top of page

Resultados de busca

Buscar neste site

394 resultados encontrados com uma busca vazia

  • O mercado político do ódio útil

    A política portuguesa não se tornou mais áspera apenas porque as pessoas discutem mais. Essa seria uma explicação demasiado arrumada: redes sociais, comentadores, frases agressivas no Parlamento, menos paciência, mais gritaria. Uma questão de modos, quase. Mas a mudança parece outra. A política começou a oferecer pertença através da rejeição. Já não chega dizer ao cidadão o que pode defender ou esperar. É preciso dizer-lhe contra quem se deve reconhecer. A política do ressentimento cresce onde a representação deixa zonas inteiras na sombra. Durante muito tempo, mesmo quando falhava, a política prometia alguma coisa. Um partido dizia falar pelos trabalhadores, outro pelas classes médias, outro pelos pequenos empresários, outro pelos reformados, outro pelo interior. Havia sedes locais, jornais, sindicatos, cafés onde se discutia com excesso, mas também com alguma familiaridade. A política tinha corpos à sua volta. Gente que se conhecia, que se zangava, que voltava a encontrar-se. Hoje, muita dessa matéria adelgaçou. Os partidos ficaram mais leves, as vidas mais instáveis, a governação mais difícil de traduzir numa melhoria que alguém consiga contar ao jantar. Quando a política deixa de produzir confiança por resultados, procura outra cola. A aversão é fácil de transportar. A polarização afetiva nasce nesse chão já seco. Não é apenas discordar. Discordar é normal; uma democracia sem conflito seria uma repartição pública com eleições. A polarização afetiva começa quando a opinião do outro deixa de parecer errada e passa a parecer uma falha de carácter. O adversário já não é alguém com outra posição sobre impostos, imigração, escola, saúde, habitação ou apoios sociais. Passa a ser cúmplice, vendido, parasita, traidor, fanático, ingénuo, perigoso. A conversa muda de matéria. Já não pergunta apenas o que se defende. Pergunta que tipo de pessoa se é por defender aquilo. A sondagem ICS/ISCTE/GfK para o Expresso e a SIC deu contorno medível a este clima. O dado sobre PSD e Chega diz mais do que parece. Os simpatizantes sociais-democratas avaliam o partido de André Ventura com cerca de 2,8 numa escala de 0 a 10. Não é só um número baixo. É uma pequena fenda entre o jogo parlamentar e a vida social. Pode haver votos coincidentes, negociações, aproximações de circunstância. Isso não significa que os eleitorados se sintam próximos. Uma direção partidária calcula. Um eleitor, muitas vezes, reage. Essa diferença pesa. A política institucional gosta de fingir que tudo o que consegue negociar já está socialmente aceite. Não está. Por cima, os partidos podem aproximar-se. Por baixo, os eleitores continuam a ver fronteiras, desconfortos, repulsas. O Parlamento mexe-se por utilidade; a sociedade demora mais tempo a aceitar novas vizinhanças morais. Às vezes não aceita. O Chega concentra, nessa sondagem, uma carga negativa muito própria. Cerca de 46% das descrições feitas aos seus simpatizantes têm tom negativo. O que está em causa já não é apenas rejeitar um programa, uma proposta fiscal, uma estratégia parlamentar ou um dirigente. É olhar para uma pertença partidária como se ela denunciasse uma disposição íntima. O voto passa a ser lido como sintoma. Quem escolhe aquele partido não escolheu apenas mal, aos olhos de muitos: revelou qualquer coisa. Seria, ainda assim, demasiado cómodo imaginar que a desqualificação circula só num sentido. Os simpatizantes do Chega também usam, com frequência, linguagem negativa para falar dos apoiantes de outros partidos. Há uma espécie de espelho sujo. Cada campo olha para o outro e vê menos adversários do que impostores. O Chega é hoje o ponto de maior concentração simbólica desta rejeição, mas a linguagem da aversão já se soltou do seu ponto de origem. Espalhou-se. Começou a parecer uma fala comum. Os números pedem algum cuidado. Portugal não está socialmente partido ao meio. Cerca de 16% dos inquiridos dizem evitar falar de política para não gerar conflitos; cerca de 23% admitem detestar pessoas com opiniões políticas opostas; só cerca de 3% dizem ter cortado relações pessoais por motivos políticos. Ainda há família, trabalho, vizinhança, café, escola, consultas, filas, elevadores, almoços de domingo. A vida comum continua a obrigar as pessoas a uma convivência que a política, deixada sozinha, talvez já tivesse destruído mais depressa. Mas há uma mudança de ar. Certos temas entraram nas relações privadas como pequenos explosivos. Uma frase sobre imigração, apoios sociais, Chega, professores, sindicatos, juízes, impostos ou habitação pode alterar a temperatura de uma sala. O almoço continua, mas fica outro. Alguém muda de assunto. Alguém faz uma piada. Alguém baixa os olhos para o prato. Alguém guarda uma frase durante semanas. A democracia perde muito antes do corte formal de relações. Perde quando o desacordo obriga cada um a proteger-se. A pergunta difícil é saber por que razão esta linguagem encontra tanto material disponível. As redes sociais ampliam, claro. O algoritmo gosta do conflito porque o conflito prende o olhar. A frase que acusa viaja melhor do que a frase que distingue. A nuance não tem grande destino. A prudência faz fraca figura nas redes. Mas culpar apenas os algoritmos é uma forma contemporânea de absolver a política. A raiva precisa de chão. E chão não falta. Há salários que não chegam. Casas que expulsam. Serviços públicos gastos. Carreiras que começam tarde e se interrompem cedo. Jovens presos numa adolescência económica que se prolonga para lá do razoável. Reformados que contam moedas. Pequenos empresários entalados numa sobrevivência que raramente parece heroica aos olhos de quem legisla. Há muito país cansado antes de haver país zangado. Nada disto conduz automaticamente ao radicalismo. A frustração também pode gerar organização, solidariedade, exigência democrática, sindicatos mais fortes, associações de moradores, debates sérios sobre habitação, fiscalidade, produtividade, saúde, escola e território. Mas também pode ser desviada. E é mais simples desviá-la para um culpado próximo do que transformá-la numa conversa difícil sobre causas. Não é o modelo económico, dizem-lhe. Não é a desigualdade territorial. Não é a fragilidade do Estado. Não é a captura de setores essenciais. Não é a precariedade como modo de administrar vidas. São eles. Os de cima, os de fora, os subsídio-dependentes, os corruptos, os imigrantes, os jornalistas, os juízes, os funcionários, os professores, os pobres errados. A lista muda com a conveniência da semana. O processo mantém-se. O Chega percebeu esta disponibilidade antes de muitos adversários. Não inventou a frustração portuguesa; deu-lhe uma fala curta. Fala para quem se sente esquecido, enganado, diminuído ou simplesmente cansado de ouvir explicações longas para vidas que não melhoram. E oferece uma coisa poderosa: uma explicação sem grande custo intelectual e com recompensa moral imediata. A tua irritação não é apenas irritação; é lucidez. A tua raiva não é excesso; é prova de que viste o que os outros fingem não ver. A eficácia desta linguagem não depende inteiramente da verdade factual das acusações. Depende da sua serventia emocional. Uma análise séria obriga a falar de produtividade, rendas, imigração laboral, demografia, financiamento dos serviços públicos, regulação, captura, salários, investimento, justiça fiscal, confiança institucional. A acusação direta oferece outra coisa: rosto, culpa, castigo. A política tornou-se muito competente a arranjar rostos para problemas que não cabem num rosto. A resposta moralizante falha frequentemente por isso. Chamar fascista a todo o eleitor do Chega pode dar alívio a quem já pensa assim, mas explica pouco e combate menos. Há dirigentes, discursos e redes que devem ser descritos com dureza quando promovem xenofobia, autoritarismo, intimidação ou violência verbal. Mas isso não obriga a fingir que todo o eleitor radicalizado chegou ali por doutrina organizada. Muitos chegam por ressentimento, medo de desclassificação, humilhação antiga ou sensação de que ninguém lhes deu uma linguagem legítima para a perda. Explicar não é desculpar. É recusar enfrentar um fenómeno real com uma caricatura conveniente. Também há uma objeção séria à crítica da polarização. Talvez o conflito revele vitalidade. Portugal viveu demasiado tempo numa espécie de consenso mole: alternância previsível, elites que se conheciam bem, promessas parecidas, cidadania intermitente, pouca responsabilização. O conflito pode romper anestesias. Pode expor privilégios. Pode obrigar a escolher. Uma política sem antagonismo corre o risco de se tornar gestão orçamental com cartazes eleitorais. A diferença está no tipo de conflito. Há conflito que organiza interesses e conflito que fabrica inimigos. Um obriga a falar de salários, rendas, impostos, propriedade, investimento, escola, saúde, transportes, financiamento partidário, trabalho e poder. O outro prefere pureza, ameaça, decadência, traição, invasão, castigo, limpeza. O primeiro pode produzir negociação. O segundo produz dependência emocional de líderes que prometem restaurar uma ordem perdida sem dizer exatamente quem pagará a fatura. A polarização que cresce em Portugal tem muitas vezes esta segunda característica. Em vez de clarificar conflitos sociais, baralha-os. O trabalhador pobre aprende a desconfiar do beneficiário de prestações. O jovem sem casa olha para o imigrante como concorrente direto. O contribuinte sente o Estado social como peso antes de o reconhecer como proteção. O pequeno empresário transforma a fiscalização no rosto inteiro do Estado. O interior vê Lisboa não como capital, mas como apropriação. A vítima encontra outra vítima e chama-lhe privilégio. O ódio útil faz isso com eficácia: impede que pessoas com interesses materiais próximos se reconheçam como aliadas possíveis. Cada uma recebe um alvo mais perto, mais frágil e mais visível do que as forças que condicionam a sua vida. A discussão sobre apoios sociais encaixa aqui com nitidez. A Prestação Social Única, apresentada pelo Governo como forma de agregar várias prestações não contributivas e simplificar o acesso, contém elementos que qualquer Estado social responsável deve saber discutir: critérios, verificação, cruzamento de dados, combate à fraude, avaliação anual, obrigações para beneficiários em idade ativa e com capacidade para trabalhar. Não há Estado social robusto sem prestação de contas. Um sistema que não distingue situações, não corrige abusos e não se explica aos contribuintes perde legitimidade. O problema começa quando a reforma social passa a ser apresentada como suspeita permanente. Reformar apoios com base em evidência, proporcionalidade e eficácia é uma coisa. Construir uma acusação pública contra os pobres é outra. Quando a conversa se reduz à oposição entre “quem trabalha” e “quem vive à custa”, a política social deixa de ser técnica. Torna-se disciplinar. O beneficiário deixa de aparecer como cidadão em situação vulnerável e passa a aparecer como potencial infrator. A pobreza deixa de ser condição social e começa a ser tratada como defeito moral sob vigilância. O poder administrativo raramente precisa de gritar. Vive de formulários, critérios, obrigações, suspensões, cruzamentos, denúncias, prazos, exceções. Pode proteger com rigor ou humilhar com método. A diferença nem sempre está numa frase do diploma; muitas vezes está na cultura política que o envolve. Se a reforma for apresentada como instrumento de justiça, eficácia e dignidade, pode reforçar confiança. Se for apresentada como caça ao abuso, transforma solidariedade fiscal em ressentimento fiscal. Depois, qualquer corte parecerá uma correção moral. A esquerda tem aqui uma responsabilidade própria. Durante demasiado tempo respondeu a estas matérias com reflexos defensivos, como se admitir abusos, más execuções ou incentivos mal desenhados fosse conceder terreno ao adversário. Não é. Um Estado social digno precisa de direitos e deveres, proteção e rigor, universalidade moral e controlo material. Quando a esquerda fala apenas de direitos e evita falar de deveres, entrega os deveres a quem os transforma em humilhação. A direita moderada joga outro jogo perigoso. Quer recuperar autoridade sem parecer ressentida. Quer disputar eleitores radicalizados sem se confundir inteiramente com a direita radical. Quer endurecer a linguagem mantendo aparência institucional. Mas quando aceita o enquadramento moral do adversário, mesmo com melhor educação verbal, desloca o centro da conversa. A versão limpa raramente vence a versão original. Quem quer punição simbólica prefere ouvi-la sem verniz. Portugal ainda conserva reservas. Os números não dizem que o país se partiu. Dizem que aprendeu uma linguagem mais áspera, mais desconfiada, mais pronta a classificar pessoas. Ainda se almoça com quem pensa diferente. Ainda se evita a discussão antes de cortar relações. Ainda há distância entre rejeição emocional e rutura social. Mas a política já descobriu que o ódio é útil, barato e mobilizador. Descobriu que a frustração material pode ser convertida em identidade negativa. Descobriu que a suspeita pode passar das redes para os programas, dos programas para os diplomas, dos diplomas para os balcões. O risco maior não está apenas no crescimento eleitoral de um partido, nem na agressividade parlamentar que se vê todos os dias. Está na normalização administrativa da suspeita. Quando políticas públicas começam a ser desenhadas menos para resolver problemas do que para satisfazer ressentimentos, a polarização deixa de ser ambiente. Passa a método de governo. A pergunta, então, já não é apenas se os portugueses conseguem discordar sem se odiar. Essa é a pergunta educada, quase doméstica. A pergunta política é outra: quem ganha poder quando eles deixam de tentar?

  • Ainda reconhecemos o carácter?

