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Bancos e fundos de investimento: onde se acumulam os riscos

há 7 dias
7 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

A estabilidade financeira deixou de depender exclusivamente da solidez dos bancos. Parte crescente do crédito, do financiamento empresarial e das operações nos mercados de capitais envolve fundos de investimento e outras instituições que não estão sujeitas às mesmas regras prudenciais da banca tradicional. Esta transformação criou novas fontes de financiamento, mas também tornou mais difícil identificar onde se acumulam os riscos.


Um banco pode apresentar indicadores de capital satisfatórios e, simultaneamente, manter exposições relevantes a fundos que dependem de financiamento de curto prazo ou de ativos difíceis de vender. Quando as instituições estão ligadas por empréstimos, garantias e investimentos cujo comportamento pode mudar rapidamente durante uma crise, não basta saber se os bancos resistiriam a uma nova crise. É preciso perceber se o conjunto das relações financeiras permite identificar antecipadamente dificuldades que podem transmitir-se de uma instituição para outra.


Durante décadas, os bancos ocuparam uma posição central no financiamento das empresas. Recebiam depósitos, concediam empréstimos e mantinham uma parte significativa dos riscos nos seus balanços. Este modelo continua a desempenhar uma função essencial, mas deixou de representar a totalidade do sistema de crédito. Fundos de dívida privada, sociedades de investimento, veículos de titularização e outras entidades passaram a participar diretamente no financiamento de empresas e na aquisição de ativos financeiros. Uma empresa que encontra dificuldades para obter crédito bancário pode recorrer a investidores especializados, enquanto os fundos oferecem aos participantes acesso a estratégias diferentes das tradicionais. Quando os bancos financiam fundos ou participam nas mesmas operações, os riscos podem permanecer ligados ao sistema bancário, embora distribuídos por diferentes entidades.


Fundos de investimento: alavancagem e liquidez


A alavancagem permite aumentar a dimensão de um investimento através da utilização de capital emprestado. Um fundo que disponha de recursos próprios pode contrair financiamento adicional para adquirir ativos. Se estes se valorizarem, o rendimento sobre o capital inicialmente investido poderá aumentar. O mesmo mecanismo amplia as perdas quando os preços descem.


Os empréstimos associados a garantias cujo valor varia com as condições de mercado tornam a dificuldade particularmente importante. Uma descida de preços pode levar os financiadores a exigir garantias adicionais. Se o fundo não dispuser de liquidez suficiente, poderá ser obrigado a vender ativos. Estas vendas podem contribuir para novas descidas de preços, desencadeando exigências adicionais de garantias a outros participantes.


A transmissão depende da dimensão das posições, da concentração dos financiadores e da capacidade dos participantes para obter liquidez sem provocar perturbações adicionais.


Num relatório divulgado em 9 de outubro de 2026, o Conselho de Estabilidade Financeira, organismo internacional que acompanha os riscos para o sistema financeiro, examinou a aplicação de recomendações sobre mecanismos públicos de financiamento temporário de bancos em resolução, utilizados como último recurso. Apenas quatro das 19 jurisdições analisadas cumpriam integralmente os critérios avaliados: Estados Unidos, Reino Unido, Japão e Hong Kong. Outras apresentavam lacunas na dimensão, na flexibilidade ou na prontidão operacional do financiamento disponível.


A avaliação não abrange toda a capacidade das autoridades para responder a crises financeiras, mas um instrumento específico de apoio à resolução ordenada de bancos.



Em 2023, o Credit Suisse enfrentou uma perda acelerada de confiança e uma retirada significativa de depósitos, acabando por ser adquirido pelo UBS numa operação de emergência. O caso revelou que uma crise de liquidez pode desenvolver-se rapidamente, mesmo numa instituição sujeita a supervisão e com presença internacional.


Os bancos centrais podem disponibilizar liquidez extraordinária para evitar que dificuldades temporárias de financiamento provoquem a interrupção de atividades essenciais. Estes instrumentos não devem ser confundidos com soluções para problemas de insolvência. Uma instituição que possui ativos suficientes, mas não consegue convertê-los rapidamente em dinheiro, enfrenta uma situação diferente da de outra cujos ativos já não cobrem as suas responsabilidades. A concessão de liquidez pode ajudar no primeiro caso. No segundo, pode apenas adiar o reconhecimento das perdas, se não for acompanhada por medidas que tratem a insolvência. Esta distinção exige informação fiável sobre a situação financeira das instituições e mecanismos de decisão capazes de funcionar sob pressão. Quando uma instituição desenvolve atividades em vários países, as autoridades nacionais podem ter competências diferentes, os ativos podem estar distribuídos por diversas jurisdições e as decisões tomadas num país podem afetar depositantes e investidores noutros mercados.


Como os fundos de investimento transmitem riscos aos bancos


A fragilidade dos mecanismos de emergência ganha importância adicional com a expansão das instituições financeiras não bancárias. Os fundos de investimento podem recorrer a bancos para obter financiamento, executar operações ou garantir posições nos mercados. Estas relações criam canais através dos quais uma dificuldade inicialmente localizada fora do setor bancário pode atingir instituições tradicionais.


