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- Maria do Rio e as pequenas coisas que governam Portugal
Entro num café antigo, desses que já não tentam parecer novos. O balcão está gasto no sítio onde as mãos pousam, o vidro do expositor tem riscos que ninguém limpa, as chávenas alinham-se como se tivessem sobrevivido a muitas manhãs iguais. Peço um café e uma torrada. O empregado serve-me com a pressa de quem já repetiu aquele gesto mais vezes do que gostaria. Não me olha nos olhos. Talvez não seja má educação. Talvez seja apenas cansaço, essa forma portuguesa de continuar em pé sem fazer alarde. Uma crónica sobre cafés, autocarros e a vida real por trás dos discursos. O pão estala na chapa. O café chega com a espuma curta. Ninguém faz discurso sobre o país, e ainda bem. Há dias em que Portugal se percebe melhor no som de uma torrada do que numa tarde inteira de debate parlamentar. O quotidiano que governa Portugal Dizem-nos que somos governados por ministros, leis, orçamentos, programas, estratégias. Em parte, somos. Mas há outra governação, mais miúda e mais decisiva, que quase nunca aparece. A senhora da mercearia arredonda a conta para evitar as moedas de dois cêntimos. O motorista do autocarro espera mais dez segundos por alguém que vem a correr com a mochila aberta. O funcionário da escola inventa uma solução porque o computador bloqueou outra vez. Ninguém lhes chama poder. Às vezes é isso que são: pequenas decisões que impedem a vida de se partir onde já vinha rachada. O discurso público raramente sabe falar disto sem parecer condescendente. Prefere palavras largas: crescimento, competitividade, reformas estruturais, produtividade, modernização. Palavras úteis, talvez necessárias, mas que chegam à mesa sem cheiro a sopa, sem contas por pagar, sem uma criança a perguntar se amanhã há dinheiro para a visita de estudo. Enchem a boca de quem as pronuncia. Não enchem necessariamente a panela de quem as ouve. O país não é uma empresa, embora haja quem insista nessa fantasia. Também não somos acionistas de uma prosperidade prometida em apresentações limpas. Somos, muitas vezes, clientes de balcão, utentes de senha, passageiros de pé, pais a fazer contas, filhos a fingir que não reparam no aperto dos pais. Pagamos, esperamos, agradecemos, reclamamos pouco, rimo-nos quando já não convém chorar. Assusta-me ver a política afastar-se desse rés-do-chão, como quem sobe escadas e se esquece de voltar. Lá em baixo ficam os salários mínimos, as contas feitas ao cêntimo no supermercado, as discussões à porta da escola, a gente que não tem tempo para esperar. Lá em cima, longe do barulho da rua, desenham-se planos estratégicos. Entre um andar e outro, há mais do que distância. Há uma falha de escuta. Lembro-me de uma mulher no autocarro. Tinha as mãos cheias de sacos e fazia contas em voz alta, talvez sem dar por isso: “o peixe deu oito euros, o pão três, a fruta quatro e meio… já não dá para o fiambre.” Não havia ali metáfora nenhuma. Havia só uma pessoa a tentar fazer caber a semana dentro de sacos demasiado pequenos. Mesmo assim, naquela aritmética cansada, estava uma parte da economia nacional que raramente chega aos gráficos. Não precisava de comentário. Precisava de ouvido. Eu também não ouvi como devia. Saí antes da paragem dela e levei comigo aquele remorso discreto que às vezes nos acompanha depois de uma cena banal. Não fiz nada de errado, dir-se-á. Pois não. Mas há omissões pequenas que se parecem demasiado com o modo como um país inteiro aprende a desviar os olhos. Quando os políticos dizem que “o país está melhor” ou “o país está pior”, fico sempre à espera de saber para quem. Melhor para uns, pior para outros, igual para muitos: cansado, suspenso, à espera que o mês acabe sem acabar primeiro o dinheiro. A realidade raramente cabe numa frase de cartaz. Também não cabe no pessimismo automático dos que já desistiram de distinguir. Vive nesse intervalo difícil onde uma boa notícia estatística pode coincidir com uma má semana doméstica. As pequenas coisas não precisam de grande defesa. Aparecem como são. A criança pergunta se há lanche amanhã. Alguém aceita trabalhar mais duas horas sem contrato porque precisa de pagar o gás. Uma pessoa adia uma consulta porque a prioridade, naquele mês, foi outra. A praça, o mercado, a fila do centro de saúde, o autocarro das sete da manhã: há lugares onde o país deixa de posar para a fotografia. Talvez a nossa democracia se sinta frágil por isto. Há o país dos decretos e o país dos gestos. Um escreve no Diário da República. O outro escreve-se nas costas cansadas de quem segura tudo sem ter sido eleito para nada. Às vezes encontram-se. Muitas vezes, não. Alguns chamarão a isto pessimismo. Não me ofende. Há um pessimismo que nasce da atenção, não da desistência. O otimismo dos slogans é que me parece mais perigoso: promete futuro a quem está aflito no presente e depois estranha que a esperança se torne azeda. Prefiro olhar para quem não tem tempo para grandes discursos. Talvez seja aí, nessas pessoas que continuam sem palco, que ainda mora alguma forma de esperança. Portugal resiste porque improvisa. Não apenas graças ao Estado, nem apenas apesar dele. Resiste nessa zona confusa onde a instituição falha e alguém segura a ponta. A mercearia arredonda a conta. O vizinho empresta o martelo. O motorista espera. A funcionária resolve. A professora compra material do próprio bolso. A avó estica a reforma para que o neto não sinta tanto a falta. Sem estes gestos, muita coisa já teria caído. Quem não entende isto não entende grande coisa de nós. A política gosta de se apresentar como gestão do futuro. O povo, esse nome gasto mas ainda indispensável, sabe que a política é quase sempre gestão do presente. O futuro não paga a conta da luz. Não enche o frigorífico. Não acalma a criança que chora porque não tem o mesmo lanche do colega. O futuro é uma promessa; o presente tem corpo, fome, horário, renda, febre, transporte, fila. Dirão que é assim em todo o lado. Talvez. Mas em Portugal temos uma arte particular de disfarçar. Disfarçamos a falta com humor, a pobreza com dignidade, a solidão com ditados, o medo com uma piada à porta do café. Isso torna-nos resistentes. Também nos torna cansados. Uma pessoa não passa a vida inteira a fingir que não dói sem pagar alguma coisa por dentro. Quando finalmente se fala, muitas vezes já se falou tarde. Quando alguém protesta, o estrago já fez casa. Quando alguém desiste, nem sempre há mão que o traga de volta. O silêncio social raramente começa no grande silêncio. Começa na pequena frase que não se disse, na pergunta que não se fez, no vizinho que parecia bem, na mulher do autocarro que continuou as contas sozinha. Escrevo por causa dessas coisas. Não para lhes dar uma grandeza que não pediram, mas para não as deixar desaparecer tão depressa. A conversa de café, o gesto no autocarro, a conta arredondada, o pão na chapa, o empregado que não olha nos olhos porque talvez já tenha olhado demais nesse dia. A memória das pequenas coisas é menos vistosa do que as promessas grandes, mas dura mais. Fica colada aos dedos, à mesa, ao saco das compras, ao caminho de casa. Se alguém, daqui a muitos anos, quiser saber quem éramos, talvez não baste procurar nos decretos, nas estatísticas ou nas frases oficiais. Terá de procurar também no pão a estalar na chapa, na mulher que fazia contas em voz alta, no vizinho que emprestou o martelo, na mercearia que arredondou a conta, no autocarro que esperou mais dez segundos. Naquilo que quase ninguém fotografou, mas muita gente viveu. Há coisas pequenas que não governam por decreto. Governam porque, sem elas, a vida deixaria de aguentar.
