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  • Pamela Harriman: os milhões, o poder e a disputa familiar

    Sonia Purnell atribui a Pamela Harriman uma intervenção importante na política transatlântica. Numa recensão de abril de 2026, Azadeh Moaveni contesta a leitura dos documentos que sustenta essa influência. Quanto poder tinha Pamela Harriman? Quando Bill Clinton anunciou a intenção de nomear Pamela Harriman embaixadora em França, em março de 1993, a Casa Branca incluiu no comunicado a sua participação na campanha Clinton-Gore. Mencionou também os anos em que presidira ao Democrats for the ’80s, o comité de angariação de fundos conhecido como PamPAC. Pamela Harriman angariou fundos para os democratas e foi nomeada embaixadora em França em 1993. Ilustração editorial original para o Atlantic Lisbon. Os encontros promovidos por Harriman juntavam candidatos, especialistas e doadores. Num perfil publicado pela Time em julho de 1993, Martha Duffy descreveu lugares pagos a mil dólares e apontou para perto de 12 milhões de dólares angariados no contexto dessa atividade. Christopher Ogden, autor de uma biografia de Harriman, escreveu na mesma revista em 1997 que o comité reunira dez milhões. Atribuiu ainda mais de três milhões a um único dia de angariação para Clinton, em 1992, na propriedade de Middleburg, na Virgínia. Nenhum dos dois artigos discrimina as receitas de modo a permitir uma comparação dos totais. Em setembro de 1994, já embaixadora, Pamela foi processada em Nova Iorque por descendentes de Averell Harriman. Acusavam-na, juntamente com consultores financeiros, de ter desperdiçado 30 milhões de dólares em investimentos imprudentes. Bill Clinton no seu retrato oficial de 1993, após a campanha presidencial para a qual Pamela Harriman angariou fundos. Crédito: Governo dos Estados Unidos / Congressional Pictorial Directory, 1993. Domínio público; utilização gratuita. Outra ação, na Virgínia, alegava empréstimos a ela própria ou a empresas que controlava e pedia a sua substituição na administração dos fundos. O advogado de Pamela, Michael Helfer, contestava a iniciativa, que descrevia como mais uma tentativa de obter pagamentos para os herdeiros. O acordo anunciado em dezembro de 1995 encerrou os processos contra ela através de uma redistribuição de bens familiares. A notícia da Associated Press indicava que Pamela e os herdeiros prosseguiriam conjuntamente certas reclamações contra outros intervenientes. Os termos financeiros eram confidenciais. As acusações não ficaram estabelecidas por uma decisão judicial apresentada nessa notícia. A embaixada dos Estados Unidos em Paris, fotografada em 1933. Pamela Harriman exercia o cargo de embaixadora em França quando foi anunciado o acordo familiar de 1995. Crédito: Agence Mondial Photo-Presse / Bibliothèque nationale de France, via Gallica. Domínio público; utilização gratuita. Em Kingmaker, Sonia Purnell regressa à Londres da Segunda Guerra Mundial para investigar a intervenção de Pamela nas relações entre britânicos e americanos. Num excerto publicado em 2024, a autora explica que muito do que Harriman fez foi mantido em segredo por ela ou ignorado pelos outros. Os seus papéis estiveram fechados, outros documentos classificados e alguns dos amigos sobreviventes mostravam-se relutantes em falar. Sonia Purnell descreve quatro anos de investigação em Inglaterra, nos Estados Unidos e em França. Invoca novos documentos, cartas, diários e transcrições de entrevistas para rever um percurso que, segundo ela, fora reduzido às relações de Pamela com homens influentes. Pamela exercia parte dessa atividade em conversas e encontros privados, sem um cargo que produzisse um registo oficial do seu trabalho. Para reconstituí-lo, a investigação depende também da correspondência e dos testemunhos de quem a conheceu. O alcance político desses contactos é precisamente o que divide Purnell e Moaveni. Na London Review of Books, Moaveni reconhece que a biografia incorpora material novo dos papéis de Harriman na Biblioteca do Congresso. Contesta, porém, as conclusões retiradas pela autora. Segundo a reconstrução de Purnell descrita na recensão, Churchill queria que Roosevelt aceitasse reparar navios de guerra britânicos em portos americanos; Pamela defendeu essa pretensão; Averell Harriman acabou por convencer o presidente. Purnell atribui a Pamela um papel na obtenção do resultado. Moaveni considera que a ligação foi construída por inferências e limita a sua intervenção à de informadora útil. A dificuldade documental invocada por Purnell justifica procurar nos arquivos privados o trabalho que não aparece nos comunicados. No caso dos navios, a sua leitura exige ainda estabelecer como a intervenção atribuída a Pamela chegou à decisão de Roosevelt. Moaveni admite a existência de novos papéis; continua a discordar do que a biógrafa entende ter encontrado neles. #EstadosUnidos

  • A inteligência artificial disputa a poupança mundial

    Centros de dados em construção, Estados a refinanciar dívida e empresas a procurar crédito para fábricas e equipamentos coincidem no mesmo mercado de financiamento, com custos mais elevados. A dimensão dos projetos tecnológicos levanta uma questão que ultrapassa o setor: a expansão da inteligência artificial pode alterar as condições em que o resto da economia obtém financiamento. O dinheiro aplicado num centro de dados não fica necessariamente indisponível para outros investimentos. Pode pagar salários, encomendas a fornecedores, gerar lucros e regressar aos mercados. A eletricidade, os equipamentos, os terrenos, a capacidade industrial e o financiamento para construir e operar essas infraestruturas não são ilimitados. Quando a procura cresce mais depressa que a oferta, os custos sobem. As grandes tecnológicas financiam-se com resultados acumulados, emissão de dívida ou entradas de capital. Os Estados recorrem aos mercados para financiar défices e refinanciar obrigações anteriores. Outras empresas procuram crédito para construir ou expandir. Para dizer que uma empresa perdeu acesso ao crédito por causa de outra, seria preciso identificar alterações concretas em taxas de juro, prémios de risco ou disponibilidade de capital. A capacidade de uma tecnológica para obter financiamento em condições favoráveis não demonstra, por si só, essa perda. A hipótese económica relevante é outra: investimentos muito elevados concentrados num conjunto restrito de empresas e infraestruturas podem influenciar preços e condições de financiamento de outras atividades. O financiamento não é uma quantidade fixa que passa de um projeto para outro. Os bancos podem criar crédito, as empresas reinvestir resultados e os mercados mobilizar poupanças antes aplicadas noutros instrumentos. A construção de um centro de dados gera encomendas de equipamentos, serviços de engenharia, instalações elétricas e obras. Equipamentos do supercomputador Pleiades, no centro Ames da NASA, na Califórnia. Imagem de arquivo ilustrativa da infraestrutura de computação. Crédito: Dominic Hart / NASA Ames, domínio público. Fonte da imagem. Parte dos recursos regressa à economia sob a forma de receitas e rendimentos. Se existir capacidade produtiva disponível, o investimento adicional pode estimular a atividade. Se os equipamentos, os trabalhadores especializados ou a energia já estiverem sujeitos a uma forte procura, os novos projetos agravam as limitações. Financiamento e disponibilidade efetiva de recursos são problemas diferentes. Inteligência artificial, centros de dados e eletricidade Segundo a Agência Internacional de Energia, o investimento mundial em centros de dados aproximou-se de 500 mil milhões de dólares em 2024, praticamente o dobro de 2022. Nesse ano, estas instalações consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora, cerca de 1,5% do consumo mundial. No cenário central do relatório de 2025, o consumo deverá atingir aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030, com a inteligência artificial como principal motor desse crescimento, embora não seja a única atividade responsável pela procura dos