Recensão | O século dos imbecis e a sedução da ignorância
O século dos imbecis e a sedução da ignorância
Valter Hugo Mãe transforma a descida de uma montanha numa fábula sobre o desprezo pelo conhecimento, o poder do espetáculo e a facilidade com que uma comunidade escolhe a ignorância.
Em O século dos imbecis, um homem torna-se mais inteligente quando sobe uma montanha e emburrece quando a desce. A imagem absurda serve a Valter Hugo Mãe para escrever sobre sociedades que nunca tiveram tanta informação ao seu dispor e, ainda assim, parecem resistir ao conhecimento.
O homem é Agilulfo, um marquês deslocado num tempo de República. Vive numa grande casa e, sem realizar qualquer feito que o justifique, ocupa o centro das atenções de uma pequena vila. A sua estranha relação com a montanha depressa deixa de ser uma singularidade pessoal. Torna-se assunto coletivo, motivo de divertimento e oportunidade para quem percebe que um homem diminuído pode ser mais útil do que um homem esclarecido.
Subir exige esforço; descer é mais fácil. O conhecimento obriga a contrariar a gravidade, enquanto a ignorância oferece a velocidade e o prazer da queda. Mas a imagem não se esgota neste contraste. O romance pergunta o que acontece quando uma comunidade deixa de encarar a descida como fracasso e passa a celebrá-la como espetáculo.
A ignorância como vontade
A ignorância não aparece no romance como mera ausência de instrução. É também uma escolha: individual, social e, inevitavelmente, política.
Agilulfo não desce sozinho. Há quem o queira levar para baixo, quem se divirta com a transformação e quem encontre vantagens no seu empobrecimento. A vila organiza-se para a sua queda como tantas comunidades contemporâneas se organizam para a humilhação pública, do escândalo e da frase mais dolorosa.
A multiplicação dos meios de acesso ao conhecimento não produziu necessariamente uma sociedade mais sábia. Em muitos casos, acelerou apenas a circulação da convicção sem fundamento. Já não basta desconhecer: é preciso exibir o desconhecimento, transformá-lo em identidade e reclamar para ele o mesmo valor da experiência, do estudo ou da reflexão.
Valter Hugo Mãe percebe que a ignorância contemporânea raramente aparece envergonhada. Surge segura de si, divertida e agressiva. Não pede licença para entrar no debate. Exige dominá-lo.
O riso perante a queda
O autor não escreve uma dissertação sobre a degradação do discurso público. Escreve uma fábula habitada por figuras excessivas, nomes invulgares, jogos de interesse e situações que oscilam entre o cómico e o perturbador. O humor impede que a alegoria se imobilize sob o peso da própria tese.
Rimo-nos de Agilulfo e das pessoas que o rodeiam, embora esse riso nunca seja inteiramente confortável. À medida que a história avança, torna-se mais difícil observar aquela comunidade de uma distância segura. Os habitantes da vila não são apenas caricaturas dos outros: os ignorantes, os fanáticos ou os que fazem barulho nas redes sociais. Neles reconhecem-se comportamentos que não lhes pertencem em exclusivo.
A vila diverte-se com a descida porque a inteligência de Agilulfo a incomoda. Um homem inteligente obriga os restantes a confrontarem-se com aquilo que não sabem. Embrutecido, oferece-lhes conforto. Pode ser manipulado, ridicularizado ou usado como prova de que não vale a pena subir.
A inteligência nem sempre desperta admiração. Também desperta ressentimento. Numa comunidade que trocou o desejo de aprender pelo desejo de se sentir validada, a sabedoria torna-se uma provocação.
Uma parábola do poder
Agilulfo é um marquês num tempo formalmente republicano, figura marcada por uma distinção antiga, como se o poder sobrevivesse às mudanças de regime e se limitasse a procurar novas formas de apresentação.
A grande casa, a curiosidade permanente da população e os interesses que se formam em seu redor conferem-lhe uma importância independente do que faz. Agilulfo é relevante porque os outros necessitam que o seja. O poder alimenta-se das projeções, dos medos e das conveniências de quem o reconhece.
E um poder embrutecido pode servir melhor determinados interesses do que um poder lúcido. Quanto menos Agilulfo compreende, mais facilmente pode ser conduzido. O seu declínio deixa de ser uma tragédia privada e torna-se um programa social.
Não basta, portanto, haver pessoas ignorantes em posições de destaque. É preciso que existam comunidades dispostas a recompensar essa ignorância, desde que ela seja divertida, útil ou suficientemente parecida com os seus próprios preconceitos.
A força e o limite da alegoria
Valter Hugo Mãe possui uma linguagem reconhecível, capaz de juntar poesia, ironia e estranheza sem perder a clareza emocional. Em *O século dos imbecis*, coloca-a ao serviço de uma alegoria imediatamente legível.
Essa nitidez é também o risco do livro. A montanha, a subida e a descida comunicam depressa aquilo que significam. O leitor reconhece a oposição entre esforço e facilidade, sabedoria e ignorância, elevação e queda. A imagem alcança um público amplo, mas deixa pouco espaço para a ambiguidade.
Por vezes, as personagens parecem existir sobretudo para sustentar a tese do romance. A crítica social sobrepõe-se à complexidade psicológica e a parábola ameaça explicar aquilo que já mostrou. Quem procurar uma narrativa inteiramente aberta, na qual o significado permaneça instável, poderá sentir que o livro orienta demasiado a leitura.
O humor, a invenção verbal e a humanidade concedida às figuras da vila evitam, contudo, que o romance se reduza a um panfleto. Nem a sátira elimina por completo a esperança. Se há quem trabalhe para conduzir Agilulfo montanha abaixo, também há quem reconheça a urgência de inverter o percurso.
Subir continua a ser possível
A montanha de O século dos imbecis separa também duas ideias de felicidade.
De um lado está o esforço de compreender, com tudo o que implica de dúvida, demora e desconforto. Do outro, a gratificação rápida do riso, da certeza fácil e da pertença a uma multidão que não deseja ser contrariada.
A segunda possibilidade é mais sedutora. Não exige estudo, transformação ou disciplina. Basta descer.
Valter Hugo Mãe não escreve, porém, como se a humanidade estivesse condenada à queda. A sátira ainda pressupõe a possibilidade de reconhecimento: perceber que a descida começou pode não ser suficiente para a interromper, mas é condição para voltar a subir.
O século dos imbecis é uma fábula cómica, por vezes cruel, sobre o prestígio contemporâneo da ignorância. A multidão que acompanha Agilulfo não se limita a assistir à sua descida: diverte-se com ela, encontra-lhe utilidade e ajuda a empurrá-lo.





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