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Negros na Argentina: a categoria que mudou entre 1838 e 1887

6 de out.
5 min de leitura

Atualizado: há 11 horas

Em 1838, o recenseamento municipal de Buenos Aires contou 62 957 habitantes, dos quais 14 928 foram registados como afrodescendentes, 23,7% do total. Em 1887, o recenseamento seguinte contou 425 370 habitantes e 8 005 afrodescendentes, menos de 2%. Em cinquenta anos, a população total multiplicou-se por quase sete e a categoria baixou cerca de 46% em números absolutos.


A diferença costuma ser lida como destino de pessoas e explicada pela dimensão do tráfico, pelas guerras ou pela imigração. O que as fontes permitem afirmar sobre os negros na Argentina é mais estreito. Mostram uma categoria de registo que encolheu, e a distância entre isso e o desaparecimento de seis ou sete mil pessoas é onde está a discussão historiográfica.


Negros na Argentina e o tráfico no Rio da Prata


Circula a explicação de que a Argentina foi um destino secundário do tráfico atlântico, com uma pecuária que dispensava braços escravizados. Se a pecuária dispensava ou não, as fontes consultadas não resolvem. Mostram que a mão de obra africana estava noutros sítios. Entre 1587 e 1640, cerca de 30 mil africanos desembarcaram em Buenos Aires em navios portugueses, e antes de 1645 os escravos chegaram a valer dois terços de tudo o que o porto importava, segundo Alex Borucki, historiador da Universidade da Califórnia em Irvine.


O interior também não era um vazio demográfico. O censo de 1778 aponta mais de metade de população de origem africana em Catamarca com 74%, Tucumán com 64% e Santiago del Estero com 54%, e 44% na cidade de Córdoba. Para Buenos Aires, as compilações divergem: Erika Edwards, que reproduz valores de Ricardo Rodríguez Molas, dá 24%; Omer Freixa, que cita Daniel Picotti, fala em cerca de 40%. As cifras dependem do território e da fonte, e não foram aqui confrontadas com o censo original. A direção é a mesma em todas.


Litografia de Bacle que representa uma vendedora negra de bolos em Buenos Aires, cerca de 1833.
«Vendedora de tortas», litografia de César Hipólito Bacle, cerca de 1833. A presença dos negros na Argentina também ficou registada nas representações dos ofícios urbanos. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público.

Quanto ao volume total, Borucki estima que, entre 1585 e 1835, tenham chegado ao Rio da Prata cerca de 200 mil africanos escravizados, 90 mil diretamente de África e os restantes por via do Brasil. A base das viagens transatlânticas só contém as primeiras. A das viagens intra-americanas regista 52 400 cativos vindos do Brasil, e Borucki calcula mais 47 400 entrados por Colónia do Sacramento que não constam de nenhuma das duas. O período de maior afluxo foi de 1777 a 1812, com perto de 70 mil. Quem se fica pela primeira base obtém, portanto, um número inferior ao que a investigação especializada considera provável.


Em 1808, a fragata portuguesa Luisa entrou em Montevideu com 230 cativos, depois de embarcar 337 em Moçambique, e as autoridades sanitárias mandaram desembarcá-los fora da cidade, no Caserío de los Negros, onde se faziam as quarentenas. Parte dos cativos seguia dali para Buenos Aires, Mendoza, os Andes, Valparaíso e Lima. O encarregado da carga do navio americano Tyre, Stephen Dexter, anotou em 1801 que cerca de três mil negros por ano eram assim encaminhados de Buenos Aires para o Peru. Borucki julga o valor provavelmente excessivo, mas aceita um fluxo de pelo menos 1500 a 2000. A dimensão do tráfico dá uma ordem de grandeza das chegadas e nada diz sobre quantos ficaram.


Guerra, epidemia e memória


Perante a quebra, duas explicações ficaram na memória: a Guerra do Paraguai, de 1865 a 1870, e a epidemia de febre amarela de 1871.


Em 2005, o Washington Post descrevia-as como as duas hipóteses que o mito popular oferecia. Segundo o resumo que Freixa faz de George Reid Andrews, o historiador que mais estudou o tema, nenhuma das duas tem apoio estatístico direto. Da guerra constam apenas dois batalhões de combatentes afro-argentinos, sem listas da sua composição.


Dos óbitos de 1871 com raça indicada, só 268 em 17 729 foram de afro-argentinos. O mesmo resumo acrescenta que as estatísticas de casamentos e de óbitos posteriores a 1871 mostram uma quebra absoluta, pelo que a epidemia pode ter pesado mais do que aqueles números sugerem. Nem a hipótese está provada nem está afastada.