centros. Uma empresa pode ter capital para construir e enfrentar dificuldades para obter potência elétrica no local escolhido. Redes, centrais e outras infraestruturas exigem investimento e tempo. A AIE estima que cerca de 20% dos projetos de centros de dados planeados possam enfrentar atrasos se não forem resolvidas limitações de integração nas redes elétricas. Subestação elétrica em construção perto de Erbil, no Iraque, em 2005. Imagem de arquivo ilustrativa dos equipamentos necessários à rede elétrica. Crédito: Jim Gordon / USACE, via DVIDS, domínio público. Fonte da imagem. Quando uma instalação exige novas linhas ou reforços da rede, coloca-se a questão de como se distribuem os custos entre o promotor, as empresas de energia e os restantes utilizadores do sistema. A documentação disponível não permite concluir que os consumidores domésticos estejam, de forma generalizada, a financiar centros de dados. Mostra que o crescimento destas instalações torna mais importante a forma como os custos de expansão das redes são atribuídos. O investimento privado pode criar necessidades de infraestrutura cujo financiamento depende de regras públicas. Dívida pública e financiamento A 7 de outubro, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, alertou para a combinação de dívida pública elevada, preços da energia e crescimento do investimento em inteligência artificial. O FMI identifica neste último um impulso à procura que pode contribuir para pressões inflacionistas, apesar dos potenciais ganhos de produtividade. Na semana terminada a 7 de outubro, os fundos monetários receberam entradas líquidas de aproximadamente 153,8 mil milhões de dólares, num contexto de venda de obrigações e subida das respetivas rendibilidades. Os preços da energia, as perspetivas de inflação, os défices públicos e as expectativas sobre taxas de juro são igualmente relevantes para esses movimentos. A subida das rendibilidades não constitui prova de que centros de dados estejam a retirar financiamento aos Estados. Os governos precisam de financiar a dívida e o investimento público enquanto a transformação tecnológica exige grandes volumes de capital. Se o custo do financiamento permanecer elevado, projetos com rentabilidade mais incerta tornam-se mais difíceis de concretizar. Empresas com maiores recursos financeiros resistem melhor do que as dependentes de crédito bancário ou financiamento externo. Essa vantagem pode resultar de diferenças na capacidade para suportar riscos, oferecer garantias e esperar pelo retorno, não necessariamente de uma transferência direta de dinheiro entre empresas. Edifício do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em Washington. Imagem de arquivo que acompanha a análise do financiamento público. Crédito: Carol M. Highsmith / Library of Congress, domínio público. Fonte da imagem. Inteligência artificial: Semicondutores e receitas esperadas As projeções para o terceiro trimestre de 2026 apontam para uma contribuição muito elevada das grandes tecnológicas para o crescimento dos lucros das empresas norte-americanas cotadas, com destaque para os semicondutores, devido à procura associada a infraestruturas de inteligência artificial. Fornecedores de equipamentos e serviços podem beneficiar da expansão da procura antes de todas as aplicações finais demonstrarem rentabilidade. Há uma diferença entre as receitas obtidas pelos fornecedores e os ganhos realizados pelos compradores. Quem adquire processadores, constrói centros e contrata eletricidade incorre em custos presentes; os benefícios esperados dependem da utilização futura da capacidade instalada e da receita que conseguir gerar. Se essa receita ficar abaixo das expectativas, permanecem equipamentos, edifícios, contratos e obrigações financeiras. Quando os mesmos pressupostos de crescimento influenciam simultaneamente a avaliação de tecnológicas, fabricantes de equipamentos e fornecedores de energia, uma revisão de expectativas afeta várias atividades que, à primeira vista, pertencem a setores diferentes. O risco de investimento pode estar distribuído por uma cadeia mais extensa do que o setor tecnológico propriamente dito. Pormenor de uma lâmina de chips do NIST. Imagem ilustrativa dos semicondutores que integram a infraestrutura tecnológica. Crédito: J. L. Lee / NIST, domínio público. Fonte da imagem. Inteligência artificial: Produtividade e custos de infraestrutura O investimento em inteligência artificial pode aumentar a produtividade de empresas e trabalhadores, criar serviços, melhorar processos industriais e reduzir custos de determinadas tarefas. Esses efeitos podem compensar parte dos recursos mobilizados. Se permitir produzir mais com os mesmos recursos, a economia ganha capacidade produtiva futura. O investimento inicial não representa apenas uma despesa concorrente com outras atividades. O problema está no intervalo entre custos presentes e benefícios esperados. Um centro de dados exige capital e eletricidade antes de se conhecer integralmente a procura pelos serviços que irá prestar. Os ganhos de produtividade dependem da adoção da tecnologia, da reorganização do trabalho e da capacidade das empresas para a utilizar. O FMI reconhece esse potencial e alerta para riscos financeiros e distributivos. Por isso, não basta medir o investimento anunciado. É preciso distinguir a despesa na construção, as receitas das empresas fornecedoras e os ganhos efetivos de produtividade obtidos pelos utilizadores finais. Os três resultados podem evoluir a ritmos diferentes. A expansão rápida do investimento não garante benefícios igualmente rápidos para o conjunto da economia, nem permite concluir que não venham a concretizar-se. A procura de eletricidade já exige planeamento de infraestruturas. A concentração de investimento em determinadas empresas aumenta a exposição dos mercados às suas expectativas de crescimento. Os Estados continuam a precisar de financiamento num contexto de dívida elevada e pressão sobre taxas de juro. Nada disto demonstra que a inteligência artificial seja responsável pelo encarecimento global do crédito, nem que o investimento tecnológico prejudique necessariamente os restantes setores. A relação que os dados permitem estabelecer é mais precisa: a expansão depende de recursos financeiros e materiais cuja disponibilidade e custo são influenciados pelas necessidades do resto da economia. As decisões sobre a expansão das redes elétricas, a distribuição dos custos de infraestrutura e as prioridades de investimento não podem ser avaliadas apenas pela rentabilidade privada de um projeto. Um centro de dados pode ser lucrativo para os proprietários e exigir investimentos adicionais na rede. Uma infraestrutura pública pode ter benefícios económicos importantes sem o mesmo retorno financeiro imediato. São situações diferentes, que exigem critérios distintos. A concorrência pelo capital não determina, por si só, qual dos projetos tem maior utilidade económica ou social. A expansão poderá aumentar a produtividade e criar capacidade suficiente para justificar os recursos que hoje mobiliza. Essa possibilidade não elimina os custos presentes nem as limitações físicas das infraestruturas. Não precisa de retirar dinheiro diretamente a outros setores para influenciar as condições em que operam. Basta que aumente a procura de recursos cuja oferta demora a expandir-se. É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma oportunidade para investidores tecnológicos e passa a constituir uma questão para a economia no seu conjunto. Fontes documentais Agência Internacional de Energia: Energy and AI (2025). Agência Internacional de Energia: Key Questions on Energy and AI (2026). Fundo Monetário Internacional: intervenção de Kristalina Georgieva, de 7 de outubro de 2026. Reuters / LSEG Lipper: entradas nos fundos monetários na semana terminada a 7 de outubro de 2026. Reuters / LSEG: projeções dos resultados empresariais para o terceiro trimestre de 2026. As projeções são identificadas como cenários, não como resultados garantidos. #EstadosUnidos #Europa #InteligênciaArtificial #NASA #Economia