    A cadeira estava encostada à parede, entre o bengaleiro metálico e uma planta de plástico que já tinha perdido duas folhas. Era uma cadeira vulgar, de sala de espera, com o assento gasto no centro e uma fenda pequena no vinil castanho. Por cima dela havia um relógio barato, sempre atrasado. Um minuto. Talvez dois. A reunião ainda não tinha começado. Ainda reconhecemos o carácter? — Uma reflexão sobre integridade, identidade e o que resta de nós quando tudo o resto se dissolve. Nova capa do Atlantic Lisbon As pessoas entravam com pastas debaixo do braço, cumprimentavam-se depressa, diziam “bom dia” sem esperar resposta. Uma senhora procurava uma caneta dentro de uma mala demasiado cheia. Um homem mais novo, de fato azul apertado nos ombros, falava ao telefone junto à janela. A voz era baixa, mas não o suficiente para esconder que estava a resolver qualquer coisa importante. Ao fundo, alguém ria. Não era um riso alegre. Era daqueles risos que servem para ocupar espaço antes de alguém o disputar. A cadeira não tinha importância. Alguém a deixara ali. Mesmo assim, dei por mim a olhar para ela. Naquela sala cheia de pessoas com pressa de serem escutadas, a cadeira parecia quase bem-educada. Não pedia nada. Não disputava lugar. Esperava. Foi nessa manhã que me ocorreu a palavra carácter. Não nos parlamentos, nem nos governos, nem nos grandes palcos onde se declara a decadência geral. Ali, numa sala sem história, dessas onde ninguém faz discursos memoráveis, mas onde se decide muita coisa sobre a forma como aceitamos ser tratados. A palavra ainda circula. Aparece em elogios fúnebres, entrevistas de domingo, editoriais preocupados, cerimónias. Ninguém se incomoda com ela. Tem uma solenidade antiga, inofensiva, quase decorativa. Passa pela conversa como uma moeda que todos aceitam por cortesia, embora já poucos saibam o seu valor. Dizemos que alguém tem carácter quando queremos elogiar de modo amplo. Dizemos que falta carácter a outro quando já não queremos perder tempo a explicar. A palavra ficou presa entre a moral e o temperamento. Serve para tudo. Começa, por isso, a servir pouco. O vocabulário público prefere termos mais leves. Competência. Liderança. Comunicação. Estratégia. Capacidade de decisão. Resistência à pressão. Visão. Há sempre uma palavra limpa, pronta para caber num perfil, numa conferência ou numa nota biográfica. Carácter é mais lento. Obriga a perguntar não apenas o que uma pessoa consegue fazer, mas o que se autoriza a fazer quando pode. Ninguém quer ser governado por incompetentes. A preparação importa. A inteligência importa. A capacidade de decidir também. Mas começámos a pedir a essas capacidades respostas que elas não sabem dar. Um homem pode ser brilhante e mesquinho. Pode decidir depressa e decidir mal. Pode conhecer todos os mecanismos do poder e não ter um único travão interior quando chega o momento de os usar. A política percebeu isso antes de muitos de nós. A política não inventa tudo. Muitas vezes, limita-se a pegar no que já estava à vista e a pô-lo num lugar onde se ouve melhor. Antes de chegarem ao parlamento, certas formas de brutalidade já passaram pelos escritórios, pelas famílias, pelas universidades, pelas redes sociais, pelos pequenos grupos onde se aprende que a agressividade parece força e que a falta de escrúpulos, quando produz resultados, pode ser chamada pragmatismo. Na sala dessa manhã, ouvi duas pessoas falar de alguém que não estava presente. Diziam que era duríssimo, que não deixava passar nada, que “limpava” qualquer oposição em três minutos. A palavra foi essa: limpava. Não havia reprovação no tom. Havia uma espécie de admiração prática, como se a capacidade de diminuir os outros fosse uma ferramenta rara, conveniente, talvez indispensável. Não conhecia a pessoa. Talvez fosse excelente. Talvez fosse apenas eficaz. Em certos lugares, essa diferença deixou de pesar. Durante muito tempo, esperou-se de quem mandava algum domínio sobre si próprio. Nem sempre existia. A história está cheia de vaidosos, oportunistas, cínicos e cobardes. Mas até a hipocrisia presta uma homenagem involuntária à regra que finge cumprir. Quando um vício precisa de se esconder, ainda reconhece a autoridade da virtude. Agora há vícios que entram pela porta principal. A grosseria passou a circular como franqueza. A mentira ganhou nomes mais macios. A arrogância, quando vem bem vestida, ainda encontra quem a confunda com segurança. A crueldade tornou-se coragem para dizer o que os outros não dizem. A ignorância, quando exibida com suficiente convicção, pode passar por autenticidade popular. O modo como se conta uma coisa muda quase sempre a coisa que se contou. Um ato que antes provocava embaraço passa a produzir aplauso se for contado com a entoação certa. Uma humilhação pública transforma-se num momento forte. Um insulto bem distribuído vale mais do que um argumento mediano. Sem decreto, sem programa, sem doutrina, educa-se assim uma parte da sensibilidade pública. Quem vive junto a uma estrada movimentada deixa, ao fim de algum tempo, de ouvir os carros. A casa continua atravessada pelo barulho, mas o ouvido aprende a poupar-se. Com a indignidade acontece algo parecido. Primeiro interrompe. Depois irrita. Mais tarde, cansa. Por fim, entra na paisagem. Dizemos então que “é assim”, que “sempre foi assim”, que “não vale a pena ser ingénuo”. Há nessa frase uma prudência de superfície, boa para evitar desilusões, péssima para impedir cedências. Quanto mais cedo aceitamos que nada pode ser melhor, mais disponíveis ficamos para desculpar o pior. A certa altura, já nem pedimos grandeza. Pedimos que os nossos sejam eficazes contra os deles. O carácter torna-se uma espécie de porcelana guardada para tempos calmos. Na guerra diária da opinião, da visibilidade e da disputa, parece pouco prático. Quem hesita perde. Quem pondera chega tarde. Quem mantém escrúpulos oferece vantagem. A força verdadeira sempre teve alguma relação com a contenção. Não por delicadeza de salão, mas porque só é forte quem não precisa de usar tudo aquilo que pode usar. O poder sem travão interior precisa de demonstrações constantes. Tem de mostrar que vence, que cala, que domina, que não recua. Anda sempre à procura de um novo adversário para provar que ainda existe. O carácter aparece muitas vezes como recusa. Recusar humilhar quando seria fácil. Recusar mentir quando a mentira resolveria o dia. Recusar aproveitar uma fraqueza alheia apenas porque ela ficou exposta. Recusar transformar cada relação numa oportunidade de vantagem. Não há grande espetáculo nisso. A visibilidade prefere gestos mais simples de reconhecer. Um ataque direto. Uma frase dura. Um confronto. Um momento que circule. A reputação, que antes exigia alguma permanência, foi sendo trocada por sucessivas aparições. Há pessoas conhecidas por serem conhecidas, influentes por serem repetidas, respeitadas porque aparecem sempre nos lugares onde se respeita quem aparece sempre. Às vezes, já não se sabe se aquelas pessoas são admiradas ou apenas repetidas até parecerem necessárias. Vê-se na política, mas também na cultura, no jornalismo, na universidade, nas empresas. Há figuras cuja autoridade se tornou difícil de distinguir da insistência com que ocupam espaço. Comentam tudo. Reagem a tudo. Não deixam que a sua ausência dure o suficiente para se perceber se faria falta. Ao fim de algum tempo, a presença começa a imitar a importância. E quase ninguém pergunta o que ficaria se deixassem de aparecer durante um mês. O que construíram? Que risco aceitaram? Que verdade defenderam quando lhes teria sido mais útil calar? Que pessoa protegeram quando ninguém estava a observar? São perguntas lentas. Não cabem bem no ritmo do momento. Lembro-me de um professor que falava pouco e escolhia as palavras com cuidado, como quem pousa objetos frágeis numa mesa. Um dia, a propósito de uma figura histórica que a turma admirava pela inteligência, disse apenas: “ser inteligente não impede ninguém de ser perigoso”. Não fez discurso. Passou adiante. Talvez soubesse que explicar demasiado podia estragar a frase. Na altura, pareceu-me excessivo. A juventude acredita facilmente que a inteligência salva. Salva da vulgaridade, da injustiça, da violência, talvez até da maldade. Mais tarde, percebe-se que não. A inteligência pode iluminar, mas também pode afiar. Pode abrir o mundo ou transformar os outros em peças de uma estratégia privada. Há pessoas brilhantes incapazes de pedir desculpa. Há pessoas cultíssimas que atravessam uma conversa deixando feridos discretos pelo caminho. Há dirigentes tecnicamente competentes para quem a injustiça é apenas um custo lateral. Não são monstros. Seria demasiado fácil. São pessoas funcionais em sistemas que premiam a função e raramente perguntam pela ferida. Não queremos líderes fracos. Mas também já não sabemos o que fazer com líderes fortes sem pudor. Queremos eficácia e assustamo-nos quando ela aparece sem limite. Pedimos competência e descobrimos tarde que a competência pode organizar impecavelmente uma indecência. Admiramos a rapidez e esquecemos que algumas coisas importantes só se veem devagar. A palavra carácter servia, pelo menos, para atrasar a absolvição. Não garantia nada. Nenhuma palavra protege uma sociedade sozinha. Mas obrigava a olhar para o interior de uma ação. Não apenas: resultou? Também: a que preço? Não apenas: venceu? Também: o que destruiu para vencer? Não apenas: é capaz? Também: é capaz de se deter? Talvez porque a contenção deixou de parecer virtude. Confunde-se com fraqueza, hesitação, falta de ambição. Há uma pedagogia permanente da aceleração que torna suspeito tudo o que se demora. O prudente parece cobarde. O ponderado parece lento. O discreto parece irrelevante. O decente parece ingénuo. O que não grita parece não existir. Mas a vida comum ainda depende dessas pessoas. Depende do funcionário que não abusa da pequena autoridade que tem. Do médico que explica outra vez, mesmo cansado. Do professor que não reduz uma criança ao pior dia. Também depende de gestos menos visíveis: uma informação íntima que não se usa como arma, uma dúvida séria que não se vende como certeza, uma frase que se cala porque sairia limpa demais e faria estragos. São atos pequenos, quase invisíveis. Talvez o carácter tenha vivido sempre mais aí do que nos grandes retratos oficiais. Quando esses gestos deixam de ser exemplares e passam a parecer apenas escolhas privadas, alguma coisa muda. A decência fica reduzida a uma preferência individual, como gostar de uma cor ou de uma música. Deixa de ser uma das condições silenciosas da confiança comum. Sem essa confiança, tudo precisa de contrato, vigilância, ameaça, exposição ou punição. A palavra deixa de bastar. O compromisso deixa de bastar. O rosto deixa de bastar. O mundo torna-se cheio de procedimentos porque já não acredita no que não consegue fiscalizar. Criam-se códigos, regulamentos, plataformas de denúncia, métricas de reputação, comissões de ética, declarações de compromisso. Algumas são necessárias. Muitas são úteis. Nenhuma substitui a presença de pessoas que não fazem certas coisas mesmo quando ninguém as apanha. Na reunião dessa manhã, a cadeira junto à parede acabou por ser ocupada por um homem mais velho que chegou atrasado. Pediu desculpa sem dramatizar. Sentou-se, abriu um caderno pequeno, ouviu durante muito tempo e falou apenas quando lhe pediram opinião. Disse pouco. Contrariou a sala sem levantar a voz. Não fez pose de coragem. Não humilhou ninguém. Não procurou uma frase. Introduziu apenas uma dúvida que todos estavam a evitar. Houve um silêncio desagradável. Durante alguns segundos, percebeu-se que aquela dúvida mudava a conversa. Não era brilhante. Era quase banal. Mas tinha sido dita no momento em que a sala se preparava para concordar com aquilo que lhe convinha. Depois, a reunião continuou. Alguém respondeu com impaciência. Outro tentou suavizar. O homem de fato azul olhou para o telefone. A planta de plástico continuava no canto. O relógio continuava atrasado. Nada de memorável aconteceu, se por memorável entendermos aquilo que mais tarde se conta com ênfase. Foi talvez isso que incomodou. Não a dúvida em si, mas o facto de ela ter mostrado que a sala podia ter escolhido outro caminho. Penso muitas vezes nessa cadeira. Não no homem, de quem já nem recordo bem o rosto. Recordo a cadeira vazia antes de ele chegar. O lugar discreto junto à parede, fora da mesa principal, quase esquecido. Talvez o carácter tenha hoje esse aspeto. Não desapareceu. Foi empurrado para o lado. Continua disponível, reconhecível, à espera de que alguém se sente nele. A cadeira continuou ali no fim da reunião. Alguém a afastou um pouco com o pé para abrir passagem. Ninguém reparou. Talvez seja assim que certas coisas desaparecem: não por serem expulsas, mas por deixarem de ter lugar à mesa.

  • A história depois da autoridade

    Nas redes chinesas, uma piada recente começou por parecer apenas mais uma brincadeira literária. Obras conhecidas — romances clássicos, séries televisivas, canções estrangeiras — eram lidas como se escondessem mensagens cifradas sobre uma dinastia desaparecida. Um nome, uma sílaba, uma coincidência sonora, uma imagem solta, e a interpretação ficava pronta. O resultado era absurdo, muitas vezes deliberadamente cómico. Mas a graça vinha de uma intuição menos leve: se qualquer coisa pode significar qualquer coisa, a história deixa de ser conhecimento comum e passa a ser jogo de suspeitas. Um bloco vermelho permanece no espaço vazio, como vestígio silencioso de uma autoridade que já passou, mas cuja sombra continua a organizar a memória. Sempre houve leituras extravagantes do passado, genealogias imaginárias, teorias de conspiração, falsificações, usos políticos da memória e entusiasmos populares por versões alternativas da história. O que mudou foi a escala. A internet tornou essas leituras instantâneas, replicáveis e visualmente sedutoras. Um fragmento sem contexto pode circular mais depressa do que um livro. Uma legenda agressiva pode valer mais do que uma demonstração. Um vídeo curto, montado com música dramática e frases de revelação, pode convencer mais do que uma explicação paciente. A história, que durante muito tempo dependia de instituições lentas — arquivos, universidades, museus, editoras, manuais, revistas especializadas — passou a disputar atenção no mesmo espaço onde circulam memes, propaganda, humor, ressentimento e publicidade. A história nunca pertenceu apenas aos historiadores. As famílias guardaram memórias, as comunidades transmitiram feridas, os povos criaram narrativas de origem, os vencidos conservaram lutos que os vencedores tentaram apagar. A história pública sempre foi mais vasta do que a história académica. A universidade oferecia, no seu melhor, outra coisa: método, prova, crítica documental, confronto entre interpretações, revisão pelos pares, prudência perante a lacuna. Não era infalibilidade. Era disciplina. A erosão actual nasce em parte da perda dessa diferença. O público habituou-se a ver a autoridade como suspeita e a suspeita como inteligência. Títulos como "isto não vem nos manuais" ou "a verdade que esconderam de si" funcionam porque partem de uma desconfiança real: muitos manuais omitiram factos, muitas instituições protegeram versões convenientes, muitos Estados organizaram a memória para se legitimarem. Mas a denúncia da omissão não prova a verdade da alternativa. Entre corrigir uma narrativa incompleta e substituí-la por delírio vai uma distância que as redes percorrem em segundos. A história pública tornou-se uma zona de conflito permanente. Disputa-se o que deve ser lembrado e o que foi deixado de fora. Disputa-se a fronteira entre interpretação e invenção. Disputa-se a leitura contemporânea de acontecimentos antigos. Disputa-se a autenticidade de imagens, vídeos e documentos. Disputa-se até a relação entre causa e consequência: quem foi vítima, quem foi agressor, que violência deve ocupar o centro da memória, que sofrimento foi usado para esconder outro sofrimento. A Segunda Guerra Mundial continua a mostrar essa dificuldade. Há imagens que se tornaram universais, quase obrigatórias em qualquer pedagogia do século XX: campos de extermínio, cidades destruídas, cogumelos atómicos, ruínas, corpos, rendições. Mas a escolha das imagens também organiza o pensamento. Uma fotografia de Hiroshima pode convocar a catástrofe nuclear e, ao mesmo tempo, deslocar para a sombra crimes cometidos pelo Japão imperial na Ásia. Uma memória não é falsa apenas por ser parcial. Mas uma memória parcial, quando se apresenta como total, começa a deformar o passado. A inteligência artificial acrescentou outra camada a esta crise. Durante décadas, a falsificação documental exigia perícia, tempo e algum risco. Hoje, imagens de guerra, discursos, fotografias antigas, rostos, mapas e documentos podem ser fabricados ou alterados com uma facilidade inédita. A falsificação deixou de ser excepção artesanal. Pode tornar-se produção abundante, barata e plausível. Para o leitor comum, a distinção entre arquivo e simulação será cada vez mais difícil, sobretudo quando a imagem falsa confirmar uma convicção já existente. A ameaça mais séria talvez não esteja na mentira isolada. Está no cansaço provocado por demasiadas versões. Quando tudo pode ser falso, a verdade deixa de ser procurada e passa a ser escolhida. Cada grupo recolhe as provas que lhe convêm, desconfia das que o incomodam e refugia-se numa comunidade interpretativa. A história deixa de ser terreno comum de desacordo e passa a ser munição identitária. Já não se discute apenas o que aconteceu. Discute-se quem tem o direito de dizer o que aconteceu. Durante muito tempo, muitos historiadores escreveram sobretudo para outros historiadores. O arquivo, a nota de rodapé e a monografia eram instrumentos de uma conversa exigente, mas relativamente protegida. Essa protecção acabou. A história circula em plataformas abertas, enciclopédias colaborativas, fóruns, canais de vídeo, jogos, séries, romances, podcasts e sistemas de inteligência artificial. O passado já não chega ao público apenas em forma de livro ou aula. Chega como imagem, experiência, simulação, emoção, pertença. A resposta não pode ser nostalgia da antiga autoridade. Seria inútil e, em muitos casos, injusta. A abertura da história a vozes antes excluídas permitiu corrigir silêncios reais. Mulheres, colonizados, minorias, trabalhadores, populações deslocadas, vítimas de violência estatal ou social encontraram novos meios para inscrever a sua memória no espaço público. A pluralidade não é o problema. O problema começa quando a pluralidade perde qualquer relação com prova, contexto e responsabilidade. Também não basta invocar "consenso histórico" como se fosse uma parede contra a confusão. O consenso não pode ser obediência. Não pode ser a imposição de uma versão oficial por medo da desordem. Consenso histórico sério é outra coisa: um ponto provisório de estabilidade, construído por confronto de fontes, debate crítico, revisão, acumulação de conhecimento e capacidade de corrigir erros. Uma casa sempre reparável, não um monumento intocável. Esse consenso tornou-se mais difícil porque os narradores mudaram. Qualquer pessoa pode publicar memórias, investigar a sua genealogia, comentar uma guerra, reinterpretar uma estátua, desmontar uma versão escolar, produzir um vídeo sobre impérios antigos ou acusar uma civilização inteira de fraude. Parte deste movimento é legítima. A história não deve ser uma propriedade fechada. Mas a democratização do acesso não elimina a diferença entre memória, opinião, documento, hipótese e prova. A arena também mudou. A página impressa tinha limites claros: autoria identificável, edição, data, circulação mais lenta. O espaço digital é instável. Um texto pode ser alterado, copiado, resumido, remixado, traduzido por máquina, separado da sua fonte, citado fora de contexto e devolvido ao público como se fosse evidência independente. As plataformas não organizam a circulação pela robustez do argumento, mas pela capacidade de retenção. A história mais rigorosa raramente é a mais excitante. A história mais excitante raramente é a mais prudente. Neste ambiente, o historiador perde o monopólio, mas ganha uma responsabilidade nova. Já não basta produzir conhecimento correcto em lugares onde quase ninguém o encontra. É preciso entrar na cultura pública sem abandonar o método. Explicar sem simplificar até à falsidade. Corrigir sem humilhar. Mostrar incerteza sem parecer evasivo. Distinguir omissão de conspiração, revisão de negação, memória de prova, emoção de demonstração. É um trabalho mais exposto e menos confortável do que o velho gabinete. A inteligência artificial pode agravar ou ajudar. Pode multiplicar falsificações, criar arquivos imaginários, responder com segurança a perguntas mal formuladas e dar aparência de coerência a erros antigos. Mas também pode organizar grandes corpora, comparar versões, encontrar padrões documentais, traduzir materiais, mapear a circulação de narrativas e tornar acessível conhecimento antes disperso. A questão não é se a IA entra na história pública. Já entrou. A questão é quem define os seus critérios, que arquivos a alimentam, que instituições verificam os seus resultados e que cultura crítica se forma em torno dela. A disputa pela história é também disputa política. Os Estados, as plataformas, os movimentos ideológicos, as comunidades religiosas, os grupos nacionais e os actores económicos sabem que controlar o passado ajuda a ordenar o presente. Uma sociedade que aceita determinada memória aceita mais facilmente certas hierarquias, certos ressentimentos, certas reivindicações e certas guerras. A história pública não é ornamento cultural. É infraestrutura moral. Quando uma comunidade perde qualquer chão comum sobre o passado, a política passa a operar num presente sem travões. Cada grupo escolhe as suas origens, os seus mártires, as suas traições e as suas datas sagradas. A memória deixa de servir como aviso e passa a servir como arma. O passado, em vez de alargar a experiência humana, estreita-a. Tudo confirma a tribo. Nada a obriga a pensar. A saída não está em regressar a uma história única, fechada, administrada de cima. Essa história também produziu cegueiras. A saída está em construir formas mais exigentes de história pública: abertas, mas verificáveis; plurais, mas não arbitrárias; sensíveis à experiência das vítimas, mas resistentes à fabricação; capazes de acolher novas perguntas sem destruir a diferença entre investigação e fantasia. Isso exige instituições, mas também hábitos. Ensinar a ler uma imagem. Perguntar de onde vem um documento. Distinguir fonte primária de comentário. Perceber que uma ausência num manual pode resultar de selecção, não de conspiração. Aceitar que nem todo o passado cabe numa narrativa simples. Reconhecer que a emoção pode iniciar uma pergunta, mas não deve substituir a prova. E admitir que a história, quando é séria, raramente oferece a satisfação imediata das teorias totais. A piada das leituras escondidas em romances, séries ou canções talvez desapareça depressa, como desaparecem quase todos os memes. Mas o gesto ficará. Procurar mensagens secretas onde há coincidências, suspeitar de toda a versão estabilizada, transformar o passado em código por decifrar, preferir a revelação à interpretação. Esse gesto é mais duradouro do que a moda que o tornou visível. A história nunca foi apenas aquilo que aconteceu. Foi sempre também o modo como as sociedades decidiram lembrar, esquecer, explicar e transmitir. A novidade é que esse processo deixou de ter margens reconhecíveis. Está nos ecrãs, nos motores de busca, nas plataformas, nos modelos de linguagem, nos vídeos curtos, nas guerras culturais, nos arquivos e nas conversas privadas. O passado tornou-se permanente e instável ao mesmo tempo. Defender a história, hoje, não é defender uma versão imóvel do mundo. É defender as condições mínimas para que o desacordo continue a ter realidade por baixo. Sem documentos, método, contexto e instituições capazes de corrigir o erro, a memória pública fica entregue à velocidade. E a velocidade, sozinha, não lembra. Apenas espalha.

