e dizia: "Olá, mãe." "Era mesmo simpático", lembra Chantel. "Muito amigável." O Detetive Que Não Acreditou Charlie Parker, investigador privado em San Antonio, foi contratado por um programa televisivo para investigar o extraordinário regresso de Nicholas Barclay. Parker foi à casa/móvel/reboque habitável com o produtor e a equipa de câmara. Ouviu atentamente enquanto o jovem relatava a história arrepiante. "Estava calmo como pepino", disse-me Parker. "Sem desviar o olhar, sem linguagem corporal. Nada." Mas ficou intrigado com o sotaque curioso. Parker viu uma fotografia numa prateleira de Nicholas Barclay em criança. Continuou a olhar para ela e para a pessoa à sua frente. Pensou que algo estava errado. Tendo lido uma vez que as orelhas são distintas, como impressões digitais, sussurrou ao operador de câmara: "Dá um zoom nas orelhas dele. O mais perto que conseguires." Parker enfiou a fotografia de Nicholas Barclay no bolso. Mais tarde, no escritório, digitalizou-a e comparou com o vídeo da entrevista. "As orelhas eram parecidas, mas não coincidiam", diz. Parker ligou a oftalmologistas. Perguntou se olhos podiam mudar de azul para castanho com injeção de químicos. Os médicos disseram que não. Parker telefonou a Beverly. Disse-lhe o que descobrira. Como recorda a conversa na pesquisa efetuada: "Não é ele, senhora. Não é ele." "Como assim não é ele?" Parker explicou sobre as orelhas, os olhos, o sotaque. Nos seus ficheiros, escreveu: "Família está perturbada mas mantém que acreditam ser o filho deles." Parker começou a seguir Bourdin quando este visitava Beverly. "Instalava-me no apartamento e via-o sair. Caminhava até à paragem de autocarro, usando o Walkman e fazendo os movimentos de Michael Jackson." O Colapso Após dois meses nos Estados Unidos, Bourdin começou a desmoronar-se. Estava taciturno e distante. Parou de assistir às aulas. Em dezembro, levou o carro de Bryan e Carey e conduziu até Oklahoma, com as janelas abertas, a ouvir a canção de Michael Jackson "Scream": "Cansado dos esquemas / As mentiras são repugnantes... / Alguém por favor tenha piedade / Porque simplesmente não aguento." A polícia parou-o por excesso de velocidade. Foi detido. Pouco antes do Natal, Bourdin foi à casa de banho e olhou-se ao espelho. Olhos castanhos. Cabelo descolorado. Agarrou uma navalha e começou a mutilar a cara. Foi internado na ala psiquiátrica de um hospital local durante vários dias de observação. Mais tarde, escreveu num caderno: "Quando combates monstros, tem cuidado para que no processo não te tornes num." A Verdade Nancy Fisher, agente veterana do FBI, tinha entrevistado Bourdin semanas depois de chegar aos Estados Unidos. Imediatamente, disse-me, "cheirou a rato": "O cabelo era escuro mas descolorado em louro e as raízes eram bastante óbvias." Parker partilhava as suas suspeitas com Fisher. Conduziram investigações paralelas. Em fevereiro, quatro meses depois de Bourdin chegar aos Estados Unidos, Fisher obteve mandados para o forçar a cooperar. "Vou a casa dela buscar amostra de sangue, e ela deita-se no chão e diz que não se vai levantar", diz Fisher. "Eu disse: 'Sim, vai.'" "Beverly defendeu-me", diz Bourdin. "Fez o melhor para pará-los." Junto com o sangue, Fisher obteve impressões digitais de Bourdin. Enviou-as ao Departamento de Estado para ver se havia correspondência com a Interpol. A 5 de março de 1998, com as autoridades a concentrarem-se sobre Bourdin, Beverly ligou a Parker e disse que acreditava que Bourdin era um impostor. Na manhã seguinte, Parker levou-o a um restaurante. Pediram panquecas. Depois de quase cinco meses a fingir ser Nicholas Barclay, Bourdin estava psiquicamente esgotado. Segundo Parker, quando lhe disse que tinha perturbado a "mãe", o jovem soltou: "Ela não é minha mãe, e sabe disso." -"Vais dizer-me quem és?" -"Sou Frédéric Bourdin e sou procurado pela Interpol." Parker foi à casa de banho e ligou a Nancy Fisher. Ela acabara de receber a mesma informação da Interpol. "Estamos a tentar obter um mandado agora. Retém-no." Quando Parker o levou de volta ao apartamento de Beverly, Fisher e as autoridades já estavam a chegar. Rendeu-se calmamente. Beverly virou-se e gritou para Fisher: "O que vos demorou tanto?" A Questão Que Ficou Estando sobe custódia, Bourdin contou uma história que parecia tão fantasiosa quanto o conto de ser Nicholas Barclay. Alegou que Beverly e Jason podiam ter sido cúmplices no desaparecimento de Nicholas. Que sabiam desde o início que Bourdin estava a mentir. "Sou bom impostor, mas não sou assim tão bom", disse Bourdin. Claro que as autoridades não podiam confiar na versão de um mentiroso patológico conhecido. Mas tinham as suas próprias suspeitas. Jack Stick, procurador federal na altura, e Fisher questionavam-se por que Beverly resistira a tentativas do FBI de investigar o alegado rapto de Bourdin. E depois de descobrir o engano. Questionavam-se por que Beverly não levara Bourdin de volta para viver consigo. Segundo Fisher, Carey disse-lhe que era porque era "demasiado perturbador" para Beverly. O que, pelo menos para Fisher e Stick, parecia estranho. "Ficarias tão feliz por ter o filho de volta", diz Fisher. Houve perturbações na casa de Beverly depois de Nicholas ter desaparecido. Relatórios policiais mostravam Beverly a gritar com Jason sobre o desaparecimento de Nicholas. Depois havia a alegação de Jason de que testemunhara Nicholas a arrombar a casa. Nenhuma prova podia ser encontrada para apoiar esta história surpreendente. Stick e Fisher começaram a aproximar-se de uma investigação de homicídio. "Queria saber o que acontecera àquela criança", recorda Stick. Mas não havia evidência. Sem testemunhas. Sem ADN. As autoridades nem sequer podiam dizer se Nicholas estava morto. Várias semanas depois de Fisher e Parker questionarem Jason, Parker conduzia pelo centro de San Antonio e viu Beverly no passeio. Ofereceu-lhe boleia. Quando ela entrou, disse-lhe que Jason morrera de overdose de cocaína. Parker, que sabia que Jason estava sem drogas há mais de um ano, perguntou se achava que ele tirara a vida propositadamente. Ela disse: "Não sei." Stick, Fisher e Parker suspeitam que foi suicídio. No Fim Beverly parou de usar drogas e mudou-se para Spring Branch, onde vive numa casa móvel/reboque habitável. A 9 de setembro de 1998, Frédéric Bourdin compareceu num tribunal de San Antonio e declarou-se culpado de perjúrio e de obter e possuir documentos falsos. Desta vez, a alegação de que procurava apenas amor provocou indignação. O juiz comparou o que Bourdin fizera — dar a uma família a esperança de que o filho perdido estava vivo e depois despedaçá-la — a homicídio. A única pessoa que parecia ter alguma simpatia por Bourdin era Beverly. Disse na altura: "Tenho pena dele. Sabe, conhecemo-lo, e este miúdo passou pelo inferno." O juiz condenou Bourdin a seis anos. Mais três vezes que o recomendado pelas diretrizes de condenação. Bourdin disse ao tribunal: "Peço desculpa a todas as pessoas no meu passado, pelo que fiz. Desejo, desejo que acreditem em mim, mas sei que é impossível." Estivesse na prisão ou não, acrescentou, "Sou prisioneiro de mim próprio." Meses depois de ser libertado da prisão nos Estados Unidos e deportado para França, em outubro de 2003, Bourdin retomou o papel de criança. Até roubou a identidade de rapaz francês desaparecido de catorze anos chamado Léo Balley. Desta vez, a polícia fez um teste de ADN que rapidamente revelou que Bourdin estava a mentir. Um psiquiatra que o avaliou concluiu: "O prognóstico parece mais do que preocupante. Somos muito pessimistas sobre modificar estes traços de personalidade." Mas Bourdin casou-se. Teve uma filha. Chamaram-lhe Athena, pela deusa grega. Autor: Redação do Atlantic Lisbon Capa — O Camaleão (Atlantic Lisbon) #AtlanticLisbon #AlbertoCarvalho #OCamaleao #OHomemCamaleao #FredericBourdin #NicholasBarclay #TrueCrime #Identidade #Impostor #Narrativa