  • Terrenos rústicos: conhecer a terra não basta contra o fogo

    Uma parcela de terreno abandonada pode parecer um problema exclusivamente privado. A vegetação cresce, os caminhos deixam de ser utilizados e os limites da propriedade tornam-se difíceis de identificar. Quando chega o verão, o que acontece nesse terreno pode afetar habitações, explorações agrícolas, infraestruturas e povoações inteiras. Portugal enfrenta há décadas dificuldades na identificação e gestão da propriedade rústica. Existem parcelas cujos proprietários são desconhecidos, heranças que permanecem indivisas e terrenos rústicos que deixaram de ter utilização económica regular. A fragmentação, particularmente acentuada em algumas regiões, dificulta a organização de intervenções à escala da paisagem. A transferência de competências e património para os municípios surge frequentemente como uma forma de aproximar a gestão do território das comunidades. As autarquias conhecem as necessidades locais, dispõem de instrumentos de planeamento e podem articular intervenções com proprietários e entidades públicas. A proximidade administrativa não resolve automaticamente os problemas. Identificar quem é responsável por um terreno, conhecer os seus limites e assegurar a sua gestão são tarefas diferentes. Transferir património sem garantir meios para o administrar pode apenas deslocar a responsabilidade de uma entidade pública para outra. A propriedade rústica apresenta características muito diferentes consoante as regiões. No Sul, existem explorações de grande dimensão, embora subsistam pequenas propriedades. No Norte e em parte do Centro, a fragmentação é frequentemente mais acentuada. Uma área florestal pode encontrar-se dividida entre dezenas de proprietários, cada um com parcelas de dimensão reduzida e interesses distintos. A prevenção dos incêndios rurais exige intervenções que ultrapassam frequentemente os limites de uma propriedade. A continuidade da vegetação, a existência de caminhos, a disposição das espécies e a proximidade de povoações influenciam a propagação do fogo. Uma parcela gerida adequadamente pode estar rodeada por terrenos sem intervenção. Uma área limpa pode voltar a acumular vegetação se não existir manutenção. Paisagem da aldeia de Gontães, em Vila Real, numa fotografia de arquivo de 2016. A gestão dos terrenos rústicos exige intervenções à escala da paisagem. Fotografia: Elisabete Machado, via Wikimedia Commons. Domínio público. Terrenos rústicos: matriz, registo e propriedade No relatório que acompanha o Orçamento do Estado para 2026, o Governo anuncia a transferência para os municípios dos imóveis rústicos integrados no domínio privado do Estado e inscritos em seu nome na matriz predial, sem contrapartida financeira. Apresenta três objetivos: promover a reutilização dos terrenos, reduzir o risco de incêndio e melhorar a gestão de proximidade. Segundo o relatório, o Estado é proprietário de cerca de 43 mil imóveis rústicos. Existem ainda mais de 65 mil prédios inscritos matricialmente a favor do Estado por não terem dono conhecido. Estes dois conjuntos não devem ser confundidos. A inscrição matricial de um prédio a favor do Estado por desconhecimento do proprietário não equivale necessariamente à demonstração de que o Estado é o seu legítimo proprietário. A matriz predial tem uma finalidade essencialmente fiscal. O registo predial destina-se a publicitar a situação jurídica dos imóveis. A identificação cadastral permite localizar e caracterizar as parcelas. São instrumentos relacionados, mas com funções diferentes. Um prédio cujo proprietário é desconhecido não pode ser tratado automaticamente como património público livre de direitos privados. A transferência anunciada exige uma delimitação jurídica rigorosa dos terrenos rústicos abrangidos. O Balcão Único do Prédio, conhecido como BUPi, foi criado para facilitar a identificação e georreferenciação de prédios rústicos e mistos. O sistema permite associar informação sobre a localização e os limites dos terrenos aos respetivos titulares, contribuindo para melhorar o conhecimento da estrutura fundiária. O Decreto-Lei n.º 87/2026, de 15 de abril, introduziu alterações ao regime de informação cadastral simplificada. Entre outras medidas, reforçou a representação gráfica georreferenciada em determinados atos de transmissão de propriedade e estabeleceu procedimentos destinados a melhorar a articulação entre a informação cadastral e o registo predial. Sem informação fiável sobre os limites das parcelas e os seus titulares, torna-se mais difícil organizar intervenções de gestão florestal, contactar proprietários ou identificar responsabilidades. Conhecer os limites de uma propriedade não garante que o terreno seja utilizado ou mantido. É necessário que a informação recolhida permita orientar decisões concretas de gestão. Em 28 de julho de 2026, o Ministério das Finanças anunciou que a ESTAMO tinha concluído a identificação de 60 mil imóveis públicos, antecipando a meta inicialmente prevista para o final do ano. O Governo indicou ainda que cerca de 67% do património do Estado era constituído por imóveis rústicos e anunciou a intenção de proceder ao seu registo no BUPi. Inventariar um imóvel não significa ter concluído a verificação dos seus limites, da sua situação registal e de todas as condições necessárias à sua transferência. O próprio Governo prevê para 2027 uma fase de consolidação e validação da informação recolhida. Esta etapa será particularmente importante para os terrenos rústicos. A existência de dados contraditórios entre a matriz, o registo e a representação geográfica pode criar dificuldades na gestão e na transmissão. A transferência para os municípios deverá assentar em informação suficientemente validada para evitar litígios e indefinições posteriores. Quem suporta a gestão dos terrenos rústicos? Uma câmara municipal pode conhecer melhor as necessidades de determinada freguesia, identificar terrenos estratégicos para a prevenção de incêndios e articular intervenções com proprietários vizinhos. Também pode integrar os imóveis recebidos em projetos de valorização ambiental, recuperação agrícola ou utilização comunitária, quando legalmente admissíveis. Mas uma parcela pode exigir um levantamento topográfico, regularização documental, abertura de acessos ou uma intervenção sobre a vegetação acumulada. Se estiver integrada numa área extensa e fragmentada, a sua gestão isolada pode ter uma utilidade reduzida. Os municípios apresentam capacidades financeiras e técnicas muito diferentes. Uma autarquia com receitas elevadas e serviços especializados não enfrenta as mesmas limitações de um município pouco povoado, com grande extensão territorial e reduzidos recursos próprios. A transferência gratuita elimina o preço de aquisição. Não elimina os custos futuros. Sem articulação sobre quem suporta as despesas de manutenção, que instrumentos de financiamento estão disponíveis e como serão definidas as prioridades, a descentralização pode transformar-se numa transferência de encargos. Troço da EN122 no Alentejo, numa imagem de arquivo de setembro de 2008. Os acessos e a manutenção são parte da gestão do território. Fotografia: PG 123, via Wikimedia Commons. Domínio público. O Sistema de Gestão Integrada de Fogos Rurais organiza a prevenção e a resposta através de instrumentos nacionais, regionais, sub-regionais e municipais. Os Programas Municipais de Execução destinam-se a concretizar no território as ações previstas nos níveis superiores de planeamento. Segundo a Agência para a Gestão Integrada de Fogos Rurais, estes programas são elaborados pelos municípios em articulação com as comissões municipais competentes e identificam intervenções destinadas a executar as prioridades estabelecidas. Quando um município passa a ser proprietário de uma parcela estratégica, pode dispor de maior capacidade para organizar a sua utilização, dentro das regras aplicáveis. O efeito depende da localização e das características dos terrenos rústicos. Uma pequena parcela isolada pode ter reduzida relevância para a prevenção. Um conjunto de terrenos contíguos pode permitir uma intervenção mais eficaz. É importante evitar a ideia de que a prevenção consiste apenas em eliminar vegetação. A gestão do combustível pode envolver diferentes técnicas, incluindo pastoreio, silvicultura, criação de descontinuidades e manutenção de áreas agrícolas. A escolha depende das condições ecológicas e dos objetivos. O abandono aparente de um terreno não permite concluir que o proprietário seja desconhecido ou tenha perdido os seus direitos. A parcela pode estar sem utilização regular e continuar a pertencer a uma pessoa identificada. Pode integrar uma herança indivisa ou estar sujeita a direitos de vários titulares. Também podem existir divergências entre a área constante da matriz e os limites efetivos do prédio. A proteção constitucional do direito de propriedade impede que a ausência de utilização seja tratada, por si só, como fundamento suficiente para uma apropriação administrativa automática. O Estado dispõe de instrumentos legais de intervenção, mas deve respeitar os requisitos previstos para cada um. A transferência de imóveis públicos para os municípios não pode ser confundida com uma transferência generalizada de terrenos privados abandonados. Terrenos rústicos: emparcelar, manter e avaliar A fragmentação dificulta a gestão de algumas áreas rurais. O emparcelamento procura reunir ou reorganizar parcelas, criando unidades fundiárias mais adequadas à utilização agrícola ou florestal. O Orçamento do Estado para 2026 prevê incentivos fiscais e isenções de emolumentos para determinadas operações de emparcelamento de prédios rústicos contíguos ou confinantes. O artigo 98.º da Lei n.º 73-A/2025 estabelece condições específicas para beneficiar destas medidas, incluindo a demonstração da titularidade dos terrenos e da sua contiguidade. A redução dos custos administrativos pode facilitar operações que, de outro modo, seriam economicamente pouco atrativas. Aumentar a dimensão de uma parcela não garante que exista uma atividade agrícola ou florestal rentável. Em algumas regiões, a falta de trabalhadores, a distância aos mercados e os custos de manutenção podem continuar a dificultar a utilização produtiva dos terrenos rústicos. O emparcelamento é um instrumento. Não substitui uma política de desenvolvimento rural. Alguns terrenos poderão ser adequados a projetos agrícolas ou florestais. Outros terão maior interesse para a conservação da natureza, a proteção de linhas de água ou a criação de áreas de gestão de combustível. Existem ainda parcelas que podem apoiar iniciativas comunitárias ou projetos de valorização paisagística. A alienação não é necessariamente a melhor solução em todos os casos. A manutenção da propriedade pública pode permitir intervenções de interesse coletivo que seriam mais difíceis de assegurar através de múltiplos proprietários privados. Por outro lado, conservar terrenos sem utilização definida pode prolongar situações de abandono. O número de imóveis transferidos será um indicador administrativo. Não demonstrará, por si só, que a política melhorou a gestão do território. Uma avaliação mais útil deverá identificar quantos terrenos foram efetivamente regularizados, quantos passaram a ter planos de utilização e quantos receberam intervenções de manutenção. Também será importante conhecer a área abrangida, a sua localização e os custos suportados pelos municípios. Na prevenção dos incêndios, a ausência de fogo numa determinada área não demonstra automaticamente que a intervenção foi eficaz. O comportamento dos incêndios depende de fatores meteorológicos, das características da vegetação, do relevo e das circunstâncias de ignição. É possível avaliar se as medidas previstas foram executadas, se as áreas estratégicas estão a ser mantidas e se existe continuidade entre as intervenções. Incêndios no Centro de Portugal observados pelo satélite Terra em 18 de junho de 2017. As marcações vermelhas assinalam focos ativos detetados pelo instrumento MODIS. Imagem de arquivo; não documenta a situação atual. Crédito: Jeff Schmaltz, LANCE/EOSDIS Rapid Response/NASA. Domínio público nos EUA. A decisão de transferir imóveis rústicos do Estado para os municípios pode contribuir para melhorar a gestão de terrenos subutilizados. A medida enfrenta três desafios. Primeiro, jurídico: garantir que os imóveis transferidos pertencem efetivamente ao Estado e que a sua situação está suficientemente identificada. Segundo, financeiro: assegurar que os municípios dispõem de recursos para gerir o património recebido. Terceiro, territorial: integrar as parcelas em intervenções que façam sentido à escala da paisagem, evitando uma gestão fragmentada. O levantamento de 60 mil imóveis concluído em 2026 constitui um avanço no conhecimento dos bens do Estado. Um terreno identificado, registado e transferido pode continuar abandonado. Pode também tornar-se parte de uma intervenção agrícola, ambiental ou de prevenção de incêndios. Portugal precisa de saber a quem pertence a terra. Mas, para reduzir o abandono e o risco de incêndio nos terrenos rústicos, precisa sobretudo de saber quem os vai gerir, com que recursos e para que finalidade. Fontes documentais Relatório orçamental: gestão do património público Decreto-Lei n.º 87/2026: informação cadastral e BUPi Ministério das Finanças: inventário de 60 mil imóveis AGIF: instrumentos de planeamento dos fogos rurais Lei n.º 73-A/2025, artigo 98.º: incentivo ao emparcelamento Constituição: direito de propriedade e intervenção legal Continue a leitura Terramoto de Lisboa: as perguntas que Pombal fez à terra Uma leitura histórica sobre a recolha de informação perante uma catástrofe e a passagem do conhecimento à ação pública. Insegurança alimentar: o preço de desinvestir Para alargar a reflexão sobre a utilização produtiva da terra: o investimento, a investigação agrícola e a continuidade do financiamento dos sistemas alimentares. #Portugal #Ambiente