  • A inteligência impressiona. O carácter fica.

    O rapaz sentava-se quase sempre na primeira fila. Não era por disciplina. Nem por especial gosto em ficar perto do quadro. Sentava-se ali como quem já conhece o lugar que lhe pertence. Era o melhor aluno da turma, e sabia-o. Havia, na forma como abria o caderno, pousava a caneta e esperava pelas perguntas, uma confiança que dispensava esforço. Quando o professor lançava uma questão mais difícil, vários colegas olhavam para ele antes de tentarem responder. Era inteligente. Isso ninguém discutia. A inteligência aparecia-lhe sem grande trabalho, como acontece a certas pessoas que decoram caminhos à primeira passagem ou percebem uma piada antes de ela acabar. Compreendia depressa. Ligava ideias. Apanhava relações que os outros ainda estavam a procurar. Nos testes, as notas confirmavam aquilo que a sala já tinha decidido. Havia, porém, uma coisa que raramente se dizia. «A inteligência impressiona. O carácter fica.» Como a verdadeira essência de uma pessoa se revela para além das aparências. Como a verdadeira essência de uma pessoa se revela para além das aparências. Pouca gente gostava dele. Não era propriamente mau. Não insultava colegas nos corredores, não fazia cenas, não tinha aquele tipo de crueldade visível que obriga os adultos a intervir. Era mais subtil. Se alguém se enganava, sorria de lado. Se uma colega demorava a compreender uma explicação, suspirava. Se uma dúvida interrompia o ritmo da aula, ficava com uma expressão de injustiça pessoal, como se o tempo dos outros lhe estivesse a ser roubado. Os professores admiravam-no. Os colegas aguentavam-no. Na altura, não pensei muito nisso. A escola habitua-nos cedo a reconhecer a inteligência. Há notas para a medir, prémios para a assinalar, concursos para a exibir, quadros de honra para a fixar. Aprende-se depressa quem responde primeiro, quem calcula melhor, quem escreve com mais limpeza, quem parece entender sem precisar de segunda explicação. Nada disso é estranho. O estranho vem depois. Quase sem darmos por isso, começamos a tratar a inteligência como se ela respondesse a perguntas que não lhe pertencem. Um aluno inteligente passa a parecer um aluno admirável. Um professor inteligente passa a parecer um professor respeitável. Um dirigente inteligente passa a parecer confiável. Há ali um pequeno salto, tão habitual que quase ninguém o nota. A capacidade começa a fazer o trabalho do carácter. Talvez gostemos de acreditar que as qualidades humanas vêm em conjunto. Dá-nos algum descanso. Queremos imaginar que quem vê mais depressa também vê melhor. Que quem compreende uma ideia complexa compreenderá, por isso mesmo, uma pessoa vulnerável. Que a inteligência, se for suficientemente alta, acabará por produzir prudência, generosidade ou justiça. A vida corrige essa esperança com frequência. Encontramos pessoas muito inteligentes que deixam atrás de si pequenas devastações. Nem sempre por maldade. Às vezes por impaciência. Outras por vaidade. Outras ainda porque nunca aprenderam a reparar no efeito que têm sobre os outros. A inteligência permite-lhes explicar quase tudo, menos o mal que fazem enquanto explicam. Conheci um médico brilhante que falava dos doentes como quem descreve máquinas avariadas. Conheci um professor de grande inteligência cuja presença, pelo contrário, parecia aumentar a paciência da sala. Conheci pessoas cultas incapazes de ouvir cinco minutos sem corrigir alguém. E conheci pessoas sem brilho especial que tornavam qualquer conversa menos agressiva, menos estreita, menos pobre. Não era só inteligência. Era outra coisa, mais difícil de nomear sem parecer antiquado. Algumas pessoas impressionam logo. Outras ficam connosco muito mais tarde, quando já nem nos lembramos bem do que disseram. A inteligência produz admiração rápida. O carácter demora mais. Precisa de tempo, repetição, episódios pequenos, dias vulgares. Vê-se menos numa resposta certa do que na forma como alguém usa a sua vantagem quando podia esmagar outro sem grande custo. Temos métricas para quase tudo o que se mostra depressa. Classificações, resultados, currículos, prémios, rankings, audiências, seguidores. Identificamos com facilidade quem fala bem, quem escreve bem, quem acumula conhecimento, quem resolve problemas difíceis. Mas, quando tentamos perceber se uma pessoa é leal, íntegra, generosa ou justa, entramos num terreno menos obediente. Não cabe bem numa tabela. A inteligência dá sinais visíveis. O carácter deixa vestígios. Uma pessoa inteligente pode dominar uma sala em dez minutos. Uma pessoa decente precisa, muitas vezes, de ser vista durante anos. A primeira capta atenção. A segunda constrói confiança. E a atenção, hoje, circula melhor. Tem plataformas, prémios, convites, cortes de vídeo. A confiança continua a ser uma coisa lenta, quase rural, desconfiada da pressa. Isto aparece bem nos debates públicos. Há participantes que vencem apenas por velocidade. Respondem antes de a pergunta assentar. Encontram a fraqueza do adversário em segundos. Sabem interromper sem parecer totalmente mal-educados. Sabem sorrir no momento em que o outro hesita. Conhecem a linguagem, o ritmo, a pequena violência aceitável da televisão. Muitas vezes ganham. Nem sempre têm razão. A diferença parece pequena quando se está a assistir. Depois, com o tempo, torna-se enorme. Uma sociedade que confunde rapidez com lucidez acaba por entregar demasiado poder a pessoas que nunca aprenderam a esperar. E há coisas que só aparecem quando alguém espera: uma hesitação legítima, uma dúvida honesta, uma ferida que a resposta brilhante teria passado por cima. Não acontece apenas na política. Acontece nas universidades, nas empresas, nos meios culturais, nos jornais, nos grupos de amigos. Em qualquer lugar onde a inteligência seja visível e o carácter exija convivência. A inteligência apresenta-se bem. O carácter tem de ser observado quando ninguém está a fazer apresentação. Continuamos, por isso, fascinados por certas figuras públicas muito depois de deixarmos de confiar nelas. Sabemos que manipularam, que humilharam, que mentiram, que atravessaram outros sem grande perturbação. Ainda assim, há qualquer coisa no talento que nos prende. Dizemos que são difíceis, arrogantes, impossíveis, mas brilhantes. E o "brilhantes" entra no fim da frase como uma absolvição parcial. A bondade não recebe esse benefício. Tem má reputação estética. Parece simples demais. Parece frágil. Parece pouco competitiva. A prudência soa a hesitação. A delicadeza pode ser confundida com insegurança. A contenção parece falta de garra. Há virtudes que envelheceram mal no mercado da impressão imediata, não porque tenham perdido valor, mas porque não sabem exibir-se com eficácia. Penso muitas vezes naquele rapaz da primeira fila. Durante anos, todos souberam que era o mais inteligente. Os testes diziam-no. Os professores repetiam-no. As classificações deixavam pouca margem para dúvida. Mas lembro-me melhor de outro aluno. Não era brilhante. Tinha boas notas, mas não extraordinárias. Demorava mais tempo a perceber algumas matérias. Às vezes fazia perguntas que os outros achavam simples demais. Havia nele uma atenção sem aparato, uma espécie de cuidado que, na altura, ninguém teria sabido transformar em mérito. Foi a única pessoa que vi ficar depois das aulas para ajudar colegas que tinham dificuldades. Não recebeu um prémio por isso. Não apareceu no quadro de honra. Não representou a escola em concursos. Quando penso nessa turma, porém, é dele que me recordo primeiro. Talvez a memória seja menos obediente às classificações do que imaginamos. Guarda outras coisas. Uma mão que fica. Uma explicação repetida sem impaciência. Um colega que não se ri quando teria sido fácil rir. Pequenos gestos, quase nada, que no momento parecem secundários e depois ganham uma persistência estranha. Não sei o que aconteceu ao rapaz da primeira fila. Talvez se tenha tornado uma pessoa admirável. Talvez tenha aprendido aquilo que naquela idade ainda não sabia. Também isso acontece. A adolescência é injusta como retrato definitivo. Ficou-me esta confusão, ou talvez esta suspeita. Perguntamos depressa quem é o mais inteligente. Perguntamos menos quem torna a vida dos outros menos áspera. A primeira pergunta resolve-se com relativa facilidade. A segunda exige atenção, tempo, talvez alguma humildade. E essas três coisas raramente entram nos quadros de honra.

  • Como a Indústria do Kratom Capturou Washington

    A batalha política em torno do kratom não é uma discussão sobre saúde pública. É uma guerra de quota de mercado com financiamento político e cobertura ideológica. QUANDO O ESTADO AMERICANO REGULA PARA UM A política de saúde da administração Trump é definida pelo acesso. O acesso tem preço de tabela, auditável em registos de doações, em contratos de pressão política e em decisões regulatórias que chegam semanas depois dos cheques. O kratom não é uma anomalia nem um escândalo isolado: é a demonstração em tempo real de como um mercado captura um aparelho regulatório e o reconverte em instrumento de eliminação de concorrência. A questão de saber se o Como uma planta exótica do Sudeste Asiático conseguiu capturar reguladores, lobistas e decisores em Washington. é perigoso deixou de ser relevante para o processo político. O que é relevante é quem paga e quem conhece quem. Um setor com produtos legalmente ambíguos, cientificamente contestados e economicamente significativos confronta um ambiente regulatório hostil. A resposta racional não é investir em segurança ou em transparência — é investir em política. Não para obter proteção genérica, mas para obter algo mais específico: regulação dirigida contra os concorrentes. O kratom "natural" não precisava de provar que era seguro. Precisava apenas de fazer parecer que o 7-OH era mais perigoso. E para isso não precisava de ciência — precisava de secretários de Estado, de procuradores e de conselheiros próximos do presidente. Jerry Ross — outrora Jerry Cash, ex-executivo do setor energético de Oklahoma, ex-recluso federal por crime financeiro, fundador da Botanic Tonics — percebeu isto antes da maioria dos operadores do setor. A sua empresa estava sob ação judicial federal por venda ilegal de suplementos não aprovados quando decidiu intensificar as doações políticas. O caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça meses depois. A empresa celebrou. Ninguém no governo se demitiu. O movimento MAHA criou uma narrativa de rutura com a medicina institucional que é simultaneamente sincera em alguns dos seus defensores e extraordinariamente útil para quem vende produtos sem aprovação regulatória. No mercado concreto, "medicina alternativa" e "remédios naturais" funcionam como cobertura para produtos cuja segurança não foi demonstrada e cuja comercialização seria impossível sob qualquer regime regulatório normal. A Botanic Tonics não é uma empresa de bem-estar. É uma empresa que vende um produto com ação nos recetores opioides do cérebro, com casos documentados de dependência e de morte, e que encontrou no ecossistema MAHA a narrativa perfeita para se apresentar como alternativa saudável ao sistema que mata as pessoas com OxyContin. O kratom ganhou relevância nos Estados Unidos porque a epidemia de opioides criou uma procura de analgésicos fora do circuito médico. Pessoas com dor crónica, pessoas a tentar sair da dependência de opioides prescritos, pessoas sem acesso a cuidados de saúde — todas encontraram no kratom uma solução de mercado para um problema de sistema. Que esse mercado seja agora controlado por empresas que financiam campanhas políticas para evitar regulação é uma sequência lógica, não uma perversão. O contra-argumento mais sério é o seguinte: talvez o kratom natural seja genuinamente menos perigoso do que o 7-OH sintético, e talvez a distinção regulatória que a indústria pede seja cientificamente justificável. Mas a distinção química entre kratom natural e 7-OH sintético não implica que o kratom natural seja seguro — implica apenas que pode ser menos potente em certas formulações. Os dados sobre mortalidade associada ao kratom natural não são tranquilizadores. E mesmo que a distinção fosse cientificamente sólida, o processo pelo qual foi adotada — doações, acesso privado, abandono de processos judiciais, remoção de informação de sítios regulatórios — contamina a decisão de forma irreparável. Uma regulação correta produzida por um processo corrupto não restaura a confiança no sistema. Markwayne Mullin é o caso mais claro. Um senador que aparece numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições a produtos que concorrem com uma empresa em que tem investimento de até um milhão de dólares. O departamento que lidera não respondeu às perguntas sobre o investimento. A afirmação de que "segue todos os padrões éticos" fica registada ao lado dos factos. A expressão "ciência de referência absoluta" invocada pelo porta-voz da Casa Branca não é uma descrição do processo decisório: é uma fórmula de encerramento de perguntas. A administração que expressa ceticismo sobre vacinas e paracetamol não tem fundamento epistemológico para invocar ciência quando lhe convém. A frase mais honesta de todo este processo pertence ao diretor executivo de uma das empresas do setor: "Não é pagar para jogar. É pagar para ter conversas." Que o interlocutor o diga com esta candura é um indicador do estado do sistema: já não existe o esforço de fingir que o processo é outro. A questão mais incómoda não é a da corrupção individual. É esta: o que acontece a um aparelho regulatório sistematicamente usado para fins de guerra de mercado? A FDA não é apenas uma agência com uma página de internet editável mediante pressão política. É a instituição que determina o que entra no mercado americano de saúde e em que condições. Quando opera como árbitro de conflitos entre financiadores políticos em vez de árbitro entre evidência e risco, o dano atinge qualquer produto cujo perfil de segurança dependa de avaliação independente. O kratom pode vir a ser regulado, banido ou aprovado com condições. Nenhuma dessas decisões, tomada por este processo, com estes atores, nestas condições de financiamento, terá autoridade suficiente para ser cumprida por quem discorde dela. O que está em causa não é o destino regulatório de um suplemento vendido em postos de gasolina — é a capacidade do Estado de produzir decisões que o mercado, os tribunais e o público tratem como legítimas. Essa capacidade gasta-se. E não se reconstitui por decreto. GLOSSÁRIO Kratom — Suplemento derivado das folhas de uma árvore originária do Sudeste Asiático. Contém um composto chamado mitragenina que age nos recetores opioides do cérebro, produzindo efeitos de alívio da dor, sedação ou energia consoante a preparação. Vendido livremente em lojas e postos de gasolina nos Estados Unidos, sem aprovação regulatória federal. 7-OH (7-hidroximitragenina) — Composto sintético relacionado com o kratom, mas significativamente mais potente. Emergiu no mercado americano em 2023 como produto concorrente do kratom natural. É o principal alvo da campanha da indústria do kratom junto da administração Trump, que procura a sua proibição para eliminar a concorrência. Botanic Tonics — Empresa americana fundada por Jerry Ross, produtora do suplemento Feel Free, uma bebida contendo kratom e kava vendida em mais de 24.000 pontos de venda. Esteve sob ação judicial federal por comercialização ilegal de suplementos não aprovados; o caso foi abandonado pelo Departamento de Justiça em dezembro de 2024. Jerry Ross — Fundador da Botanic Tonics. Anteriormente conhecido como Jerry Cash, foi um executivo do setor energético de Oklahoma condenado por crime financeiro federal em 2010, tendo cumprido pena de prisão. Após a saída da prisão, mudou de nome e criou a Botanic Tonics. É o principal financiador da campanha de influência junto da administração Trump em favor do kratom natural. MAHA (Make America Healthy Again) — Movimento político-sanitário associado a Robert F. Kennedy Jr., secretário de Saúde da administração Trump. Defende uma rutura com a medicina convencional e a indústria farmacêutica, promovendo alternativas naturais. O movimento criou um ambiente favorável à comercialização de suplementos sem aprovação regulatória. Robert F. Kennedy Jr. — Secretário de Saúde da administração Trump e figura central do movimento MAHA. Recebeu doações significativas da Botanic Tonics e do seu fundador, e interveio junto do governador do Ohio para travar uma proibição estadual do kratom. Markwayne Mullin — Secretário de Segurança Interna da administração Trump, anteriormente senador republicano pelo Oklahoma. Participou publicamente numa conferência de imprensa da FDA a apoiar restrições aos produtos concorrentes do kratom, tendo simultaneamente um investimento pessoal de até um milhão de dólares na Botanic Tonics. FDA (Food and Drug Administration) — Agência federal americana responsável pela regulação de alimentos, medicamentos e suplementos. É a instituição que determina quais os produtos que podem ser comercializados no mercado de saúde dos Estados Unidos e em que condições. OxyContin — Medicamento opioide de prescrição produzido pela Purdue Pharma, central na epidemia de dependência de opioides nos Estados Unidos a partir dos anos 1990. A sua comercialização agressiva e subsequente restrição de acesso criaram uma procura de alternativas fora do circuito médico, da qual o mercado do kratom beneficiou. Departamento de Justiça — Ministério público federal americano. Foi o Departamento de Justiça que instaurou a ação judicial contra a Botanic Tonics e que, sob a administração Trump, decidiu abandonar o caso em dezembro de 2024.

