Marcham Há Trezentos Anos. O Inimigo é que Muda.
- Alberto Carvalho

- 2 de ago.
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Em Belfast, os desfiles que celebram uma vitória de 1690 continuam praticamente iguais a si próprios. O alvo da desconfiança, esse, já mudou várias vezes, e a mudança mais recente aconteceu à vista de todos.
Imagine-se uma criança que pergunta, à beira do passeio, o que significam as faixas cor de laranja que os homens usam por cima da camisa. Quem está ao lado responde, sem pensar muito, que é tradição, que é assim desde sempre. A criança aceita a resposta sem perceber bem o que "desde sempre" quer dizer, porque para quem tem seis ou sete anos qualquer coisa que já aconteceu duas vezes parece ter acontecido sempre. Fica, mesmo assim, com a palavra na cabeça, e vai voltar a usá-la, sem saber muito bem porquê, sempre que alguém lhe perguntar, daqui a uns anos, porque é que ainda se faz este desfile.
Os tambores começam a marcar o ritmo, as bandeiras britânicas sobem em mastros improvisados, e a fila de bandas marciais começa a andar. A criança vai ver o mesmo desfile no próximo mês de julho, e no seguinte, e provavelmente vai continuar a não perceber bem o que significam as faixas, porque a certa altura ninguém continua a perguntar.
É o Doze de Julho em Belfast, a data que a comunidade lealista da Irlanda do Norte reserva, desde há mais de trezentos anos, para assinalar a vitória do exército protestante comandado por Guilherme de Orange sobre as forças do rei católico deposto, na Batalha do Boyne, em 1690. A Ordem de Orange, uma fraternidade religiosa e cultural, organiza desfiles, bandas e fogueiras que se repetem, ano após ano, com poucas variações.
Este ano, porém, o desfile aconteceu poucas semanas depois de uma vaga de violência anti-imigração ter varrido vários bairros lealistas da cidade, na sequência de um crime grave atribuído a um requerente de proteção internacional. Casas e negócios ligados a comunidades imigrantes foram alvo de incêndios, e várias famílias tiveram de deixar as próprias casas à pressa, sem saber, nessa noite, se teriam para onde voltar.
Historicamente, a desconfiança lealista teve como alvo a comunidade católica da mesma cidade, herdeira do mesmo conflito que a própria Batalha do Boyne resume e que décadas de violência armada, já no século vinte, tornaram ainda mais profundo. Nos últimos anos, à medida que a Irlanda do Norte, ainda a região menos etnicamente diversa do Reino Unido, começou a receber mais imigração, uma parte dessa comunidade voltou a mesma desconfiança para um alvo novo.
O ritual manteve-se praticamente intacto: as mesmas bandas, os mesmos tambores, o mesmo trajeto pelas mesmas ruas. O que mudou foi apenas o nome que se dá, em cada geração, à ameaça que o justifica. É, na verdade, um padrão que tende a repetir-se sempre que uma tradição sobrevive mais tempo do que a circunstância original que a fez nascer, sem ser de forma alguma uma singularidade desta comunidade.
O mecanismo funciona, em boa parte, porque uma tradição bem-sucedida não precisa de se explicar a si própria; basta repetir-se. Ninguém que participa numa marcha ou acende uma fogueira precisa de justificar, todos os anos, porque é que aquele gesto continua a fazer sentido: o simples facto de já ter sido feito no ano anterior, e no anterior a esse, funciona como justificação suficiente. É essa inércia, a força de um hábito que não precisa de se defender, que permite a um ritual sobreviver ao desaparecimento do motivo original que o justificava, e acolher, sem esforço de tradução, qualquer motivo novo que lhe apareça à porta. Há também uma vantagem prática nisto, do ponto de vista de quem quiser instrumentalizar a ansiedade coletiva: é muito mais fácil canalizar hostilidade para dentro de uma estrutura já existente, com data marcada, coreografia definida e legitimidade histórica incontestada, do que construir de raiz um novo veículo para a mesma emoção.