  • Francis Halzen: construir um telescópio antes de saber se funciona

    A dois quilómetros de profundidade no gelo antártico, um sensor fica fora do alcance de uma reparação corrente. Para o instalar é preciso abrir um poço com água quente, descer os equipamentos e terminar antes de a água voltar a congelar. Depois o gelo fecha-se sobre o trabalho. No IceCube são milhares de sensores a depender de decisões tomadas quando ainda era possível tocar-lhes. Francis Halzen é físico teórico na Universidade de Wisconsin-Madison. No projeto, demonstrou que o gelo podia servir de meio de deteção, reuniu uma colaboração e levou o instrumento até à operação. São tarefas diferentes da formulação de uma hipótese sobre o universo. Exigem equipamentos, financiamento, testes e pessoas capazes de resolver problemas que a teoria, por si só, não resolve. O Nobel da Física de 2026 reconhece as suas contribuições para o IceCube e para a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. Laboratório do IceCube no Polo Sul. O carretel fornece a mangueira utilizada na perfuração profunda. Crédito: USGS — domínio público. A astronomia de neutrinos já tinha história quando Francis Halzen começou. A possibilidade de observar o universo através destas partículas era discutida desde a década de 1950. A necessidade de detetores de dimensão quilométrica surgiu depois. Halzen trabalha sobre uma ambição anterior e ajuda a dar-lhe forma realizável. Os neutrinos não têm carga elétrica e interagem muito raramente com a matéria. Conseguem chegar até nós desde regiões distantes sem sofrer os desvios que afetam partículas carregadas. Essa capacidade torna-os úteis para procurar a origem de fenómenos cósmicos. Aquilo que os deixa atravessar o espaço também os deixa atravessar um detetor sem acontecer nada. Para os apanhar, Halzen teve de defender que se oferecesse uma quantidade enorme de matéria e se esperasse pelas raras interações que produzem sinal observável. O IceCube ocupa um quilómetro cúbico de gelo. Quando um neutrino interage, pode produzir partículas carregadas cuja passagem gera luz de Cherenkov. Os sensores registam essa luz. A distribuição dos sinais permite reconstruir características do acontecimento, incluindo energia e direção. O instrumento não recebe uma fotografia do objeto distante. Recebe informação que tem de ser medida e interpretada. A escala decorre de uma limitação física. Um detetor muito mais pequeno seria mais simples de construir e financiar, mas teria menos oportunidades de registar os acontecimentos procurados. Para investigar partículas tão esquivas, a experiência tinha de exceder aquilo que um laboratório convencional podia conter. O AMANDA foi o predecessor que Halzen acompanhou. Os ensaios e o trabalho desse detetor permitiram estudar a utilização do gelo profundo e desenvolver métodos de instalação. A construção do IceCube começou em 2004. A última linha de sensores foi instalada em dezembro de 2010 e o primeiro período de operação com o conjunto completo começou em 2011. Entre a proposta e o instrumento houve trabalho experimental que podia confirmar, alterar ou limitar o que se pretendia fazer. No percurso de Halzen, foi preciso criar condições para submeter a ideia a testes, aceitar o que esses testes mostravam e conseguir que uma etapa permitisse a seguinte. Num projeto desta dimensão, a insistência só adquire valor científico se continuar exposta à possibilidade de falhar. Saber que uma pergunta merece ser feita é diferente de saber que o equipamento conseguirá responder-lhe. O interesse dos neutrinos como mensageiros cósmicos não assegurava a viabilidade de um observatório enterrado no Polo Sul. Essa separação impede que o resultado final transforme retrospetivamente cada decisão numa certeza. O sucesso do IceCube não estava disponível aos seus construtores como argumento quando tiveram de o construir. Mesmo depois de o instrumento começar a funcionar, a existência de sinais não resolvia a questão da sua origem. A atmosfera terrestre também produz neutrinos. Era necessário distinguir esse fundo dos acontecimentos que poderiam vir de fontes cósmicas. O trabalho publicado em 2013, com Halzen na colaboração, apresentou evidência de um fluxo de neutrinos de alta energia que não podia ser explicado pelas contribuições atmosféricas consideradas. A descoberta dependia tanto da deteção como da capacidade de avaliar explicações concorrentes. A engenharia permite recolher sinais. A análise determina o que se pode afirmar a partir deles. A dimensão impressionante do equipamento não dispensa esse segundo trabalho. O Nobel concentra a atenção num nome. A colaboração do IceCube reúne cerca de 450 investigadores de 58 instituições em 14 países. A operação depende de financiamento, manutenção, equipas no terreno e capacidade de processamento de dados. Halzen tem uma responsabilidade reconhecida na existência do observatório, mas o instrumento só produz conhecimento porque essa organização continua a trabalhar. Membros do IceCube, carpinteiros e sismólogos em McMurdo, antes da viagem ao Polo Sul, no projeto de sismómetros no gelo. Crédito: USGS — domínio público. O projeto exige que a compreensão das partículas encontre competências que pertencem a outros: perfuração, eletrónica, comunicações, cálculo, logística antártica. Liderar um empreendimento assim implica fazer com que essas competências participem numa pergunta comum. Halzen teve de construir essa possibilidade de colaboração. Depois da primeira evidência de neutrinos astrofísicos, o IceCube avançou para a identificação de fontes e para observações da nossa própria galáxia. Em 2023, a colaboração apresentou evidência da emissão de neutrinos pela Via Láctea. O instrumento já não servia apenas para demonstrar que era possível detetar essas partículas. Permitia estudar de onde vinham. Uma questão que durante décadas parecia exigir um detetor desmedido passa a ter um lugar, equipamentos e dados. O prémio reconhece esse resultado. Não encerra o trabalho do observatório, nem resolve as perguntas sobre as fontes dos neutrinos e os processos que os produzem. Debaixo do gelo, os sensores continuam a registar os sinais disponíveis. Para cada acontecimento, é preciso reconstruir o que ocorreu e determinar até onde a informação permite ir. É aí que o trabalho de Halzen continua presente: num instrumento que tornou possível fazer essas perguntas com medições. #PessoascomInteresse #Antártica #Ciência

  • Habitação em Lisboa: casa pequena, renda real

    Habitação em Lisboa - A imobiliária garante que a casa só tem um defeito, que é não caber ninguém lá dentro. O QR code da porta leva à renda, que essa está à escala real. Habitação em Lisboa na versão de bolso. Banda desenhada do Atlantic Lisbon. #Portugal #Cartoon #Lisboa #Humor

  • Francis Halzen: um quilómetro cúbico para uma dúvida

    O físico que fez do gelo antártico um observatório precisou de convencer outros a construir uma máquina cujo sucesso ninguém podia garantir. O seu trabalho depende de investigadores, engenheiros e equipas que mantêm o IceCube a funcionar e submetem os resultados a exame. As bolhas de ar atrapalhavam a ideia. Nos primeiros ensaios do AMANDA, o detetor que antecedeu o IceCube, os instrumentos foram colocados no gelo do Polo Sul a profundidades entre os 800 e os mil metros. A luz dispersava-se demasiado. A equipa teve de procurar gelo mais transparente, a maior profundidade, antes de conseguir observar com suficiente precisão os sinais que procurava. Francis Halzen queria usar aquele gelo para estudar partículas vindas do espaço. A proposta tinha dimensão suficiente para mobilizar pessoas, dinheiro e trabalho num dos lugares mais difíceis da Terra, mas dependia de propriedades do material que ainda era necessário medir. Nos ensaios seguintes do AMANDA, os instrumentos foram instalados a profundidades de 1500 metros e superiores. Defender o projeto exigia aceitar alterações ao desenho, reunir o que os testes iam revelando e convencer outros de que valia a pena continuar. O obstáculo podia comprometer a observação. Encontrar gelo adequado fazia parte do trabalho científico. O Nobel da Física de 2026, anunciado a 6 de outubro, reconhece as suas contribuições decisivas para o Observatório de Neutrinos IceCube e para a descoberta de neutrinos de alta energia de origem astrofísica. A distinção chega a um investigador belga ligado à Universidade de Wisconsin–Madison. O observatório está enterrado na Antártida e é operado por uma colaboração internacional. Laboratório do IceCube no Polo Sul. O grande carreto de mangueira integra o equipamento usado para perfurar o gelo até cerca de 2,4 quilómetros. Fonte: U.S. Geological Survey (USGS). Domínio público. Halzen pode atender uma chamada, receber uma medalha, aparecer numa fotografia. No instrumento que ajudou a tornar possível há trabalho de conceção, construção, manutenção e análise distribuído por muitas pessoas. Entre a proposta e os resultados houve ensaios, equipamento que podia falhar, profundidades que não serviam e dados que demoravam a chegar. A descoberta dá hoje uma direção ao percurso. Durante a construção, ainda era necessário saber se o instrumento teria condições para a fazer. O que chega sem se deixar apanhar Partículas extremamente energéticas chegam à Terra vindas do espaço, mas a chegada não revela necessariamente a origem. As que têm carga elétrica sofrem desvios nos campos magnéticos que encontram pelo caminho. Torna-se difícil reconstruir o percurso até ao lugar de partida. Os neutrinos não têm carga elétrica e interagem muito pouco com a matéria. Podem atravessar enormes distâncias sem os desvios magnéticos que dificultam a identificação das fontes de outras partículas. Transportam informação sobre os ambientes onde são produzidos, embora a maioria atravesse o detetor sem deixar um sinal. O IceCube ocupa um quilómetro cúbico de gelo. Na sua configuração original, distribui 5160 módulos óticos por 86 linhas verticais, a profundidades entre cerca de 1450 e 2450 metros. É necessário esse volume para aumentar a oportunidade de uma interação rara acontecer dentro do espaço observado. Esquema do IceCube: as linhas de módulos óticos ocupam um quilómetro cúbico de gelo sob o Polo Sul. O desenho representa também o AMANDA e o conjunto de superfície IceTop. Crédito: Nasa-verve; fonte: IceCube Science Team / Francis Halzen, Universidade de Wisconsin. CC BY 3.0. Licença. Halzen procura um lugar onde a natureza forneça a maior parte do material necessário. A precisão dos sensores conta, mas não dispensa a extensão do alvo. O gelo integra o instrumento, com propriedades que precisam de ser conhecidas para interpretar aquilo que os módulos registam. Quando um neutrino interage com a matéria, pode produzir partículas com carga elétrica. Ao atravessarem o gelo, essas partículas emitem luz Cherenkov. Os sensores recolhem-na; os tempos de chegada e a sua distribuição permitem reconstruir características do acontecimento, incluindo estimativas de energia e direção. O neutrino é estudado através desses sinais. Módulo ótico digital do IceCube, denominado «taklampa», preparado para o furo 85 em dezembro de 2009. Estes sensores registam a luz produzida por partículas secundárias das interações de neutrinos. Fotografia: Amble. CC BY-SA 3.0. Licença. Ainda é preciso determinar o que os registos permitem afirmar e confrontá-los com outras explicações. A dificuldade prolonga-se na análise, depois de os módulos terem feito a sua parte. Halzen ajuda a construir condições para que outras pessoas possam medir, discutir e verificar. A ideia passa a depender de procedimentos que os seus autores têm de aceitar mesmo quando os resultados não correspondem à expectativa inicial. Para um retrato do físico, interessa tanto esta entrega ao exame dos outros como a ambição da proposta. Francis Halzen e a construção do IceCube Halzen apresentou em 1988 a sua visão de um detetor de neutrinos no Polo Sul. O projeto ganhou apoio e passou por experiências preliminares antes de chegar à escala do IceCube. A National Science Foundation, nos Estados Unidos, financiou o desenvolvimento, a construção e a operação do observatório ao longo de mais de duas décadas. Ao pedir recursos, ainda não tinha a descoberta que viria a justificar o projeto perante um público mais vasto. Havia uma proposta científica e razões para a testar. O dinheiro pagaria equipamento, ensaios, operações e análise, com a possibilidade de a resposta ser limitada ou de uma hipótese não encontrar confirmação. Uma realização desta dimensão exige que alguém consiga sustentar a proposta durante muito tempo. Esse esforço inclui explicar a viabilidade, responder a objeções, reunir competências e incorporar os resultados dos testes. No AMANDA, a equipa teve de descer os instrumentos para além das profundidades inicialmente escolhidas. Continuar implicou modificar o plano. O gelo mais profundo ofereceu condições de observação que o primeiro não tinha. Há uma decisão técnica, tomada perante resultados concretos, onde uma narrativa de triunfo poderia colocar apenas a determinação do protagonista. Atlantic Lisbon - O que não cabe numa notícia A expressão «visão científica», associada ao Nobel, pode fazer desaparecer esta parte do trabalho. Uma proposta para um instrumento precisa de chegar ao ponto em que possa ser testada e corrigida. A confiança de quem a defende ajuda a reunir os meios; depois, os ensaios introduzem exigências que essa confiança não resolve. No caso de Halzen, o interesse está também na responsabilidade de pedir a outros que participem num empreendimento incerto. Investigadores comprometem trabalho, engenheiros enfrentam dificuldades de construção, instituições disponibilizam recursos. Cada um precisa de razões para continuar que possam ser discutidas para além da convicção de quem iniciou o projeto. A partir de Lisboa, esta duração merece atenção na discussão sobre investimento científico. Uma descoberta futura é difícil de apresentar a quem procura resultados imediatos. Mesmo quando há uma pergunta bem formulada, pode faltar o instrumento capaz de a submeter a teste. Construí-lo ocupa anos e exige decisões de financiamento tomadas antes de se conhecer a resposta. Os responsáveis por um projeto têm de explicar o que já foi demonstrado, o que permanece provável e o que continua por saber. No IceCube, essa distinção acompanha o percurso desde a escolha do gelo até à interpretação dos sinais. Saber que o detetor funciona não equivale a saber de onde vêm todas as partículas que regista. Em novembro de 2013, a colaboração anunciou 28 acontecimentos de energia muito elevada que constituíam a primeira evidência sólida de neutrinos provenientes de aceleradores cósmicos. A análise tinha de mostrar que o conjunto não podia ser explicado apenas pelos fenómenos produzidos na atmosfera terrestre. Halzen tinha ajudado a levar a proposta até esse exame. Os 28 acontecimentos permitiam reconhecer uma população de neutrinos de origem astrofísica. As suas fontes ainda estavam por identificar. #PessoascomInteresse #Ciência