  • Portugal no raio-X: patriotismo, memória e a bandeira no tabuleiro

    No Aeroporto Humberto Delgado, pouco depois das seis da manhã, um homem tirou da lapela um pequeno alfinete com a bandeira portuguesa e pousou-o num tabuleiro de plástico, ao lado do cinto, das chaves, de um terço gasto e de um telemóvel antigo, daqueles que parecem resistir mais por lealdade do que por tecnologia. A fila avançava aos solavancos. Um rapaz de mochila vermelha tentava enfiar, à pressa, um computador dentro da mala. Uma mulher segurava o passaporte de uma criança com cuidado excessivo, como se segurasse um pássaro. Do outro lado da barreira, alguém calçava os sapatos com a dignidade difícil de quem acabou de atravessar uma pequena humilhação moderna. Uma pequena bandeira portuguesa repousa num tabuleiro de segurança, reduzida à escala frágil de um objeto sob inspeção. A bandeira ficou virada ao contrário. O verde e o vermelho quase desapareceram sob a luz fria do controlo de segurança. Durante alguns segundos, Portugal coube ali: metal, esmalte, uma ponta de alfinete e a paciência burocrática de uma máquina. Numa cerimónia oficial, uma bandeira impõe respeito e esconde demasiado. Num tabuleiro de aeroporto, já não preside a nada. Passa pelo raio-X como passam cintos, relógios, brinquedos, medicamentos, promessas dobradas no bolso. Fora da lapela, perde vento. Fica mais pequena. Também mais verdadeira. O aeroporto tem o nome de Humberto Delgado. Durante anos, os aeroportos foram batizados com nomes de santos, reis, descobridores, cidades ou destinos. Este leva o nome de um homem que atravessou o século português como uma contradição viva: general do regime, candidato contra o regime, voz de rutura, figura perseguida, assassinado pela polícia política em 1965. O seu nome está agora suspenso sobre partidas e chegadas, malas de cabine, filas de baixo custo, trabalhadores cansados, turistas distraídos, emigrantes que regressam por poucos dias, jovens que saem sem saber se voltam. Portugal passa diariamente por baixo desse nome e talvez já nem o veja. A memória, quando se transforma em sinalética, perde sangue. Um homem que desafiou a ditadura torna-se placa sobre cafés, lojas, casas de banho, portas de embarque. A vida continua, como tem de continuar. Ninguém pode carregar a História inteira enquanto procura o cartão de embarque. Mas há lugares onde o passado insiste. O aeroporto de Lisboa é um deles. Ali, Portugal aparece menos composto do que nas cerimónias. Veem-se famílias vindas de Newark, Luxemburgo, Paris, Luanda, Genebra, Londres, Maputo, Toronto. Reformados regressam com malas cheias de presentes pequenos. Estudantes partem com uma mistura de entusiasmo e derrota. Trabalhadores da limpeza atravessam corredores antes de o país acordar para falar de produtividade. Turistas chegam ao país que muitos portugueses já não conseguem pagar. Crianças dormem sentadas. Velhos procuram máquinas que parecem feitas para os excluir. Mulheres empurram carrinhos e mundos. Um país não é uma ideia antes de ser corpo, espera, mala, salário, língua, cansaço. A pátria começa muitas vezes antes da política: na maneira como alguém embrulha queijo para levar para França, numa fotografia de aldeia guardada no telemóvel, no sotaque que resiste ao aeroporto, no abraço que dura mais do que a zona de chegadas permite. Depois vêm os discursos dizer que Portugal é isto ou aquilo. Portugal já estava ali, no gesto de quem confirma três vezes se trouxe o passaporte. Amar um país é mais difícil do que gostar da sua imagem. Portugal oferece imagens amáveis: o mar, a luz, os azulejos, os poetas, a língua espalhada pelo mundo, a beleza antiga de certas ruas onde até a decadência parece ter aprendido maneiras. Há também a pobreza persistente, a emigração como solução nacional, a violência doméstica atrás de janelas fechadas, a infância desprotegida, a velhice sozinha, a justiça lenta, a escola desigual, a habitação convertida em expulsão elegante, a exploração dos que chegam de fora para fazer o trabalho que os discursos não fotografam. O patriotismo mais pobre escolhe apenas a primeira parte. Gosta de varandas, bandeiras, feitos marítimos, mapas antigos, glórias escolares e frases sobre os portugueses serem um povo único. Fala de identidade como quem fecha uma porta. Fala de tradição como quem guarda uma arma. Fala de Portugal como se Portugal fosse uma herança limpa, ameaçada apenas por quem chega, por quem pergunta, por quem recorda. Durante muito tempo, ensinaram-nos um país sem fissuras. Um Portugal pequeno e imenso, pobre e providencial, humilde e escolhido, rural e imperial, obediente e eterno. A escola do Estado Novo soube fazer da pátria uma sala arrumada: Deus, Pátria e Família; mapas cor-de-rosa; camponeses felizes; soldados nobres; mães silenciosas; crianças lavadas; colónias chamadas províncias; pobreza chamada modéstia; censura chamada prudência; medo chamado ordem. A ditadura percebeu cedo que a infância era um lugar estratégico. Não era preciso que todos acreditassem. Bastava que repetissem. A repetição entra cedo, instala-se, fica. Mesmo depois do 25 de Abril, muita coisa continuou alojada nos cantos da linguagem. Ainda hoje, quando alguém diz que “no tempo de Salazar havia respeito”, raramente está a falar de respeito. Está a falar de medo com saudade. Recorda um país onde certas dores não apareciam na televisão porque a televisão, os jornais e a conversa pública estavam vigiados. A ordem parece sempre maior quando se apagam as vítimas. Que país se ama quando se diz amar Portugal? O dos navegadores ou o dos homens forçados a embarcar? O das descobertas ou o dos povos encontrados sem terem pedido descoberta nenhuma? O das aldeias brancas ou o dos casebres sem saneamento? O de Camões ou o dos analfabetos que não podiam lê-lo? O do fado ou o das mulheres que choravam sem palco? O de Abril ou o país que ainda hoje se cansa de Abril? A irritação surge depressa. Chamam a isto culpa, revisionismo, vergonha de ser português. Mas vergonha é precisar de mentira para ter orgulho. Um país que só pode ser amado depois de amputado da sua memória não está a ser amado; está a ser protegido como se protege uma fraude. Portugal tem uma relação sensível com a palavra império. Ainda a pronuncia, muitas vezes, entre a nostalgia e o embaraço. O império aparece como epopeia, viagem, encontro, missão, língua, mestiçagem, ponte. Também foi violência, exploração, hierarquia racial, trabalho forçado, guerra, catequese, apropriação, humilhação. O problema português não está em recordar os navios. Está em fingir que transportavam apenas coragem. Durante décadas, a memória colonial portuguesa foi envolvida num nevoeiro sentimental. Falou-se de brandura, de exceção, de convivência natural, como se Portugal tivesse inventado um império sem brutalidade por delicadeza especial do carácter nacional. Essa narrativa permite amar a expansão sem escutar os seus vencidos. Permite celebrar a língua sem perguntar quem foi obrigado a aprendê-la. Permite elogiar a miscigenação sem ver as desigualdades que a atravessaram. Permite dizer “fomos diferentes” como quem pede absolvição antes de julgamento. A História não serve para condenar filhos pelos pecados dos avós. Serve para impedir que os netos transformem ignorância em política. Saber o que fomos não obriga a odiar Portugal. Obriga a deixar de tratar Portugal como criança. A guerra colonial é uma das feridas onde essa recusa mais se sente. Durante treze anos, milhares de jovens portugueses foram enviados para África para defender uma ideia impossível: a de que Angola, Moçambique e Guiné eram Portugal da mesma maneira que Trás-os-Montes ou o Alentejo eram Portugal. Muitos partiram sem compreender inteiramente a guerra. Muitos voltaram sem conseguir contá-la. Outros não voltaram. Houve mutilados, traumas, silêncios familiares, fotografias guardadas, pesadelos sem nome. Do outro lado, povos que lutaram pela independência pagaram com sangue o direito de não serem apêndice de Lisboa. Durante anos, a conversa portuguesa sobre a guerra esqueceu-os ou reduziu-os a cenário, como se a guerra colonial tivesse sido apenas uma tragédia dos rapazes portugueses. Foi também isso. Não foi só isso. Nenhuma memória nacional é justa quando só os seus mortos têm rosto. O 25 de Abril interrompeu essa mentira. Não a resolveu toda. Nenhuma revolução resolve toda a memória de um país. Mas abriu janelas. Os cravos, os tanques, a rádio, a madrugada, a canção, os capitães, a multidão nas ruas pertencem ao melhor de Portugal. Ainda hoje há uma beleza quase inacreditável nesse dia em que uma ditadura longa caiu com menos sangue do que o seu próprio peso parecia exigir. Também Abril foi domesticado. Transformou-se em feriado, cerimónia, fotografia, discurso, cravo anual. As sociedades embalsamam depressa aquilo que as inquietou. O 25 de Abril é celebrado por muitos que talvez não suportassem hoje a sua energia real: a indisciplina, a impaciência perante privilégios, a suspeita do poder fechado. Há quem goste de Abril como data, mas não como método. Portugal beneficia de Abril e queixa-se dele. Usa a liberdade para desvalorizar a liberdade. Invoca a democracia enquanto namora discursos que a corroem por dentro. Há no país uma tentação crescente de transformar ressentimento em doutrina: contra imigrantes, pobres, ciganos, mulheres que exigem direitos, professores, jornalistas, juízes, contra tudo o que não se deixa reduzir a uma frase de café. A extrema-direita percebeu que a pátria pode servir de máscara à crueldade. Basta dizer “Portugal primeiro” e muita gente deixa de perguntar que portugueses ficam fora desse Portugal. Antes de mudar nas leis, um país muda no vocabulário. Portugal conhece bem o preço do vocabulário vigiado. Conhece a censura, a PIDE, o medo de falar, o cuidado com as paredes, o jornal cortado, o livro proibido, a carta observada, a carreira destruída, o exílio, a prisão política. Conhece também a pobreza usada como disciplina. Durante demasiado tempo, os portugueses foram ensinados a pedir pouco, a agradecer pouco, a desconfiar da ambição, a baixar a voz, a confundir paciência com virtude nacional. Quando a democracia chegou, descobriu-se que a liberdade política não apaga automaticamente séculos de obediência social. O aeroporto é uma das grandes metáforas portuguesas. Portugal é um país que partiu muito. Partiu por fome, por medo, por guerra, por falta de futuro, por salários baixos, por amor, por estudo, por necessidade. A emigração está no centro da nossa intimidade nacional. É Natal com lugares vazios, avós que conhecem netos por videochamada, casas fechadas onze meses por ano, sotaques misturados, euros enviados, saudades administradas. Portugal habituou-se a admirar os seus emigrantes depois de os obrigar a sair. E agora, no mesmo país, há quem olhe com desprezo para os imigrantes que chegam. Como se a mala do português em França fosse dignidade e a mala do brasileiro, do cabo-verdiano, do indiano, do nepalês ou do angolano fosse ameaça. Como se a necessidade mudasse de valor conforme a nacionalidade de quem a carrega. Há poucas hipocrisias mais feias, num país de emigrantes, do que a arrogância perante a imigração. Amar Portugal, hoje, exige recusar essa amnésia moral. Somos filhos de partidas. Não temos o direito de transformar chegadas em crime simbólico. Quem conhece a estação, o cais, o aeroporto, a mala de cartão, o quarto partilhado, o trabalho duro, a língua difícil e a saudade não pode fingir que tudo isso se torna suspeito quando acontece a outros. O patriotismo decente não precisa de gritar. Pode estar num professor que chega cedo a uma escola difícil. Numa enfermeira que continua depois do turno. Num juiz que decide sem ceder à praça pública. Num bombeiro voluntário. Numa mãe que atravessa serviços para proteger um filho. Num trabalhador estrangeiro que limpa a cidade antes de a cidade acordar. Num velho que vota porque sabe quanto custou poder votar. Num jovem que parte e continua a chamar casa a um país que não lhe deu lugar. A bandeira portuguesa não pertence mais a quem a agita do que a quem a interroga. Não pertence mais aos que falam de “valores” do que aos que exigem habitação, justiça, escola, saúde, proteção para as crianças, dignidade para os idosos. Não pertence mais aos que invocam os mortos do passado do que aos vivos que tentam impedir novas formas de abandono. Uma bandeira séria não cobre apenas monumentos. Também cobre responsabilidades. No aeroporto, o homem voltou a prender o alfinete na lapela. Fez o gesto com cuidado, talvez por hábito, talvez por convicção, talvez porque alguém lho oferecera. Depois pegou na mala e seguiu para a porta de embarque. Não sei para onde ia. Paris, talvez. Ou Genebra. Ou Toronto. Ou apenas Faro, porque também há exílios dentro do próprio país. A bandeira regressou ao peito, mas por instantes tinha estado nua, sem cerimónia, submetida à mesma luz que examina tudo. Portugal talvez precise desse gesto: tirar a pátria da lapela, pousá-la no tabuleiro, deixar que a máquina atravesse o império, a ditadura, a guerra, Abril, a emigração, a pobreza, a vergonha, a beleza, a língua, o mar, os mortos e os vivos. E só depois, se ainda houver coragem, voltar a prendê-la ao peito — não como ornamento de inocência, mas como peso escolhido.