Na Inglaterra, a Noite de Guy Fawkes assinala, desde 1605, a descoberta de uma conspiração católica para explodir o parlamento e matar um rei protestante. Durante séculos, as fogueiras dessa noite queimaram bonecos que representavam o conspirador original, mas também, ao longo do tempo, papas, primeiros-ministros impopulares e outras figuras que nada tinham a ver com a conspiração de 1605. Na localidade inglesa de Lewes, a tradição foi ainda mais longe: ao lado do boneco do conspirador original, as fogueiras locais têm queimado, ao longo da sua história, também efígies do papa, um costume que continua a gerar controvérsia até aos dias de hoje. A memória do complô de 1605 nunca desapareceu do calendário inglês; o que mudou, ao longo de mais de quatro séculos, foi apenas quem ocupava, a cada época, o lugar do vilão a arder.
O historiador Eric Hobsbawm chamou a isto "tradição inventada": rituais que parecem imutáveis e antiquíssimos, mas que são, na prática, reformulados de geração em geração para responder a ansiedades bem presentes, vestidas com a roupa de uma continuidade que raramente é tão contínua quanto parece. A palavra "inventada" quer dizer apenas que alguém, nalgum momento, a moldou de propósito, e que outros, depois, continuaram a remodelá-la sem se aperceberem bem de que o estavam a fazer.
Para a maioria dos jovens que hoje desfilam, a Batalha do Boyne já não é uma memória viva nem sequer uma memória de família transmitida por quem lá esteve; é uma data de manual escolar, uma canção que se aprende a cantar antes de se perceber bem a letra, um símbolo que se herda antes de se questionar, tal como a criança à beira do passeio herda a palavra "tradição" sem perguntar o que ela cobre exatamente. É precisamente essa distância, essa abstração progressiva do acontecimento original, que deixa espaço livre para que o ritual absorva outras ansiedades, mais recentes e mais concretas do que um rei morto há mais de trezentos anos.
Nem toda a tradição que sobrevive ao seu motivo original se torna perigosa. Uma canção pode continuar a cantar-se só pela beleza da melodia; uma dança pode manter-se só pelo prazer de dançar, sem que ninguém precise de inventar um novo adversário para lhe dar sentido. O risco está em precisar de um alvo para continuar a justificar-se, e em encontrar esse alvo em quem, de cada vez, calha estar mais à mão e mais indefeso, não simplesmente em o ritual sobreviver à circunstância que o fez nascer.
O antropólogo e filósofo René Girard descreveu um mecanismo parecido, a uma escala ainda mais antiga: sociedades em tensão interna tendem a projetar essa tensão sobre uma figura ou grupo exterior, um "bode expiatório" cuja exclusão, real ou simbólica, permite à comunidade recuperar, por momentos, uma sensação de coesão. O alvo escolhido raramente tem relação direta com a origem real da tensão; é escolhido, sobretudo, por estar disponível, visível, e suficientemente indefeso para não poder responder à altura. A diferença entre o mecanismo que Girard descreveu e um ritual como o Doze de Julho é que este último já vem, por construção, com um inimigo desenhado à partida, um rei católico derrotado há mais de três séculos. Isso torna a substituição ainda mais fácil: não é preciso inventar de raiz a figura do adversário, basta apontar o dedo, dentro da mesma estrutura simbólica que já existia, para um alvo mais recente.
Nem todos os que desfilam veem as coisas da mesma maneira, e essa divisão interna raramente aparece nas imagens que circulam lá fora. Para uns, o desfile é, sobretudo, uma questão de convívio e continuidade familiar; para outros, tornou-se também um espaço onde cabe a defesa mais explícita de fronteiras identitárias, com tudo o que isso possa implicar. Isso não torna toda a celebração do Doze de Julho, por si só, num ato de hostilidade. A grande maioria de quem desfila fá-lo pela mesma razão que qualquer pessoa participa em qualquer tradição de família: pelo prazer do gesto repetido, pelo convívio, pela sensação de continuidade que atravessa gerações. A estrutura da marcha, construída há séculos à volta da ideia de um inimigo, é que oferece um lugar pronto a qualquer nova hostilidade que precise de casa, muito mais do que o simples gesto de marchar. Interromper esse deslizamento é mais difícil do que impedir uma manifestação organizada de raiz, precisamente porque não há um único responsável a quem pedir contas, nem um momento único de decisão que se possa desfazer. Ninguém decidiu, este ano em particular, que o Doze de Julho ia acolher ansiedade sobre imigração; foi, antes, um processo gradual, quase impercetível de ano para ano, do tipo que só se torna visível quando já está bem instalado.