  • Alta velocidade: o alcance da obra entre Porto e Oiã

    A viagem de alta velocidade entre Porto e Lisboa não fica concluída com a construção do troço entre Campanhã e Oiã. Os 71 quilómetros dessa empreitada constituem o primeiro segmento da nova linha. A duração de cerca de uma hora e quinze minutos anunciada para o percurso Porto–Lisboa é um objetivo para a ligação completa, cuja execução está dividida em diferentes etapas. O Governo anunciou o início dos trabalhos entre Porto e Oiã para 12 de outubro de 2026, assinalado por uma sessão pública no estaleiro de Aveiro. A obra é gerida pela Infraestruturas de Portugal e executada pela concessionária AVAN Norte, constituída pelo consórcio LusoLAV. Porto–Oiã é o lote A da primeira fase. A mesma fase inclui um lote B, entre Oiã e Soure, que ainda não estava adjudicado à data do anúncio. Segue-se uma segunda fase, de Soure ao Carregado, para a qual estava prevista a abertura de um concurso público. São segmentos com situações diferentes. O início anunciado para um deles não corresponde ao início simultâneo de toda a ligação, nem permite atribuir ao primeiro troço os resultados esperados para o percurso integral. Alta velocidade: Uma linha construída por segmentos A divisão em lotes e fases estabelece uma sequência territorial. A partir de Campanhã, o primeiro troço chega a Oiã. O segmento seguinte prolongará a linha até Soure. A segunda fase prevista dará continuidade ao percurso em direção ao Carregado. Esta sequência é necessária para interpretar os anúncios de obra. Uma decisão relativa a Porto–Oiã tem um âmbito definido: não inclui automaticamente a adjudicação de Oiã–Soure nem o concurso de Soure–Carregado. À data do anúncio, o lote A tinha um contrato de concessão formalizado, enquanto o lote B aguardava adjudicação. Para a segunda fase, a informação apontava para um procedimento de contratação ainda por lançar. O projeto global reunia, assim, uma empreitada com início anunciado e outras intervenções em etapas anteriores do processo. A construção dos primeiros 71 quilómetros representa uma parte concreta da nova infraestrutura. A possibilidade de realizar a viagem completa com a duração prevista depende da continuidade da linha para sul. O objetivo Porto–Lisboa não pode ser avaliado apenas pelo estado da obra entre Campanhã e Oiã. Automotora da série 3400 na estação de Porto–Campanhã, em 5 de agosto de 2025. Fotografia de arquivo do serviço convencional, para enquadrar a futura adaptação da estação; não documenta as obras da alta velocidade. RAIL P (RAIL.PHOTOGRAPHY) / CC0 / Wikimedia Commons. Página de origem. Ponte e estações fazem parte da empreitada O lote A não se limita à construção de via. Inclui uma nova ponte rodoferroviária sobre o Douro, a ampliação e reformulação da Estação Intermodal de Porto–Campanhã e uma nova estação de Vila Nova de Gaia–Santo Ovídio. Estas intervenções integram a mesma empreitada, mas cumprem funções diferentes. A ponte assegura uma nova travessia do rio. Campanhã é o ponto de partida do troço anunciado e será objeto de obras. Santo Ovídio acrescenta uma nova estação ao percurso em Gaia. A referência aos 71 quilómetros deve ser lida juntamente com este conjunto de trabalhos. A extensão descreve o comprimento do troço; não constitui, por si só, uma descrição de tudo o que será construído ou alterado. O anúncio de um início de obra também não significa que cada componente entre imediatamente em execução ou fique disponível ao mesmo tempo. A sessão prevista para o estaleiro de Aveiro assinala o arranque da empreitada. Não corresponde à entrada em serviço da linha, da ponte ou das estações. A ponte Luís I e o rio Douro, numa imagem de contexto. A nova travessia prevista no lote Porto–Oiã será uma estrutura diferente. Fotografia disponibilizada em 2017; data da captura e autor não identificados. Origem: Hippopx. Domínio público, CC0. Página de origem. Alta velocidade: Custo e financiamento são informações distintas O contrato de concessão do primeiro troço, estruturado como uma parceria público-privada, foi formalizado em 29 de julho de 2025. O Governo indicou um custo a rondar os dois mil milhões de euros. Para o financiamento, o anúncio identifica 875 milhões de euros do Banco Europeu de Investimento e 480 milhões de euros do Mecanismo Interligar a Europa. Estas duas parcelas somam 1.355 milhões de euros. O custo anunciado e os montantes de financiamento identificados respondem a perguntas diferentes. O primeiro apresenta a dimensão financeira atribuída à empreitada. Os segundos identificam recursos associados à sua realização. Os valores não devem ser apresentados como um orçamento de toda a ligação Porto–Lisboa. Surgem no enquadramento da concessão do primeiro troço. Também não constituem uma despesa final apurada: acompanham uma obra cujo início foi anunciado e cuja execução ainda terá de decorrer. A identificação destas parcelas não basta para descrever integralmente a repartição financeira da parceria. Permite conhecer os montantes anunciados e as entidades envolvidas, sem substituir essa informação por uma conclusão sobre o custo efetivo no final da construção. Alta velocidade: Os tempos de viagem pertencem a percursos diferentes O projeto é apresentado com dois objetivos de viagem que importa distinguir. Para Porto–Lisboa, é indicada uma duração de cerca de uma hora e quinze minutos. Para uma futura ligação entre Lisboa e Madrid, surge a ambição de um percurso de cerca de três horas até 2034. São referências a ligações diferentes. O objetivo ibérico não é um prazo de entrada em serviço do troço Porto–Oiã. A duração prevista para Porto–Lisboa também não descreve uma viagem que passe a estar disponível apenas com a conclusão desses primeiros 71 quilómetros. O Governo enquadra ainda a nova linha na estratégia aeroportuária nacional, com a intenção de servir o futuro Aeroporto de Lisboa. Essa função pertence à conceção mais ampla do projeto ferroviário. Não altera os limites geográficos da empreitada entre Campanhã e Oiã. Para compreender o avanço da alta velocidade, é necessário manter estas escalas separadas: a obra contratada num troço, a ligação nacional que depende da sequência de segmentos e a futura ligação ibérica. O marco anunciado para 12 de outubro situa-se na primeira dessas escalas. Porto–Oiã tem uma extensão, intervenções e financiamento identificados. A passagem dessa obra para uma ligação completa exige a concretização das etapas seguintes. É nessa continuidade que o objetivo de reduzir a viagem Porto–Lisboa encontrará a sua expressão no serviço disponível aos passageiros. Fontes institucionais Governo — Anúncio do arranque Porto–Oiã, 11 de outubro de 2026 Infraestruturas de Portugal — Concessão e financiamento do primeiro troço Infraestruturas de Portugal — Concursos e situação dos restantes troços Infraestruturas de Portugal — Percursos e tempos de viagem previstos Governo — Ligação ferroviária Lisboa–Madrid e objetivo para 2034 #Portugal #Lisboa #Porto #comboios #infraestruturas

  • Carga mental doméstica: quem se lembra de comprar o leite?

