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Trump negoceia com Putin sem obter uma concessão russa

há 3 dias
6 min de leitura

Atualizado: há 15 horas

O acordo sobre o gasóleo russo surgiu depois de Kiev recusar suspender unilateralmente os ataques às refinarias. Washington procura usar a energia para aproximar Moscovo de um acordo de paz, mas Putin ainda não se comprometeu e não se comprometerá a regressar às negociações.


A administração de Donald Trump pretende convencer a Rússia a negociar o fim da guerra na Ucrânia através de uma combinação de incentivos económicos e propostas de segurança. O primeiro resultado concreto não foi uma concessão política de Moscovo. Foi um acordo sobre o gasóleo russo, anunciado depois de Kiev ter recusado sucessivos pedidos norte-americanos para interromper os ataques às refinarias da Rússia.


Washington está disposto a aliviar a pressão sobre o setor energético russo na expectativa de obter uma abertura diplomática de Vladimir Putin. Ao mesmo tempo, exige que a Ucrânia abandone a campanha militar que tem provocado dificuldades no abastecimento de combustíveis à Rússia. O presidente russo, por seu lado, não assumiu sequer o compromisso de retomar imediatamente as conversações de paz.


Para Kiev, os ataques às refinarias aumentam os custos da guerra e podem obrigar a Rússia a reconsiderar as suas posições. Para a Casa Branca, essas operações prejudicam também os consumidores norte-americanos e dificultam a estratégia diplomática que passa por oferecer oportunidades económicas ao Kremlin. Este foi o argumentário desenhado.



Segundo a informação disponível, os ataques ucranianos produziram resultados significativos nos últimos meses. Contribuíram para uma crise energética interna que levou Moscovo a restringir as exportações de gasóleo. A restrição agravou as dificuldades de um mercado internacional já pressionado pela guerra no Irão. Uma campanha destinada a prejudicar a capacidade económica e militar da Rússia começou também a contrariar os interesses imediatos dos Estados Unidos, o principal parceiro externo de Kiev.


Trump pediu repetidamente a Volodymyr Zelensky que suspendesse os ataques. De acordo com um responsável norte-americano com conhecimento direto das conversações, ouvido pela Axios, foram feitos cerca de seis pedidos nesse sentido, sem que o presidente ucraniano aceitasse a exigência. Zelensky apresentou uma alternativa: a Ucrânia interromperia os ataques às refinarias se a Rússia deixasse de bombardear as centrais elétricas ucranianas. A proposta estabelecia uma troca entre duas formas de pressão sobre infraestruturas energéticas. Não pressupunha que as operações tivessem a mesma natureza ou produzissem consequências idênticas. Procurava obter uma obrigação russa em contrapartida de uma suspensão ucraniana.


Trump não aceitou a equivalência. Segundo o responsável norte-americano, considerava que os ataques às refinarias tinham efeitos sobre os preços dos combustíveis nos Estados Unidos e queria que Kiev os interrompesse independentemente de uma decisão semelhante de Moscovo. Para a Ucrânia, aceitar uma suspensão unilateral significaria perder uma forma de pressão sem obter proteção adicional para a sua infraestrutura energética. Para Washington, manter os ataques representava prolongar uma perturbação do mercado que a Casa Branca pretendia reduzir.



Zelensky declarou ter sido surpreendido pelo anúncio. Considerou o acordo injusto e desonesto e interpretou-o como um benefício injustificado concedido a Putin. Kiev procura atingir instalações que considera importantes para o esforço de guerra russo, enquanto Washington procura restabelecer oportunidades comerciais ligadas a produtos dessas mesmas instalações. Com os elementos disponíveis, não é possível concluir qual será o efeito líquido do acordo sobre as receitas russas ou sobre os preços internacionais. Os volumes anunciados não permitem, por si só, quantificar essas consequências. O que se conhece é a diferença entre as decisões exigidas a cada parte. A Ucrânia foi pressionada a interromper uma campanha militar que produzia custos para a Rússia. Moscovo recebeu a perspetiva de um entendimento comercial sem ter anunciado uma concessão militar correspondente.


A pressão sobre Kiev tornou-se particularmente sensível durante as conversações realizadas em Miami, que se prolongaram por oito horas. Steve Witkoff e Jared Kushner transmitiram aos representantes ucranianos que Trump deveria conversar com Putin e avançar com um alívio temporário das sanções aplicáveis às exportações russas de gasóleo. Segundo um responsável ucraniano ouvido pela Axios, os enviados norte-americanos admitiram a possibilidade de Trump suspender a partilha de informações militares caso Kiev continuasse a ignorar os pedidos para interromper os ataques. A versão foi contestada por um responsável dos Estados Unidos, que negou a existência de qualquer ameaça. Segundo a explicação norte-americana, Witkoff e Kushner recordaram que Washington continuava a fornecer munições e informações militares à Ucrânia e defenderam que Kiev não deveria realizar operações que prejudicassem os consumidores dos Estados Unidos. Não há elementos suficientes para afirmar que a administração Trump tenha decidido condicionar formalmente a cooperação militar à suspensão dos ataques. Existe, contudo, uma ligação política entre os dois assuntos. A assistência norte-americana foi invocada durante a discussão sobre as operações ucranianas que Washington pretendia fazer cessar. Mesmo na versão apresentada pelo responsável norte-americano, a mensagem colocava a continuidade da cooperação num contexto de obrigações recíprocas. Os Estados Unidos forneciam recursos militares importantes e esperavam que a Ucrânia tivesse em consideração os interesses económicos norte-americanos.