- A Sala Estava Quase Vazia
O Caderno A Livraria Lello fechou às sete, como sempre, mas havia uma luz numa sala lateral no segundo andar. As janelas ficam no segundo andar, virada para a Rua das Carmelitas. Quem passa vê a luz. Livraria Lello, em desenho a lápis de cor — a fachada ao centro em detalhe, com o casario envolvente em rascunho. Dentro, doze cadeiras dobráveis, dispostas em meia-lua. Dez estavam ocupadas. Estamos a 3 de fevereiro, uma terça-feira sem nada de especial exceto isto: Rui Barroso ia ler. Rui Barroso não lê em público há seis anos. Escreve — isso toda a gente sabe porque os livros aparecem, impressos por uma editora minúscula em Matosinhos, distribuídos por algumas livrarias no Porto e uma em Lisboa, e depois desaparecem, comprados por pessoas que não os discutem em redes sociais nem os recomendam em cafés. Circulam. Mas ele não aparece. Não dá entrevistas, não vai a feiras, não assina exemplares, não tem fotografia na contracapa. A última vez que alguém o viu a falar sobre o trabalho foi há anos, numa biblioteca municipal em Gaia, e a sessão terminou quando uma senhora de meia-idade lhe perguntou se as personagens eram baseados em pessoas reais. Ele levantou-se, disse "obrigado pela presença", e saiu. Agora estava ali, sentado numa cadeira igual às outras, com um livro fechado no colo. Usava uma camisola de lã cinzenta, calças de ganga lavadas demais, sapatos de camurça gastos no calcanhar. Tinha cinquenta e tal anos mas parecia mais velho — não pela cara, que era comum e atenta, mas pela forma como segurava as coisas: com cuidado excessivo, como se tudo pudesse partir-se. Quem organizou a leitura foi a Helena Sá, uma das gestoras da livraria há quase 20 anos. Conhece-o desde sempre — foram vizinhos em Ramalde nos anos 1980, quando os pais dele ainda viviam e a mãe dela vendia peixe numa rua perto de Serralves. Não são amigos. Mas ela tem os números dele, que mudam de tempos a tempos, e desta vez ligou-lhe e disse: "Tens um livro novo, vens ler dez páginas, convido dez pessoas, ninguém grava, acabou." Ele não respondeu durante semanas. Depois enviou uma mensagem: "Terça, 19h30." As dez pessoas não foram escolhidas por ela. Foi ele quem fez a lista: nomes de gente que comprou os livros anteriores, que ele conhece apenas pelas fichas de venda que a Helena lhe mostra quando ele aparece, sem avisar, de meses a meses. Havia professores de liceus diferentes. Duas pessoas que trabalhavam em escritórios. Um enfermeiro. Uma reformada que tinha sido costureira, um estudante, uma mulher que geria um café em Leça, e um homem que apareceu com meia hora de atraso, pediu desculpa baixinho, e sentou-se ao fundo sem tirar o casaco. Não havia jornalistas. A Helena tinha contactado alguns — incluindo alguém de um jornal diário e uma crítica que escreve para revistas culturais. Todos confirmaram interesse. Ela não voltou a responder. Deixou os emails por ler. Quando um deles insistiu por telefone, disse que a sala era pequena e que já estava cheia. Rui Barroso abriu o livro às 19h37. Não disse nada antes. Leu durante doze minutos. Eram três páginas e meia de um romance que ainda não tem título definitivo mas que a editora vai chamar Casa Fechada quando sair em Junho. A voz era baixa, uniforme, sem inflexão dramática. Contava a história de um homem que vive sozinho num prédio em demolição na Baixa do Porto e que passa os dias a catalogar objetos deixados pelos antigos moradores: chaves sem fechaduras, calendários velhos, uma boneca sem cabeça, postais nunca enviados. A certa altura, a personagem encontra um caderno com uma única frase repetida em todas as páginas: "Não me esqueças." Ele não sabe quem escreveu. Copia a frase para o seu próprio caderno, fecha o original, e nunca mais o abre. Quando o Rui terminou, fechou o livro e disse: "Obrigado." Levantou-se. A Helena perguntou se alguém tinha perguntas. Ninguém tinha. Ou tinham, mas não fizeram. Ele ficou de pé durante talvez um minuto — tempo suficiente para que uma das professoras, de nome Carla, dissesse "gostei muito", e ele respondesse "obrigado" outra vez. O homem que tinha chegado atrasado levantou a mão como se fosse dizer alguma coisa, mas depois deixou-a cair. O Rui saiu. A sala ficou com as dez pessoas e a Helena, que serviu vinho tinto e queijo da serra. Falaram do texto durante alguns minutos. Depois falaram de Rui Barroso durante bem mais tempo. Há histórias sobre ele. Não do tipo que se publica — do tipo que circula em conversas de três pessoas que conhecem alguém que conhece alguém. Que viveu anos em Berlim e voltou sem dizer porquê. Que teve um filho que morreu pequeno, e a mulher deixou-o, e ele nunca mais falou nisso. Que escreve à mão, em cadernos comprados na mesma papelaria, e queima as primeiras versões. Que uma vez um editor de Lisboa lhe ofereceu um contrato com adiantamento generoso e ele recusou porque não queria "ter essa dívida". Que trabalha num arquivo municipal a organizar documentos antigos, e que ganha pouco mais de mil euros por mês. Que vive sozinho num apartamento em Paranhos, sem televisão, sem internet, com uma estante de livros que vai do chão ao teto. Nenhuma destas coisas é verificável porque ninguém lhe pergunta diretamente e ele não corrige. A Helena sabe algumas. Outras ouviu e não confirmou. O que ela sabe com certeza é isto: ele escreve todos os dias, cedo, antes de ir trabalhar. Tem cinco livros publicados ao longo de doze anos. Vende, em média, algumas centenas de exemplares de cada. Nunca pediu apoio público, nunca concorreu a prémios, nunca enviou manuscritos a editoras grandes. A primeira vez que publicou foi porque apareceu na editora de Matosinhos — que na altura era só uma sala alugada acima de uma mercearia — com o livro impresso em casa, encadernado como podia, e perguntou se eles o queriam publicar "a sério". Publicaram. Vendeu pouco no primeiro ano. Ele não quis saber das vendas. Só voltou quando tinha o segundo. A Helena conhece os leitores porque reconhece os nomes