    O leite não chega a acabar em muitas casas. Antes disso, alguém viu o pacote quase vazio e percebeu que não chegaria para os pequenos-almoços dos dias seguintes. Talvez o tenha escrito numa lista. Talvez tenha confiado na memória, onde já estavam a natação de quinta-feira, a mensagem da escola, a consulta por marcar, as sapatilhas que começam a apertar e o aniversário do colega para o qual ainda falta um presente. A carga mental doméstica começa antes de faltar o leite: alguém acompanha as compras, os horários e as necessidades da família. A ida ao supermercado demora alguns minutos. Até lá, é preciso que o leite permaneça na memória de alguém. A carga mental doméstica começa antes da compra. Durante décadas, os eletrodomésticos ocuparam-se da parte visível da vida doméstica. A máquina lavou a roupa e a loiça, o congelador permitiu guardar alimentos, o micro-ondas encurtou a preparação das refeições. Mais tarde, o robot aspirador começou a percorrer o chão sem que ninguém o empurrasse. Continuou a ser necessário decidir quando pôr a roupa a lavar, escolher o programa, comprar detergente, retirar as peças da máquina e verificar se a camisola de que uma criança precisava estaria seca na manhã seguinte. A inteligência artificial começou a entrar nas casas por um caminho diferente. Instalou-se no telefone e recebeu perguntas sobre jantares, compras, horários, férias, trabalhos escolares e comportamentos dos filhos. Uma pessoa descreve o que há no frigorífico e recebe uma receita. Copia os compromissos da semana e pede ajuda para encontrar tempo para uma consulta. Diz a idade do filho, conta o que aconteceu na escola e pergunta o que lhe deve responder. Carga mental doméstica: o trabalho que fica na cabeça Os investigadores usam expressões como carga mental doméstica, trabalho cognitivo doméstico ou trabalho mental. Todas descrevem uma atividade comum e difícil de delimitar, porque acompanha a pessoa ao longo do dia e raramente produz um resultado que possa ser mostrado. Inclui saber o que falta no frigorífico, quando termina o prazo de uma inscrição, qual dos filhos precisa de roupa para uma atividade da escola, se duas marcações coincidem e quando será possível levar alguém ao dentista. Inclui pensar no jantar antes de haver fome, verificar a medicação, confirmar uma festa, escolher um presente e preparar uma viagem sem deixar para trás aquilo de que todos vão precisar. Cada gesto pode demorar pouco. Na carga mental doméstica, a obrigação de não o esquecer prolonga-se até que o assunto esteja resolvido, enquanto outros se juntam à mesma lista, nem sempre escrita. Uma revisão sistemática de 31 estudos encontrou uma distribuição persistente da carga mental doméstica: são sobretudo as mulheres que a assumem, particularmente quando há crianças e decisões parentais envolvidas. Noutro estudo, realizado com 322 mães de crianças pequenas, os investigadores dividiram 30 tarefas domésticas em duas partes. Uma era a execução. A outra reunia o planeamento, a antecipação e a organização necessárias para que a tarefa acontecesse. As mães declararam fazer mais do que os companheiros em 28 das 30 tarefas, mas a diferença aumentava quando se observava a componente mental. A carga mental doméstica estava associada a stress, burnout, depressão, pior saúde mental e dificuldades na relação. Um inquérito a 3000 pais americanos encontrou resultados semelhantes. As mães concentravam as preocupações diárias com a alimentação, os horários, os filhos, a limpeza e as relações sociais. Os homens surgiam com maior frequência ligados às finanças e à manutenção da casa, tarefas que geralmente não exigem a mesma atenção diária. Uma revisão do carro pode ocupar uma manhã; depois de concluída, não é necessário voltar a pensar nela durante algum tempo. Contar uma situação em vez de procurar uma resposta A utilização doméstica da inteligência artificial não dependeu da instalação de sensores nem da compra de novos aparelhos. Começou com pedidos simples: encontrar uma receita a partir do que existe em casa, preparar refeições para uma semana, organizar uma lista de compras, procurar espaço no calendário para uma consulta ou ajudar a explicar determinado assunto a uma criança. A inteligência artificial pode ajudar a organizar as rotinas da família. Introduzir os dados, verificar as sugestões e responder pelo que falta continua a exigir trabalho. A pessoa pode indicar quantos adultos e crianças vivem em casa, o que costumam comer, quanto dinheiro pode gastar, os compromissos que tem e aquilo que já tentou. Em vez de percorrer resultados destinados a milhares de utilizadores, acrescenta pormenores até a resposta se aproximar do seu caso. Um estudo publicado em 2026 entrevistou 40 pais e mães de crianças entre os quatro e os seis anos que usavam IA generativa em questões familiares. A ferramenta servia para sugerir atividades, organizar rotinas, procurar maneiras de explicar assuntos difíceis aos filhos e lidar com determinados comportamentos. Alguns participantes recorriam-lhe até para preparar a própria reação antes de conversarem com uma criança. Quem pesquisa «birras aos cinco anos» encontra informação geral. Numa conversa com a IA, pode escrever o que a filha fez, contar o que aconteceu nos dias anteriores e explicar como os adultos reagiram. A resposta terá em conta a idade, o contexto familiar, acontecimentos recentes e as tentativas que falharam. Todos esses elementos ficam incluídos na pergunta. Alguns dos pais entrevistados evitavam indicar dados que permitissem identificar os filhos, confirmavam as respostas e procuravam profissionais quando consideravam o assunto sério. Quanto menos informação forneciam, porém, menos ajustada podia ser a resposta. A personalização que procuravam dependia em parte dos dados que tentavam preservar. Um calendário doméstico pode mostrar a escola frequentada pelas crianças, os locais onde estarão, consultas, atividades, viagens e períodos em que a casa fica vazia. Mensagens e correio eletrónico permitem conhecer relações pessoais e profissionais. Até uma lista de compras pode revelar doenças, hábitos religiosos, restrições alimentares ou dificuldades económicas. Antes da lista de compras Para preparar uma lista adequada, alguém pensa nas refeições, conta quantas pessoas estarão em casa, verifica o que resta na despensa, considera os pequenos-almoços das crianças, lembra alergias ou preferências e ajusta tudo ao dinheiro disponível. Depois pode pedir a uma aplicação que escreva a lista. Se tiver de lhe transmitir todas essas decisões, foi a escrita que mudou de mãos. O resto da carga mental doméstica já tinha sido assumido. Um sistema que conserve informação sobre a família poderá consultar o calendário, reconhecer hábitos de consumo, saber o que costuma ser comprado e sugerir os produtos em falta sem receber uma descrição completa de cada vez. Durante algum tempo, ninguém terá de manter aquela tarefa em aberto na memória. Registar no calendário um treino de futebol às seis da tarde é fácil. Nesse dia, porém, o treino termina às sete, outra criança tem de estar noutro local quinze minutos depois, o carro ficou com o outro progenitor e uma reunião prolonga-se até às seis e meia. Falta ainda preparar o jantar. Se o sistema conseguir cruzar estes elementos, poderá avisar do conflito quando os compromissos forem marcados, em vez de esperar que alguém o descubra ao fim da tarde. Já não estará apenas a organizar informação que recebeu sobre a carga mental doméstica. Terá começado a acompanhar a semana da família. A responsabilidade pode continuar no mesmo lugar Numa família em que a mãe acompanha a escola, conhece os horários, pensa nas refeições, marca as consultas e sabe o que falta comprar, será provavelmente ela quem melhor consegue instruir o sistema. Tem a informação necessária, conhece as exceções e deteta os erros. A lista poderá ficar pronta mais depressa. O calendário poderá apresentar menos conflitos. As refeições poderão ser planeadas em minutos. A carga mental doméstica permanece: a mesma pessoa continua a perceber que é necessário fazer a lista, a introduzir as preferências, a verificar o resultado e a corrigir o que ficou mal. Se alguma coisa falhar, será também ela a notar. Com uma aplicação, talvez consiga gerir mais assuntos e mostrar menos cansaço. A necessidade de repartir a carga mental doméstica torna-se então mais difícil de ver. Aquilo que antes ocupava uma hora passa a ocupar vinte minutos, mas continua entregue à pessoa que conhece os horários, as compras, a escola e as consultas. Se for ela a receber os avisos, a completar os dados e a decidir o que fazer com cada sugestão, a IA funcionará como sua assistente. Os outros adultos da casa não passam a partilhar esse conhecimento só porque as listas aparecem prontas. Os filhos também estão na conversa Um estudo de 2026 sobre mães palestinianas que usavam IA no acompanhamento escolar encontrou uma experiência ambivalente. As participantes referiam menos exaustão, novas ideias e uma redução dos conflitos durante o estudo. Ao mesmo tempo, receavam a dependência, a superficialidade, a desonestidade e a perda do esforço necessário para aprender. Uma criança pode recorrer à ferramenta para perceber uma palavra ou pedir outra explicação para uma fração. Em ambos os casos, a ajuda pode permitir-lhe continuar. Se pedir apenas o resultado da conta, termina o exercício sem praticar aquilo que o exercício pretendia ensinar. Numa composição, recebe um texto sem ter de procurar as palavras, ordenar as ideias ou descobrir o que queria dizer. Ao fim do dia, uma criança cansada, um adulto sem tempo e uma ferramenta que responde imediatamente resolvem depressa o trabalho de casa. Evita-se uma discussão e a família avança para a tarefa seguinte. Nem sempre se percebe naquele momento o que a criança compreendeu ou deixou de compreender. A carga mental doméstica inclui agora avaliar se a resposta está certa, se é adequada à idade e se ajuda a criança a trabalhar o problema. Por vezes, os adultos terão ainda de impedir que a ferramenta faça aquilo que sabe fazer com maior rapidez: entregar o exercício concluído. Aquilo que aceitamos deixar de saber Uma máquina de lavar recebe roupa, água, detergente e um programa. Ignora quem vestiu cada peça, por que razão ficou suja e quando voltará a ser necessária. Para organizar uma casa, a inteligência artificial terá de conhecer idades, horários, preferências, alergias, orçamento, moradas, escola, férias, consultas, hábitos e talvez mensagens ou correio eletrónico. Parte dessa informação estava até agora dispersa entre a memória dos adultos, os calendários, os papéis da escola e as conversas familiares. Já há quem peça uma receita ou uma lista para uma viagem. Se estas ferramentas passarem a cruzar o calendário com as mensagens, a acompanhar os horários escolares e a conhecer o conteúdo da despensa, poderão apresentar pela manhã os assuntos que exigem atenção. Avisarão que é necessário comprar leite, preparar uma camisola, sair mais cedo ou remarcar uma consulta. Parte da carga mental doméstica deixará de permanecer durante o dia na cabeça de alguém. Foi o que aconteceu com números de telefone que quase ninguém memoriza e com caminhos percorridos através do GPS sem chegar a aprendê-los. Os calendários guardam aniversários; as calculadoras poupam contas que antes fazíamos de cabeça. Na maioria dos casos, aceitou-se a troca sem grande perda. Numa família, porém, a tarefa e a atenção aparecem muitas vezes misturadas. Reparar que os sapatos apertam, saber que uma criança anda preocupada, lembrar uma consulta, antecipar um dia difícil ou preparar aquilo de que alguém vai precisar são atos de cuidado, embora possam cansar e tenham sido distribuídos de maneira injusta. Quando a aplicação avisar que falta leite, alguém continuará a ter de confirmar se a informação está certa, decidir se o compra e perceber por que razão ele faz falta. É também nessa pessoa que continuará a recair a responsabilidade se o aviso não chegar. A carga mental doméstica inclui responder pelo que foi esquecido. #InteligênciaArtificial #Família #Igualdade

