O Espaço é a Chaminé Mais Alta Que Já Construímos
- Maria do Rio

- 2 de ago.
- 8 min de leitura
Para arrefecer os centros de dados que alimentam a inteligência artificial, cientistas querem agora mandá-los para órbita. A ideia não é nova: é a resposta mais antiga da engenharia a um problema que nunca resolvemos, aplicada agora à escala mais extrema possível.
Imagine-se um engenheiro, algures numa cidade industrial do século dezanove, a supervisionar a construção de mais um anel de tijolo no topo de uma chaminé já alta. O tijolo é pesado, ainda quente da cozedura recente, e o andaime range um pouco a cada subida. Lá de cima, a cidade parece mais pequena e mais suja do que vista da rua: um emaranhado de outras chaminés, quase todas mais baixas, todas a lançar a mesma fumarada cinzenta e constante para um céu que já não se lembra de ter sido claro. É para que esse fumo suba mais alto antes de descer outra vez sobre os telhados, não para queimar menos carvão ou produzir menos fumo, e para que, quando descer, já esteja disperso o suficiente para incomodar menos gente, ou para incomodar gente que já não é a que vive mesmo por baixo.
A lógica é simples e muito antiga: quando um problema não se consegue eliminar, tenta-se pelo menos empurrá-lo para mais longe. Mais longe de quem se queixa, mais longe de quem vota, mais longe dos olhos que contam. Funciona quase sempre, durante algum tempo, precisamente porque o problema nunca deixa de existir de facto; deixa apenas de aparecer nos relatórios de quem o mediu primeiro.
Duzentos anos depois, a mesma lógica está a ser aplicada à escala mais extrema que a engenharia humana até hoje imaginou: em vez de construir uma chaminé mais alta, cientistas e empresas querem agora sair de vez da atmosfera, ultrapassando não só a cidade vizinha mas o próprio planeta inteiro. Esta semana, o Instituto de Tecnologia da Califórnia e a Sophia Space, uma startup dedicada a computação orbital, anunciaram uma patente para um sistema de arrefecimento que dizem poder permitir o lançamento de centros de dados para órbita já no início da década de 2030, alimentados por painéis solares que, no espaço, recebem luz do sol vinte e quatro horas por dia.
A motivação, tal como a da chaminé mais alta, nasce de um incómodo bem terreno. Os centros de dados que alimentam a atual vaga de inteligência artificial ocupam terrenos extensos, disparam contas de eletricidade das comunidades vizinhas e, nalguns casos, esgotam reservas de água usadas para os arrefecer. Um relatório do Fórum Económico Mundial, publicado este ano, calculava que cerca de sete em cada dez norte-americanos se opõem à construção de novos centros de dados perto de onde vivem. A urgência tem uma explicação concreta: treinar e operar os grandes modelos de inteligência artificial que hoje respondem a perguntas, geram imagens ou resumem documentos exige uma quantidade de eletricidade que cresce mais depressa do que a maioria das redes elétricas locais consegue acompanhar. Cada novo centro de dados anunciado é, ao mesmo tempo, uma promessa de capacidade computacional e uma fonte garantida de tensão com quem vive à sua volta.
Há, no fundo, duas abordagens concorrentes a este desafio. Uma delas evita transmitir eletricidade da órbita até à Terra, algo que continua tecnicamente complexo e dispendioso: processa os pedidos ali mesmo, dentro do satélite, aproveitando o sol constante para alimentar o cálculo, e envia apenas a informação já tratada, muito mais leve do que a energia bruta, resolvendo de um só golpe dois problemas que, na Terra, continuam separados e sem solução à vista: onde arrefecer e como alimentar continuamente uma máquina que nunca para. A outra abordagem, mais antiga e ainda por comercializar em escala, tenta mesmo transmitir energia solar captada em órbita até recetores na Terra, através de micro-ondas ou lasers, um caminho que agências governamentais e universidades têm vindo a explorar, com avanços lentos, há já várias décadas. A primeira abordagem tem uma elegância própria: em vez de tentar trazer a energia de volta, deixa-a inteira lá em cima, e traz só aquilo que já foi transformado por ela, um pouco como quem, em vez de transportar o carvão de volta para casa, prefere trazer só o calor que ele já produziu, sem se preocupar com o resto da viagem.