nas encomendas. Há um núcleo de talvez 50 pessoas que compram todos os livros. Outros aparecem e desaparecem. Nenhum é famoso. Nenhum escreve sobre os livros online. Alguns enviam cartas para a editora, que encaminha para a Helena, que as guarda numa caixa. Ela nunca lhe perguntou se quer lê-las. Ele nunca perguntou se há cartas. Uma vez, há uns anos, um estudante de mestrado da Faculdade de Letras pediu para entrevistá-lo para uma tese sobre "escrita fora do circuito comercial". A Helena passou o pedido. Ele não respondeu. O estudante apareceu na livraria, deixou o contacto, disse que só precisava de vinte minutos. A Helena transmitiu de novo a mensagem. O Rui enviou uma mensagem: "Diz-lhe que os livros já têm tudo o que tenho para dizer." O que os livros têm é isto: lugares reconhecíveis — ruas do Porto descritas com precisão topográfica, cafés que existem, autocarros com números reais — habitados por pessoas que fazem coisas pequenas e irremediáveis. No primeiro, Água Parada, um homem perde o emprego e passa meses a fingir que vai trabalhar, saindo de casa às 8h e voltando às 18h, sentando-se em bancos de jardim, entrando em igrejas, bebendo café sozinho. A mulher descobre. Ele não explica porquê. Separam-se. No segundo, O Peso das Malas, uma mulher de sessenta e tal anos que vende a casa onde viveu décadas e muda-se para um estúdio em Campanhã. Passa o livro inteiro a decidir o que leva e o que deixa. No final, leva quase tudo. Não cabe. Dorme no chão, rodeada de caixas que nunca abre. Não há revelações. Não há catarses. Não há personagens que "aprendem" ou "crescem". Há peso. Tempo. Silêncios que não são interrompidos. Gestos repetidos até se tornarem rituais vazios. E uma atenção quase insuportável ao detalhe: a forma como alguém dobra um guardanapo, o som de um frigorífico velho, a cor exata de uma parede em Miragaia às 17h de uma tarde de Inverno. Os poucos críticos literários que o leram escreveram variações da mesma coisa: "prosa austera", "realismo minimalista", "influências de Carver e Handke mas com voz própria". Uma vez alguém chamou-lhe "o oposto do Saramago": "onde Saramago acrescenta, Barroso remove; onde Saramago explica, Barroso cala." Ele não leu essas coisas. A Helena leu e guardou os recortes numa pasta que nunca lhe mostrou. Quando a sessão na Lello terminou, a professora Carla ficou para trás. Ajudou a Helena a arrumar as cadeiras. Perguntou: "Ele vai voltar?" "Não sei," disse a Helena. "Provavelmente não." "Pena." "Porquê pena?" Carla parou, com uma cadeira dobrada nas mãos. Ficou uns segundos sem dizer nada. Depois: "Porque é bom ouvir alguém que não está a tentar impressionar." A Helena não respondeu logo. Guardou a última cadeira, apagou as luzes da sala, fechou a porta. Desceram juntas. Lá fora, a Rua das Carmelitas estava quase vazia exceto por dois turistas perdidos e um cão vadio. Carla despediu-se, virou à esquerda, desapareceu. Capa de “A Sala Estava Quase Vazia”, por Alberto Carvalho, no Atlantic Lisbon. A Helena ficou. Acendeu um cigarro — fuma alguns por dia, sempre depois das 20h. Olhou para uma janela do segundo andar, onde afinal havia uma luz acesa, embora a sala estivesse vazia. Tinha-se esquecido de desligar um interruptor lá dentro. Pensou em voltar. Não voltou. Rui Barroso tinha ido embora há vinte minutos ou mais. Não disse para onde. Provavelmente apanhou o metro em São Bento, mudou na Trindade, saiu algures, caminhou até casa. Amanhã acorda às 6h, escreve durante duas horas, vai trabalhar. O livro sai em junho. Vai vender algumas centenas de exemplares, talvez mais se houver sorte. Ninguém vai entrevistá-lo. Ninguém vai pedi-lhe para ler em festivais. A vida continua exatamente como antes, exceto que agora há mais um livro no mundo e uma sala que esteve cheia durante doze minutos. A Helena apagou o cigarro, trancou a porta da livraria, foi para casa. No bolso do casaco levava uma folha dobrada que o Rui lhe tinha deixado em cima da cadeira antes de sair. Só a viu quando arrumou a sala. Abriu-a no metro. Dizia, em letra manuscrita: "Obrigado por isto. Não volto a pedir." Ela guardou a folha. Quando chegou a casa, guardou-a dentro de um livro — Água Parada, primeira edição, com a dedicatória que ele lhe escreveu anos antes: "Para a Helena, que não desiste." Imagem: - albertocarvalho.com / Atlantic Lisbon Subscrever a Newsletter #LiteraturaPortuguesa #Porto #EscritaIndependente #Livraria #Silêncio
- O Cruzeiro do Sul como Infraestrutura
Elian Morvane João Faras era físico e astrólogo na corte de D. João II quando embarcou na armada de Pedro Álvares Cabral, em 1500. Não era marinheiro — era um homem de câmara, de cartas e cálculos, acostumado às observações feitas em terra firme, com os instrumentos certos à mão e o teto de Lisboa por cima. Na noite de 27 de abril desse ano, a bordo de uma nau ancorada ao largo de Porto Seguro, no Brasil recém-encontrado, Faras inclinou-se sobre um astrolábio de bronze, fechou um olho, e mediu — pela primeira vez de forma sistemática por qualquer europeu — as estrelas do hemisfério sul. O que viu foi o Cruzeiro do Sul. Entre cálculo, orientação e silêncio cósmico, o Cruzeiro do Sul surge aqui não como ornamento celeste, mas como antiga infraestrutura de sobrevivência e medida. Não sabia ainda o nome: ninguém sabia, porque nenhum europeu o tinha cartografado com rigor suficiente para confiar nele. Escreveu ao rei numa carta datada de 1 de maio — descreveu as estrelas, as posições angulares, a relação entre elas e o horizonte. Era uma carta técnica, quase seca. Não dizia o que Faras devia ter sentido: que estava a olhar para um céu que não era o céu de ninguém que conhecesse, que o universo, naquela noite, tinha uma forma diferente de qualquer forma que ele tinha visto antes. Isto aconteceu noventa e três anos antes de Galileu fabricar o primeiro telescópio astronómico. O astrolábio marítimo é um disco de bronze com um diâmetro que cabia na mão aberta — em média, vinte centímetros. No centro, um pino. Na periferia, uma escala de graus. Na manga, uma alidada giratória com dois orifícios por onde passava a luz do sol ou de uma estrela. O marinheiro suspendia o disco num dedo, deixava-o estabilizar contra o vento, apontava a alidada e lia o ângulo. Era o universo reduzido a uma operação de trigonometria — e também a única coisa que separava um navio de uma morte por desorientação em pleno oceano. Os astrolábios das armadas portuguesas do século XV e XVI foram encontrados em naufrágios, no fundo do Índico, no litoral da África do Sul, no Canal de Moçambique. O mar conservou-os. Quando os mergulhadores os trazem à superfície, saem verdes de oxidação e ainda exatos — os graus ainda lá estão, legíveis, como se o universo tivesse ficado à espera. Há uma complicação específica de cruzar o equador que os tratados de navegação raramente descrevem com clareza suficiente. Quando uma caravela portuguesa descia ao longo da costa africana e atravessava a