- Leão XIV e a inteligência artificial: a dignidade humana perante a máquina
Primeiro apareceu como auxílio. Um texto revisto mais depressa, uma imagem produzida em segundos, uma resposta pronta, um programa capaz de ordenar aquilo que antes exigia tempo, atenção, talvez até paciência. Depois entrou no trabalho, na escola, na guerra, nos tribunais, nos hospitais, na política, na imaginação das crianças e dos adultos. Quando demos por isso, a inteligência artificial já não era apenas uma ferramenta nova. Era uma presença. Fala-se dela quase sempre na língua da eficácia. Capacidade, investimento, velocidade, concorrência, produtividade, mercado. A linguagem é limpa, moderna, aparentemente inevitável. Falta-lhe, muitas vezes, a pergunta mais antiga: que ideia de ser humano estamos a entregar à máquina? Entre a autoridade espiritual e a lógica fria da máquina, a imagem coloca a dignidade humana no centro da pergunta que Leão XIV dirige à inteligência artificial. A encíclica Magnifica Humanitas, de Leão XIV, entra por aí. Não pela fascinação técnica. Não pela recusa temerosa. Pela dignidade. O Papa pergunta menos o que a inteligência artificial consegue fazer do que aquilo que ela pode fazer ao homem quando o homem se esquece de que continua responsável pelo que cria. Uma civilização pode perder-se no intervalo entre o instrumento e o ídolo. O instrumento serve. O ídolo organiza a casa. Começa por prometer ajuda; acaba a ordenar a linguagem, o trabalho, a guerra, a escola, a memória, a atenção e até a maneira como uma época imagina a sua própria grandeza. Ao escolher o nome de Leão, o novo Papa aproximou-se inevitavelmente de Leão XIII, o autor de Rerum Novarum, que, em 1891, olhou para a industrialização e viu nela não apenas fábricas, máquinas e riqueza nova, mas uma ferida social aberta no corpo dos trabalhadores. Que valor tinha o operário quando a produção o transformava numa peça substituível? Que valor tinha a justiça quando a liberdade contratual servia para encobrir desigualdades profundas? Que valor tinha a propriedade quando deixava de reconhecer o rosto dos que viviam do seu trabalho? Hoje, a máquina já não multiplica apenas a força dos braços. Imita linguagem, calcula probabilidades, ordena informação, classifica pessoas, sugere decisões, automatiza tarefas, produz imagens, escreve respostas, antecipa comportamentos e, em muitos casos, passa a mediar a relação entre o cidadão e o poder. A fábrica deixou de estar apenas no edifício industrial. Está também no sistema invisível que decide, filtra, recomenda, vigia, pontua e substitui. Magnifica Humanitas não condena a inteligência artificial por existir. Interroga-a por aquilo que revela: a tentação antiga de confundir poder com sabedoria, cálculo com juízo, eficiência com bem, domínio com progresso. A distinção entre inteligência artificial e inteligência humana sustenta o documento. A primeira reconhece padrões, organiza dados, produz respostas, imita estilos, executa tarefas, acelera processos. Mas não possui corpo. Não sofre. Não amadurece pela relação. Não conhece por dentro a alegria, a dor, a amizade, o trabalho, a culpa ou a misericórdia. Não tem consciência moral. Não responde diante de ninguém. Não carrega uma consequência como se carrega uma ferida, uma promessa ou uma perda. A inteligência humana é memória, fragilidade, responsabilidade, relação, corpo e limite. Um ser humano pensa porque vive; e vive entre outros, ferindo e sendo ferido, respondendo pelo que faz, descobrindo lentamente que nem tudo o que é possível é justo, e nem tudo o que é eficaz merece ser feito. Quando uma sociedade passa a tratar sistemas automáticos como instâncias quase neutras de decisão, a responsabilidade humana começa a esconder-se atrás da opacidade técnica. Um algoritmo não nasce do nada. Tem proprietários, financiadores, programadores, dados de treino, critérios de otimização, usos concretos. Mesmo quando parece impessoal, transporta escolhas. Mesmo quando se apresenta como técnico, produz efeitos morais. No trabalho, a ferida aparece depressa. A inteligência artificial pode libertar pessoas de tarefas repetitivas, apoiar diagnósticos, acelerar investigação, melhorar processos e abrir possibilidades reais. Seria insensato negá-lo. Pode também intensificar a vigilância, precarizar funções, substituir trabalhadores sem cuidado social, reduzir a pessoa a indicador de produtividade e transformar o emprego num território administrado por métricas que ninguém consegue discutir. Que acontece à dignidade do trabalhador quando a organização do trabalho já não o vê como sujeito, mas como custo, dado ou obstáculo? Na guerra, a distância protege quem decide de longe. A automação aplicada à violência pode tornar a guerra mais rápida, mais precisa em certos aspetos, talvez mais sedutora para quem a comanda sem ver o rosto de ninguém. Mas a precisão técnica não absolve a responsabilidade moral. Nenhuma máquina deve servir para aliviar a consciência humana diante da morte. A decisão sobre a vida não pode ser reduzida a uma operação limpa, sem rosto, sem tremor e sem culpa. A verdade fica exposta ao mesmo desgaste. Uma sociedade precisa de alguma confiança comum para continuar a viver democraticamente. Precisa de saber que uma palavra pode ser atribuída a alguém, que uma imagem tem origem, que uma prova não é apenas aparência, que a linguagem não se tornou um campo ilimitado de simulação. Quando sistemas automáticos produzem textos, imagens, vozes e mensagens capazes de imitar a realidade, a mentira deixa de precisar de grande talento. Basta-lhe escala. E uma mentira em escala industrial já