  • O que um aliado não diz

    Num edifício em Kiryat Gat, no sul de Israel, há dois andares que nunca se falam. No piso de baixo, militares e diplomatas americanos e israelenses trabalham lado a lado — coordenam cessar-fogos, gerem corredores humanitários, partilham mapas e horários e nomes de contacto. No piso de cima, cada delegação tem o seu próprio espaço fechado, onde os assuntos verdadeiramente sensíveis são tratados longe dos aliados que estão a dois lances de escada. O edifício foi construído assim de propósito. Toda a gente sabe que existe o outro andar. Ninguém fala nisso. A confiança entre aliados raramente se quebra em público: começa nas zonas de sombra onde a luz institucional deixa de chegar. Não o aperto de mão nas câmaras, nem o comunicado conjunto, nem a retórica de "parceiros indispensáveis" que os porta-vozes repetem até esvaziarem as palavras de qualquer sentido. Aquele edifício partido ao meio é o retrato mais honesto de uma aliança que existe. Quando os Estados se odeiam, ao menos são diretos. A notícia que percorreu Washington na primeira semana de junho de 2026 foi apresentada como um escândalo: a Agência de Informações de Defesa americana elevara o nível de ameaça de contraespionagem israelense ao patamar máximo, "crítico", acima do de qualquer outro aliado e acima do de alguns adversários declarados. Havia relatórios de que o Shin Bet tentara instalar um dispositivo de escuta num veículo do Serviço Secreto. De que oficiais israelenses foram apanhados a colocar equipamento de vigilância na própria sede da agência. De que Steve Witkoff, o negociador de Trump para o acordo com o Irão, estava a ser escutado pelos serviços do país com quem os Estados Unidos estão a combater lado a lado numa guerra. Toda a gente sabia que isto acontecia. O que não se esperava era que viesse a público com este grau de detalhe. A arquitetura do segredo partilhado Existe uma categoria de segredo que não é bem um segredo. Toda a gente o conhece, ninguém o enuncia, e a sua não-enunciação é parte da arquitetura do sistema. Os Estados Unidos espiam os seus aliados. Os aliados espiam os Estados Unidos. Isto é sabido, tolerado, e ocasionalmente confirmado quando algum documento vaza ou alguma operação corre mal — e depois volta a ser não-dito, porque a alternativa seria ter de fazer algo a respeito. Em 2013, os documentos de Snowden revelaram que a NSA interceptara as comunicações de Angela Merkel durante anos. Houve indignação pública, reuniões diplomáticas, declarações severas. A aliança retomou o seu curso porque a alternativa era impensável para qualquer dos lados. O que ficou não foi uma mudança de comportamento. Foi a confirmação tácita de que a ficção da confiança mútua é demasiado útil para ser abandonada por algo tão inconveniente como a verdade. Israel não descobriu nada que os outros não façam. Descobriu que estava a fazê-lo de forma demasiado visível, num momento demasiado delicado. O que Israel precisava de saber O que Israel queria saber era simples: até onde está Trump disposto a ir nas negociações com o Irão? Existe um ponto em que Washington aceita um acordo que deixe o regime teocrático intacto? Quando Witkoff diz uma coisa em público e outra em privado — qual é a real? Estas perguntas não têm resposta nas declarações oficiais. Têm resposta nas conversas que os negociadores têm nos seus telemóveis pessoais, nos aviões privados, nos quartos de hotel em capitais estrangeiras — os lugares onde os altos funcionários da administração Trump tendiam a tratar de assuntos de segurança nacional. A vulnerabilidade não era técnica. Era comportamental. Era a consequência de pessoas que se sentem suficientemente poderosas para dispensar os protocolos que existem para proteger pessoas exatamente como elas. A mesma arrogância que os tornava alvos fáceis levava-os a acreditar que a aliança com Israel dispensava vigilância. Dois objetivos, uma palavra Netanyahu e Trump partilhavam um objetivo declarado: degradar as capacidades militares do Irão. Mas a palavra "degradar" contém um universo de ambiguidade. Para Trump, significava criar condições para negociar — forçar Teerão à mesa, extrair concessões, assinar qualquer coisa que pudesse ser vendida como vitória. Para Netanyahu, significava a eliminação da capacidade iraniana de ameaçar Israel, o enfraquecimento ou derrube do regime, a destruição de um inimigo existencial que nenhum papel assinado em Washington tornaria inofensivo. O que Israel queria interceptar não era segredo de Estado no sentido clássico. Era a margem de negociação real — o espaço entre o que Trump dizia que aceitaria e o que realmente aceitaria se fosse pressionado. Qualquer negociador experiente chama a isto informação essencial. Só se chama espionagem quando é o aliado a fazê-lo. O que ficou de 2021 Em 2021, oficiais da informação militar israelense foram apanhados a instalar dispositivos de escuta na sede da própria agência americana. Não numa embaixada. Não num hotel. Na sede da agência. A cooperação militar entre os dois países atingiu níveis históricos nos anos seguintes. Houve, presumivelmente, uma conversa. Houve, provavelmente, alguma forma de protesto formal. E depois a aliança continuou, porque as alternativas eram piores para ambos os lados. Israel sabia que podia ir até ali. O andar privado As alianças duram não porque os aliados confiam uns nos outros, mas porque cada um calcula que a alternativa é pior. A confiança é a história que se conta sobre esse cálculo. Um aliado é alguém com quem os interesses se sobrepõem suficientemente para tornarem vantajosa a cooperação — não alguém cujas prioridades são as tuas. Quando esse cálculo muda, quando os objetivos divergem e as margens de negociação se estreitam, a espionagem é a forma de continuar a trabalhar com dados reais em vez de declarações públicas. A performance pública de indignação que todos os lados encenam quando uma operação vem à tona não tem memória: em dois anos a cooperação volta ao nível anterior, e o incidente foi absorvido pela burocracia da aliança como mais um dado a gerir. O edifício de Kiryat Gat não é uma metáfora. É literalmente o que foi construído: um lugar onde a aliança acontece e onde os segredos são guardados, no mesmo prédio, a dois lances de escada. Alguém tomou essa decisão arquitetónica, e ambos os lados aceitaram-na sem contestação, porque ambos sabem que precisam do andar privado tanto quanto precisam do andar partilhado. O que os dispositivos de escuta israelenses tentavam era aceder ao andar que não era o seu. A diferença para o edifício é de método. Uma aliança baseada em transparência total — em que cada lado partilha as suas posições reais, as suas linhas vermelhas reais, as suas margens de cedência reais — nunca existiu na história das relações entre os Estados. O andar privado não é uma falha do sistema. É o sistema. Aurelian Draven #espionagem #alianças #EstadosUnidos #Israel #Irão #políticaexterna #segurançanacional #serviçosdeinteligência #AurelianDraven #AtlanticLisbon

  • O Mundial e os países que já não cabem no futebol

    Mundial 2026 e identidade: Entre os lugares vazios no Canadá, a ansiedade dos Estados Unidos e a ausência italiana, o torneio expõe uma crise de pertença que o futebol não criou — apenas tornou visível. O lugar vazio antes do apito inicial No mapa digital do estádio, o lugar aparece como uma pequena mancha disponível. Não tem corpo, nem voz, nem a impaciência de alguém à espera que o jogo comece. É apenas um ponto entre muitos, preso a uma fila, a um setor, a uma promessa de boa visibilidade. O telemóvel mostra o preço. O polegar aproxima-se, hesita, afasta-se. A compra não acontece. O gesto dura pouco. Talvez dois segundos. Não chega a ser uma decisão solene, daquelas que uma pessoa recorda depois. É mais parecido com fechar uma porta devagar para não fazer barulho. A poucos dias do primeiro jogo em Toronto, essa pequena recusa diz mais sobre o Mundial de 2026 do que muitas fotografias oficiais. Não há bandeiras suficientes para esconder um estádio por vender. Não há cerimónia capaz de transformar automaticamente um evento em festa. Um país pode receber o maior torneio desportivo do mundo e, ainda assim, vê-lo passar diante de si como quem observa uma carruagem iluminada pela janela. O futebol não deixou de comover. Ainda há homens que se lembram do cheiro da relva sintética de um campo municipal, raparigas que sabem de cor o nome de laterais que os adultos ignoram, emigrantes que torcem por uma seleção e sentem, por noventa minutos, uma terra que talvez já não lhes pertença inteiramente. O jogo conserva esse poder antigo de chamar as pessoas por zonas que a política quase nunca alcança. Uma camisola, um hino, uma falta mal assinalada, a cara de um guarda-redes antes de uma grande penalidade. Tudo parece excessivo. Tudo é excessivo. Por isso funciona. Mas a entrada na festa tornou-se outra coisa. Uma porta aberta sobre o vazio. O Mundial de 2026 convida — mas nem todos conseguem entrar. O Canadá e o custo da festa nova O Mundial chega à América do Norte com patrocinadores, zonas premium, pacotes de hospitalidade, regras de utilização de marcas, zonas de adeptos, bilhetes dinâmicos, aeroportos preparados, hotéis atentos e presidentes de câmara prontos a falar de legado. O povo aparece em todo o lado: nas imagens de promoção, nos vídeos, nas frases sobre comunidade, diversidade e paixão global. Aparece como cor. Como ruído. Como prova visual de que o evento ainda tem carne. Depois chega a página de pagamento. No Canadá, o contraste ficou exposto antes de a bola rolar. Toronto e Vancouver, cidades habituadas a vender ao mundo uma imagem de pluralidade urbana, receberam o torneio com milhares de lugares ainda livres. A equipa nacional talvez seja a melhor da sua história. O país voltou a um Mundial em 2022, depois de décadas de ausência, e agora joga em casa. Haveria ali matéria para uma comoção nova, menos hereditária do que a mexicana, menos programática do que a americana. Uma relação ainda em formação. Uma espécie de descoberta. Só que a descoberta custa caro. Um bilhete de topo a milhares de dólares não é apenas um preço. É uma fronteira. Não tem arame, nem polícia, nem carimbo, mas separa com eficácia. De um lado, a experiência. Do outro, o entusiasmo remoto, doméstico, talvez resignado. A pessoa que não compra o bilhete não abandona necessariamente o futebol. Abandona a pretensão de estar presente no momento em que lhe dizem que o futebol pertence a todos. O Canadá podia ter oferecido ao Mundial uma coisa rara: uma festa menos saturada de mitologia. O México tem o futebol inscrito no quotidiano, nas praças, nos clubes, nas conversas de família. Os Estados Unidos vivem há décadas numa relação de expectativa com o jogo, sempre à espera de que ele atravesse finalmente a última porta da cultura nacional. O Canadá estava noutro ponto. Não era uma potência emocional do futebol, nem uma potência indiferente. Era um lugar onde o torneio podia ganhar uma forma própria, mais discreta, talvez mais urbana, talvez mais dispersa. Mas uma festa nova precisa de ser acessível antes de ser memorável. Não basta mudar o nome de um estádio. Não basta vestir um edifício como se fosse uma bola. Não basta que um primeiro-ministro beije o troféu diante das câmaras. A posse de um Mundial faz-se em gestos menos oficiais: uma camisola lavada na véspera, um café que tira duas mesas para caber mais gente, uma criança que pergunta a que horas joga o Canadá, um homem que não seguia futebol e, de repente, sabe o nome do ponta-de-lança. As grandes competições só se tornam populares quando deixam rastos em rotinas pequenas. A FIFA sabe organizar um torneio. Não sabe fabricar esse tipo de intimidade. Pode alugá-la, filmá-la, vendê-la em pacotes, mas não a produz. Talvez a bola resolva parte do problema. O futebol tem uma tendência irritante para desmentir previsões elegantes. Um golo cedo, uma expulsão absurda, um guarda-redes em estado de graça, uma criança apanhada pela câmara a chorar no colo do pai — e, subitamente, a análise parece ter envelhecido mal. Há sempre um momento em que o jogo escapa aos donos. Continua a haver relva, erro, medo, vaidade, talento, cansaço. Continua a haver um avançado que decide rematar quando devia passar. Essa margem de imprevisibilidade é o que resta de democrático no espetáculo. Ainda assim, o lugar vazio fica . Os Estados Unidos e a pergunta que não passa Nos Estados Unidos, o vazio tem outra forma. Não é uma cadeira por vender. É uma pergunta que dura há muito tempo: quando é que o futebol deixa de ser futuro? O país recebe a maior parte dos jogos. Tem estádios gigantescos, transmissões em horário nobre, marcas, celebridades, equipas de produção e uma capacidade incomparável de transformar competições em narrativas nacionais. Nenhum outro país sabe tão bem construir uma semana de expectativa em torno de um jogo. A América inventou uma arte própria de tornar o desporto inevitável, com música, estatística, publicidade, heroísmo, família, consumo e memória. O futebol, porém, continua a entrar nessa sala como alguém que foi convidado, mas ainda não sabe onde se sentar. A seleção americana carrega essa hesitação. Em 2022, no Qatar, havia juventude, promessa, uma energia de equipa em construção. Perder com os Países Baixos não destruiu a sensação de avanço. Parecia haver tempo. Quatro anos inteiros até ao Mundial em casa. Quatro anos para amadurecer, corrigir, fixar uma identidade, convencer um país inteiro de que a bola redonda já não era uma experiência lateral. Os quatro anos passaram. Agora há talento, há ansiedade e há a obrigação de não desperdiçar o palco. Christian Pulisic, Weston McKennie, Tyler Adams, Gio Reyna, Folarin Balogun e outros nomes carregam mais do que uma campanha desportiva. Carregam uma pergunta cultural. Se a equipa americana fizer um bom Mundial, dir-se-á que o futebol deu mais um passo para dentro da vida nacional. Se falhar cedo, haverá quem veja nisso uma interrupção, talvez até um retrocesso. É injusto, como quase todos os julgamentos feitos em torneios curtos. Mas os Mundiais vivem dessas injustiças. Um país pode trabalhar durante vinte anos e ser julgado por uma bola no poste. O futebol americano, o basquetebol e o basebol não precisam de explicar por que pertencem à imaginação dos Estados Unidos. Estão lá. Habitam a infância, o cinema, os feriados, os anúncios, as conversas entre pais e filhos, os corpos dos bairros e das universidades. O futebol ainda precisa, muitas vezes, de apresentar o seu caso. A liga cresceu. As academias melhoraram. Há jogadores americanos em clubes europeus relevantes. As bancadas já não são uma curiosidade sociológica. Mas entre praticar um desporto e sonhar através dele há uma distância que não se mede em inscrições federativas. O sonho tem outro tipo de infraestrutura. Pochettino pode pedir crença. Os dirigentes podem falar de legado. As televisões podem vender o torneio como ponto de viragem. Os adeptos mais antigos podem sentir que chegou, finalmente, o momento que lhes foi prometido desde a infância. Mas o futebol só se torna cultura plena quando deixa de precisar de pedir autorização. Quando uma derrota passa a doer sem explicação. Quando um miúdo não escolhe o jogo porque o pai quer, nem porque a escola oferece, nem porque é uma atividade saudável, mas porque aquela bola, aquela finta, aquele nome, aquele som do estádio lhe parecem inevitáveis. O Mundial americano será medido em resultados, mas talvez o seu verdadeiro teste venha depois. No dia seguinte. Na semana seguinte. Quando já não houver zonas de adeptos, nem contagens decrescentes, nem anúncios com crianças de todas as origens a correr em câmara lenta. Ficará alguma coisa no corpo do país? Ou o futebol voltará a ser essa promessa muito bem organizada, sempre pronta a começar no futuro? A Itália e a porta que não abriu O Canadá olha para o preço da festa. Os Estados Unidos olham para o medo de não a possuir. A Itália, sem entrar, obriga a olhar para a porta. A ausência italiana tem uma violência particular. Não é a violência do inédito absoluto. As grandes seleções também falham. O futebol conserva, ao menos em teoria, a capacidade de humilhar brasões antigos. Mas a Itália fora de três Mundiais consecutivos já não parece apenas um acidente. É demasiado longa para ser tratada como azar, demasiado simbólica para ser reduzida a tática. Em 2006, a Itália ganhou o Mundial à França. Para muitos italianos, essa noite ainda pertence a uma memória física: praças cheias, buzinas, camisolas azuis, uma juventude que dormiu pouco e acordou campeã. Quatro títulos mundiais, uma tradição quase imperial, a sensação de que certos países podiam cair, sofrer, discutir, mas acabavam por regressar ao centro. A história parecia uma rede de segurança. A história não defende penáltis. O futebol italiano envelheceu com o país. Envelheceu nos números, na demografia, na dificuldade em renovar talentos, mas também numa forma de pensar. Durante anos, a explicação mais cómoda foi repetir que havia estrangeiros a mais na Serie A. A frase circula bem porque parece desportiva antes de parecer política. Fala de clubes, minutos de jogo, oportunidades para jovens nacionais. Mas a palavra "estrangeiro", no futebol europeu, carrega quase sempre mais peso do que aparenta. Quem conta como italiano? Quem é visto como promessa nacional? Quem é apenas tolerado como presença social antes de ser aceite como símbolo? Há crianças nascidas em Itália que cresceram em italiano, estudaram em escolas italianas, viram jogos italianos, discutiram árbitros italianos, mas que durante anos não foram plenamente italianas para o Estado. A bola pode não perguntar pelo passaporte; a seleção pergunta. A camisola nacional, antes de ser sonho, é documento. Não é preciso transformar a lei de cidadania numa explicação total para a decadência italiana. Isso seria uma facilidade. Houve erros de formação, de investimento, de modelo competitivo, de gestão federativa, de cultura tática. Houve academias que falharam, clubes que preferiram comprar feito, treinadores agarrados a prudências antigas, jovens sem espaço, bairros sem campos, escolas sem continuidade. Nenhuma seleção desaparece por uma única causa. Mas um país que reconhece tarde parte da sua juventude começa a perder antes do apito inicial. O espelho da França e o retrato antigo A França, com todas as suas contradições, mostrou há muito que uma seleção pode tornar visível um país que o discurso político hesita em aceitar. A equipa francesa não resolveu o racismo francês, nem absolveu o colonialismo, nem pacificou as periferias. Em certos momentos, até tornou tudo mais tenso. Mas pôs em campo uma evidência: a França real era mais vasta do que a França imaginada pelos guardiões da pureza nacional. Espanha mudou. A Alemanha mudou. A Inglaterra mudou. Nenhuma dessas seleções se tornou moralmente superior por ter jogadores de origens diversas. Apenas deixou de poder fingir que a nação cabia no retrato antigo. A Itália, por demasiados anos, pareceu preferir o retrato. É aí que a ausência italiana fala para lá do futebol. A Europa envelhecida precisa de jovens, de trabalhadores, de filhos de migrantes, de escolas ainda cheias, de bairros que não se transformem em museus. Precisa dessa energia para pagar pensões, cuidar de idosos, manter cidades abertas, renovar ofícios, sustentar clubes, inventar futuros. Depois, quando essa energia pede símbolos, a hesitação começa. O trabalho, sim. Os impostos, sim. A presença, sim. O hino? A bandeira? A camisola? As nações querem vida nova sem mexer na fotografia da sala. O Mundial como espelho de países em crise O Mundial de 2026 encontra países em diferentes fases dessa dificuldade. O Canadá recebe jogos, mas descobre que uma celebração global pode ficar suspensa quando a população comum se sente convidada apenas em teoria. Os Estados Unidos recebem o centro do torneio, mas ainda se perguntam se o futebol se tornou verdadeiramente seu. A Itália fica fora e vê regressar, em forma de derrota, perguntas que adiou sobre cidadania, raça, juventude e pertença. O México, mesmo menos presente neste recorte, lembra outra coisa: há países onde o futebol não precisa de pedagogia. Existe antes da organização, antes do patrocínio, antes da candidatura conjunta. É uma língua. Não uma política pública. Isso não torna o México imune a problemas, nem transforma paixão em justiça. Mas muda a textura do torneio. Onde o jogo já pertence ao quotidiano, a FIFA chega tarde. Onde ainda procura raízes, chega com peso excessivo. As grandes competições sempre serviram para encenar países. Mussolini percebeu-o cedo, com a brutal clareza dos regimes que usam a unidade como espetáculo. As democracias também se serviram do futebol, embora com outra linguagem. A França de 1998, a Espanha de 2010, a Alemanha de 2014: cada equipa campeã foi lida como uma forma de país, às vezes com excesso de esperança, às vezes com ingenuidade, quase sempre com vontade de encontrar numa equipa aquilo que a política não conseguia organizar. Hoje, essa operação é mais difícil. Os países estão mais caros, mais partidos, mais desconfiados. As pessoas reconhecem a diferença entre comunidade e campanha. Sabem quando são chamadas para dar atmosfera a um evento que não lhes pertence. Sabem quando a palavra "inclusão" aparece ao lado de preços que excluem. Sabem quando lhes pedem emoção depois de lhes terem vendido a distância. O futebol que escapa aos donos O lugar vazio em Toronto não prova que o Mundial canadiano falhou. Um torneio muda depressa. Um jogo transforma uma cidade. Uma vitória inventa memórias à força. Mas aquele lugar, antes do começo, tem a sinceridade involuntária dos objetos sem retórica. Está ali. Disponível. Caro. Luminoso. À espera de alguém. À mesma hora, haverá gente a ver em casa. Em bares, em cozinhas, em ecrãs pequenos, em transmissões ligeiramente atrasadas, em cafés onde alguém grita golo antes de a imagem chegar à mesa do fundo. Haverá imigrantes a torcer por dois países e a sentir culpa por ambos. Haverá crianças a escolher jogadores por causa do cabelo, do número ou da maneira de correr. Haverá adultos que não comprariam um bilhete, mas que se deixam apanhar pela curva de um remate. O futebol sobrevive muitas vezes longe do sítio onde é monetizado. Talvez tenha sido sempre assim. A FIFA administra, vende, disciplina, protege marcas, pune usos indevidos, organiza calendários, escolhe sedes, distribui jogos. Mas não cria a apropriação íntima. Uma mulher que nunca ligou a futebol e começa a seguir a seleção porque a filha sabe os nomes todos não entra em nenhum relatório de legado. Um homem que muda de cidade e continua a consultar o resultado do clube de infância não interessa a patrocinadores. Uma criança que fica presa a uma equipa por uma razão absurda não sabe que acabou de entrar numa economia global. É nessa zona que o futebol ainda escapa. Duas competições em campo O Mundial de 2026 será, oficialmente, uma competição entre seleções. Terá grupos, eliminatórias, favoritos, surpresas, lesões, polémicas de arbitragem e imagens repetidas durante anos. Alguém levantará a taça. Haverá confetes. Um capitão chorará. Um país dirá que nunca esquecerá. Outro dirá que foi roubado. Tudo isso pertence ao teatro normal do jogo. Mas há outra competição, menos visível, a decorrer por baixo. Entre preço e pertença. Entre documento e identidade. Entre espetáculo e povo. Entre países reais e os países que ainda gostam de imaginar que são. O futebol tem uma crueldade útil: põe abstrações a correr. Cidadania aparece num avançado que não pôde vestir uma camisola a tempo. Classe social aparece num adepto que fecha a página de compra. Soberania aparece numa candidatura conjunta atravessada por tensões comerciais e políticas. Cultura aparece num país que quer desesperadamente sentir um jogo que milhões já praticam. Nada disto se resolve em campo, mas tudo passa por ali, nem que seja por um instante. No fim, talvez a imagem mais duradoura não venha de uma baliza. Talvez venha desse assento no mapa digital, ainda por ocupar. Um lugar sem rosto, à espera de alguém que talvez ame o futebol, talvez ame o país, talvez queira apenas dizer que esteve lá quando começou. O dedo aproxima-se outra vez. O preço não muda. A festa chama. Do outro lado do ecrã, alguém faz contas. #mundial2026 #futebol #identidade #canadá #estadosunidos #italia #FIFA #pertença #desporto #política