Pintura de Juan Manuel Blanes sobre a febre amarela de Buenos Aires em 1871, com dois homens à entrada de uma casa e uma mulher caída junto de uma criança.
«Un episodio de la fiebre amarilla en Buenos Aires», de Juan Manuel Blanes, 1871. A pintura evoca a epidemia, mas não estabelece o seu impacto demográfico sobre os negros na Argentina. Fonte: Museo Nacional de Artes Visuales, Montevideu, via Wikimedia Commons. Domínio público.

María Remedios del Valle, nascida em Buenos Aires por volta de 1766, juntou-se ao Exército do Norte em julho de 1810 com o marido e os filhos, e Belgrano deu-lhe o título de capitã. A Junta de Representantes de Buenos Aires concedeu-lhe em 1828 uma pensão de 30 pesos mensais, com efeitos desde março de 1827. Morreu em 1847, e a lei 26 852, de 2013, fixou o dia 8 de novembro, a data tradicionalmente dada para a sua morte, como Dia Nacional dos Afro-argentinos e da Cultura Afro. Casos individuais como o dela não dão, porém, a dimensão do conjunto.


As palavras que mudaram os registos


Em Buenos Aires, pouco depois da independência, passou a usar-se "trigueño", cor de trigo, em listas de presos, de funcionários municipais e de recrutas do exército. Aplicava-se a mulatos e mestiços de pele clara, mas também a europeus morenos, sicilianos, andaluzes e portugueses, segundo Edwards. Uma pessoa registada como trigueña saía da categoria negra sem que ninguém precisasse de afirmar que era branca. A este deslocamento da população negra para categorias mais claras, por mistura racial somada à ambiguidade das palavras dos registos, Andrews deu o nome de "lightening", aclaramento.


Edwards seguiu indivíduos nos recenseamentos de Córdoba. Josefa Rodríguez, escrava negra em 1813, aparece como parda livre em 1822. O censo da cidade de 1840 já não tinha categoria racial. Em Córdoba, conclui a historiadora, a população foi aclarada antes de ser branqueada.


Em 1895, 52% dos habitantes da cidade de Buenos Aires tinham nascido no estrangeiro, e no país inteiro eram 25,4%, mais de um milhão em quase quatro milhões. Alberdi e Sarmiento tinham pedido imigrantes para povoar e governar, e os intelectuais da época olhavam para a Europa como modelo. Em 1905, a revista Caras y Caretas descrevia a população negra como uma raça que perdia na mistura a sua cor primitiva. Lia o fenómeno como diluição, e não como extinção.


Fotografia histórica do antigo Hotel de Inmigrantes, em Retiro, Buenos Aires, em 1880.
Antigo Hotel de Inmigrantes, em Retiro, Buenos Aires, 1880. A imigração alterou a composição da população e o peso percentual dos negros na Argentina. Fotógrafo não identificado. Fonte: Archivo General de la Nación Argentina, via Wikimedia Commons. Domínio público.

A imigração, porém, explica a queda da percentagem e não a do número absoluto. Entre 1838 e 1887 a categoria perdeu cerca de 6 900 registos, e isso só se explica por mortalidade, por emigração ou por reclassificação. Para a reclassificação há práticas documentadas, as de Buenos Aires e as de Córdoba. A sua dimensão não se conhece, e não está estabelecido que "afrodescendentes" em 1838 e em 1887 designe o mesmo conjunto de pessoas.


Freixa vai mais longe do que Andrews e vê no processo uma estratégia deliberada das elites para tornar invisível a presença negra. Para a intenção, os textos que apresenta são sobretudo de intelectuais, e mostram uma preferência, não um método. Menciona também práticas de extermínio sem as documentar. A leitura demográfica, que privilegia a imigração e a mistura, dispensa a intenção e, como se viu, não chega para a queda do número absoluto.


O que contam os censos atuais


Em 2010, o recenseamento nacional incluiu pela primeira vez uma pergunta sobre afrodescendência, numa amostra de lares, e contou 149 493 pessoas, 0,37% da população. Em 2022, a pergunta passou ao questionário geral e 302 936 pessoas declararam-se afrodescendentes ou com antepassados negros ou africanos. O critério passou a ser a resposta de quem é recenseado e inclui a ascendência, uma formulação que as categorias de 1838 e 1887 não tinham, até onde as fontes consultadas permitem dizer. Por isso, estes números não são comparáveis com os daquelas datas.


Negros na Argentina: ilustração editorial sobre os registos censitários de 1838 e 1887. Imagem criada para o Atlantic Lisbon.


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