não é apenas um erro. É uma atmosfera. A privacidade acompanha esse movimento. A inteligência artificial alimenta-se de dados, padrões e vestígios. O ser humano contemporâneo deixa atrás de si uma poeira contínua de sinais: escolhas, deslocações, gostos, medos, compras, mensagens, rostos, hábitos, hesitações. Há nessa recolha uma possibilidade de serviço, mas também uma tentação de domínio. A pessoa deixa de ser vista como mistério e passa a ser tratada como previsão. Deixa de ser chamada pelo nome e passa a ser descrita por perfis. O perigo não está apenas em saberem demasiado sobre nós. Está em começarem a decidir por nós a partir desse saber. Leão XIV fala de uma cultura de poder. A inteligência artificial não se desenvolve num vazio habitado apenas por cientistas generosos e engenheiros inocentes. Desenvolve-se dentro de mercados, empresas, Estados, rivalidades estratégicas, ambições militares e concentrações de riqueza. Quando a técnica fica nas mãos de poucos, esses poucos podem passar a definir o modo como muitos trabalham, comunicam, aprendem, consomem, votam e se compreendem a si mesmos. O velho tema da doutrina social regressa por outro caminho: o bem comum. Não como palavra piedosa colocada no fim de um documento para suavizar a realidade, mas como critério de governo. Uma inovação não é boa apenas porque funciona. Não é justa apenas porque cresce. Não é humana apenas porque fascina. Há sempre que perguntar quem beneficia, quem perde, quem controla, quem responde, quem fica invisível e quem já nem dispõe de linguagem para reclamar. A encíclica usa a ideia de “desarmar” a inteligência artificial. A palavra pode inquietar os devotos da técnica, sempre prontos a confundir prudência com atraso e limite com obscurantismo. Mas desarmar não significa destruir. Significa retirar à máquina a pretensão de soberania: impedir que a tecnologia domine a vida humana em vez de a servir, libertá-la da idolatria do lucro, da concentração monopolista, da opacidade e da pressa, trazê-la para a praça pública, para a deliberação democrática, para a responsabilidade jurídica, para a pergunta ética. A técnica moderna habituou-nos a perguntar “como?” antes de perguntar “para quê?”. Como acelerar, automatizar, prever, substituir, escalar, vencer a concorrência. Uma civilização que deixa de perguntar “para quê?” pode construir sistemas admiráveis e perder, ao mesmo tempo, a capacidade de reconhecer uma pessoa ferida no caminho. O problema não está apenas na inteligência artificial. Está na visão do homem que a acompanha. Se o ser humano for entendido como conjunto de dados, a máquina parecerá naturalmente superior: mais rápida, mais obediente, mais barata, mais incansável. Se for reconhecido como pessoa — corpo, alma, relação, liberdade, vulnerabilidade e responsabilidade — então a máquina regressa ao seu lugar: poderoso instrumento, nunca medida última da existência. A tensão com Silicon Valley não é apenas institucional. É espiritual, mesmo quando os seus protagonistas rejeitam a palavra. Durante anos, grande parte da cultura tecnológica falou de si mesma em termos quase salvíficos. Prometeu aproximar o mundo, libertar capacidades, democratizar conhecimento, reinventar a humanidade, inaugurar eras novas. Há nessa linguagem uma religião sem oração, uma esperança sem exame de consciência, uma escatologia de produto. A encíclica responde-lhe com uma advertência antiga: nenhuma promessa de salvação é inocente quando exige que o homem entregue a sua liberdade ao poder de poucos. O documento não oferece uma solução técnica para todos os problemas que enumera. Uma encíclica não é manual de engenharia, nem regulamento europeu, nem programa governamental. A sua força está em colocar perguntas onde o deslumbramento costuma instalar certezas: que finalidade, que responsabilidade, que justiça, que limites, que comunidade? A máquina pode multiplicar capacidades; não pode decidir sozinha o que merece ser amado, protegido ou sacrificado. Talvez seja isso que mais incomode os sacerdotes seculares da disrupção: a lembrança de que o mundo não lhes pertence apenas porque conseguiram programar uma parte dele. A técnica dá poder, não sabedoria. Dá alcance, não compaixão. Dá instrumentos, não finalidade. Quando o poder cresce mais depressa do que a consciência, a história costuma cobrar caro essa desproporção. Do silêncio do claustro, ou de qualquer lugar onde ainda se consiga escutar sem obedecer à pressa, a inteligência artificial aparece menos como prodígio isolado e mais como espelho. Mostra o que somos capazes de construir. Mostra também aquilo que estamos dispostos a sacrificar para construir mais depressa. A pergunta final não é se a máquina pensa. É se nós ainda pensamos suficientemente sobre aquilo que fazemos. Magnifica Humanitas deixa-nos diante de uma escolha que não é apenas tecnológica. Ou a inteligência artificial será colocada ao serviço da pessoa humana, sujeita a limites, responsabilidade, pluralidade cultural e controlo democrático; ou ajudará a formar um mundo onde a pessoa será cada vez mais medida, prevista, conduzida e substituída por sistemas que ninguém ama, ninguém sofre e ninguém julga moralmente responsáveis. A máquina pode espantar. Pode ser útil. Pode mesmo aliviar parte do peso humano. Mas a magnificência que importa proteger não é a da máquina. É a da humanidade: frágil, corpórea, relacional, imperfeita, capaz de erro e de perdão, de trabalho e de cuidado, de palavra verdadeira e de silêncio. Uma civilização que se esqueça disso talvez continue a inovar. Talvez até vença a corrida. Só não saberá já reconhecer quem ficou para trás.