  • O Homem que Escreveu ao Destinatário Errado

    Por Alberto Carvalho Há uma fotografia que não existe. Nela, um homem sentado numa sala lê uma carta que outro homem escreveu para ele. O homem que lê é Vladimir Putin. A sala pode ser em Moscovo, em Valdai, em São Petersburgo — qualquer das residências onde passa os dias que a guerra lhe deixa. Na fotografia que não existe, Putin lê. E no rosto de Putin não se lê nada de útil, porque o rosto de Putin nunca deixou ler nada de útil há vinte e seis anos. A carta de Volodymyr Zelensky, publicada a 4 de junho de 2026, foi endereçada ao Presidente da Federação Russa. Mas não foi escrita para ele. Um homem lê, em silêncio, uma carta que talvez nunca tenha sido escrita para o convencer, mas para o deixar exposto perante a História. Isto é mais difícil de explicar do que parece, porque a distinção entre destinatário e leitor real é uma das mais antigas da escrita política — e uma das mais ignoradas. Quando Émile Zola escreveu J'accuse em 1898, endereçou a carta ao Presidente da República Francesa, Félix Faure. Faure não foi o destinatário que importou. Importaram os leitores de L'Aurore, que compraram trezentos mil exemplares naquele dia de janeiro, e importou o tribunal da opinião pública que Zola estava a convocar com cada parágrafo. Faure morreu de apoplexia catorze meses depois, num encontro com uma amante nos aposentos presidenciais. Dreyfus foi inocentado. A carta funcionou — não porque o destinatário a leu, mas porque toda a gente a leu à volta dele. Zelensky sabe isto. É ator de formação, comediante de profissão antes de se tornar estadista por circunstância. A consciência do público é nele constitutiva, não adquirida. Quando escreve "a escolha é tua agora", está a construir uma frase para ser citada, recortada, traduzida, inserida em manchetes e em análises. Está a escrever para o registo histórico, não para a caixa de entrada de um homem que o Kremlin confirmou não ter ainda mostrado a carta ao seu presidente. — A carta começa com os drones. Na véspera da publicação, a Ucrânia atacara São Petersburgo durante o Fórum Económico Internacional — o evento que Putin usa para projetar para o mundo uma Rússia em funcionamento, uma Rússia que faz negócios, uma Rússia que não está a perder. Os drones visitaram o fórum com uma pontualidade que não era acidental. E Zelensky abre a carta exatamente com isso: "a maioria dos ucranianos vê positivamente o facto de os nossos drones terem visitado a abertura do teu fórum em São Petersburgo." Há qualquer coisa de específico na humilhação que os drones representam. Não é a destruição — é a chegada. O facto de que uma máquina pequena, barata, construída em parte com componentes civis, atravessou mais de mil quilómetros de espaço aéreo russo e apareceu precisamente onde Putin estava rodeado de convidados internacionais. A mensagem não era "podemos destruir-te". Era "podemos aparecer onde quiseres". — Mas o centro da carta não são os drones. O centro é um número. Sessenta e três por cento. Zelensky diz que sessenta e três por cento das baixas russas na frente são mortos. Apenas trinta e sete por cento são feridos. Em qualquer exército moderno com capacidade de evacuação e apoio médico funcional, esta proporção é invertida: morrem menos do que ficam feridos. A razão é técnica — a medicina de campo desenvolveu-se ao longo de um século exatamente para aumentar a proporção de feridos em relação a mortos, porque o ferido tem ainda possibilidade de recuperar, de voltar ao serviço, de ser contabilizado como recurso humano preservado. Quando os mortos superam largamente os feridos, significa que os homens estão a morrer onde caem, que não há quem os recolha a tempo, que a estrutura de apoio a jusante do combate colapsou ou nunca existiu com a escala necessária. Trinta mil baixas num mês. Dezoito mil e novecentos mortos, se os números de Zelensky estiverem certos. Em maio. Só em maio. Escrevo estes números e percebo que não consigo processá-los. Não é uma limitação pessoal — é uma limitação humana. O cérebro não foi concebido para sentir trinta mil. Sente um. Sente cinco. Sente talvez um pelotão, se tiver imaginação suficiente e disposição para o esforço. Trinta mil é uma abstração do mesmo tipo que um ano-luz — compreendemos o conceito sem compreender a coisa. E é precisamente esta limitação da imaginação moral que Zelensky está a usar na carta: não como argumento para comover, mas como argumento para documentar. Ele não pede que Putin sinta os mortos. Pede que Putin some. — Há uma passagem que passou relativamente despercebida na cobertura jornalística. Zelensky escreve sobre a Coreia do Norte. Diz que Putin é "o primeiro governante russo a ter de recorrer a Pyongyang". E depois não elabora. Não explica o que isto significa em termos de alinhamentos geopolíticos, de cadeias de fornecimento, de sanções que falharam. Deixa a frase ali, nua. Porque a frase é suficiente. Há uma hierarquia implícita no mundo — mesmo no mundo de Putin, mesmo no mundo de quem rejeita a ordem ocidental — e nessa hierarquia a Coreia do Norte ocupa um lugar que nenhum governante russo imaginou alguma vez precisar de ocupar. É um país que faz fome e mísseis. É um país que o próprio mundo comunista tratou sempre com condescendência discreta. Recorrer a Pyongyang não é apenas um dado militar. É uma medida de quanto o espaço encolheu. Putin percebe isto. É um leitor da hierarquia como poucos. Passou a carreira a manipulá-la, a explorá-la, a perceber onde estavam as linhas que os outros não queriam cruzar. Construiu poder sobre a leitura fina do que é suportável e do que não é. É improvável que não tenha sentido o que estava em jogo nessa frase sobre Pyongyang — mesmo que o Kremlin tenha dito, com aquela altivez que já soa a rotina, que "a carta ainda não foi mostrada ao Presidente". — A proposta concreta de Zelensky — reunião em país neutro, cessar-fogo durante as negociações, troca de prisioneiros, devolução de crianças deportadas — é a parte da carta que menos me interessa. Não porque não importe. Importa imensamente, e há analistas muito mais equipados do que eu para dissecar o que cada elemento da proposta significa em termos de posições negociais. O que me interessa é outra coisa: o facto de que Zelensky inclui a proposta concreta precisamente para que a carta não possa ser descartada como gesto vazio. A proposta transforma o gesto em oferta verificável. Se Putin não responder, não está apenas a ignorar uma carta — está a recusar uma oferta específica com termos específicos. E isso é diferente. Isso pode ser usado. "A linha de frente de hoje é a linha a partir da qual a diplomacia deve começar." Esta frase é a mais carregada da carta, e a menos espetacular. Não tem drones nem números de mortos nem referências históricas. É quase burocrática na sua formulação. Mas o que ela diz — traduzida da linguagem em que foi escrita — é que a Ucrânia aceita negociar a partir do mapa atual. Que não vai exigir, como condição de entrada nas conversações, a retirada prévia das forças russas dos territórios ocupados. Que a diplomacia começa onde os exércitos estão, não onde deveriam estar. Esta concessão não está marcada como concessão. Está enterrada no meio de uma frase aparentemente técnica sobre diplomacia. Mas os aliados europeus e americanos que leram o texto perceberam. E os conselheiros de Putin que leram o texto também perceberam. — Há uma tradição de cartas impossíveis. Cartas escritas a destinatários que não podem responder, ou que não vão responder, ou que responderão de uma forma que tornará a carta mais famosa do que qualquer resposta poderia ser. Marco Aurélio escrevia aos mortos. Os salmos são cartas a Deus. Os poetas escrevem a mulheres que os recusaram, a pais que não os ouviram, ao tempo que passou. Zelensky sabe que Putin provavelmente não vai responder com um encontro em Genebra ou em Ancara. Sabe que o Kremlin vai continuar a dizer que está disponível para paz enquanto avança no Donetsk. Sabe que as próximas semanas vão ser marcadas por declarações contraditórias, por sinais ambíguos, por uma coreografia de abertura que não abre nada. Mas escreveu a carta de qualquer forma. Porque a carta não precisava de uma resposta para funcionar. Precisava de ser lida — e de ser lida pelo número máximo de pessoas possível, em todos os idiomas, em todos os contextos, com a consciência de que aquele homem em Kiev escreveu aquelas palavras naquele dia, e o outro homem não respondeu. — Há um detalhe na fotografia que não existe. Na mão direita de Putin, enquanto lê a carta, não há caneta. Não está a sublinhar. Não está a anotar. Está apenas a segurar as páginas — ou talvez nem isso, porque talvez o assessor que lhe resume a correspondência tenha ficado com as páginas e lhe tenha dito, com a economia de palavras que a relação de vinte anos permite, o essencial. Que Zelensky propôs uma reunião. Que disse que a guerra era escolha pessoal. Que mencionou Pyongyang. Que terminou com Glória à Ucrânia. E Putin terá ficado a olhar para algum ponto da sala — aquele ponto indefinido que os retratos de poder tentam sempre capturar e raramente conseguem — e terá pensado alguma coisa que ninguém vai saber. É o que a carta, com toda a sua habilidade e toda a sua precisão, não pode alcançar. Uma carta pode documentar, pode pressionar, pode construir o registo histórico de quem ofereceu paz e quem recusou. Não pode entrar no interior de um homem que passou vinte e seis anos a aprender a não deixar entrar nada. E pode muito bem não chegar a lado nenhum. Esta é a natureza do problema — não a limitação da carta. É a limitação de qualquer instrumento racional perante alguém que escolheu, há muito, operar fora da racionalidade que o instrumento pressupõe. A pergunta não é se Putin vai responder. A pergunta é quem vai pagar, enquanto não responde, o custo de cada dia que passa sem resposta. Alberto Carvalho escreve sobre poder, linguagem e o que fica entre as palavras. #guerra #Ucrania #Russia #politica #internacional #poder #politico

