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Trabalhar depois dos 65 anos: escolha ou necessidade?

21 de out.
6 min de leitura

Atualizado: há 2 dias

Em Portugal, a idade da reforma deixou de representar o fim da vida profissional. Há quem continue porque gosta do que faz, mantém condições físicas e intelectuais ou não deseja perder a ligação ao mundo do trabalho. Outros regressam depois de se reformarem porque a pensão não chega para as despesas correntes.


Uma pessoa que prolonga a carreira por satisfação pessoal não está na mesma posição de outra que, aos 70 anos, continua porque não consegue pagar a habitação, a alimentação e os medicamentos. Os dados de 2025 publicados pela Pordata, com fonte no INE, mostram cerca de 244,8 mil pessoas com 65 ou mais anos empregadas. O aumento face ao ano anterior foi de 14,7 mil. É uma evolução expressiva num país onde a população envelhece e a idade de acesso à pensão continua a aumentar.


O número de empregados acima dos 65 anos não corresponde necessariamente a reformados que continuam a trabalhar. Inclui pessoas que ainda não requereram a pensão, trabalhadores independentes, empresários e pensionistas que acumulam rendimentos profissionais com a reforma. Também não permite determinar quantas trabalham por necessidade. Para isso, seria preciso conhecer os rendimentos, o valor das pensões, a composição dos agregados e as razões que levam cada pessoa a manter-se ativa.


Trabalhar depois dos 65 anos: Segundo a tabela atual da Pordata, em 2003 existiam cerca de 328,5 mil trabalhadores com 65 ou mais anos, contra 228,2 mil em 2023.


O crescimento recente não significa que Portugal tenha atingido um máximo histórico. A série assinala quebras metodológicas, pelo que estes valores não são diretamente comparáveis. A composição do emprego mudou profundamente em duas décadas.


O trabalho agrícola, a atividade independente, a escolaridade e a participação feminina sofreram transformações. Comparar épocas diferentes sem considerar estas alterações pode conduzir a conclusões precipitadas.


Em 2026, a idade normal de acesso à pensão de velhice está fixada nos 66 anos e nove meses. Em 2027, subirá para 66 anos e 11 meses.


Composição em tons claros, terracota e verde, com três lugares à mesa a representar uma família monoparental.
Uma mesa, uma cadeira de adulto e duas de criança: composição gráfica original sobre a vida familiar e a concentração das responsabilidades.

O mecanismo legal relaciona a idade com a evolução da esperança média de vida aos 65 anos. A justificação demográfica é compreensível. Uma população que vive mais anos recebe, em princípio, pensões durante períodos mais prolongados.


O financiamento exige equilíbrio entre contribuições, prestações e duração da vida após a reforma.


Trabalhar depois dos 65 anos


Um trabalhador da construção civil que passou quarenta anos a transportar materiais pesados pode chegar aos 65 com limitações físicas importantes. Um professor, advogado ou investigador pode conservar condições para trabalhar durante mais tempo, embora também estas profissões apresentem exigências próprias.


A lei estabelece uma idade de referência comum, mas as carreiras não produzem o mesmo desgaste. Existem regimes de antecipação e mecanismos destinados a reconhecer carreiras longas ou atividades particularmente exigentes. A diversidade das situações individuais dificilmente cabe por inteiro nas categorias previstas.


Para quem recebe uma pensão modesta, a questão apresenta-se de maneira diferente. Quanto sobra depois de pagar a renda, a eletricidade, a água, a alimentação e os medicamentos? É possível substituir um eletrodoméstico avariado? Há dinheiro para uma consulta, para visitar familiares ou simplesmente para sair de casa? O valor nominal de uma pensão não revela, por si só, as condições de vida.


Duas pessoas com uma reforma de 700 euros podem encontrar-se em situações muito distintas. Uma vive em casa própria, sem encargos bancários. Outra paga uma renda de 450 euros. A primeira dispõe de uma margem que a segunda não tem. As diferenças aumentam quando entram despesas de saúde, dependência de terceiros ou responsabilidades familiares.


Trabalhar depois dos 65 anos: Em 2026, as pensões mais baixas abrangidas pelo primeiro escalão de atualização geral tiveram um aumento de 2,8%. A atualização protege parcialmente o rendimento, mas não elimina desigualdades acumuladas ao longo das carreiras contributivas.


Quem passou períodos prolongados com salários reduzidos, desemprego ou interrupções de carreira pode chegar à reforma com prestações igualmente reduzidas. É neste contexto que continuar a trabalhar pode deixar de ser uma preferência e transformar-se numa necessidade.


Há pessoas que encontram no trabalho uma fonte de satisfação, reconhecimento e convívio. A atividade profissional pode proporcionar rotinas, estimular capacidades e preservar relações sociais.


