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A inteligência artificial disputa a poupança mundial

há 7 dias
6 min de leitura

Atualizado: há 8 horas

Centros de dados em construção, Estados a refinanciar dívida e empresas a procurar crédito para fábricas e equipamentos coincidem no mesmo mercado de financiamento, com custos mais elevados. A dimensão dos projetos tecnológicos levanta uma questão que ultrapassa o setor: a expansão da inteligência artificial pode alterar as condições em que o resto da economia obtém financiamento.


O dinheiro aplicado num centro de dados não fica necessariamente indisponível para outros investimentos. Pode pagar salários, encomendas a fornecedores, gerar lucros e regressar aos mercados. A eletricidade, os equipamentos, os terrenos, a capacidade industrial e o financiamento para construir e operar essas infraestruturas não são ilimitados. Quando a procura cresce mais depressa que a oferta, os custos sobem.


As grandes tecnológicas financiam-se com resultados acumulados, emissão de dívida ou entradas de capital. Os Estados recorrem aos mercados para financiar défices e refinanciar obrigações anteriores. Outras empresas procuram crédito para construir ou expandir.


Para dizer que uma empresa perdeu acesso ao crédito por causa de outra, seria preciso identificar alterações concretas em taxas de juro, prémios de risco ou disponibilidade de capital. A capacidade de uma tecnológica para obter financiamento em condições favoráveis não demonstra, por si só, essa perda. A hipótese económica relevante é outra: investimentos muito elevados concentrados num conjunto restrito de empresas e infraestruturas podem influenciar preços e condições de financiamento de outras atividades.


O financiamento não é uma quantidade fixa que passa de um projeto para outro. Os bancos podem criar crédito, as empresas reinvestir resultados e os mercados mobilizar poupanças antes aplicadas noutros instrumentos. A construção de um centro de dados gera encomendas de equipamentos, serviços de engenharia, instalações elétricas e obras.


Inteligência artificial e infraestrutura de computação: equipamentos do supercomputador Pleiades, na NASA Ames.
Equipamentos do supercomputador Pleiades, no centro Ames da NASA, na Califórnia. Imagem de arquivo ilustrativa da infraestrutura de computação. Crédito: Dominic Hart / NASA Ames, domínio público. Fonte da imagem.


Parte dos recursos regressa à economia sob a forma de receitas e rendimentos. Se existir capacidade produtiva disponível, o investimento adicional pode estimular a atividade. Se os equipamentos, os trabalhadores especializados ou a energia já estiverem sujeitos a uma forte procura, os novos projetos agravam as limitações. Financiamento e disponibilidade efetiva de recursos são problemas diferentes.


Inteligência artificial, centros de dados e eletricidade


Segundo a Agência Internacional de Energia, o investimento mundial em centros de dados aproximou-se de 500 mil milhões de dólares em 2024, praticamente o dobro de 2022.


Nesse ano, estas instalações consumiram aproximadamente 415 terawatts-hora, cerca de 1,5% do consumo mundial. No cenário central do relatório de 2025, o consumo deverá atingir aproximadamente 945 terawatts-hora em 2030, com a inteligência artificial como principal motor desse crescimento, embora não seja a única atividade responsável pela procura dos centros.


Uma empresa pode ter capital para construir e enfrentar dificuldades para obter potência elétrica no local escolhido. Redes, centrais e outras infraestruturas exigem investimento e tempo. A AIE estima que cerca de 20% dos projetos de centros de dados planeados possam enfrentar atrasos se não forem resolvidas limitações de integração nas redes elétricas.


Transformadores e equipamentos de uma subestação elétrica em construção perto de Erbil, no Iraque.
Subestação elétrica em construção perto de Erbil, no Iraque, em 2005. Imagem de arquivo ilustrativa dos equipamentos necessários à rede elétrica. Crédito: Jim Gordon / USACE, via DVIDS, domínio público. Fonte da imagem.


Quando uma instalação exige novas linhas ou reforços da rede, coloca-se a questão de como se distribuem os custos entre o promotor, as empresas de energia e os restantes utilizadores do sistema. A documentação disponível não permite concluir que os consumidores domésticos estejam, de forma generalizada, a financiar centros de dados. Mostra que o crescimento destas instalações torna mais importante a forma como os custos de expansão das redes são atribuídos. O investimento privado pode criar necessidades de infraestrutura cujo financiamento depende de regras públicas.


Dívida pública e financiamento


A 7 de outubro, a diretora-geral do Fundo Monetário Internacional, Kristalina Georgieva, alertou para a combinação de dívida pública elevada, preços da energia e crescimento do investimento em inteligência artificial. O FMI identifica neste último um impulso à procura que pode contribuir para pressões inflacionistas, apesar dos potenciais ganhos de produtividade.


Na semana terminada a 7 de outubro, os fundos monetários receberam entradas líquidas de aproximadamente 153,8 mil milhões de dólares, num contexto de venda de obrigações e subida das respetivas rendibilidades.


Os preços da energia, as perspetivas de inflação, os défices públicos e as expectativas sobre taxas de juro são igualmente relevantes para esses movimentos. A subida das rendibilidades não constitui prova de que centros de dados estejam a retirar financiamento aos Estados.