linha, a Estrela Polar — Polaris, o ponto fixo em torno do qual o céu setentrional parecia girar — descia até ao horizonte e desaparecia. O instrumento de referência com que os marinheiros do hemisfério norte se orientavam há milénios deixava de existir. O céu novo que aparecia a sul era outro céu inteiramente: constelações sem nomes europeus, sem tradição cartográfica, sem história de uso. O Cruzeiro do Sul estava lá — mas para servir de bússola celeste era preciso primeiro saber usá-lo. Ao contrário de Polaris, que fica quase exatamente no polo norte celeste, não existe nenhuma estrela brilhante no polo sul. O Cruzeiro do Sul aponta para ele por aproximação, através de uma extrapolação geométrica que exige treino e condições de visibilidade específicas. Os navegadores portugueses desenvolveram o método ao longo de décadas de viagens. Não era um dom natural. Era uma competência técnica adquirida, transmitida, codificada. Em 1509 — nove anos depois da carta de Faras — foi impresso o Regimento do Estrolábio e do Quadrante, o primeiro manual prático de navegação astronómica em língua europeia. Codificou em papel o que homens como Faras tinham aprendido a fazer a bordo: como medir, como calcular, como converter um ângulo numa posição num mapa. Era a astronomia transformada em protocolo de sobrevivência. Há uma experiência que os tratados raramente descrevem: o que sente um marinheiro quando a costa desaparece atrás e o navio entra em pleno oceano de noite. Não há horizonte visível — há apenas a separação entre o negro do mar e o negro do céu, marcada, nos bons momentos, pela linha de fosforescência que a proa vai abrindo na água. O universo, nessas noites, não é uma abstração. É o ambiente imediato, total, sem intervalo. Está em baixo e em cima e dos dois lados. A única coisa que o marinheiro tem para se situar nele é o ângulo de uma estrela acima da linha onde o negro muda de textura. Neste contexto, a insignificância não é uma descoberta filosófica. É uma condição sensorial que precede qualquer pensamento sobre ela. Em 1485 — quinze anos antes da viagem ao Brasil — Faras tinha participado, sob as ordens de D. João II, nos ensaios de determinação de latitude por observação da altura do sol ao meio-dia. As "experiências de Valença", como ficaram conhecidas, tentavam resolver um dos problemas práticos mais urgentes da expansão marítima: como saber com precisão onde estás, no meio do oceano, sem pontos de referência visíveis. A resposta exigiu astronomia, matemática e instrumentação. Exigiu também que alguém fizesse medições repetidas em condições adversas, em terra estranha, com o rei à espera dos resultados. Faras fez isso. Foi, de uma forma que o século XVI não tinha ainda vocabulário para nomear, o primeiro cientista de campo da oceanografia europeia — um homem que aplicou o método antes de o método ter esse nome. Não há estátua de Faras no Padrão dos Descobrimentos. Não há rua com o seu nome em Lisboa. O que sobrou é a carta de 1 de maio de 1500, guardada no Arquivo Nacional da Torre do Tombo, num invólucro de conservação, em papel envelhecido de cinco séculos. A carta que descreveu o Cruzeiro do Sul pela primeira vez com precisão cartográfica. Um relatório de trabalho. Kant escreveu, em 1788, que o que mais o enchia de admiração era "o céu estrelado por cima de mim e a lei moral dentro de mim". Estava a fazer do universo uma experiência interior — o cosmos como espelho da consciência, a imensidão como catalisador da reflexão ética. A filosofia ocidental tendeu a seguir esse caminho: o universo como escala que mede a insignificância humana e, por esse confronto, paradoxalmente a engrandece. É uma relação estética com o infinito, e é por essa razão que produz o sublime em vez de soluções. Os navegadores portugueses do século XV precisavam de saber qual era a sua latitude. O Cruzeiro do Sul interessava não porque era belo mas porque estava sempre a sul — e sul era a direção de casa, ou a direção de volta, ou a direção do próximo porto. O céu era cartografia, não metafísica. A mesma imensidão que Kant usou para fundar uma ética, os navegadores usaram para não se perderem. As implicações divergem tanto que é quase impossível acreditar que estavam a olhar para o mesmo objeto. Há uma forma de falar sobre o universo que se tornou dominante na cultura ocidental contemporânea: começa com a vertigem da escala, passa pela comédia da insignificância humana, e termina num tipo específico de alívio existencial. O universo é vasto, nós somos pequenos, e isso é de alguma forma reconfortante — porque se não somos o centro de nada, também não somos responsáveis por nada. A cosmologia do "tanto faz": o cosmos invocado como prova de que as nossas preocupações são, ao nível galáctico, irrelevantes. O universo observável tem um diâmetro de cerca de 93 mil milhões de anos-luz. A Via Láctea tem entre 100 e 200 mil milhões de estrelas. O Sol é uma delas, de tamanho mediano, a cerca de 26 000 anos-luz do centro da galáxia. A Terra é um dos oito planetas do sistema solar. Sobre a Terra, em Portugal, neste momento, vivem pouco mais de dez milhões de pessoas. Esta cadeia de números produz um efeito quase inevitável em quem a lê: a sensação de que a desproporção é tão grande que qualquer preocupação humana se torna automaticamente ridícula. A lógica de que se o universo tem 93 mil milhões de anos-luz e eu tenho de pagar a renda até ao dia 5, um dos dois problemas é uma ilusão. O problema é que esta lógica funciona ao contrário do que promete. Em vez de produzir humildade, produz irresponsabilidade. O universo não tira conclusões sobre a relevância dos problemas humanos — somos nós que as tiramos, e tiramos as que nos são mais convenientes. Para Faras, o tamanho do universo era uma variável operacional: o ângulo do Cruzeiro do Sul acima do horizonte determinava a latitude, a latitude determinava a posição, a posição determinava se o navio chegava ou não ao destino. Se errasse a medição, as pessoas morriam. A insignificância não era, neste contexto, uma conclusão filosófica. Era o ambiente de trabalho. Há uma fotografia tirada em 2019, no Cerro Paranal, no Chile, que mostra o Very Large Telescope da ESO com um dos seus braços apontado ao céu noturno do hemisfério sul. O céu por cima é o mesmo que Faras viu naquela noite de abril de 1500, corrigidas as posições estelares pelo movimento de precessão da Terra ao longo de cinco séculos. O Cruzeiro do Sul ainda está lá. Portugal é membro da ESO — a Organização Europeia para a Investigação Astronómica no Hemisfério Sul — desde 2000, exatamente quinhentos anos depois da carta de Faras. Não é uma coincidência com sentido. Mas é uma coincidência que tem graça. O VLT é, entre muitas outras coisas, um instrumento de medição. Os seus espelhos de 8,2 metros de diâmetro recolhem luz de objetos a biliões de anos-luz de distância. É o astrolábio de bronze elevado a uma escala que Faras não poderia imaginar, com