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Criptografia quântica: em Portugal, uma rede de Estado

há 1 hora
6 min de leitura

Capa — Bastidores de telecomunicações do TISCOM, em Alexandria, nos EUA, em 24 de janeiro de 2013. Fotografia: Etta Smith / U.S. Coast Guard, via DVIDS; domínio público nos EUA. Recorte sem rostos e composição tipográfica: Atlantic Lisbon. Imagem de contexto, não da PTQCI. The appearance of U.S. Department of War (DoW) visual information does not imply or constitute DoW endorsement. Origem da fotografia


A criptografia quântica que Portugal instalou tem um segmento destinado a organismos do Estado e é contestada por agências de segurança europeias.


A criptografia quântica de que aqui se trata é a distribuição quântica de chaves, conhecida pela sigla inglesa QKD. A candidatura PTQCI foi aprovada pela Comissão Europeia a 15 de julho de 2022, com catorze entidades do Estado, das universidades e da indústria. O INESC-ID descreve o Gabinete Nacional de Segurança como coordenador nacional, em articulação com a Deimos. A Altice Labs fala num consórcio liderado pela Deimos.


As datas variam. A Altice Labs indica o período de 1 de janeiro de 2023 a 30 de junho de 2025; o ISEL aponta para 2023 a 2025. Uma nota do INESC-ID, escrita quando a candidatura foi aprovada, falava em 2023 a 2026. O projeto, do programa Europa Digital, tem um investimento total estimado de 6,3 milhões de euros na ficha da Altice Labs; o ISEL e o Instituto de Telecomunicações indicam cerca de 6,8 milhões.


Em 25 de maio de 2026, num artigo de opinião publicado no ECO, Catarina Bastos, responsável de redes quânticas na Indra Space, escreveu que a PTQCI tem um segmento operacional que permite comunicar e partilhar informação sensível entre quatro áreas de soberania nacional, sem as nomear, e que usa apenas tecnologia europeia. A Indra Space coordena a IberianQCI, segundo o Instituto de Telecomunicações.


A IberianQCI foi apresentada publicamente em maio de 2026, mas a ficha do Instituto de Telecomunicações regista o início do projeto em 1 de janeiro. Financiada pelo Mecanismo Interligar a Europa, reúne entidades portuguesas e espanholas. A mesma ficha enumera catorze organizações, entre elas a Infraestruturas de Portugal, a IP Telecom, o Instituto de Telecomunicações, a Altice Labs, o Técnico, a Telefónica e o ICFO. Prevê ligações terrestres entre Lisboa, Valença e Vigo, com nós de confiança, e estações óticas em Madrid, Barcelona e na região de Lisboa para comunicar com o satélite Eagle-1 e, depois, com a constelação SAGA.


Pelo que se descreve, o segmento operacional serve organismos do Estado, não o público. A PTQCI inclui também uma rede de testes com parceiros académicos e privados. Os nós de chaves e as máquinas de cifra mencionados por Catarina Bastos são produtos desenvolvidos no projeto DISCRETION, sobre o qual a PTQCI se apoia.


Técnico ajusta cabos num armário de rede aberto, ao lado de bastidores com ligações de várias cores.
A proteção das comunicações depende também do equipamento e das instalações. Fotografia de arquivo do centro TISCOM, em Alexandria, nos EUA, em 24 de janeiro de 2013; imagem de contexto, não da PTQCI. Etta Smith / U.S. Coast Guard, via DVIDS. Domínio público nos EUA. The appearance of U.S. Department of War (DoW) visual information does not imply or constitute DoW endorsement. Origem · Condições de utilização

O que a segurança da criptografia quântica tem de contestado


A QKD procura proteger o estabelecimento de chaves contra ataques, incluindo os de futuros computadores quânticos capazes de quebrar parte da criptografia atual. Em janeiro de 2024, as agências de segurança da informação e das comunicações de França, Alemanha, Países Baixos e Suécia publicaram uma posição conjunta em que a QKD aparece com limitações funcionais significativas, adequada apenas a casos de nicho, dependente de equipamento especializado e sem maturidade de segurança suficiente. Recomendavam dar prioridade à criptografia pós-quântica, baseada em algoritmos clássicos concebidos para resistir a esses computadores.