- Cartoon Atlantic Lisbon
Humor gráfico sobre o que se diz, o que se cala e o que se enquadra sem que ninguém pergunte o que havia lá dentro. 26.05.2026 Cartoon Atlantic Lisbon 25.05.2026 Cartoon Atlantic Lisbon 24.05.2026 Ninguém saiu da sala. Só descobriram que a cadeira deles era decorativa. A América trouxe o mapa, apontou para a porta e chamou a isso consulta. Os aliados ficaram com a ata. A consulta terminou antes de os aliados perceberem que tinham sido chamados apenas para assistir. 23.05.2026 A ameaça fala em destruição; a mão já procura a caneta. 22.05.2026 A ameaça aparece primeiro como espetáculo: botão, míssil, pose de força. Mas a mão já procura o papel, a caneta, o acordo possível. A contradição é essa: prometer destruição para depois negociar como se o adiamento fosse vitória. A guerra fica em cima da mesa, mas quem acaba por trabalhar é a burocracia. A ameaça ocupa a mesa, mas a caneta já está à espera. 21.05.2026 Há instituições que sobrevivem à própria utilidade. A forma permanece — protocolo, cargo, cordinha de proteção, iluminação própria. O que enquadrava desapareceu sem data oficial. A guia explica com rigor o que já não existe. O casal ouve com atenção. Em certos museus, como em certos lugares, a ausência tem placa identificadora e horário de visita. A obra já não está, mas a moldura mantém-se em funções.
- Quem diria
Quem diria que alguém ficaria. Quem diria que, entre o ruído e o correr dos dias, alguém pararia aqui. Escrevo porque não sei calar tudo. Mas nunca imaginei que alguém escutasse o que não foi dito em voz alta. O mais bonito disto — não é ter leitores. É ter escutadores. Gente que lê com os olhos e com qualquer coisa mais. Às vezes penso: devia responder a cada um. Depois lembro-me: estes textos já são a resposta. Quem ficou, sabe. E quem sabe… não precisa que eu diga muito mais. AC Página manuscrita com rabiscos, ao lado de uma chávena vazia. #AlbertoCarvalho #LeitoresInvisíveis #CadernoAberto #QuemDiria #Narrador
- Runxue: fugir não é emigrar
A palavra começou a circular em surdina, como tantas outras na China contemporânea. Primeiro em conversas privadas, depois em grupos fechados, finalmente à superfície. Runxue. Literalmente, “a filosofia de fugir”. Runxue: fugir não é partir, é continuar Não é um conceito académico. Não nasceu num ensaio nem num manifesto. Nasceu do cansaço. Durante anos, partir da China era sinónimo de ambição. Estudar fora. Trabalhar fora. Voltar com capital simbólico e real. O movimento era circular. Hoje, não é. Hoje, partir é cortar o fio. Nos últimos anos, dezenas de milhares de chineses deixaram o país sem planos claros de regresso. Alguns ricos, visíveis nos números do imobiliário em Singapura ou no aumento de compras em Tóquio. Outros invisíveis, atravessando fronteiras improváveis, acumulando riscos que não aparecem em estatísticas elegantes. Mas há um grupo intermédio que raramente aparece nas manchetes e que, no entanto, diz muito sobre o momento chinês: profissionais qualificados da classe média urbana. Pessoas que escrevem, editam, ensinam, investigam, organizam debates. Pessoas que dependem da palavra — e do espaço público — para existir. Esse espaço encolheu. Não desapareceu de um dia para o outro. Foi sendo comprimido. Primeiro com avisos, depois com regras, depois com silêncio. Houve Universidades que se fecharam. Houve livrarias que se tornaram cautelosas. Há Revistas que aprenderam a cortar frases antes mesmo de alguém mandar cortar. A vida pública chinesa, vibrante nos anos 2000, transformou-se num conjunto de corredores estreitos onde se aprende a não parar demasiado tempo. É aqui que Runxue deixa de ser metáfora e passa a ser prática. E é aqui que Tóquio entra. Para uma geração anterior, o destino natural era o Ocidente. Estados Unidos, Europa, universidades prestigiadas, integração lenta mas possível. Hoje, esse caminho tornou-se mais longo, mais caro, mais politizado. O Japão oferece outra coisa: proximidade geográfica, distância política. Rapidez administrativa. E, talvez mais importante, uma neutralidade cultural que não exige conversão imediata. Em Tóquio, muitos chineses não se sentem “imigrantes” no sentido clássico. Sentem-se suspensos. Fora, mas não traduzidos. Presentes, mas não absorvidos. É nesse intervalo que algo inesperado acontece. Livrarias chinesas reaparecem — não como negócios de massa, mas como pontos de encontro. Salas pequenas, prateleiras altas, cadeiras desconfortáveis. Debates. Leituras. Concertos. Podcasts gravados em salas improvisadas. Não é nostalgia. É reconstrução. Durante décadas, a praça pública chinesa existiu dentro de universidades e editoras. Não era perfeita, nem livre no sentido ocidental, mas respirava. Essa respiração foi cortada. Em Tóquio, reaprende-se a respirar. Alguns dos que organizam estes espaços tinham carreiras sólidas na China. Outros perderam licenças profissionais. Outros simplesmente perceberam que o futuro seria um exercício permanente de autocensura. Fugiram antes disso. Há precedentes históricos. Intelectuais chineses já encontraram refúgio no Japão noutras épocas. O que muda agora é a escala e o contexto. Não se trata de exilados políticos clássicos. Trata-se de uma geração inteira a ajustar expectativas. Nem todos querem “mudar a China”. Muitos querem apenas voltar a pensar em voz alta. E mesmo isso tem custos. O medo não fica para trás quando se atravessa uma fronteira. Viaja com quem parte. Alguns evitam temas sensíveis mesmo fora do país. Outros mantêm nomes reais longe de eventos públicos. Há mensagens que continuam a ser escritas como se alguém estivesse a ler. Ainda assim, algo mudou. Pela primeira vez em anos, há perguntas que podem ser feitas sem consequências imediatas. Há livros que podem ser publicados sem cortes silenciosos. Há músicas que podem ser cantadas sem desaparecer no dia seguinte. Runxue não é um gesto heroico. É um gesto defensivo. Não é uma fuga da China enquanto cultura, língua ou memória. É uma fuga de um sistema que deixou de tolerar zonas intermédias. Talvez por isso Tóquio funcione. Não promete redenção. Não promete futuro. Promete apenas espaço suficiente para continuar. E, por agora, isso basta. Autor: Atlantic Lisbon Runxue — Exílio Chinês em Tóquio #ANÁLISE #NOTÍCIA #AtlanticLisbon #Japão #China #Literatura