O confronto sobre o gasóleo surgiu quando os negociadores norte-americanos procuravam avançar com um conjunto de propostas destinadas a terminar a guerra. As reuniões de Miami envolveram representantes ucranianos e europeus e abrangeram matérias que vão muito além da interrupção dos combates. Uma das prioridades era definir as garantias de segurança que os Estados Unidos, os países europeus e a NATO poderiam proporcionar à Ucrânia no âmbito de um acordo de paz. Foram também discutidas novas propostas territoriais. Witkoff e Kushner apresentaram elementos de um pacote económico para o período posterior à guerra. Entre eles estavam mecanismos de financiamento da reconstrução, formas de reconstituir as forças armadas ucranianas e soluções para os défices orçamentais associados ao conflito. Discutiu-se um possível roteiro para a adesão da Ucrânia à União Europeia e a relação que o país manteria com a NATO depois da guerra. Outra componente dizia respeito à segurança europeia. Os enviados norte-americanos colocaram a hipótese de desenvolver um quadro de segurança entre a Europa e a Rússia que pudesse ser considerado aceitável por ambas as partes. Uma decisão relativa a operações militares específicas pode interferir com negociações que envolvem o território ucraniano, garantias de segurança, a reconstrução económica e as relações futuras entre a Rússia e a Europa. Segundo um responsável norte-americano, o conflito sobre o gasóleo surgiu depois de conversações consideradas construtivas com representantes ucranianos e europeus. A divergência operacional acabou por colocar em risco uma iniciativa diplomática de alcance muito superior.



A administração Trump pretende explorar possíveis acordos energéticos com a Rússia para reduzir os preços dos combustíveis e incentivar Moscovo a aceitar concessões. Os elementos disponíveis, porém, ainda não demonstram que Putin esteja disposto a trocar benefícios económicos por alterações substantivas às suas exigências. Durante um contacto telefónico de cerca de 90 minutos, o presidente russo não assumiu o compromisso de retomar as negociações de paz com a Ucrânia.


Segundo Yuri Ushakov, conselheiro de política externa do Kremlin, Putin relacionou a impossibilidade de um regresso imediato às conversações com os ataques ucranianos a Moscovo e a outras cidades durante as eleições parlamentares russas. A explicação atribui às operações ucranianas a responsabilidade pelo adiamento. Não esclarece que concessões Moscovo estaria preparada para fazer caso esses ataques cessassem. O responsável norte-americano citado considera que Putin continua aberto a discutir o fim da guerra. A administração pretende trabalhar numa proposta suficientemente aceitável para o presidente russo interromper as hostilidades. Há uma diferença entre essa avaliação e um compromisso assumido por Moscovo. A disponibilidade presumida para negociar ainda não se traduziu numa decisão de retomar as conversações. Witkoff e Kushner ponderam deslocações a Moscovo e a Kiev na próxima semana, mas a crise provocada pelo acordo sobre o gasóleo poderá afetar os planos. Não existe, por enquanto, confirmação de que as visitas se realizem.


Washington pode considerar que os incentivos comerciais constituem uma forma eficaz de aproximar Putin das negociações. Mas a utilidade futura dessa estratégia não elimina os efeitos imediatos das exigências dirigidas à Ucrânia. Kiev é pressionada a suspender os ataques que produziram dificuldades concretas no setor energético russo. A proposta ucraniana de interrupção recíproca das operações contra infraestruturas energéticas não foi aceite pela Casa Branca. Ao mesmo tempo, Washington avança com um entendimento comercial relacionado com o gasóleo russo e procura desenvolver novas oportunidades económicas com Moscovo. Putin, depois de conversar com Trump, não se comprometeu a retomar imediatamente as negociações. As negociações ainda podem evoluir e os incentivos económicos poderão vir a integrar um acordo mais amplo. Por enquanto, identifica-se um desequilíbrio no momento em que as decisões são tomadas. A Ucrânia é chamada a abdicar de uma capacidade de pressão já utilizada e com efeitos conhecidos. A Rússia recebe a perspetiva de benefícios económicos, enquanto as concessões políticas e militares que Washington espera obter continuam por definir.



Capa: ilustração editorial criada para o Atlantic Lisbon; não é uma fotografia documental.


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