Um fundo obrigado a vender rapidamente ativos pode provocar perdas de mercado que afetem outros investidores. Se o mesmo fundo não conseguir cumprir as suas obrigações perante um banco, a instituição financiadora poderá enfrentar perdas de crédito. Quando vários participantes utilizam estratégias semelhantes, as dificuldades podem surgir simultaneamente.


O risco não decorre necessariamente da existência dos fundos, mas da combinação entre alavancagem, concentração de posições e dependência de financiamento.



Os bancos estão sujeitos a exigências de capital, liquidez e divulgação de informação. O enquadramento aplicável às instituições financeiras não bancárias varia de acordo com a natureza das entidades e das atividades desenvolvidas. Esta diversidade dificulta a construção de uma visão completa do sistema.


As autoridades podem conhecer a exposição de um banco a determinado fundo sem disporem de informação equivalente sobre todas as posições assumidas por esse fundo junto de outros financiadores.


O problema agrava-se quando existem estruturas empresariais complexas ou operações distribuídas por diferentes jurisdições. A informação fragmentada pode levar a uma avaliação insuficiente dos riscos comuns. Durante períodos de estabilidade, as relações financeiras parecem funcionar sem dificuldades.


A liquidez disponível permite renovar empréstimos, manter posições e realizar transações. Quando as condições se deterioram, vários participantes podem procurar reduzir simultaneamente a sua exposição.


A capacidade de vender ativos ou obter financiamento, considerada suficiente em circunstâncias normais, pode desaparecer precisamente quando se torna mais necessária.


A crise de 2008 revelou riscos associados ao financiamento imobiliário, à titularização de créditos e à interligação entre bancos e outros intermediários.


Em março de 2020, o início da pandemia provocou perturbações significativas em vários mercados financeiros, exigindo intervenções extraordinárias dos bancos centrais. Estes episódios não permitem prever a origem de uma futura crise. Mostram que a estabilidade das instituições individuais não garante necessariamente a estabilidade do sistema. Uma perturbação pode começar num fundo, num mercado de dívida ou numa instituição especializada e atingir bancos através das relações financeiras existentes.


Supervisão bancária e fundos de investimento


A União Europeia dispõe de mecanismos de supervisão bancária e de resolução de instituições em dificuldades. O Mecanismo Único de Supervisão atribui ao Banco Central Europeu responsabilidades diretas sobre os bancos significativos dos países participantes. O Mecanismo Único de Resolução procura assegurar uma resposta coordenada quando determinadas instituições entram em situação de inviabilidade ou risco de inviabilidade.


Estas estruturas representam uma evolução importante relativamente à fragmentação institucional que existia antes da crise da dívida soberana. Persistem diferenças nacionais e limitações na integração financeira.


A União Bancária continua incompleta, nomeadamente pela ausência de um sistema europeu comum de seguro de depósitos plenamente estabelecido. Além disso, a supervisão das instituições não bancárias envolve autoridades e regimes regulamentares diferentes. A existência de mecanismos europeus de resposta não elimina a necessidade de coordenação com as autoridades nacionais e internacionais.


O desafio consiste em assegurar que as decisões possam ser tomadas com rapidez suficiente quando uma crise ultrapassa fronteiras ou envolve diferentes tipos de instituições.


A regulamentação financeira tende a evoluir depois de episódios que revelam fragilidades anteriormente subestimadas. A crise de 2008 conduziu ao reforço das exigências de capital e liquidez bancária. Dificuldades posteriores evidenciaram outros riscos, incluindo a velocidade das retiradas de depósitos e a exposição a alterações abruptas das condições de mercado.



Os instrumentos concebidos para responder a crises conhecidas podem não abranger todas as vulnerabilidades futuras. A expansão do crédito privado, o crescimento das estratégias alavancadas e a utilização de estruturas financeiras complexas exigem acompanhamento permanente. Não basta determinar se os bancos dispõem de capital suficiente para absorver perdas previsíveis. É necessário avaliar a rapidez com que podem surgir necessidades de liquidez, a concentração das exposições e a capacidade das autoridades para intervir.


A resistência de uma instituição depende também das condições em que operam os seus financiadores e parceiros.



O crescimento das instituições financeiras não bancárias alterou a distribuição do financiamento e dos riscos na economia. Oferece vantagens, incluindo uma maior diversidade de investidores e fontes alternativas de crédito. Não significa que os riscos tenham desaparecido dos bancos. Parte pode regressar através de empréstimos, garantias e operações nos mercados financeiros.


O alerta do Conselho de Estabilidade Financeira acrescenta outra preocupação: nem todas as jurisdições analisadas dispõem de mecanismos públicos de financiamento em resolução plenamente alinhados com as recomendações internacionais. Um sistema financeiro pode apresentar instituições individualmente sólidas e continuar vulnerável a perturbações que se propagam através das suas interligações.


A próxima crise não terá necessariamente origem num banco. Mas a capacidade de a conter continuará a depender, em grande medida, dos bancos centrais, das autoridades de supervisão e dos mecanismos de financiamento de emergência.


Fontes documentais







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