Sondagens de opinião realizadas ao longo dos últimos vinte anos, como o Northern Ireland Life and Times Survey, mostram uma queda constante no número de pessoas que se identificam como unionistas ou lealistas. É razoável supor que essa erosão, a par de outras mudanças demográficas, alimente nalguns uma sensação de identidade ameaçada, terreno mais recetivo a discursos que apresentam qualquer recém-chegado como perigo. Não é preciso que a maioria de uma comunidade acredite nesses discursos para que eles produzam dano; basta que encontrem, nalguns, terreno fértil o suficiente para passar da palavra ao fogo posto.
O padrão de Belfast não está isolado, nem é propriedade exclusiva desta cidade em particular. Em várias regiões europeias marcadas por décadas de declínio económico ou por identidades comunitárias longamente ameaçadas, mensagens de extrema-direita têm encontrado receção facilitada precisamente onde a sensação de perda já vinha de outras fontes, muito antes de qualquer imigrante chegar. A imigração torna-se, nesses contextos, menos a causa original da ansiedade do que o recipiente mais recente onde essa ansiedade pode ser despejada.
A própria cidade de Belfast oferece outro exemplo do mesmo princípio, mas em pedra e vedação metálica em vez de tambores e faixas. Dezenas de quilómetros de muros e barreiras, erguidos durante décadas de conflito para separar bairros católicos de bairros protestantes, continuam de pé, muito depois de o acordo de paz de 1998 ter formalmente encerrado o conflito armado. Boa parte dos residentes de ambos os lados, quando questionados em sondagens ao longo dos anos, tem preferido que os muros se mantenham, mesmo sabendo que a violência aberta que os justificou já não é, para a maioria, uma ameaça diária. Um muro, tal como um ritual, também pode sobreviver ao medo específico que o fez erguer-se, e continuar de pé só porque ninguém, entretanto, se sentiu suficientemente seguro para o derrubar.
Há, nesta história, dois medos que raramente se cruzam mas que talvez não sejam assim tão diferentes um do outro. O medo de quem, tendo fugido de algures para reconstruir a vida num bairro desconhecido, se vê subitamente a fugir outra vez, desta vez de casas em chamas. E o medo de quem vê a rua onde cresceu, o bairro que sempre reconheceu como seu, tornar-se irreconhecível ano após ano, sem que ninguém lhe tenha perguntado se queria isso. Nenhum dos dois medos anula o outro, e nenhum deles, por si só, justifica o que aconteceu em junho. O segundo medo, porém, tem um lugar antigo para onde escoar, um ritual já pronto à sua espera havia séculos, e é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o torna capaz de produzir um dano que o primeiro medo, sozinho, nunca produziria.
A criança que perguntou pelo significado das faixas cor de laranja ainda vai continuar, durante anos, sem perceber bem a resposta que lhe deram. Vai crescer a ouvir os mesmos tambores, a ver as mesmas bandeiras, a aprender a cantar as mesmas canções antes de perceber bem a letra, e talvez só muito mais tarde, se algum dia parar para pensar nisso, perceba que a pergunta que fez em criança nunca teve, verdadeiramente, uma resposta fixa. A resposta muda; a pergunta, essa, fica sempre por responder de vez, o suficiente para que alguém, algures, continue a ter de a responder de novo.
O desfile deste ano acabou ao fim da tarde, como todos os anteriores. As bandas recolheram os instrumentos para os guardar até ao próximo mês de julho, quando tudo vai recomeçar, com o mesmo som, os mesmos tambores, e, provavelmente, com outro nome para a mesma desconfiança antiga.




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