É a mesma chaminé de sempre, elevada à sua versão mais literal possível. Trata-se agora de mandar o fumo para fora do planeta inteiro, não apenas um pouco mais alto, para um vazio tão grande que absorve praticamente qualquer coisa sem nunca ficar cheio.
Há uma retórica muito específica que costuma acompanhar este tipo de anúncio: não se fala em desviar o problema, fala-se em resolver uma crise energética para o planeta inteiro. A linguagem da salvação tecnológica tende a preferir a escala mais ampla possível, precisamente porque a escala ampla dissolve, tal como o oceano ou a chaminé alta, os detalhes incómodos sobre quem exatamente vai carregar o peso físico da solução.
Há também algo de muito antigo nesta fantasia particular, para lá da engenharia. Enviar para o céu aquilo que pesa demasiado cá em baixo tem ecos de rituais muito mais velhos do que a revolução industrial: o fumo de um sacrifício que sobe até uma divindade, a alma que se liberta do corpo ao subir, o lixo que se queima precisamente para que desapareça "para cima" em vez de ficar a apodrecer "cá em baixo". A ideia de que o alto é limpo e o baixo é sujo antecede em muito qualquer chaminé de tijolo.
A prática de construir chaminés cada vez mais altas para dispersar poluição, em vez de a reduzir, tem um nome na história da engenharia ambiental: "a diluição é a solução para a poluição", uma frase que chegou a circular como princípio de engenharia respeitável antes de se tornar sinónimo de má-fé regulatória. Ao longo do século vinte, sobretudo depois de leis de qualidade do ar começarem a limitar a concentração de poluentes junto ao solo, muitas centrais elétricas responderam não queimando combustíveis mais limpos, mas erguendo chaminés mais altas, algumas com mais de duzentos metros, o suficiente para que o fumo se dispersasse por uma área tão vasta que, localmente, deixava de ultrapassar os limites legais. O problema passava a ser responsabilidade de outra região, muitas vezes a centenas de quilómetros de distância, sob a forma de chuva ácida, sem nunca ter verdadeiramente desaparecido.
Durante boa parte do século vinte, países industrializados também lançaram ao mar, sem grande cerimónia, resíduos químicos e até radioativos de baixa intensidade, na convicção de que um oceano tão vasto conseguiria diluir praticamente qualquer coisa até à insignificância. Só tratados internacionais assinados já perto do final do século vieram travar essa prática, depois de décadas a testar até onde a paciência do oceano realmente ia.
Uma versão ainda mais recente do mesmo instinto acontece, todos os dias, com o lixo eletrónico. Computadores, telemóveis e ecrãs descartados em países ricos viajam, com frequência, milhares de quilómetros até serem desmontados, muitas vezes à mão e sem grande proteção, em pátios de reciclagem informal noutros continentes, onde o problema do lixo tóxico deixa de ser visível para quem o produziu.
Há, no entanto, uma diferença real entre estes dois casos e o dos centros de dados em órbita, e seria injusto ignorá-la. O espaço não é apenas mais um sítio distante onde despejar um problema: oferece, de facto, algo que a Terra não tem para dar, luz solar sem interrupção, sem noite, sem nuvens, sem a necessidade de baterias caras para atravessar as horas escuras. É, ao mesmo tempo, uma forma de empurrar o problema para mais longe e de aproveitar uma vantagem física real que nenhuma chaminé, por mais alta que fosse, alguma vez teve para oferecer.
Mas essa vantagem não resolve o problema que motivou a ideia em primeiro lugar. Quem se opõe à construção de centros de dados perto de casa raramente se opõe apenas ao consumo de eletricidade; opõe-se também ao ruído constante dos sistemas de ventilação, ao volume de água desviado para os arrefecer, à ocupação de terrenos que podiam servir outros fins, à presença física de um edifício enorme e barulhento na paisagem onde antes não havia nada parecido. Mandar esse edifício para o espaço resolve a proximidade, mas não resolve a procura crescente de processamento que, algures, continua a crescer sem travões visíveis.