a mesma função essencial: saber onde estamos, o que existe, qual é a geometria do lugar. A vertigem filosófica que o telescópio moderno produziu na cultura popular — a sensação de que ver mais longe no espaço é confirmar a própria insignificância — não é errada. É incompleta. Ver mais longe é também perceber com mais exatidão; é, no fundo, uma atividade de redução de incerteza. O observatório mais antigo de Portugal ainda em funcionamento fica na Tapada da Ajuda, em Lisboa. Foi fundado em 1861, sobre uma colina que dá para o Tejo. Nos primeiros anos, os astrónomos que lá trabalhavam faziam medições de posição estelar com a precisão que os instrumentos da época permitiam — décimas de segundo de arco, ao longo de noites frias de inverno. Compilavam catálogos. Comparavam-nos com os de Berlim, de Paris, de Greenwich. Corrigiam os erros uns dos outros. A ciência europeia do século XIX funcionava como uma rede interligada por esse mesmo princípio — a mesma lógica coletiva que tinha permitido a Portugal, três séculos antes, codificar o conhecimento dos pilotos de bordo num manual de navegação. O universo como objeto de trabalho coletivo, progressivo, corrigível. Hoje, o domo ainda roda. Nas noites em que o céu de Lisboa está suficientemente limpo — o que acontece cada vez menos — ainda é possível ver, de lá, o Cruzeiro do Sul baixo no horizonte sul. João Faras saiu da história com a mesma discrição com que entrou. Não há registo certo da data da sua morte. Sabe-se que em 1504 estava vivo e em Lisboa; depois, o nome desaparece dos documentos da corte. É possível que tenha morrido nesse período. É possível que simplesmente tenha passado para onde os registos não chegavam. O Cruzeiro do Sul ficou. Está na bandeira do Brasil — aquele país que Faras visitou em 1500, quando não tinha nome nem bandeira. Está também na da Austrália, da Nova Zelândia, de Papua Nova Guiné, de Samoa. São territórios a que os navegadores portugueses chegaram primeiro e que outros depois reclamaram — o que não é um lamento, apenas um dado geográfico e histórico. A constelação continua a apontar a sul. Já ninguém a usa para navegar. É a beleza inútil de uma infraestrutura aposentada, o que acontece com toda a tecnologia que durou o suficiente para ser ultrapassada. A diferença é que, durante dois séculos, o Cruzeiro do Sul não era decoração. Era a diferença entre chegar e não chegar. Portugal foi o primeiro país ocidental a ter com o cosmos uma relação que não era contemplação mas contrato — a barganha de quem usa as estrelas para não morrer. E depois esqueceu Faras. O Cruzeiro do Sul está onde sempre esteve, indiferente às bandeiras que o adotaram e às que não o adotaram, aos astrolábios que o mediram e aos telescópios que já não precisam de o medir. À espera de que alguém precise. #AtlanticLisbon #Portugal #Astronomia #Navegação #HistóriaDoConhecimento
- Tiro e a Guerra do Líbano: Ficar É um Argumento Político
Durante décadas, o Litani existiu menos como acidente geográfico do que como linha diplomática. Nasce nas montanhas do Anti-Líbano, atravessa o vale da Bekaa e dobra para oeste antes de desaguar no Mediterrâneo a poucos quilómetros de Tiro. Não é um rio de grande escala — o seu caudal é modesto, as suas margens pouco dramáticas. Durante décadas, foi principalmente uma questão de gestão hídrica regional, objeto de negociações técnicas e de algum contencioso entre o Líbano, Israel e a Síria. Por que razão os residentes de Tiro recusam evacuar mesmo com a guerra a intensificar-se? Autor: Elian Morvane Na resolução 1701 do Conselho de Segurança, aprovada após a guerra de 2006, o Litani foi consagrado como fronteira implícita: as forças do Hezbollah deveriam retirar-se para norte do rio, e as forças israelitas deveriam retirar-se do Líbano. Nenhuma das partes cumpriu integralmente. O Hezbollah ficou a sul. Israel continuou a realizar operações aéreas. O rio manteve-se como linha simbólica num conflito que a simbologia nunca chegou a gerir. O que mudou nas últimas semanas é que o Litani deixou de ser uma fronteira de segurança para se tornar uma fronteira demográfica. Quando Israel declarou que os residentes das zonas a sul do rio deviam evacuar, e quando o ministro da Defesa, Israel Katz, foi explícito ao dizer que os residentes xiitas que partissem não poderiam regressar enquanto a segurança do norte israelita não estivesse garantida, o rio mudou de natureza. Tornou-se a linha entre o que pode ser reocupado e o que pode não ser. É esta transformação — de fronteira de segurança para fronteira de pertença — que permite ler o que está a acontecer em Tiro. O aviso de evacuação é, neste conflito, um instrumento recorrente. Israel tem-no utilizado em várias formas ao longo de décadas de conflito: panfletos largados de aviões, mensagens de texto, chamadas automáticas, anúncios de rádio. A doutrina subjacente é que a notificação prévia de uma operação militar desobriga o atacante de parte da responsabilidade pelas vítimas civis — se os civis foram avisados e não partiram, a decisão de ficar é deles. Do ponto de vista do direito internacional humanitário, a questão é mais complexa: um aviso não substitui a obrigação de distinguir entre combatentes e não-combatentes, nem de evitar danos desproporcionais. Mas do ponto de vista da gestão da percepção, o aviso cumpre uma função política que vai além do âmbito jurídico. Transfere o ónus moral. O problema é que um aviso de evacuação só é humanitário se houver um regresso garantido. Se não houver, é outra coisa. A declaração de Katz não é ambígua: os residentes xiitas não podem regressar até que a segurança do norte israelita esteja assegurada. Esta condição tem uma característica peculiar: não tem critério objetivo de cumprimento. "Segurança assegurada" é uma condição política, não uma constatação técnica. Pode ser invocada indefinidamente por qualquer governo que queira invocá-la. O que significa, em termos práticos, que o regresso dos deslocados não depende de uma avaliação de segurança mas de uma decisão política israelita tomada num momento indeterminado do futuro. Se essa decisão nunca for tomada — ou for tomada sob condições que a tornam impraticável — a evacuação torna-se permanente. Os residentes de Tiro perceberam isto antes de qualquer analista o articular formalmente. Não por acesso a relatórios de política externa, mas por experiência acumulada e por uma leitura direta do que Katz disse. Os números ajudam a perceber porquê: o dobro dos residentes que ficaram durante a escalada de 2024 escolheu ficar desta vez, apesar de a violência ser mais intensa. E cerca de vinte mil pessoas que fugiram das aldeias do sul escolheram ficar em Tiro — dentro da zona declarada de evacuação — em vez de atravessarem o Litani para norte. A lógica desta escolha não é irracional nem ideológica. É uma avaliação de risco de prazo longo sobre a qual o conflito em curso tem pouco a dizer: a probabilidade de poder regressar a