  • Apartamento em Lisboa: vista mar e vizinhos

    Apartamento em Lisboa - A vista mar existe, desde que o cliente aceite vê-la com o vizinho ao ombro. O gato já mora na varanda e ainda não pagou a caução. Apartamento em Lisboa, com vista para o mar e vizinhos incluídos. Banda desenhada do Atlantic Lisbon. #Portugal #Cartoon #Lisboa #Humor

  • Bancos e fundos de investimento: onde se acumulam os riscos

    A estabilidade financeira deixou de depender exclusivamente da solidez dos bancos. Parte crescente do crédito, do financiamento empresarial e das operações nos mercados de capitais envolve fundos de investimento e outras instituições que não estão sujeitas às mesmas regras prudenciais da banca tradicional. Esta transformação criou novas fontes de financiamento, mas também tornou mais difícil identificar onde se acumulam os riscos. Um banco pode apresentar indicadores de capital satisfatórios e, simultaneamente, manter exposições relevantes a fundos que dependem de financiamento de curto prazo ou de ativos difíceis de vender. Quando as instituições estão ligadas por empréstimos, garantias e investimentos cujo comportamento pode mudar rapidamente durante uma crise, não basta saber se os bancos resistiriam a uma nova crise. É preciso perceber se o conjunto das relações financeiras permite identificar antecipadamente dificuldades que podem transmitir-se de uma instituição para outra. Durante décadas, os bancos ocuparam uma posição central no financiamento das empresas. Recebiam depósitos, concediam empréstimos e mantinham uma parte significativa dos riscos nos seus balanços. Este modelo continua a desempenhar uma função essencial, mas deixou de representar a totalidade do sistema de crédito. Fundos de dívida privada, sociedades de investimento, veículos de titularização e outras entidades passaram a participar diretamente no financiamento de empresas e na aquisição de ativos financeiros. Uma empresa que encontra dificuldades para obter crédito bancário pode recorrer a investidores especializados, enquanto os fundos oferecem aos participantes acesso a estratégias diferentes das tradicionais. Quando os bancos financiam fundos ou participam nas mesmas operações, os riscos podem permanecer ligados ao sistema bancário, embora distribuídos por diferentes entidades. Fundos de investimento: alavancagem e liquidez A alavancagem permite aumentar a dimensão de um investimento através da utilização de capital emprestado. Um fundo que disponha de recursos próprios pode contrair financiamento adicional para adquirir ativos. Se estes se valorizarem, o rendimento sobre o capital inicialmente investido poderá aumentar. O mesmo mecanismo amplia as perdas quando os preços descem. Os empréstimos associados a garantias cujo valor varia com as condições de mercado tornam a dificuldade particularmente importante. Uma descida de preços pode levar os financiadores a exigir garantias adicionais. Se o fundo não dispuser de liquidez suficiente, poderá ser obrigado a vender ativos. Estas vendas podem contribuir para novas descidas de preços, desencadeando exigências adicionais de garantias a outros participantes. A transmissão depende da dimensão das posições, da concentração dos financiadores e da capacidade dos participantes para obter liquidez sem provocar perturbações adicionais. Num relatório divulgado em 9 de outubro de 2026, o Conselho de Estabilidade Financeira, organismo internacional que acompanha os riscos para o sistema financeiro, examinou a aplicação de recomendações sobre mecanismos públicos de financiamento temporário de bancos em resolução, utilizados como último recurso. Apenas quatro das 19 jurisdições analisadas cumpriam integralmente os critérios avaliados: Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Hong Kong. Outras apresentavam lacunas na dimensão, na flexibilidade ou na prontidão operacional do financiamento disponível. A avaliação não abrange toda a capacidade das autoridades para responder a crises financeiras, mas um instrumento específico de apoio à resolução ordenada de bancos. Edifício Marriner S. Eccles, da Reserva Federal, em Washington, em 29 de março de 2011. Fotografia de arquivo que ilustra o papel dos bancos centrais. Crédito: Britt Leckman/Reserva Federal, via Wikimedia Commons. Domínio público nos EUA. Em 2023, o Credit Suisse enfrentou uma perda acelerada de confiança e uma retirada significativa de depósitos, acabando por ser adquirido pelo UBS numa operação de emergência. O caso revelou que uma crise de liquidez pode desenvolver-se rapidamente, mesmo numa instituição sujeita a supervisão e com presença internacional. Os bancos centrais podem disponibilizar liquidez extraordinária para evitar que dificuldades temporárias de financiamento provoquem a interrupção de atividades essenciais. Estes instrumentos não devem ser confundidos com soluções para problemas de insolvência. Uma instituição que possui ativos suficientes, mas não consegue convertê-los rapidamente em dinheiro, enfrenta uma situação diferente da de outra cujos ativos já não cobrem as suas responsabilidades. A concessão de liquidez pode ajudar no primeiro caso. No segundo, pode apenas adiar o reconhecimento das perdas, se não for acompanhada por medidas que tratem a insolvência. Esta distinção exige informação fiável sobre a situação financeira das instituições e mecanismos de decisão capazes de funcionar sob pressão. Quando uma instituição desenvolve atividades em vários países, as autoridades nacionais podem ter competências diferentes, os ativos podem estar distribuídos por diversas jurisdições e as decisões tomadas num país podem afetar depositantes e investidores noutros mercados. Como os fundos de investimento transmitem riscos aos bancos A fragilidade dos mecanismos de emergência ganha importância adicional com a expansão das instituições financeiras não bancárias. Os fundos de investimento podem recorrer a bancos para obter financiamento, executar operações ou garantir posições nos mercados. Estas relações criam canais através dos quais uma dificuldade inicialmente localizada fora do setor bancário pode atingir instituições tradicionais. Um fundo obrigado a vender rapidamente ativos pode provocar perdas de mercado que afetem outros investidores. Se o mesmo fundo não conseguir cumprir as suas obrigações perante um banco, a instituição financiadora poderá enfrentar perdas de crédito. Quando vários participantes utilizam estratégias semelhantes, as dificuldades podem surgir simultaneamente. O risco não decorre necessariamente da existência dos fundos, mas da combinação entre alavancagem, concentração de posições e dependência de financiamento. Edifício do Banco da Reserva Federal de Atlanta, em 24 de setembro de 2023. Imagem de arquivo para enquadramento institucional; não representa um fundo de investimento. Fotografia: Thomson200, via Wikimedia Commons. Domínio público, CC0 1.0. Os bancos estão sujeitos a exigências de capital, liquidez e divulgação de informação. O enquadramento aplicável às instituições financeiras não bancárias varia de acordo com a natureza das entidades e das atividades desenvolvidas. Esta diversidade dificulta a construção de uma visão completa do sistema. As autoridades podem conhecer a exposição de um banco a determinado fundo sem disporem de informação equivalente sobre todas as posições assumidas por esse fundo junto de outros financiadores. O problema agrava-se quando existem estruturas empresariais complexas ou operações distribuídas por diferentes jurisdições. A informação fragmentada pode levar a uma avaliação insuficiente dos riscos comuns. Durante períodos de estabilidade, as relações financeiras parecem funcionar sem dificuldades. A liquidez disponível permite renovar empréstimos, manter posições e realizar transações. Quando as condições se deterioram, vários participantes podem procurar reduzir simultaneamente a sua exposição. A capacidade de vender ativos ou obter financiamento, considerada suficiente em circunstâncias normais, pode desaparecer precisamente quando se torna mais necessária. A crise de 2008 revelou riscos associados ao financiamento imobiliário, à titularização de créditos e à interligação entre bancos e outros intermediários. Em março de 2020, o início da pandemia provocou perturbações significativas em vários mercados financeiros, exigindo intervenções extraordinárias dos bancos centrais. Estes episódios não permitem prever a origem de uma futura crise. Mostram que a estabilidade das instituições individuais não garante necessariamente a estabilidade do sistema. Uma perturbação pode começar num fundo, num mercado de dívida ou numa instituição especializada e atingir bancos através das relações financeiras existentes. Supervisão bancária e fundos de investimento A União Europeia dispõe de mecanismos de supervisão bancária e de resolução de instituições em dificuldades. O Mecanismo Único de Supervisão atribui ao Banco Central Europeu responsabilidades diretas sobre os bancos significativos dos países participantes. O Mecanismo Único de Resolução procura assegurar uma resposta coordenada quando determinadas instituições entram em situação de inviabilidade ou risco de inviabilidade. Estas estruturas representam uma evolução importante relativamente à fragmentação institucional que existia antes da crise da dívida soberana. Persistem diferenças nacionais e limitações na integração financeira. A União Bancária continua incompleta, nomeadamente pela ausência de um sistema europeu comum de seguro de depósitos plenamente estabelecido. Além disso, a supervisão das instituições não bancárias envolve autoridades e regimes regulamentares diferentes. A existência de mecanismos europeus de resposta não elimina a necessidade de coordenação com as autoridades nacionais e internacionais. O desafio consiste em assegurar que as decisões possam ser tomadas com rapidez suficiente quando uma crise ultrapassa fronteiras ou envolve diferentes tipos de instituições. A regulamentação financeira tende a evoluir depois de episódios que revelam fragilidades anteriormente subestimadas. A crise de 2008 conduziu ao reforço das exigências de capital e liquidez bancária. Dificuldades posteriores evidenciaram outros riscos, incluindo a velocidade das retiradas de depósitos e a exposição a alterações abruptas das condições de mercado. Os instrumentos concebidos para responder a crises conhecidas podem não abranger todas as vulnerabilidades futuras. A expansão do crédito privado, o crescimento das estratégias alavancadas e a utilização de estruturas financeiras complexas exigem acompanhamento permanente. Não basta determinar se os bancos dispõem de capital suficiente para absorver perdas previsíveis. É necessário avaliar a rapidez com que podem surgir necessidades de liquidez, a concentração das exposições e a capacidade das autoridades para intervir. A resistência de uma instituição depende também das condições em que operam os seus financiadores e parceiros. Átrio do edifício Marriner S. Eccles, da Reserva Federal, em Washington, em 20 de abril de 2011. Fotografia de arquivo para enquadramento institucional. Crédito: Britt Leckman/Reserva Federal, via Wikimedia Commons. Domínio público nos EUA. O crescimento das instituições financeiras não bancárias alterou a distribuição do financiamento e dos riscos na economia. Oferece vantagens, incluindo uma maior diversidade de investidores e fontes alternativas de crédito. Não significa que os riscos tenham desaparecido dos bancos. Parte pode regressar através de empréstimos, garantias e operações nos mercados financeiros. O alerta do Conselho de Estabilidade Financeira acrescenta outra preocupação: nem todas as jurisdições analisadas dispõem de mecanismos públicos de financiamento em resolução plenamente alinhados com as recomendações internacionais. Um sistema financeiro pode apresentar instituições individualmente sólidas e continuar vulnerável a perturbações que se propagam através das suas interligações. A próxima crise não terá necessariamente origem num banco. Mas a capacidade de a conter continuará a depender, em grande medida, dos bancos centrais, das autoridades de supervisão e dos mecanismos de financiamento de emergência. Fontes documentais Relatório do FSB sobre financiamento público em resolução FSB: alavancagem nas instituições financeiras não bancárias FINMA: lições da crise do Credit Suisse BCE: supervisão, resolução e União Bancária Continue a leitura Inteligência artificial: quem financia e quem arrisca? Como o financiamento de centros de dados e a sobreposição entre investidores, fornecedores e clientes distribuem o risco. Luís Montenegro e o melhor desempenho económico da Europa? Outra análise sobre os limites dos indicadores: o que os números permitem afirmar sobre a economia e o que fica por demonstrar. #EstadosUnidos #Europa #Economia #mercadosfinanceiros