- Armas Próprias
NOTÍCIA · Mundo · Defesa A China entrou numa nova fase da sua modernização militar ao começar a colocar em serviço aeronaves de combate equipadas com motores desenvolvidos e produzidos internamente, um domínio tecnológico que durante décadas esteve fora do seu alcance. China consolida autonomia militar e reduz dependência tecnológica do exterior. O avanço resulta de um esforço concentrado iniciado em 2016, quando Pequim criou a Aero Engine Corporation of China (AECC), um conglomerado estatal dedicado exclusivamente ao desenvolvimento de motores aeronáuticos de alto desempenho. Menos de dez anos depois, autoridades chinesas confirmam que os mais recentes caças furtivos da Força Aérea do Exército Popular de Libertação utilizam propulsão de fabrico nacional — um passo simbólico num sector considerado crítico para a soberania militar. Como a China conquistou autonomia militar e industrial. Durante grande parte da sua ascensão como potência global, a China manteve uma vulnerabilidade estrutural: dependia de fornecedores externos para componentes-chave dos seus sistemas de armas. Motores de aviação, radares avançados e plataformas de defesa aérea eram adquiridos sobretudo à Rússia e, em fases anteriores, a países europeus. Dados do Stockholm International Peace Research Institute indicam que, há cerca de duas décadas, a China figurava entre os maiores importadores mundiais de armamento. Esse cenário alterou-se de forma significativa. A quota chinesa nas importações globais de armas caiu de forma acentuada e o país deixou de integrar o grupo dos dez maiores compradores. Paralelamente, Pequim passou a exportar mais armamento, posicionando-se hoje como o quarto maior exportador mundial, atrás apenas dos Estados Unidos, França e Rússia. Este percurso está alinhado com a estratégia defendida por Xi Jinping, que tem insistido na necessidade de reduzir dependências externas em sectores considerados estratégicos, da energia aos semicondutores, passando pela defesa. A autonomia industrial, segundo esta visão, é vista como um factor essencial para resistir a pressões económicas e tecnológicas de potências rivais. A reorganização do complexo militar-industrial chinês desempenhou um papel central neste processo. O Governo concentrou recursos humanos e financeiros, promoveu a cooperação entre universidades e empresas estatais e integrou tecnologias emergentes, como inteligência artificial, nos ciclos de concepção e teste. O resultado foi uma aceleração no desenvolvimento de novos sistemas, incluindo navios de guerra, submarinos e aeronaves de última geração. Um dos exemplos mais visíveis é o novo caça furtivo Shenyang J-35, apresentado publicamente em 2024, que coloca a China num grupo restrito de países com mais de um modelo operacional de aeronave stealth. O aparelho é frequentemente comparado ao F-35 norte-americano, embora analistas sublinhem diferenças relevantes em fiabilidade e maturidade tecnológica. Apesar dos progressos, especialistas ocidentais reconhecem que os motores chineses ainda não igualam plenamente os padrões de durabilidade dos equivalentes norte-americanos, que conseguem operar durante mais horas antes de necessitar de manutenção profunda. Ainda assim, a trajectória é considerada consistente e rápida. A crescente capacidade industrial chinesa tem implicações directas no equilíbrio estratégico global. A produção interna de armamento reduz constrangimentos logísticos em cenários de conflito e reforça a margem de manobra de Pequim num contexto de rivalidade entre grandes potências. Ao mesmo tempo, episódios recentes envolvendo o desempenho de sistemas chineses em exercícios e confrontos regionais têm alimentado o debate internacional sobre o grau real de maturidade destas tecnologias. Para analistas de segurança, a questão central deixou de ser se a China consegue produzir os seus próprios sistemas militares essenciais. O foco passou a estar em até que ponto essa capacidade poderá alterar, a médio e longo prazo, a arquitetura de segurança internacional e a relação de forças com os Estados Unidos e os seus aliados. Assinatura: Helena Vale | (Mapa de Coisas Sérias) CHINA - Armas Próprias #TheLibrary #China #Defesa #Geopolítica #IndústriaMilitar
- Oliver Sacks e a tentação de inventar
OPINIÃO · Mundo · Cultura · Medicina e Narrativa Durante décadas, Oliver Sacks foi o rosto perfeito de uma certa imagem da medicina: o médico que escuta, o escritor que transforma casos clínicos em literatura, o intelectual que devolve dignidade a quem foi reduzido a diagnóstico. Em muitas escolas médicas, “Awakenings” e “The Man Who Mistook His Wife for a Hat” tornaram-se quase evangelhos laicos: ler Sacks era aprender que cada doente é uma história e não apenas um conjunto de exames. A casa onde o tempo se senta. Mas por detrás desta figura luminosa havia um homem que viveu meio século no armário, preso a um consultório de psicanálise, atormentado pela sua própria relação com a verdade. E que, nas páginas dos livros, nem sempre se limitou a testemunhar; por vezes, reinventou. Quando chegou a Nova Iorque, em 1965, Sacks vinha embriagado de felicidade. Tinha trinta e dois anos, uma relação amorosa recente com um homem de quem guardava a carta no bolso e o pressentimento de que, ali, poderia finalmente ser quem era. Em Inglaterra, a mãe – cirurgiã, respeitada, temida – chamara à homossexualidade do filho “abominação” e dissera que preferia que ele nunca tivesse nascido. Não é fácil reconstruir uma vida depois de ouvir isto. A América parecia