uma casa que abandonaste é menor do que a probabilidade de poder ficar numa casa que não abandonaste, mesmo que o custo imediato seja mais elevado. Numa guerra, as populações fazem cálculos que os analistas raramente modelam com precisão, porque envolvem variáveis que os modelos tendem a ignorar: a memória de situações análogas, a desconfiança acumulada em relação às garantias externas, e a percepção de que o despovoamento tem uma inércia própria — que uma casa vazia durante dois anos não é a mesma coisa que uma casa vazia durante dois meses. O sul do Líbano tem uma história específica com este tipo de cálculo. Em 1948, aldeias palestinianas foram evacuadas sob pressão militar e os seus habitantes nunca regressaram — as aldeias foram demolidas ou reocupadas, e o direito de regresso tornou-se uma das questões centrais do conflito israelo-palestiniano ao longo de décadas. Os residentes do sul do Líbano conhecem esta história. Vivem geograficamente próximos dela. E as famílias xiitas que habitam aldeias a sul do Litani partilham frequentemente laços de parentesco, política e memória com comunidades que viveram deslocamentos anteriores. Quando Katz fala em não deixar regressar os residentes xiitas, está a falar numa língua que o sul do Líbano já ouviu antes, em versões anteriores. Não se trata de equivalência histórica — as situações são distintas em contexto e em escala. Trata-se de uma leitura do padrão. E o padrão diz que quando alguém declara que a tua permanência num território está condicionada a uma decisão que só ele toma, partir é um risco existencial. Israel, por seu lado, tem os seus próprios cálculos. A zona a sul do Litani — cerca de dez por cento do território libanês — passou a ser tratada, na prática, como espaço de controlo militar cuja reversibilidade permanece incerta no âmbito da operação terrestre. A experiência de ocupações anteriores — incluindo a ocupação do sul do Líbano entre 1985 e 2000, que terminou com uma retirada descrita por alguns analistas israelitas como uma derrota política — pesa sobre a decisão de como gerir o período pós-combate. A presença de uma população civil hostil numa zona de operações cria fricção; a ausência dessa população simplifica o controlo do terreno. Isto não significa que o despovoamento seja um objetivo declarado da operação israelita. Significa que é uma consequência que serve os objetivos operacionais imediatos, independentemente de qualquer declaração de intenção. Num dia de outubro, mais de trezentas pessoas foram mortas em todo o Líbano num único dia — o número mais alto desde o início do conflito. Os ataques abrangeram múltiplas regiões e incluíram zonas densamente habitadas. Um nível de violência desta escala não é apenas um dado de casualidades: é uma comunicação. Diz às populações que nenhum lugar a sul de uma determinada linha é seguro o suficiente para nele permanecer. Esse é precisamente o efeito que a combinação de ataques aéreos e avisos de evacuação produz: uma pressão coordenada para o deslocamento, que não precisa de ser declarada como objetivo para funcionar como tal. Os que ficam fazem-no conscientes desta pressão, não imunes a ela. A diferença entre os que ficam e os que partem não é a coragem — é a avaliação do que é menos mau num horizonte que nenhum dos dois grupos controla. Quem fica aceita um risco físico imediato elevado em troca de uma posição territorial que considera estrategicamente superior a longo prazo. Quem parte aceita um risco existencial de longo prazo em troca de segurança física imediata. São duas respostas racionais a uma situação irracional, e a guerra tende a transformar a escolha de quem ficou em heroísmo e a de quem partiu em fraqueza — o que é uma simplificação que serve narrativas mas não analisa nada. O Hezbollah está presente em Tiro de forma declarada e territorialmente visível. Para perceber o que esta presença significa é necessário abandonar a pergunta errada, que é "os residentes apoiam o Hezbollah?", e fazer a pergunta certa, que é "que vazio o Hezbollah preenche que o Estado libanês deixou em aberto?" O Estado libanês tem uma incapacidade estrutural crónica para exercer autoridade no sul do país. As razões são conhecidas e complexas: o sistema confessional que distribui o poder institucional por linhas sectárias e produz paralisia executiva; a ausência de um exército nacional capaz de impor soberania efectiva na fronteira sul; a dependência financeira de transferências externas que criam lealdades que atravessam as fronteiras do Estado. O resultado é que, durante décadas, o sul do Líbano foi governado por uma combinação de presença estatal nominal e autoridade efectiva do Hezbollah — nos serviços sociais, na segurança local, na arbitragem de conflitos, na representação política. Quando os residentes de Tiro dizem que o Hezbollah é o único que os defende contra Israel, não estão necessariamente a expressar afinidade ideológica com o projeto político do Hezbollah ou com o Irão que o financia. Estão a descrever uma realidade de poder: na ausência de uma força alternativa capaz de opor resistência militar a Israel, o Hezbollah é a única organização presente que tem essa capacidade. Esta descrição não é aprovação. É o reconhecimento pragmático de uma estrutura de poder em que as populações civis do sul do Líbano não tiveram escolha significativa — porque o Estado que teoricamente as representa nunca criou as condições para essa escolha. A guerra, paradoxalmente, reforça esta dinâmica. Cada ataque aéreo que não distingue entre infraestrutura militar e civil, cada declaração que condiciona o regresso dos residentes xiitas a critérios unilaterais, cada dia em que o governo libanês se mostra incapaz de intervir, consolida a narrativa de que a única proteção disponível é a que o Hezbollah oferece. Os factos fazem esse trabalho de forma mais eficiente do que qualquer propaganda. A guerra cria as condições para a legitimação do único ator presente. A fragilidade mais difícil de analisar não é a militar nem a política — é a social. Tiro é uma cidade com uma composição sectária diversa: a maioria xiita coexiste com minorias cristãs e sunitas com graus variados de integração que foram construídos ao longo de décadas de vida comum. Mercados, escolas, redes profissionais, casamentos inter-comunais, o tipo de tecido que se forma quando pessoas de origens diferentes partilham um espaço suficientemente longo para desenvolverem dependências mútuas que ultrapassam a identidade sectária. A guerra está a revelar o que este tecido sempre exigiu para funcionar: a ausência de risco diferencial. A coexistência funciona quando os riscos de estar com o outro são semelhantes aos de estar sozinho. Quando os ataques começam a ser percebidos como setorialmente dirigidos — quando os residentes não-xiitas percebem que proximidade com vizinhos xiitas pode aumentar o seu próprio risco de ser atingidos — a lógica da coexistência inverte-se. Não por