A reforma obrigatória ou uma cultura empresarial que afasta trabalhadores apenas por causa da idade pode desperdiçar experiência e conhecimento. A discriminação etária existe também contra quem deseja continuar. Mas a liberdade de trabalhar aos 70 anos depende, em parte, da possibilidade real de não o fazer. Quando abandonar a atividade implica perder a capacidade de pagar despesas essenciais, a decisão deixa de ser inteiramente voluntária.


Um emprego a tempo parcial, escolhido por alguém que pretende manter-se ativo, não equivale a uma jornada fisicamente exigente suportada por falta de alternativas.


Horários flexíveis, formação contínua, adaptação dos postos e prevenção de doenças profissionais permitem prolongar carreiras sem exigir que todos trabalhem da mesma maneira.


Uma pessoa pode conservar a competência e a vontade de trabalhar, mas deixar de conseguir cumprir jornadas prolongadas ou horários noturnos.


A possibilidade de reduzir progressivamente a carga horária, sem perder a ligação à profissão, constitui uma alternativa. Porém, a flexibilidade pode ter dois significados. Pode representar uma escolha negociada e protegida ou servir para substituir empregos estáveis por relações laborais mais frágeis.


Quem recebeu salários elevados durante décadas tende a dispor de melhores condições para preparar a reforma. Pode ter acumulado poupanças, adquirido habitação ou constituído outros rendimentos.


Quem trabalhou com remunerações reduzidas enfrenta frequentemente uma realidade diferente. Mesmo depois de uma carreira longa, a pensão pode ser insuficiente para preservar o nível de vida anterior.


As desigualdades entre homens e mulheres também são relevantes. Interrupções profissionais relacionadas com a maternidade e os cuidados familiares, maior incidência de trabalho a tempo parcial e diferenças salariais podem refletir-se nos direitos de pensão.


O envelhecimento torna visíveis decisões e circunstâncias acumuladas durante décadas. Por isso, discutir o trabalho depois dos 65 anos exige olhar para aquilo que aconteceu antes: a qualidade do emprego, os salários, a estabilidade contributiva e o acesso à habitação.


Litografia de uma vendedeira de melancias sentada junto ao seu cesto, em Setúbal.
Trabalho feminino em Portugal no século XIX: «Mulher vendilhôa de melancia na Praça de Setubal», de João Macphail, 1841, litografia de Manuel Luís da Costa. Biblioteca Nacional de Portugal. Domínio público (Public Domain Mark 1.0). Imagem histórica de contexto, sem relação documental com os trabalhadores de 2025.

Em 2025, as pessoas com 65 ou mais anos representavam cerca de 24,3% da população, segundo a Pordata. É uma das proporções mais elevadas da União Europeia.


O envelhecimento coloca exigências acrescidas aos serviços de saúde, à proteção social e ao financiamento das pensões. Também altera a composição da população disponível para trabalhar.


A experiência profissional dos trabalhadores mais velhos pode constituir um recurso importante. Mas existe o risco de confundir duas necessidades diferentes: a necessidade coletiva de manter pessoas no mercado de trabalho e a necessidade individual de obter rendimento suficiente para viver.


A primeira pode justificar políticas de incentivo ao emprego sénior. A segunda exige respostas de proteção social. Se ambas forem tratadas como uma única questão, o crescimento do emprego entre os mais velhos poderá ser apresentado como um êxito mesmo quando parte resulta de dificuldades económicas.


A reforma representa uma conquista social construída ao longo de gerações. A finalidade nunca foi apenas substituir o salário por uma prestação mensal. Foi também reconhecer que, depois de uma vida de trabalho, deve existir um período em que a sobrevivência económica não dependa da continuação da atividade profissional. O aumento da longevidade transformou as condições em que esse direito é exercido. Não o tornou irrelevante.


Há razões legítimas para continuar depois dos 65 anos.


A satisfação profissional, o desejo de permanecer ativo e a vontade de transmitir conhecimentos merecem respeito. O mesmo respeito é devido a quem pretende descansar, cuidar da saúde, acompanhar a família ou dedicar-se a atividades que não proporcionam rendimento.


Uma sociedade que valoriza o envelhecimento ativo não deveria medir o sucesso apenas pelo número de pessoas mais velhas que continuam empregadas. Deveria perguntar quantas podem escolher.


Pintura de uma mulher idosa sentada numa cadeira, concentrada na leitura de um livro.
O tempo para atividades sem rendimento também faz parte da liberdade de envelhecer. «Old Woman Reading», de Cornelis Kruseman, 1820–1833. Rijksmuseum, depósito da cidade de Amesterdão. Domínio público. Reprodução de contexto artístico.

É necessário distinguir trabalhadores ainda afastados da idade legal da reforma, pensionistas que regressam à atividade e pessoas que nunca chegaram a abandonar o mercado de trabalho. É igualmente necessário perceber quanto ganham e por que razão continuam. Sem essas respostas, os números mostram uma transformação, mas não revelam inteiramente o seu significado.


Fontes institucionais



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