prometer outra coisa: liberdade sexual, liberdade moral, um mundo mais largo do que o consultório londrino onde a culpa era prescrição quase obrigatória. Mas essa promessa durou pouco. A relação terminou abruptamente, Sacks mergulhou num uso compulsivo de anfetaminas e acabou, ele próprio, deitado no divã. Entra em cena Leonard Shengold, o psicanalista que o acompanharia durante quase cinquenta anos. Três sessões por semana, depois duas, depois uma, numa fidelidade que sobreviveu a mudanças de casa, de emprego, de fama. A ortodoxia psicanalítica americana da época não era especialmente amiga dos homossexuais: a homossexualidade surgia como problema a “tratar”, muitas vezes à custa de celibato e sublimação. Sacks, que sonhava ser romancista e “Galileu do interior humano”, aceitou essa via: renunciou ao sexo, renunciou a relações, e atirou tudo para o trabalho e para a escrita. Há uma imagem que repete em cartas e diários: a mente como corpo que também tem as suas “ereções”. Se não podia amar um homem de carne e osso, talvez pudesse amar o cérebro humano, as suas falhas, as suas excentricidades. Começa a encher cadernos a um ritmo quase industrial – centenas de páginas por mês – e a transformar doentes em personagens. É aqui que o mito do médico-escritor se cruza com algo mais incómodo. Sacks dizia querer “dar voz” a quem não a tinha. Mas, nos bastidores, confessava a irmãos e amigos que os seus livros eram, em parte, contos: “meias observações, meia imaginação, meia ciência, meia fábula”, com uma fidelidade própria, não necessariamente factual. Vemo-lo, por exemplo, na forma como descreve um dos doentes mais famosos de “Awakenings”: um homem batizado de Leonard, apresentado como adolescente solitário, tímido, entregue aos livros, pouco ou nada interessado em sexo. Quando, anos mais tarde, vêm a público textos autobiográficos desse mesmo paciente, a figura é outra: um jovem socialmente ativo, com amigos, mas também autor de agressões sexuais graves que o próprio relata sem pudor. Sacks limpa essa dimensão por completo. Dá-nos um Leonard quase angelical, ideal para representar a consciência desperta à força por um comprimido milagroso. Para a narrativa funcionar, o passado precisava de ser higienizado. Noutro caso, a jovem Rebecca, com deficiência intelectual e luto recente pela avó, é transformada em aspirante a actriz que, graças a uma espécie de florescimento interior, descobre o teatro e ganha voz na vida. Nas transcrições das sessões e nas notas clínicas, essa metamorfose simplesmente não existe. Rebecca continua a sentir-se inútil, a repetir que teria sido melhor não nascer. O que muda é a maneira como o médico a escreve. Talvez o exemplo mais perturbador seja o dos gémeos autistas que, em “The Man Who Mistook His Wife for a Hat”, surgem como génios naturais dos números, capazes de trocar entre si primos com dezenas de dígitos num jogo quase místico. A literatura abraçou a história; a comunidade científica, não tanto. Estudos prévios sobre os mesmos gémeos nunca tinham identificado qualquer talento matemático especial, mas sobretudo a proeza que Sacks lhes atribui desafia aquilo que sabemos sobre cálculo humano. A sensação de milagre é literária; a verificabilidade, frágil. Importa perguntar: isto é apenas “licença poética” ou é outra coisa? É possível falar de ética médica e, ao mesmo tempo, aceitar que factos clínicos sejam moldados como quem corta e cose um romance? Sacks não era um cínico. Nos diários, atormenta-se com o que chama “mentiras”, “falsificações”, “confabulações”. Cita aquela frase, atribuída a Picasso, segundo a qual a arte é a mentira que diz a verdade – e não se convence. Sente que há qualquer coisa de “crime sem castigo” no modo como exagerou certos traços, apagou outros, deslocou vidas alheias para dentro da sua própria gramática. “Escrevo versões simbólicas de mim mesmo”, nota. Talvez seja a frase mais honesta do corpus. Porque, ao mesmo tempo que cuidava dos pacientes, Sacks usava-os como espelhos: os “acordares” que descreve neles são, muitas vezes, os que não consegue viver. O homem enterrado vivo em “Awakenings”, que desperta por uns meses e volta à letargia, é também o jovem Oliver que conheceu o amor, se assustou e regressou ao casulo analítico; a Rebecca que sonha com o palco é o médico que fantasia com uma vida plena e uma sexualidade assumida, mas se contenta com o papel de espectador. Só muito tarde – já octogenário, já famoso, já doente oncológico – Sacks ousa fazer aquilo que durante décadas pedia aos pacientes: contar a verdade sobre si. Assume a homossexualidade num livro de memórias, fala da mãe que o amaldiçoou, descreve anos de celibato como uma espécie de semi-morte. E, de repente, permite-se amar um homem, o escritor Bill Hayes, com quem partilha finalmente não apenas palavras, mas vida quotidiana, insónias, jantaradas e discussões. É com ele ao lado que escreve os últimos textos, serenos, gratos, reconciliados. Há um episódio final, quase discreto, que diz muito. Pouco antes de morrer, liga ao analista de sempre, Leonard Shengold, que passa férias numa casa modesta, rodeado de família. Pela primeira vez em quase cinquenta anos de sessões, tratam-se pelo primeiro nome. “Foi a honra da minha vida trabalhar consigo”, diz o psicanalista. Desligam, ambos a chorar. Há aqui um laço real, não inventado. E talvez seja este, no fim, o tipo de relação que Sacks sempre procurou nas histórias clínicas: alguém que o visse e o nomeasse com ternura. O que fazemos nós, leitores, com este legado ambivalente? Podemos, por um lado, continuar a ver em Sacks o homem que abriu espaço à medicina narrativa, que obrigou médicos a olhar para pessoas e não para organogramas, que inspirou gerações a pensar o doente como sujeito e não como caso. Esse mérito é inegável. Mas temos de aprender também com as suas sombras. Com o facto de que empatia, quando não é vigiada, se transforma em apropriação. Que “dar voz” pode significar falar por cima. Que o desejo de sentido leva muitas vezes a arredondar biografias, apagar zonas escuras, inventar desfechos redentores que só existem no papel. Para o jornalismo, para a literatura factual, para qualquer projeto que queira contar vidas reais – incluindo este em que escrevo – a história de Sacks é aviso e oportunidade. Aviso, porque nos lembra que não há boa intenção que justifique falsificar o que está à frente dos olhos. O doente, o leitor, o cidadão merecem a verdade inteira, mesmo quando ela é desconfortável, mesmo quando não cabe num arco narrativo bonito. Oportunidade, porque nos lembra que não precisamos de escolher entre rigor e humanidade. Podemos escutar com atenção, escrever com beleza, e ainda assim manter a humildade de reconhecer aquilo que não sabemos, aquilo que não é nosso, aquilo que não nos pertence reescrever. Oliver Sacks passou a vida a tentar despertar os outros. Faltou-lhe tempo para se despertar a si próprio mais cedo. Talvez a nossa responsabilidade, agora, seja outra: não repetir o mesmo atraso, nem nas relações, nem na ciência, nem na forma como contamos a história dos outros. por Alberto Carvalho Homem idoso junto a um candeeiro antigo #CadernoDoAC #ComunidadeAC #AlbertoCarvalho #Velhice #Idosos #Solidao #Familia #CuidarDosMaisVelhos #RetratosDoTempo #PortugalInterior #Portugal
- Hantavírus: como um surto limitado se transformou numa narrativa de medo
O cruzeiro vinha da América do Sul em direção às Canárias quando o hantavírus deixou de ser uma palavra de relatório e passou a circular como sinal de outra coisa. Havia pessoas com doença respiratória severa, testes laboratoriais em curso, casos isolados, contactos a serem acompanhados, autoridades de mais do que uma jurisdição a trocar informação. Era esse o chão verificável do episódio. Ao lado, com menos espera e menos cuidado, apareceu uma segunda história: vírus fabricado, vacinas, confinamentos, nova pandemia. Hantavírus, vacinas e confinamentos: o que é verdade? O nome ajudou. Hantavírus não é uma dessas palavras que o público reconhece logo, como gripe ou covid. Traz uma aspereza técnica, quase uma opacidade. Para quem não sabe de onde vem, parece facilmente uma coisa escondida. Para quem já entra numa notícia sanitária à procura de um segundo sentido, a estranheza da palavra torna-se útil. Não é preciso compreendê-la bem. Basta fazê-la render. Quando a linguagem sanitária entra num circuito de medo e suspeita. A avaliação disponível apontava para risco baixo para a população geral. Essa frase não apagava os casos severos, nem cancelava a investigação, nem dispensava isolamento, limpeza, vigilância e acompanhamento de pessoas que podiam ter estado expostas. Apenas punha o episódio dentro de uma escala provável, com os dados existentes. A saúde pública precisa dessas escalas para não tratar tudo como catástrofe nem tudo como detalhe sem importância. Fora desse circuito, “risco baixo” pode chegar já deformado. Há quem ouça prudência. Há quem ouça minimização. Há quem ouça a primeira versão de uma história que, mais tarde, será forçada a admitir o que agora escondia. Foi uma das primeiras perdas do caso: não a informação, mas a escala da informação. Em regra, o hantavírus está associado ao contacto com roedores infetados. Urina, fezes, saliva, poeiras contaminadas, lugares onde esses resíduos ficam presentes. O vírus dos Andes, referido no contexto deste surto, traz uma dificuldade adicional porque admite transmissão entre pessoas em circunstâncias raras, sobretudo quando há contacto próximo e prolongado com alguém doente. A frase precisa de todos esses limites para continuar a ser rigorosa. Se se corta o fim, ou o meio, já é outra frase. Nas redes, a forma curta tinha mais força: transmite-se entre pessoas. Fora ficavam as palavras que seguravam o sentido: raro, próximo, prolongado. Fora ficava a diferença entre um risco que obriga a acompanhar contactos e uma transmissão ampla, sustentada, de circulação comunitária. Fora ficava a escala. E, sem escala, uma informação verdadeira pode começar a servir uma conclusão falsa. A memória da COVID-19 entrou nesse espaço. Não porque os dados autorizassem equivalência, mas porque a comparação estava disponível. Um navio. Pessoas doentes. Isolamento. Autoridades internacionais. Informação sujeita a atualização. Para uma parte do público, estes elementos lembram proteção coletiva, hospitais sob pressão, vacinas, profissionais exaustos. Para outra, lembram escolas fechadas, rendimento perdido, regras instáveis, certificados, máscaras, multas, discussões em casa, desconfiança de peritos e cansaço de comunicados. Uma palavra como isolamento não chega a todos pelo mesmo caminho. O cruzeiro dava imagens fáceis de ordenar. Espaço fechado, rota internacional, passageiros e tripulação, portos, empresas, serviços de saúde, famílias a acompanhar à distância. Um surto a bordo nunca é só clínica. Traz logística, ansiedade, reputação, perguntas de jornalistas, decisões sanitárias sob observação. Quem investiga precisa desses elementos para reconstruir contactos, perceber exposições, decidir quem deve ser seguido. Quem quer insinuar uma intenção escondida aproveita os mesmos elementos de outra maneira: coordenação como plano, isolamento como ensaio, atualização como contradição. Escala Perdida - Um surto limitado pode ganhar outra escala quando a linguagem sanitária entra num circuito de medo e suspeita. A análise que fizemos sobre a conversa em torno do hantavírus identificou sete linhas de distorção durante a primeira semana de maio de 2026. Surgiram publicações sobre medo público usado para manipular perceções, suspeitas de engenharia viral, previsões de mutação catastrófica, comparações com a COVID-19, referências a uma pandemia planeada, alegações sobre vacinas e avisos de confinamentos ou medidas de controlo. A lista impressiona menos pela coerência do que