hostilidade declarada, mas por cálculo de sobrevivência que acaba por produzir os mesmos efeitos que a hostilidade. Este processo é mais difícil de reverter do que os danos materiais. Uma casa destrói-se em segundos e reconstrói-se em meses ou anos, com dinheiro suficiente. O hábito de confiar no vizinho, de aceitar um convite sem que esse gesto se transforme, antes de mais, num cálculo de risco, de partilhar um espaço sem que a presença do outro passe a carregar um peso estratégico — esse hábito, uma vez perdido, não se reconstrói por decreto nem por financiamento. Reconstrói-se, se for reconstruído, através de anos de vida comum sem ameaça. E para isso é necessária uma condição que a guerra, por definição, elimina. O que está em causa em Tiro não é apenas uma cidade sitiada. É o teste de uma proposição que tem implicações que vão muito além do conflito israelo-libanês imediato: é possível declarar uma zona de evacuação "humanitária" com condições de regresso indefiníveis e não ser responsável pelas consequências demográficas permanentes dessa declaração? A resposta jurídica é incerta — o direito internacional humanitário não foi concebido para lidar com estas situações de forma limpa. A resposta política depende de quem tem poder para a dar, e neste momento esse poder está distribuído entre atores — Israel, Hezbollah, Irão, as potências ocidentais que financiam o processo diplomático — cujos interesses convergem em poucos pontos e divergem nos que importam. A resposta das populações é a única que não precisa de esperar por uma decisão exterior: fica quem acha que ficar vale o custo. E o facto de esse número ser, neste conflito, o dobro do que foi no anterior, sugere que a percepção do custo de partir aumentou mais do que a percepção do custo de ficar — mesmo com trezentos mortos num único dia, mesmo com o Litani a transformar-se numa linha que ninguém sabe quando, ou se, vai voltar a poder ser atravessada de sul para norte. A linha que o Litani representa — agora menos hídrica do que política, menos geográfica do que demográfica — vai demorar mais a apagar do que qualquer conflito a que um acordo de cessar-fogo possa pôr fim. #Líbano #Tiro #Litani #Isarel #Hezbollah
- O Cansaço da Autoridade
ANÁLISE · Mundo · Estados Unidos · Poder Executivo O número surge num ecrã de telemóvel, entre notificações que já não surpreendem. Trinta e sete. Não é um valor isolado, nem um choque súbito. É um degrau a menos numa escada que desce devagar. A aprovação presidencial de Donald Trump, medida por uma sondagem nacional divulgada esta semana, voltou a recuar. A política como máscara - Donald Trump é retratado num ambiente formal, com uma máscara vermelha onde se lê “Make America Great Again”, num enquadramento que sobrepõe identidade política, comunicação mediática e poder institucional. O gesto que se segue — deslizar o dedo e fechar a aplicação — diz tanto como o número: a erosão deixou de ser notícia e passou a ser ambiente. O que está em causa não é apenas a popularidade de Donald Trump. É a forma como a autoridade executiva se comporta quando entra numa fase de desgaste contínuo, sem colapso visível, mas também sem capacidade clara de recomposição. A sondagem do Pew Research Center não inaugura uma crise; descreve um estado. Durante meses, a presidência americana tem funcionado num registo de atrito permanente. Não há um acontecimento único que explique o recuo. Há uma sucessão de decisões, confrontos institucionais, disputas simbólicas e episódios de força que, acumulados, produzem fadiga política. O sistema não falha; cansa. A aprovação como termómetro tardio As sondagens presidenciais raramente captam o momento exato em que algo muda. Funcionam como instrumentos de confirmação. Quando os números se movem, o movimento já aconteceu algures antes — nas conversas privadas, nas escolhas eleitorais intermédias, no silêncio de quem deixou de defender. O recuo agora registado não altera a base do poder presidencial: o apoio partidário mantém-se maioritário entre republicanos. Mas revela uma fragilidade noutro ponto: a dificuldade em reter confiança fora do núcleo fiel. É nesse espaço intermédio — independentes, eleitores voláteis, apoiantes condicionais — que a autoridade executiva se mede quando deixa de crescer e passa a resistir. O dado relevante não é apenas a percentagem de aprovação. É o conjunto de indicadores que a rodeiam: expectativas defraudadas, confiança em queda, reservas quanto à capacidade de liderança, dúvidas sobre critérios éticos. Nenhum destes elementos, isoladamente, é decisivo. Juntos, formam um padrão. Governação em modo defensivo Quando um executivo entra numa fase de desgaste, tende a ajustar o seu comportamento. O discurso torna-se mais rígido. A margem para compromisso encolhe. As decisões passam a ser tomadas com um olho no efeito imediato e outro na reação da base. Este padrão não é exclusivo desta presidência. Mas aqui assume contornos particulares por duas razões: a centralidade do confronto como método político e a personalização extrema da autoridade. Num sistema assim, cada recuo nos índices de confiança é lido como ataque, não como aviso. O resultado é uma governação em modo defensivo. Não necessariamente mais cautelosa, mas mais reativa. As políticas avançam menos por consenso e mais por insistência. O custo político de cada decisão sobe, mas o incentivo à correção diminui. A imigração como eixo de fricção Entre os vários temas que atravessam este momento, a imigração ocupa um lugar especial. Não apenas pelo impacto material das medidas adotadas, mas pelo seu valor simbólico. É um domínio onde a administração investiu capital político significativo e onde a resposta pública se tornou mais polarizada. A contestação recente às práticas de aplicação da lei migratória não alterou a linha geral do executivo, mas ampliou a perceção de um governo disposto a suportar conflito prolongado. Episódios envolvendo o uso da força por agentes federais funcionam aqui como catalisadores: não criam a tensão, mas tornam-na visível. A sondagem foi realizada enquanto esse ambiente se adensava. Não é possível afirmar uma relação causal direta. Mas é possível observar uma coincidência temporal entre a intensificação do debate e a quebra adicional de confiança em dimensões como ética e liderança. O Congresso como espelho O desgaste presidencial não se mede apenas nas sondagens. Mede-se também na relação com o Congresso. Quando a confiança no executivo diminui, o espaço para negociação estreita-se. As votações tornam-se testes de força. O risco de bloqueio institucional cresce. A dificuldade em assegurar consensos mínimos em matérias orçamentais e de financiamento de agências federais não resulta apenas de divergências ideológicas. Resulta de um ambiente em que ceder é visto como fraqueza e resistir como obrigação identitária. Este contexto empurra os partidos para posições mais rígidas. Do lado democrata, cresce a