Os governos precisam de financiar a dívida e o investimento público enquanto a transformação tecnológica exige grandes volumes de capital. Se o custo do financiamento permanecer elevado, projetos com rentabilidade mais incerta tornam-se mais difíceis de concretizar. Empresas com maiores recursos financeiros resistem melhor do que as dependentes de crédito bancário ou financiamento externo. Essa vantagem pode resultar de diferenças na capacidade para suportar riscos, oferecer garantias e esperar pelo retorno, não necessariamente de uma transferência direta de dinheiro entre empresas.


Edifício do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em Washington.
Edifício do Departamento do Tesouro dos Estados Unidos, em Washington. Imagem de arquivo que acompanha a análise do financiamento público. Crédito: Carol M. Highsmith / Library of Congress, domínio público. Fonte da imagem.


Inteligência artificial: Semicondutores e receitas esperadas


As projeções para o terceiro trimestre de 2026 apontam para uma contribuição muito elevada das grandes tecnológicas para o crescimento dos lucros das empresas norte-americanas cotadas, com destaque para os semicondutores, devido à procura associada a infraestruturas de inteligência artificial.


Fornecedores de equipamentos e serviços podem beneficiar da expansão da procura antes de todas as aplicações finais demonstrarem rentabilidade. Há uma diferença entre as receitas obtidas pelos fornecedores e os ganhos realizados pelos compradores. Quem adquire processadores, constrói centros e contrata eletricidade incorre em custos presentes; os benefícios esperados dependem da utilização futura da capacidade instalada e da receita que conseguir gerar.


Se essa receita ficar abaixo das expectativas, permanecem equipamentos, edifícios, contratos e obrigações financeiras. Quando os mesmos pressupostos de crescimento influenciam simultaneamente a avaliação de tecnológicas, fabricantes de equipamentos e fornecedores de energia, uma revisão de expectativas afeta várias atividades que, à primeira vista, pertencem a setores diferentes. O risco de investimento pode estar distribuído por uma cadeia mais extensa do que o setor tecnológico propriamente dito.


Pormenor de uma lâmina de chips do NIST, ilustrando os semicondutores utilizados na infraestrutura tecnológica.
Pormenor de uma lâmina de chips do NIST. Imagem ilustrativa dos semicondutores que integram a infraestrutura tecnológica. Crédito: J. L. Lee / NIST, domínio público. Fonte da imagem.


Inteligência artificial: Produtividade e custos de infraestrutura


O investimento em inteligência artificial pode aumentar a produtividade de empresas e trabalhadores, criar serviços, melhorar processos industriais e reduzir custos de determinadas tarefas. Esses efeitos podem compensar parte dos recursos mobilizados.


Se permitir produzir mais com os mesmos recursos, a economia ganha capacidade produtiva futura. O investimento inicial não representa apenas uma despesa concorrente com outras atividades. O problema está no intervalo entre custos presentes e benefícios esperados. Um centro de dados exige capital e eletricidade antes de se conhecer integralmente a procura pelos serviços que irá prestar. Os ganhos de produtividade dependem da adoção da tecnologia, da reorganização do trabalho e da capacidade das empresas para a utilizar. O FMI reconhece esse potencial e alerta para riscos financeiros e distributivos.


Por isso, não basta medir o investimento anunciado. É preciso distinguir a despesa na construção, as receitas das empresas fornecedoras e os ganhos efetivos de produtividade obtidos pelos utilizadores finais. Os três resultados podem evoluir a ritmos diferentes. A expansão rápida do investimento não garante benefícios igualmente rápidos para o conjunto da economia, nem permite concluir que não venham a concretizar-se.


A procura de eletricidade já exige planeamento de infraestruturas. A concentração de investimento em determinadas empresas aumenta a exposição dos mercados às suas expectativas de crescimento. Os Estados continuam a precisar de financiamento num contexto de dívida elevada e pressão sobre taxas de juro.


Nada disto demonstra que a inteligência artificial seja responsável pelo encarecimento global do crédito, nem que o investimento tecnológico prejudique necessariamente os restantes setores. A relação que os dados permitem estabelecer é mais precisa: a expansão depende de recursos financeiros e materiais cuja disponibilidade e custo são influenciados pelas necessidades do resto da economia.


As decisões sobre a expansão das redes elétricas, a distribuição dos custos de infraestrutura e as prioridades de investimento não podem ser avaliadas apenas pela rentabilidade privada de um projeto. Um centro de dados pode ser lucrativo para os proprietários e exigir investimentos adicionais na rede. Uma infraestrutura pública pode ter benefícios económicos importantes sem o mesmo retorno financeiro imediato. São situações diferentes, que exigem critérios distintos.


A concorrência pelo capital não determina, por si só, qual dos projetos tem maior utilidade económica ou social. A expansão poderá aumentar a produtividade e criar capacidade suficiente para justificar os recursos que hoje mobiliza. Essa possibilidade não elimina os custos presentes nem as limitações físicas das infraestruturas. Não precisa de retirar dinheiro diretamente a outros setores para influenciar as condições em que operam. Basta que aumente a procura de recursos cuja oferta demora a expandir-se.


É nesse ponto que a inteligência artificial deixa de ser apenas uma oportunidade para investidores tecnológicos e passa a constituir uma questão para a economia no seu conjunto.


Fontes documentais







As projeções são identificadas como cenários, não como resultados garantidos.


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