  • Teletrabalho em Lisboa: o fuso é do patrão

    Teletrabalho em Lisboa - A reunião foi marcada para a hora do patrão, que em Lisboa cai sempre no melhor momento da tarde. O microfone silenciado é a única coisa na varanda que ainda está no fuso dela. Teletrabalho em Lisboa, com o relógio de outro país. Banda desenhada do Atlantic Lisbon. #Portugal #Cartoon #Lisboa #Humor #teletrabalho

  • Jorge Palma não cabe na fotografia da boémia

    O estudo e as influências musicais de Jorge Palma ficam frequentemente de fora do retrato da boémia. O cigarro, a madrugada e a voz tornam-no reconhecível. Nas canções de Jorge Palma há também estudo e escolhas musicais que essa imagem deixa de fora. A palavra boémio chega depressa quando se fala de Jorge Palma. Traz consigo uma fotografia quase pronta: o cigarro, a madrugada, a voz, o piano. Reconhecemos o homem antes de ouvir a canção. Depois, por vezes, continuamos a vê-lo enquanto a música passa. Jorge Palma e a construção de uma obra maior do que o mito Jorge Palma. A imagem pública do músico tornou-se inseparável da boémia, mas o seu trabalho juntava composição, piano e estudo académico. Uma noite pode dar-lhe um episódio, uma frase, uma disposição. Entre essa matéria e uma música que outra pessoa queira ouvir há palavras que funcionam numa conversa e falham quando são cantadas, relações entre sons, tentativas recusadas. A fotografia não mostra esse trabalho. A maneira de cantar do Jorge Palma aproxima a canção da fala. Conserva uma aspereza que não disfarça o esforço e deixa o ouvinte chegar mais perto. Podemos imaginar que estamos a ouvi-lo antes de ter preparado o que vai dizer. Mas alguém escreveu o texto, escolheu a música e decidiu como os juntar. A voz dá-nos acesso ao resultado. Em Lisboa, as ruas percorridas à noite, os bares e os encontros oferecem um cenário onde é fácil colocá-lo. O retrato parece dispensar mais perguntas. A cidade tem, porém, outras maneiras de entrar nas canções: através da música que chega de fora, do que se ouve e aprende, das experiências que deixam de caber no lugar onde aconteceram. Com Jorge Palma, Lisboa pode ouvir-se também a partir dessas entradas. A familiaridade de uma canção não nos diz tudo sobre a sua origem. O que se ouve antes de escrever Lou Reed está na origem de «Bairro do Amor». Jorge Palma tentou escrever à sua maneira, tanto na letra como na música. A referência atravessou a sequência dos acordes e misturou-se com ambientes que o compositor conhecia. O título convida a procurar um lugar. Palma, porém, não lhe atribui uma morada concreta. Reconhece no ambiente da canção uma relação com os que frequentou, incluindo um período de consumo de drogas injetáveis. Quis dar alguma luz a essa matéria. Ficam próximas duas coisas que uma explicação apenas biográfica separaria mal: a experiência de Jorge Palma e o que aprendeu a ouvir em Lou Reed. Na canção, já não é possível distribuí-las por compartimentos. Nem cada palavra precisa de corresponder a um episódio. Quem pouco sabe da vida do autor pode reconhecer aquele bairro. Leva para a música lugares e pessoas que Jorge Palma nunca conheceu. Quem sabe mais da sua história continua sem poder fixar a canção numa casa ou numa noite. É frequente procurar nos artistas essa correspondência. Uma obra deveria confirmar a pessoa, e a pessoa explicar a obra. Quanto mais familiar é o rosto, mais depressa uma nova canção serve para provar aquilo que já se dizia dele. No caso de Jorge Palma, a reputação da boémia oferece respostas antes de se ter ouvido o que mudou. Ficam de fora os outros músicos, os instrumentos, a aprendizagem. Ficaria de fora o regresso ao estudo académico do piano, quando já tinha um percurso profissional. Jorge Palma voltou às aulas aos 33 anos e concluiu o curso superior aos 40, enquanto gravava discos e dava concertos. Queria organizar os conhecimentos que possuía. Claude Debussy, em retrato de Jacques-Émile Blanche (1902) fotografado pela Bain News Service. Palma trabalhava um prelúdio de Debussy quando compôs «Estrela do Mar». Crédito: Bain News Service / Library of Congress, sem restrições conhecidas de publicação. «Estrela do Mar» foi composta à guitarra quando já tinha retomado os estudos e trabalhava um prelúdio de Debussy. Dessa canção fez um arranjo para piano que considerava o seu melhor. Atribuía à formação a possibilidade de o ter conseguido. O estudo entrou numa canção sua, longe das peças que tinha de preparar para as aulas. Quem ouve «Estrela do Mar» pode receber tudo isso sem conhecer Debussy. Não precisa de identificar a aprendizagem para sentir o que ela permitiu fazer. Palma também não escolheu a carreira de solista. Conhecia a dedicação diária que exigia e não tinha feitio para ela. O curso deu-lhe recursos que levou para outros trabalhos. Uma canção composta à guitarra pôde ganhar no piano uma forma que antes estaria fora do seu alcance. Reduzir tudo isto ao temperamento deixa por explicar uma parte substancial da autoria. Palma ouve, aprende e trabalha com o que recolhe. A experiência vivida entra nesse processo, mas não ocupa sozinha o lugar de compositor. A canção deixa de lhe pertencer por inteiro Jorge Palma achava «Encosta-te a Mim» banal e ponderou deixá-la fora do disco. Amigos músicos, e outros que não eram músicos, insistiram para que a incluísse. A canção encontrou um público que a sua avaliação inicial não antecipava. Ele conhecia-a de dentro: as escolhas, o esforço, aquilo a que atribuía valor. Os ouvintes receberam-na sem essa história. Encontraram uma música para voltar a ouvir. Uma passagem que deu pouco trabalho pode tornar-se a razão por que alguém guarda uma canção. O compositor não conhece o momento em que isso acontece. Não sabe a quem a música será associada, que ausência acompanhará, por que motivo será lembrada anos depois. «Encosta-te a Mim» passa a existir nessas ocasiões. Sem alterar uma palavra, cada ouvinte acrescenta-lhe um contexto. Há quem a receba como declaração, quem procure consolo, quem se lembre de uma pessoa. A avaliação inicial de Palma fica cada vez mais distante dessas vidas. O rosto do autor continua reconhecível. A familiaridade pode ajudar a chegar à música e pode também prender-nos à mesma leitura. Esperamos da figura pública aquilo que já conhecemos: um modo de estar, uma voz, um carácter. Até as fragilidades acabam por se tornar parte dessa expectativa. Jorge Palma reúne trabalhos e exigências que não cabem todos na palavra boémio. O estudo do piano, a composição, o rock, a presença informal diante do público ocupam espaços diferentes. Por vezes aproximam-se; por vezes, um deles absorve a atenção e deixa os restantes na sombra. Não é preciso atribuir aos excessos o mérito das canções para preservar esse retrato. Seria outra explicação fácil. As dificuldades de uma pessoa podem interferir no trabalho de muitas maneiras; a qualidade da música não demonstra que fossem necessárias. O pianista com formação não tem de exibir o curso em cada canção. O compositor pode trabalhar com exigência e chegar ao ouvinte sem solenidade. A informalidade de Jorge Palma permite essa proximidade, embora não explique por si o que estamos a ouvir. Voltamos ao piano, à voz e ao rosto conhecido. Sabemos que a fotografia deixa de fora o estudo e que algumas canções chegaram mais longe do que ele esperava. «Encosta-te a Mim» esteve perto de ficar fora do disco. Entrou, e os ouvintes continuam a encontrar-lhe razões. #Portugal #ArábiaSaudita #Cultura #Democracia #Música

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