pressão para confronto aberto. Do lado republicano, aumenta a dependência da figura presidencial como garante de coesão. O sistema fecha-se sobre si próprio. Confiança: o recurso invisível Governar exige mais do que autoridade formal. Exige confiança difusa — a perceção de que o líder sabe o que faz, escolhe bem quem o rodeia e respeita regras básicas do jogo democrático. Quando essa confiança se desgasta, o poder não desaparece; torna-se mais caro de exercer. Os indicadores de confiança medidos pelo Pew mostram uma erosão transversal. Não se trata apenas de discordância política, mas de reservas quanto à competência, à ética e à capacidade de julgamento. Estes são sinais difíceis de inverter com uma vitória legislativa ou uma decisão executiva. A confiança, uma vez perdida, raramente regressa por imposição. Requer tempo, previsibilidade e, muitas vezes, mudança de tom. Nenhuma destas variáveis parece dominante neste momento. Um sistema que aguenta — por agora Nada no retrato atual sugere um colapso iminente. A presidência mantém instrumentos de poder intactos. A base partidária continua mobilizada. As instituições funcionam. Mas o sistema opera com menor folga. A política americana tem experiência em absorver tensões prolongadas. O risco não está numa rutura súbita, mas na normalização do conflito como estado permanente. Quando o desgaste deixa de ser exceção e passa a ser rotina, a capacidade de resposta estratégica diminui. O executivo continua a agir. Mas age num ambiente onde cada passo é contestado, cada erro amplificado e cada correção interpretada como recuo. O que ainda não se sabe Não é claro se este declínio representa uma tendência duradoura ou uma oscilação conjuntural. Não é claro se os independentes regressarão à neutralidade ou se o afastamento se consolidará. Não é claro se a base republicana permanecerá coesa perante novos choques políticos. O que é claro é que a presidência americana entrou numa fase em que os números deixaram de ser apenas retrato e passaram a ser condicionantes. A margem de manobra existe, mas é mais estreita. O custo de errar é mais elevado. A autoridade política raramente se perde de um dia para o outro. Desgasta-se. Primeiro nos índices. Depois no tom. Por fim, na capacidade de impor agenda sem recorrer ao confronto permanente. A sondagem desta semana não define o destino de uma presidência. Mas confirma algo mais discreto e mais relevante: o poder executivo nos Estados Unidos está a funcionar sob pressão contínua, com menos confiança disponível e mais resistência acumulada. E esse tipo de pressão, quando se prolonga, não derruba sistemas. Torna-os rígidos. Imagem: - Visuals A Equipa do Atlantic Lisbon Subscrever a Newsletter
- A Primeira-Dama Americana e a Encenação do Poder
ANÁLISE · Estados Unidos · Poder Simbólico · Comunicação Política O carro avança devagar, vidros escuros, ruído de aeroporto ao fundo. Melania Trump olha para fora como quem ensaia uma distância: não do lugar, mas do momento. Não fala. Observa. A câmara insiste no perfil, na linha do maxilar, na contenção do gesto. É um plano simples, quase banal — e precisamente por isso eficaz. Figura feminina em pose contida, desenhada a lápis, evocando o papel simbólico da primeira-dama americana como presença estética e política sem poder formal. A política contemporânea aprendeu que o silêncio bem enquadrado vale mais do que um discurso mal escolhido. Durante décadas, a figura da primeira-dama oscilou entre dois papéis previsíveis: o ornamento e a consciência moral. O que agora se desenha é outra coisa. Não se trata de intervenção política direta, nem de ativismo discreto. Trata-se de gestão de símbolo. Melania Trump não ocupa o centro do poder; ocupa o enquadramento. E num sistema saturado de muitas comunicações, quem controla o enquadramento controla metade da narrativa. O filme que acompanha os dias que antecedem a tomada de posse não revela segredos de Estado nem expõe conflitos internos. Revela algo mais disfarçado: a transformação da intimidade em instrumento político. Cada prova de roupa, cada escolha de tecido, cada correção de lapela é apresentada como decisão criativa — mas também como gesto de autoridade. Não autoridade institucional, mas autoridade estética. E a estética, quando repetida e legitimada, converte-se em linguagem de poder. Há um momento particularmente revelador: a pergunta lançada quase de passagem — “tens um bom vestido?”. Não é trivial. Num sistema político cada vez mais performativo, o “bom vestido” não serve apenas para agradar; serve para estabilizar. O visual torna-se promessa de ordem, de controlo, de previsibilidade. Enquanto o discurso político fragmenta, o corpo bem composto oferece uma ilusão de coerência. O mesmo se passa com o consumo mediático. Melania vê televisão. Vê a CNN. O detalhe é pequeno, mas significativo. Não é a confirmação de pluralismo; é a prova de vigilância. O poder observa-se a si próprio através do ecrã. Não para dialogar, mas para medir impacto. A política deixa de ser apenas ação; passa a ser monitorização permanente da reação. Este modelo não é novo, mas aqui ganha intensidade. A primeira-dama surge como figura de transição entre o privado e o institucional, entre o lar e o Estado. A câmara acompanha-a de costas, como se o espectador fosse membro do staff. É um truque clássico: quem vê sente que pertence. E a sensação de pertença é um dos recursos mais eficazes do poder contemporâneo. Ao contrário do que a narrativa promocional sugere, não há reinvenção do cargo. Há reconfiguração do papel simbólico. A Presidência continua a falar alto; a primeira-dama fala baixo. Mas esse tom baixo não é ausência — é estratégia. Enquanto o confronto domina o espaço público, a contenção transforma-se em valor diferencial. O risco desta construção não está no que mostra, mas no que normaliza. Quando o poder passa a ser apresentado sobretudo como estilo, a crítica tende a deslocar-se do conteúdo para a forma. Discute-se o vestido, o chapéu, a encenação — e menos o enquadramento político que essas escolhas ajudam a legitimar. O símbolo ocupa o espaço onde antes havia debate. Nada disto implica cálculo maquiavélico permanente. Implica, sim, adaptação a um ecossistema mediático onde a política se consome como imagem contínua. A figura que melhor se move nesse terreno não precisa de falar muito. Precisa apenas de não falhar o enquadramento. O filme termina como começou: com a promessa de propósito e estilo. A frase parece inofensiva. Não é. Quando o estilo passa a ser apresentado como substituto do propósito, o sistema entra numa zona cinzenta. Não colapsa. Funciona. Mas funciona deslocado — mais atento à superfície do que à fricção real que atravessa a sociedade. O vestido não governa. O ecrã não decide. Mas ambos ajudam a definir o clima em que as decisões são aceites. E, em política, o clima raramente é neutro. A Equipa do Atlantic Lisbon Subscrever a Newsletter