O centro de cibersegurança britânico escreveu em agosto de 2025 que não apoiará o uso da QKD em aplicações governamentais ou militares e lembrou que a QKD não fornece autenticação. A Agência de Segurança Nacional dos Estados Unidos publicou a 1 de outubro de 2026 uma declaração que mantém a recomendação contra a QKD em sistemas de segurança nacional enquanto não forem superadas as limitações técnicas. Aponta o equipamento especializado, os nós de confiança e a maior exposição a ataques de negação de serviço.


A posição não é uniforme nem dentro de um país. Na Alemanha, o BSI assinou o texto de 2024 e, em 2021, fez com o Ministério da Investigação uma videoconferência protegida por QKD, no âmbito da iniciativa QuNET. A União Europeia financia as redes de chaves quânticas e, ao mesmo tempo, coordenou um roteiro que recomenda a todos os Estados-membros o início da transição para a criptografia pós-quântica até ao fim de 2026 e a migração dos usos de risco elevado até ao fim de 2030.


Em redes QKD de longa distância com retransmissores de confiança, as perdas na fibra levam a encadear troços, e os nós intermédios têm acesso ao material de chave que retransmitem. A segurança depende também da proteção desses nós. Colocá-los em instalações controladas pelo Estado pode facilitar essa proteção; não demonstra que os riscos identificados pelas agências tenham sido resolvidos.


A internet que o nome promete


A palavra internet promete outra coisa: emaranhamento distribuído entre nós distantes, que pode permitir comunicar sem confiar aos intermediários as chaves finais. Já houve demonstrações em fibra instalada fora do laboratório; uma rede operacional de longa distância com repetidores continua em desenvolvimento. Um trabalho publicado em agosto de 2026 na Physical Review Letters emaranhou duas memórias quânticas através de 420 quilómetros de fibra, soma de dois braços, em grande parte enrolada em bobinas. As memórias estavam no mesmo laboratório. Na versão dos autores, a probabilidade de estabelecer emaranhamento era de cerca de uma por cada milhão de tentativas.


Investigador de óculos de proteção junto de um bastidor de instrumentos eletrónicos e cabos de fibra ótica amarelos.
Equipamento usado pelo NIST e colaboradores na distribuição de fotões emaranhados através de 62 km de fibra comercial. Fotografia publicada em agosto de 2026, relativa a uma experiência realizada em 2025. Megan King / NIST. Domínio público nos EUA; imagem de contexto, não de uma rede portuguesa. A utilização não implica apoio do NIST ao Atlantic Lisbon. Origem · Condições de utilização

A Quantum Internet Alliance concluiu a primeira fase em março de 2026 e anunciou a segunda num comunicado disponibilizado no início de outubro, com 47,5 milhões de euros para 42 meses. Entre os objetivos está ligar duas redes metropolitanas por um troço com repetidores. A ligação das duas é um objetivo, não um resultado. O satélite europeu de distribuição de chaves, o Eagle-1, inicialmente previsto para 2024, deverá ser lançado no fim de 2027, segundo a Comissão Europeia.


Dois projetos numa só rede


A rede que Portugal construiu tem um segmento destinado ao Estado, assenta numa tecnologia cujo uso as quatro agências europeias consideram limitado e que as agências britânica e norte-americana desaconselham para aplicações governamentais ou de segurança nacional. A investigação europeia procura, em paralelo, construir uma internet quântica com repetidores.


Pelo que li, o argumento para investir é o da soberania e o da oportunidade industrial: capacidade de construir, de exportar, de depender menos de fornecedores externos. É um argumento legítimo e distinto do criptográfico. Uma rede que, segundo a responsável da Indra Space, protege as chaves de quatro áreas do Estado e a preparação da indústria portuguesa para futuras redes com repetidores correspondem a objetivos diferentes, com utilizadores, custos e calendários distintos.


O projeto português foi aprovado em julho de 2022, mais de um ano antes da posição das quatro agências. A Comissão Europeia consultou o setor sobre o que o EuroQCI apoiará a partir de 2027, entre 26 de maio e 24 de junho de 2026. A consulta já fechou. O satélite europeu de chaves deverá partir no fim de 2027.


Fontes institucionais






















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