Há também céticos que consideram o projeto inteiro uma distração cara, um desvio de atenção e de investimento que adia decisões mais difíceis e imediatas sobre como gerir, hoje e não daqui a uma década, a procura energética que a inteligência artificial já está a criar na Terra. Mesmo que a tecnologia funcione exatamente como prometido, alguém continuará a pagar a fatura de a pôr em órbita: o lançamento de satélites consome combustível, gera detritos, e depende de uma indústria aeroespacial que também tem pegada ambiental própria. Trocar o incómodo local por um custo distribuído e menos visível torna esse custo mais difícil de contabilizar, sem realmente o eliminar. Quem beneficia mais diretamente da computação em órbita não é necessariamente quem hoje vive ao lado de um centro de dados terrestre; é, sobretudo, quem já beneficia da própria expansão da inteligência artificial, empresas de tecnologia, investidores, utilizadores dispostos a pagar por respostas cada vez mais rápidas. O incómodo que se tenta afastar tinha, pelo menos, a vantagem de recair sobre quem vivia perto; distribuído pelo espaço, o custo passa a ser de todos e de ninguém ao mesmo tempo, o que raramente é boa notícia para quem, no futuro, tiver de decidir quem paga por ele.
O espaço, aliás, já não é o vazio incontaminado que a imaginação do século vinte gostava de anunciar. Órbitas próximas da Terra acumulam, há décadas, fragmentos de satélites antigos, estágios de foguetões gastos e parafusos perdidos, todos a viajar a milhares de quilómetros por hora, um problema que os próprios promotores da computação orbital terão de somar, mais cedo ou mais tarde, à conta final.
Vale notar que nada disto está perto de acontecer, apesar de todo o entusiasmo dos anúncios. Os próprios promotores destes projetos admitem que faltam, pelo menos, vários anos até qualquer sistema destes chegar à órbita, e a história recente da inovação energética está cheia de anúncios semelhantes que nunca chegaram a sair do papel. A fusão nuclear é descrita, há sete décadas, como uma solução a vinte anos de distância; carros voadores e cidades subaquáticas povoam arquivos de imprensa de décadas passadas sem nunca terem saído dos protótipos. Isso não significa que a computação orbital vá seguir o mesmo destino, mas convida a alguma paciência antes de a tratar como um problema já resolvido.
Não ver um problema não é o mesmo que não o ter. É, quando muito, uma forma mais confortável de conviver com ele, pelo menos até que alguém, nalgum lugar mais distante e antes esquecido, comece também a reclamar.
O engenheiro que mandou erguer mais um anel de tijolo na chaminé nunca soube, provavelmente, para onde ia parar o fumo que produzia, nem teve grande curiosidade em perguntar. Sabia apenas que deixava de cair, com tanta força, sobre o próprio bairro, e isso já lhe parecia trabalho suficiente para um dia. Os satélites que talvez um dia processem os pedidos que fazemos a uma inteligência artificial vão funcionar, no fundo, segundo a mesma lógica: o calor que produzem vai continuar a existir, algures, só que finalmente longe o suficiente para que ninguém aqui em baixo precise de lhe sentir a temperatura, nem de se perguntar demasiado sobre para onde foi parar.
À noite, quem souber onde procurar já consegue ver satélites a atravessar o céu, pontos de luz que se movem devagar entre as estrelas paradas, indistinguíveis a olho nu de qualquer outra luz do firmamento, tão discretos que quase ninguém, ao olhar para cima, se lembra de perguntar o que realmente são. Dentro de alguns anos, talvez, um desses pontos esteja, algures lá dentro, a processar uma pergunta qualquer que alguém fez a um computador, sem que nem quem fez a pergunta nem quem olha para o céu percebam a ligação entre as duas coisas.




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