  • O Mundial e o medo antes da viagem

    O Mundial passa sempre por uma praça No outro dia, já distante, no café, um homem dizia que já não punha os pés no México. Disse-o como quem sabia, embora nunca tivesse lá posto os pés. Tinha a chávena da bica na mão, o casaco ainda vestido, e falava para dois conhecidos que o ouviam com aquela atenção distraída de quem espera a sua vez de exagerar. Quando o medo chega antes dos adeptos. — Aquilo agora é impossível. Nem para o Mundial. A empregada passou por ele com uma bandeja de torradas e respondeu, sem parar: — Ó senhor António, o senhor nem vai a Espanha sem reclamar das portagens. Riram-se todos. Ele também. Mas a frase ficou. Entre as cores portuguesas e a sombra de uma viagem adiada, a imagem sugere como o medo pode chegar antes dos adeptos e moldar a perceção de um país. Uma coisa passa-se longe e, passado pouco tempo, já está sentada connosco. Num café de bairro, num grupo de mensagens, numa fila de supermercado, à porta da escola. Ninguém sabe muito bem de onde veio, mas já a repete como se a tivesse visto com os próprios olhos. O México, naquela conversa, já não era bem um país. Era uma ideia curta, daquelas que cabem numa frase. “Não é seguro.” “Devia perder jogos.” “Ninguém devia ir.” E uma frase, quando é repetida muitas vezes, começa a arrumar o mundo à sua maneira. Foi isso que se viu à volta do Mundial de 2026. Depois de episódios de violência no México, começaram a circular duas ideias fortes: a de que a FIFA deveria retirar jogos ao país e a de que o México seria demasiado perigoso para receber visitantes internacionais. Uma parece coisa de calendário e organização. A outra mete-se logo noutro sítio: no medo de quem pensa viajar. E o medo, quando entra numa conversa, senta-se sem pedir licença. O futebol parece jogo, mas raramente vem sozinho. Traz bandeiras e gente. Traz hotéis cheios, táxis à espera, vendedores de rua, televisões ligadas, famílias a fazer contas. Um Mundial nunca é só uma lista de jogos. É uma cidade a compor-se para ser olhada. É um país a tentar caber numa imagem que os outros aceitem. Quando alguém começa a dizer que um país não é seguro, não está apenas a comentar a criminalidade. Está a mexer no modo como muita gente decide se vai, se compra, se reserva, se fica em casa. Está a entrar no bolso de gente que não aparece nos comunicados: a senhora que aluga quartos, o rapaz que vende camisolas, o motorista que espera fazer mais corridas, o restaurante pequeno que sonha com mesas cheias de estrangeiros de boné e telemóvel na mão. No café, ninguém fala assim. Ninguém diz “risco reputacional” enquanto passa manteiga no pão. Diz-se antes: — Pois, se eu fosse turista, também pensava duas vezes. E, para muita gente, basta. Esse “pensava duas vezes” pode já não nascer apenas da cabeça de quem está preocupado. Pode ter sido ajudado, empurrado, aumentado. O relatório que serviu de base a esta conversa fala de redes de contas automatizadas, de amplificação por atores alinhados com interesses russos, de narrativas que não foram necessariamente criadas por esses atores, mas que foram aproveitadas quando começaram a dar jeito. Muitas vezes nem é preciso inventar tudo. Apanha-se uma coisa real, aumenta-se-lhe o tamanho e põe-se a circular. A violência existiu. A preocupação com a segurança não é fantasia. Nenhuma pessoa séria deve tratar o medo dos outros como ignorância. Quem viaja tem direito a saber para onde vai, que riscos existem, que zonas evitar, que recomendações seguir. A coisa muda quando uma pergunta razoável passa a circular como se já fosse resposta. Quando um episódio concreto começa a servir de etiqueta para um país inteiro. A vida de prédio ajuda a perceber isto melhor do que certos gráficos. Basta alguém dizer que o vizinho do terceiro andar “é complicado” para a reputação dele começar a viver sozinha. Daí em diante, se chega tarde, confirma-se. Se fala alto, confirma-se. Se fica calado, também confirma. Depois disso, qualquer gesto serve para alimentar a fama. Com os países, a injustiça é maior e viaja mais depressa. O México já carrega, no imaginário internacional, uma quantidade enorme de imagens prontas: cartéis, violência, fronteira, polícia, turistas assustados, séries de televisão, notícias de sangue. Algumas nascem de problemas reais. Outras são simplificações preguiçosas. Outras são convenientes. Quando acontece um episódio grave, essas imagens voltam todas. Umas justas, outras gastas, outras demasiado fáceis. Há ainda a graça, que é mais escorregadia. Pelos vistos, parte da narrativa de insegurança espalhou-se também por piadas, memes, comentários irónicos, pequenas frases feitas para circular depressa. Isto complica tudo. Uma acusação séria pode ser respondida com dados, explicações, conferências de imprensa. Uma piada escapa-se melhor. Quem a contesta parece sem sentido de humor. Quem a deixa passar vê-a crescer. Quantas vezes, nas nossas próprias conversas, uma maldade não entra disfarçada de graça? Primeiro ri-se. Depois repete-se. Depois já ninguém se lembra de que era só uma piada. No autocarro, isto vê-se todos os dias. Alguém mostra um vídeo no telemóvel, outro faz um comentário, um terceiro acrescenta “eu bem dizia”, e a coisa avança. Ninguém está a conspirar. Ninguém se sente peça de uma engrenagem. Mas a engrenagem agradece. Os patrocinadores do Mundial não precisam de poesia para perceber isto. Se a ideia de que o México é inseguro se repete demasiadas vezes, alguns adeptos podem desistir da viagem. Ficam quartos por reservar, voos por marcar, mesas por encher. Há marcas que passam a medir as palavras, organizadores que olham para os relatórios com outra cara, autoridades que tentam responder sem parecer aflitas. Uma história não fecha necessariamente um estádio. Mas pode tirar pessoas da fila antes de elas chegarem à bilheteira. Há quem espere pela crise para depois responder. O mundo oficial costuma fazer isso. Primeiro espera. Depois mede. Depois aprova uma frase. Depois alguém revê a frase. Depois sai um comunicado que já vem com sapatos engraxados e atraso no relógio. Entretanto, a rua digital já fez quilómetros. Falar de inteligência narrativa é falar disto: não apenas contar quantas vezes uma palavra apareceu, mas perceber quem a puxou, quem a repetiu, quem fingiu ser multidão, quem entrou na conversa quando ela começou a crescer. Não é vigiar opiniões. É perceber movimentos. Como num mercado ao nascer do dia: quem chega cedo sabe logo se o peixe vem bom, se a chuva vai afastar clientes, se há alguma coisa estranha no modo como os vendedores falam uns com os outros. Não tem mistério nenhum. Mas exige estar atento antes de a conversa endurecer. Claro que há um risco. Transformar toda a crítica em suspeita seria um desastre. Há pessoas que têm medo do México porque leram notícias reais. Há adeptos prudentes. Há famílias que não querem arriscar. Há cidadãos mexicanos que conhecem melhor do que ninguém as falhas do seu próprio país e têm o direito de as denunciar. Nem tudo é bot, nem tudo é influência estrangeira, nem tudo é manipulação. Às vezes, a realidade já é suficientemente difícil sem precisarmos de inventar inimigos invisíveis. Também não vale a pena fingir que as conversas públicas continuam puras, feitas apenas de pessoas de carne e osso a discutir o que viram. A praça mudou. Continua a ter vozes humanas, zangas verdadeiras, medo real, ironia popular. Mas agora também tem máquinas com pressa, contas sem rosto, interesses que entram pela porta dos fundos e se misturam com a gente. O boato de sempre anda agora mais depressa. O Mundial de 2026 ainda virá. Os jogos, salvo mudança, serão disputados onde estiver previsto. Os adeptos comprarão bilhetes, os aeroportos encher-se-ão, as televisões farão a sua festa. Talvez, no fim, tudo corra bem. Talvez haja problemas. Talvez a verdade, como quase sempre, fique algures entre o alarmismo e a propaganda. Mas, antes de a bola rolar, já se percebe uma coisa. Um grande evento internacional não se prepara apenas com estádios, hotéis, polícias e patrocinadores. Prepara-se também nas histórias que as pessoas contam antes de chegar. Antes de alguém pôr os pés num país, já pode levar uma ideia feita dele. E, às vezes, essa ideia pesa mais do que aquilo que depois se encontra. No café, o senhor António acabou por admitir que nunca pensara ir ao Mundial. Nem ao México, nem ao Canadá, nem aos Estados Unidos. Disse que via melhor em casa, com a televisão grande do genro e o comando na mão. A empregada trouxe-lhe outra bica e respondeu: — Então o senhor já cancelou uma viagem que nunca marcou. Ele calou-se um segundo. Depois riu-se, como quem tinha sido apanhado. A empregada voltou para trás do balcão. As chávenas continuaram a bater nos pires. À porta, entrou uma senhora a perguntar se ainda havia torradas.

  • Quando o boato se torna poder

    O boato também se senta à mesa Há dias, no café da esquina, ouvi uma mulher dizer que já não acreditava em nada. Disse-o enquanto mexia o açúcar no galão, com aquela tristeza prática de quem ainda tem contas para pagar e roupa por estender. A empregada, que conhece metade do bairro pelo nome e a outra metade pela maneira como pede a bica, não respondeu logo. Limpou o balcão, endireitou duas chávenas, olhou para a televisão sem som presa no canto da parede e disse apenas: — Pois. Mas há coisas que chegam depressa demais para serem verdadeiras. A frase ficou ali, entre o balcão e a porta. Talvez aquela mulher soubesse, sem lhe chamar assim, aquilo que algumas empresas, alguns governos e alguns especialistas começam agora a chamar inteligência narrativa. Nome comprido, desses que aparecem em relatórios e reuniões onde ninguém diz simplesmente “boato”. Serve para perceber de onde vem uma história, quem a pôs a andar e quando deixa de ser conversa para começar a fazer estragos. Um pequeno rumor pode começar como ondulação discreta e transformar-se, depressa, numa força capaz de alterar decisões, medos e perceções públicas Dantes, o boato demorava. Ia da mercearia para a farmácia, apanhava boleia no prédio, perdia-se um bocado no cabeleireiro e voltava diferente. Era falso muitas vezes, injusto quase sempre, mas tinha pernas humanas. Hoje, pode sair de uma máquina, passar por dezenas de contas falsas e aparecer-nos com uma voz que jurávamos conhecer. Quando damos por ele, já se instalou na cabeça de quem tem medo, na decisão de quem hesita, na vida de quem não sabe como se defender. Isto não vive apenas nas campanhas políticas, nos jornais ou nos telemóveis dos adolescentes. A mentira organizada suja, mas não fica só a sujar. Empurra. Mete pressa onde era preciso cautela. Põe suspeita em coisas banais. Faz alguém levantar dinheiro, recusar um tratamento, deixar uma marca na prateleira, desconfiar de um dirigente, de um médico, de uma vizinha, de uma instituição inteira. Basta um banco ser dado como frágil numa mensagem de telemóvel para alguém começar a pensar se deve levantar dinheiro. Basta um vídeo bem falsificado, com a cara certa e a voz certa, para a indignação chegar antes da confirmação. E, pelo meio, há pessoas que hesitam, outras que recuam, outras que passam a repetir frases que nem sabem de onde vieram. No mercado, a senhora das maçãs não precisava de teoria nenhuma. Quando uma peça vem tocada, ela afasta-a logo. Sabe o que acontece ao resto. Com certas histórias passa-se qualquer coisa parecida. Chegam com uma mancha pequena, quase invisível, e daí a nada já ninguém quer comprar a caixa. Ainda olhamos muito para o barulho. Quantas pessoas falaram? Quantos comentários houve? A palavra subiu ou desceu? A emoção era favorável ou hostil? Ajuda, claro. É como ouvir a rua da janela. Mas a rua, vista da janela, engana. Às vezes parece cheia e são só quatro pessoas aos gritos. Outras vezes está calada e já toda a gente decidiu qualquer coisa por dentro. Por isso, não chega contar vozes. É preciso perceber se a conversa nasceu de uma preocupação legítima ou se foi empurrada. Se é gente verdadeira a protestar ou bonecos digitais a fingir multidão. Se a indignação apareceu porque havia razão para ela ou porque alguém escolheu a hora, deu corda ao mecanismo e ficou a ver. Esta fronteira é difícil. Quem chama ataque a qualquer protesto deixa de ouvir. Quem chama opinião pública a qualquer campanha organizada deixa-se levar. A inteligência narrativa devia servir para distinguir, não para calar. Não para transformar a crítica em ameaça. Não para pôr a vida democrática debaixo de uma campânula de vigilância. Serve, ou devia servir, para reconhecer quando uma história está a ser montada para ferir, enganar ou produzir dano. Na praça, dir-se-ia de forma mais simples: saber quem começou a conversa e porque é que ela chegou tão depressa a toda a gente. Isto não interessa apenas a gabinetes de crise. Interessa ao balcão do banco, quando alguém pergunta se o dinheiro está seguro. Interessa à sala de espera do hospital, quando um doente chega assustado por uma coisa que viu no telemóvel. Interessa à escola, quando os pais entram num grupo de mensagens e, em meia hora, já há uma certeza sem factos. Interessa também aos tribunais, porque há processos que hoje decorrem em dois lugares ao mesmo tempo: lá dentro, onde existem regras, e cá fora, onde uma multidão sem rosto vai formando sentença. E interessa-nos, claro. Porque vivemos dentro desta água. Aquilo em que muita gente passa a acreditar muda votos, compras, medos, relações. Muda até a maneira como olhamos para o vizinho. Quando a mentira fica muito tempo no ar, já ninguém sabe bem onde começou. Fica encostada às coisas, como cheiro a fritos numa cozinha pequena. A mulher do café tinha razão. Há coisas que chegam depressa demais para serem verdadeiras. Mas também há verdades que chegam tarde, já sem força para desmanchar o que ficou colado. Antes de partilhar, talvez bastasse uma demora pequena. Quem ganha com isto? Porque apareceu agora? E porque é que tanta gente, de repente, escreve a mesma frase? Não é uma ciência perfeita. Às vezes, a vida pública é só confusa, zangada, mal explicada. Mas há confusões que parecem espontâneas e não são. Há indignações que chegam já vestidas para a fotografia. Há medos que entram no telemóvel com a pressa de quem tem dono. Responder só depois do estrago é pouco. Nessa altura, a conversa já fez caminho. Alguém perdeu confiança, alguém ficou marcado, alguém mudou de decisão, alguém deixou de ouvir o que precisava de ouvir. E depois há a parte mais difícil: voltar atrás sem parecer desculpa, reparar sem parecer propaganda, explicar sem ser tarde demais. Mas convém não perder o lado humano desta questão. A inteligência narrativa não deve servir para desconfiar de toda a gente. Pelo contrário: deve ajudar a proteger a conversa verdadeira. A conversa imperfeita, zangada, legítima, popular, contraditória. Aquela que nasce no café, no autocarro, na fila do centro de saúde, no grupo de pais da escola, na reunião de condomínio onde alguém se levanta para dizer que a luz da entrada continua avariada. Também não se pode meter tudo no mesmo saco. Há críticas que incomodam porque são justas. Há protestos desarrumados que são apenas protestos. Há exageros populares que não têm por trás uma central de operações. O povo tem direito à queixa, à dúvida, ao protesto, até ao disparate de boca cheia. Uma sociedade saudável não é a que fala pouco. É a que ainda sabe distinguir uma voz de uma máquina, uma mágoa de uma operação, uma denúncia de uma armadilha. A palavra “desafio” talvez seja grande demais para a mesa pequena do café. Mas anda por ali qualquer coisa parecida. Não criar um mundo onde ninguém acredita em nada. Isso seria entregar a vitória à mentira. Criar, antes, uma prudência mais comum, mais caseira. Uma educação do ouvido. Desconfiar da frase que vem pronta demais, da indignação que parece já trazer instruções, do medo que nos pede logo para carregar em partilhar. No fim, volto ao café. A mulher pagou o galão, guardou o troco numa bolsinha preta e saiu para a rua com o casaco apertado. A televisão continuava sem som. Lá fora, passava um autocarro cheio de gente cansada, cada pessoa com o seu ecrã, a sua notícia, a sua pressa, o seu pequeno mundo iluminado na mão. A empregada recolheu a chávena e disse, já sem olhar para mim: — Antigamente, para espalhar uma mentira, ainda era preciso ter lata. Agora basta ter rede. Depois empilhou os pires e chamou “amor” a um cliente que entrava todos os dias à mesma hora.

  • Leão XIV e a humanidade que delegámos à IA

    À meia-noite e doze, numa cozinha de Lisboa, uma mulher tenta escrever uma mensagem de condolências. Não é uma cena solene. Há uma chávena de chá esquecida junto ao lava-loiça, uma faca pousada sobre um prato com migalhas e a luz azulada de um telemóvel a fazer do tampo da mesa uma pequena capela elétrica. Lá fora, num prédio em frente, uma janela continua acesa. Alguém vê televisão. Alguém trabalha. Alguém não consegue dormir. A inteligência artificial entre a ajuda, a dependência e a perda da palavra humana. A mulher escreve três palavras, apaga duas, volta ao princípio. Quer dizer alguma coisa a uma colega cujo pai morreu. Não quer ser fria, mas também não quer representar uma intimidade que não existe. A morte, quando entra na vida dos outros, pede-nos uma delicadeza difícil: estar perto sem ocupar o lugar da dor. A palavra como lugar de encontro: entre o segredo da escrita, a solidão do ecrã e a pergunta sobre o que ainda permanece humano quando a linguagem passa pela máquina. Acaba por escrever no telemóvel: “Mensagem breve para uma colega cujo pai morreu. Tom humano, simples, sem ser demasiado íntimo.” O cursor pisca durante um segundo. Depois aparece uma frase quase perfeita. Correta, respeitosa, limpa. A mulher lê, muda uma palavra, tira outra, acrescenta o nome da colega. A mensagem fica melhor. Ou apenas fica menos impessoal. Carrega em enviar. A máquina ajudou um gesto de cuidado. Não há aqui o fim da humanidade, nem uma cena de ficção científica com barulho metálico e portas que se fecham. Há apenas uma pessoa cansada, uma perda alheia e uma frase que não queria nascer. Talvez a inteligência artificial tenha começado a tornar-se decisiva não quando passou a escrever códigos complexos ou a produzir imagens impossíveis, mas quando entrou nesse intervalo mínimo entre a intenção e a palavra. A encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, habita esse intervalo. Não nos pede apenas que olhemos para a máquina como inovação, risco, promessa ou ameaça. Obriga-nos a perguntar que partes da nossa humanidade estamos a transferir, pouco a pouco, para sistemas que respondem sem experiência, organizam sem consciência e simulam sem corpo. Não entregamos tudo de uma vez. Quase nunca é assim que as grandes transformações entram numa casa. Começamos por delegar o que nos aborrece. Depois o que nos atrasa. Depois o que nos pesa. Mais tarde, discretamente, aquilo que exigia de nós uma presença mais inteira: uma resposta, uma decisão, uma dúvida, uma palavra de consolo, uma explicação dada a uma criança, uma primeira leitura do mundo. A inteligência artificial não apareceu como invasão. Apareceu como ajuda. E há ajudas preciosas. Um médico ganha tempo. Um investigador organiza informação. Um professor prepara melhor uma aula. Um cidadão compreende um documento que antes lhe parecia inacessível. Um trabalhador escreve com mais clareza. Uma pessoa sozinha encontra uma formulação quando a vergonha, o medo ou o cansaço lhe bloqueiam a mão. O risco começa quando a ajuda deixa de ser exceção e passa a ser atmosfera. Leão XIV não escreve contra a técnica. Isso seria demasiado pobre. A tradição católica, quando está à altura de si mesma, não confunde prudência com medo. A técnica faz parte da história humana, nasce da inteligência, da necessidade, da liberdade, da imaginação e também da ferida. Desde sempre construímos utensílios para ampliar o corpo, vencer a distância, aliviar o peso, curar a dor, aumentar a memória. Agora, o instrumento entra no lugar onde antes julgávamos estar a nossa singularidade: a linguagem, a decisão, o juízo, a representação, a escolha. A máquina já não se limita a levantar mais peso do que nós. Escreve por nós, resume por nós, classifica por nós, recomenda por nós, seleciona por nós, responde por nós. E, por vezes, fá-lo com tal fluência que nos obriga a uma pergunta embaraçosa: se a resposta é boa, ainda importa quem a viveu? Lisboa conhece bem estas substituições discretas. A cidade muda quase sempre assim: primeiro uma loja fecha “temporariamente”; depois vem uma obra; depois uma fachada limpa demais; depois uma tabuleta em inglês; depois o bairro continua a chamar-se bairro, mas já não se reconhece a si mesmo ao espelho. Ninguém decretou a perda. Ela foi sendo delegada em rendas, plataformas, licenças, promessas de modernização, mapas de investimento e fotografias bonitas. Com a inteligência artificial, o risco é mais íntimo. Não perdemos apenas lugares. Podemos começar a perder gestos. A carta difícil. A espera antes da resposta. A frase imperfeita mas nossa. O erro que ensina. O silêncio que obriga a pensar. A demora que transforma uma reação em juízo. A encíclica coloca a questão no interior da Doutrina Social da Igreja, com uma memória deliberada: Leão XIV escolhe o nome de Leão olhando para Leão XIII, o Papa de Rerum Novarum. Em 1891, a grande questão era a ferida social aberta pela industrialização: o trabalho, o salário, a propriedade, a exploração, a dignidade do operário diante da máquina e do capital. Hoje, a pergunta regressa com outro rosto. Que acontece à pessoa quando a máquina deixa de estar apenas na fábrica e passa a estar dentro da linguagem, do trabalho intelectual, da comunicação, da guerra, da escola, da administração pública, da intimidade? A velha fábrica tinha barulho, turnos, fumo, patrões visíveis e corpos exaustos. A nova fábrica é mais silenciosa. Pode estar num servidor distante, numa aplicação limpa, num painel de produtividade, num sistema de triagem, numa ferramenta de avaliação, numa caixa de texto. Não cheira a óleo nem a ferro. Cheira a atualização. Há uma violência peculiar naquilo que se apresenta como melhoria inevitável. Numa empresa, um trabalhador descobre que cada gesto passou a ser medido. O tempo de resposta, a produtividade, a linguagem usada com clientes, os intervalos, os atrasos, os desvios ao padrão. Ninguém lhe grita. Talvez ninguém precise. O painel sabe. O sistema compara. A recomendação chega com a frieza de uma frase administrativa. O que antes era relação laboral torna-se cálculo contínuo. Noutra ponta da cidade, uma professora lê trabalhos demasiado bem escritos por alunos que ainda tropeçam quando têm de explicar em voz alta o que supostamente defenderam no papel. Não se trata de nostalgia da dificuldade. A aprendizagem sempre usou ferramentas. Uma criança, contudo, pode perder o direito ao seu próprio erro antes de perceber que o erro era parte da formação da voz. A escola é mais do que um lugar onde se transmite matéria. É uma oficina moral da lentidão. Ensina a procurar, a falhar, a refazer, a ouvir uma objeção, a suportar a insuficiência da primeira tentativa. Se a inteligência artificial entra ali apenas como atalho, talvez produza textos mais limpos e pessoas menos formadas. Se entrar como instrumento crítico, pode ajudar. Tudo depende da pergunta anterior: estamos a formar sujeitos ou a otimizar resultados? Magnifica Humanitas insiste na dignidade humana porque sabe que a eficiência, sozinha, não tem travão. A eficiência pergunta pelo mais rápido, pelo mais barato, pelo mais previsível, pelo mais escalável. Não pergunta, por si mesma, pelo justo. Nem pelo digno. Nem pelo humano. Essa pergunta tem de vir de fora da máquina, ou não virá. Durante anos, parte da cultura tecnológica falou de si mesma com uma linguagem quase religiosa. Missões, comunidades, salvação do mundo, nova humanidade, futuro inevitável. Os velhos púlpitos foram substituídos por palcos de conferência; os sermões, por apresentações; as promessas de redenção, por gráficos de crescimento e demonstrações de produto. A roupa mudou. O impulso messiânico, nem tanto. A encíclica responde a essa religião sem liturgia com uma pergunta antiga: quem é o homem? Não o utilizador. Não o consumidor. Não o perfil. Não o conjunto de dados. O homem. A mulher. A criança. O velho. A pessoa com corpo, medo, memória, desejo, cansaço, culpa, esperança. Aquilo que nenhuma métrica consegue conter sem amputar. A inteligência artificial pode imitar linguagem, mas não sabe o que é hesitar diante de uma porta de hospital. Pode escrever sobre amor, mas não fica anos à espera de uma chamada. Pode reconhecer padrões de sofrimento, mas não acorda às quatro da manhã com uma preocupação sem nome. Pode produzir frases sobre justiça, mas não sente vergonha. Pode ajudar-nos a pensar; não pode responder moralmente por nós. O nosso tempo tem uma tentação conveniente: esconder decisões humanas atrás de sistemas técnicos. Quando um algoritmo exclui alguém, quando uma recomendação afasta um candidato, quando um modelo sinaliza risco, quando uma plataforma empurra informação falsa ou extremada, a responsabilidade dissolve-se em camadas. Foi o sistema. Foi a parametrização. Foi o modelo. Foi a base de dados. Foi a regra. Foi a escala. Em Portugal conhecemos bem esta lógica da desresponsabilização, mesmo antes da inteligência artificial. O balcão culpa o regulamento, o regulamento culpa a plataforma, a plataforma culpa a “situação informática”, e a pessoa fica do lado de cá, com a senha na mão, a perceber que ninguém é exatamente culpado, mas alguém pagará o preço. A IA pode tornar esta cena mais rápida, mais sofisticada e menos contestável. A encíclica lembra que a técnica não é neutra na prática porque tem o rosto de quem a concebe, financia, regula e utiliza. Cada sistema carrega uma visão do mundo. Decide o que conta, o que mede, o que ignora, o que considera exceção, o que trata como sobra. A neutralidade é muitas vezes a máscara elegante de escolhas feitas antes de o cidadão chegar. A verdade é outro campo onde o documento de Leão XIV toca numa ferida contemporânea. A democracia não vive apenas de votos. Vive de um chão comum onde as palavras ainda possam ser discutidas sem se dissolverem imediatamente em suspeita. Uma sociedade precisa de saber que uma imagem tem origem, que uma voz pertence a alguém, que uma prova não é apenas aparência, que a linguagem pública não se tornou um grande teatro de simulações competentes. A mentira, no passado, exigia algum esforço. Hoje pode ser produzida, multiplicada, adaptada e distribuída com uma facilidade que altera a própria ecologia da confiança. Não é preciso convencer todos. Basta cansar muitos. Basta tornar tudo duvidoso durante tempo suficiente para que a indiferença pareça inteligência. Lisboa, vista de certas varandas ao fim da tarde, parece ainda uma cidade feita para a verdade dos olhos: a luz nas fachadas, a sombra dos telhados, o Tejo a alargar a distância. Mas mesmo essa cidade visível já vive dentro de outras camadas: mapas que nos conduzem, plataformas que nos sugerem, sistemas que nos avaliam, motores que nos mostram uma parte do mundo e escondem outra. O que vemos deixou de ser apenas o que está diante de nós. É também aquilo que alguém decidiu tornar visível. Falar de inteligência artificial é falar de poder. Infraestruturas, dados, capital, centros de cálculo, dependência económica, influência política. A encíclica nota que, noutros tempos, os Estados orientavam grande parte da inovação. Hoje, muitos dos motores decisivos pertencem a entidades privadas transnacionais, com recursos que ultrapassam os de numerosos governos. Isto muda a relação entre democracia e técnica. Um parlamento pode legislar sobre uma matéria já transformada, na prática, por empresas que não prestam contas aos cidadãos. Um governo pode querer regular sistemas cuja arquitetura profunda não domina. Uma escola pode discutir políticas de uso quando os alunos já vivem, fora dela, dentro de um ambiente em que a resposta automática se tornou normal. A soberania chega muitas vezes depois do hábito. E os hábitos são difíceis de revogar. A palavra “desarmar”, usada na encíclica, tem valor político e moral. Não significa destruir a tecnologia nem recusar o futuro. Significa retirar à técnica a sua pretensão de inocência. Uma máquina desarmada é uma máquina trazida para a praça pública, sujeita a escrutínio, limitada pelo bem comum, impedida de ocupar o lugar da consciência. Desarmar é perguntar quem beneficia, quem perde, quem responde, quem fica invisível, quem não tem sequer linguagem para contestar a decisão que o atingiu. Há uma outra dimensão, menos institucional e talvez mais perturbadora: a liberdade. A inteligência artificial não precisa de nos prender para nos conduzir. Basta sugerir. Antecipar. Facilitar. Personalizar. Reduzir o atrito. Dar-nos a próxima frase, a próxima compra, o próximo vídeo, a próxima resposta, a próxima indignação. A mão desliza, a atenção cede, a vontade adapta-se. Continuamos a chamar escolha ao que talvez já tenha sido cuidadosamente preparado. A liberdade raramente desaparece com uma sirene. Desaparece por conforto. A crítica à inteligência artificial não é apenas crítica às empresas tecnológicas. É também crítica a nós próprios. Queremos ser ajudados. Queremos ser poupados. Queremos que a vida pese menos. Quem nos condenará por isso? Numa época de cansaço, precariedade, ansiedade e excesso de informação, a promessa de uma máquina que responde, organiza, escreve e decide parece quase compassiva. Mas há pesos que nos humanizam. A dificuldade de encontrar a palavra certa. A obrigação de ouvir antes de responder. A experiência de não saber. O trabalho de construir uma opinião própria. O desconforto de assumir uma decisão. A paciência de ensinar. A humildade de aprender. Se delegarmos tudo o que nos custa, talvez deleguemos também parte daquilo que nos forma. A encíclica fala de dependência, mercantilização, novas formas de escravidão. A linguagem é forte. Seria fácil rejeitá-la como exagero. Mas basta olhar para a vida comum: quantas pessoas passam o dia presas a sistemas concebidos para capturar atenção? Quantas decisões de consumo, trabalho, deslocação, relação e opinião são moldadas por arquiteturas invisíveis? Quantas crianças aprendem o desejo através de máquinas que conhecem melhor os seus impulsos do que elas próprias? A guerra aparece na encíclica como o lugar onde esta pergunta se torna mais escura. A distância técnica pode tornar a violência mais administrável para quem a exerce. Um ecrã separa o gesto da consequência. Uma arma mais autónoma promete precisão, mas não responde pela justiça da ordem que recebe. A morte não se torna menos morte por ser mediada por sistemas sofisticados. Apenas se torna mais fácil para alguns olhos não a verem. Leão XIV opõe a esta cultura de poder a expressão “civilização do amor”. Sei como a frase pode soar no nosso espaço público: demasiado ampla, demasiado piedosa, talvez até inútil. Estamos treinados para desconfiar de palavras que parecem vir sem orçamento, sem plano, sem calendário de execução. Mas, no corpo da encíclica, a expressão não funciona como enfeite devocional. Funciona como critério. Uma civilização mede-se pela forma como trata aqueles que a eficiência descartaria primeiro: os pobres, os doentes, os velhos, os migrantes, as crianças, os frágeis, os que não produzem, os que demoram. O amor, aqui, não é sentimentalismo. É limite imposto ao poder. Talvez seja esta a parte mais difícil de aceitar. O nosso tempo gosta de falar em inovação, mas fala pouco em renúncia. Queremos a técnica sem o domínio, a velocidade sem a precipitação, a personalização sem vigilância, a automação sem desemprego, a conveniência sem dependência, a abundância de linguagem sem perda de verdade. Queremos tudo, e preferíamos não pagar com aquilo que somos. Lisboa, outra vez, oferece uma pequena lição involuntária. A cidade que se vende como experiência autêntica torna-se menos autêntica à medida que aprende a vender-se melhor. Quanto mais perfeita a imagem, mais frágil a vida que a sustentava. A inteligência artificial pode produzir algo semelhante na linguagem humana: respostas cada vez mais polidas, cartas cada vez mais adequadas, imagens cada vez mais verosímeis, pensamentos cada vez mais apresentáveis. A vida, porém, nunca foi apenas apresentação. Há uma dignidade na frase torta. No silêncio. Na resposta que demora. Na imperfeição de quem escreve sem ter a certeza de estar à altura. A máquina pode ajudar-nos a atravessar essa dificuldade. Não deve abolir em nós a necessidade de atravessá-la. A mulher da cozinha, à meia-noite e doze, não traiu a humanidade por pedir ajuda a uma ferramenta. Seria ridículo dizê-lo. Talvez tenha feito apenas aquilo que todos fazemos: procurou uma mediação para não falhar. O gesto humano não desapareceu. Estava na intenção, na revisão, no envio, talvez na memória da relação com a colega. Mas a cena deixa uma pergunta que não cabe em manual de utilização. Se, um dia, já não escrevermos a primeira frase de consolo, nem a de desculpa, nem a de amor, nem a de protesto, nem a de despedida, em que ponto exatamente começará a perda? No primeiro pedido? No hábito? Na incapacidade posterior de escrever sem ajuda? Ou apenas no momento em que deixarmos de notar a diferença? Magnifica Humanitas obriga a inteligência artificial a sair da sala dos milagres e a entrar na sala da responsabilidade. Não lhe pergunta apenas o que consegue fazer. Pergunta a quem serve, quem a controla, que visão de pessoa transporta, que mundo torna provável. A sua força está menos em resolver do que em impedir que a pergunta desapareça debaixo do entusiasmo. No fim, talvez a questão não seja saber se a máquina se tornará humana. Essa pergunta alimenta demasiadas fantasias. A questão é mais discreta, e por isso mais séria: que tipo de humanidade sobreviverá ao hábito de delegar? A cozinha escurece. O telemóvel já não ilumina a mesa. A chávena continua fria. A mensagem chegou ao outro lado da cidade, talvez a uma mulher sentada na beira da cama, talvez a alguém que a leu sem força para responder. Uma frase atravessou uma máquina para chegar a uma dor humana. O cursor apagou-se. Mas a pergunta ficou a piscar.

bottom of page