pela rapidez com que velhos moldes encontraram novo objeto. As versões não precisavam de combinar. Uma sugeria que o vírus tinha sido fabricado. Outra apontava para vacinas. Outra ampliava o perigo. Outra admitia, quase ao contrário, que o perigo podia estar a ser exagerado para justificar medidas. Num debate médico, estas hipóteses não aguentariam muito tempo juntas. Em comunidades unidas pela desconfiança, podem circular lado a lado porque trabalham para a mesma sensação: há sempre uma camada oculta por trás da explicação oficial. A alegação sobre vacinas expõe bem o método. Segundo o material analisado, circularam publicações a afirmar que o hantavírus surgia como efeito secundário de vacinas contra a COVID-19. A origem indicada era documentação técnica sobre eventos adversos de interesse monitorizados. Numa leitura séria, uma lista de eventos a acompanhar não é uma lista de efeitos confirmados. Serve para procurar sinais, afastar coincidências, testar hipóteses, confirmar ou excluir uma relação. É uma ferramenta de vigilância, não uma admissão de causalidade. Tirada do seu ambiente, a lista fica disponível para outro uso. “Monitorizado” passa a parecer “admitido”. Uma tabela técnica ganha o aspeto de inventário de danos. O documento real dá peso à conclusão falsa. Essa é a força deste tipo de montagem: não exige uma invenção completa. Usa uma peça verdadeira e muda-lhe a função. Quem partilha pode mostrar a imagem, apontar para a palavra, dizer que está tudo ali. O erro fica no salto entre o material e a conclusão, mas esse salto é menos visível do que a captura de ecrã. Para o desmontar, é preciso explicar o que é farmacovigilância, por que razão se monitorizam eventos, como se distingue sinal de coincidência, por que motivo uma lista de acompanhamento não prova causa. A acusação cabe numa frase. A correção exige contexto, paciência e algum espaço. Com os confinamentos, a matéria-prima já não era um documento técnico. Era a memória. Nenhuma proposta de confinamento geral era necessária para que a ideia circulasse. A palavra isolamento chegava carregada. Para quem viveu as restrições como proteção, uma medida dirigida a casos ou contactos podia parecer proporcional. Para quem as viveu como abuso, soava a primeiro passo. Essa linha de leitura ganhava porque não dependia de confirmação. Se não houvesse confinamento, podia alegar que a vigilância pública travara o plano. Se surgisse uma medida limitada, apresentá-la-ia como começo de escalada. Se a autoridade negasse, a própria negação passaria a ser lida como parte do encobrimento. Não era uma hipótese construída para ser testada. Era uma hipótese construída para sobreviver. Os comunicados sanitários lidam mal com adversários assim. Têm de usar cautela, admitir incerteza, corrigir informação, rever avaliações. Não podem prometer certezas que os dados ainda não dão apenas para competir com publicações alarmistas. A disciplina do método, necessária dentro de uma resposta séria, parece lenta no feed. “A informação pode mudar” transforma-se em “ainda não querem contar tudo”. “Risco baixo” vira “estão a minimizar”. “Não há evidência” vira “a evidência foi escondida”. A publicação viral não carrega esse peso. Pode dizer mais, mais cedo, com menos prova. Pode errar e deslocar-se para outro ângulo. Pode abandonar uma versão sem reconhecer que a versão falhou. A autoridade fica presa ao que comunicou; a conta que vive de suspeita muda de alvo e segue. Num surto a bordo, essa diferença sai do plano abstrato. A informação errada chega a passageiros, tripulação, famílias, operadores, serviços de apoio, portos, equipas de comunicação. Alguém pode ignorar sintomas porque acredita que tudo é encenação. Outra pessoa pode entrar em pânico porque leu que o vírus já fugiu ao controlo. Uma recomendação simples pode ser recebida como prova de controlo político. Uma equipa que devia estar a orientar contactos perde tempo a explicar uma publicação recortada de forma abusiva. O ruído entra na operação, nos telefonemas, nos pedidos de esclarecimento, nas perguntas que deixam de ser apenas sanitárias. Uma empresa ligada à viagem fica num corredor apertado. Se minimiza, parece esconder. Se dramatiza, aumenta medo e dano económico. Se fala pouco, deixa espaço. Se fala muito, parece defender-se. Se usa linguagem técnica, não chega a parte do público. Se simplifica demais, arrisca erro. A resposta útil raramente tem brilho: dizer que medidas foram tomadas, quem deve estar atento, que tipo de contacto importa, que sintomas exigem cuidado, que informação continua a ser verificada. Esse tipo de comunicação não rende grandes manchetes. Em situações assim, reduzir dano já é muito. A nossa análise pode referir com segurança as comunidades orientadas por agendas, grupos anti-vacinas, influenciadores anti-institucionais, contas com comportamento semelhante ao de bots e ligações ou alinhamentos estrangeiros hostis em torno de algumas mensagens. São categorias que exigem prudência. Comportamento bot-like não identifica sozinho quem opera uma conta. Alinhamento com interesses externos não prova comando direto. Mesmo assim, há efeitos que podem ser descritos: repetição, volume artificial ou semiartificial, sensação de urgência, aparência de consenso. Para quem vê dez publicações parecidas em poucas horas, a diferença entre consenso real e amplificação organizada quase desaparece. Parece que toda a gente está a falar do assunto. Talvez não esteja. Talvez seja uma minoria muito ativa, atravessada por grupos já mobilizados contra vacinas, contra organismos internacionais ou contra qualquer linguagem sanitária que lembre 2020. Mas a perceção de volume tem vida própria. O assunto parece maior porque aparece muitas vezes; aparece mais vezes porque parece maior. A imprensa não melhora este terreno se tratar o público como crédulo. Há pessoas enganadas, pessoas assustadas, pessoas que fazem perguntas razoáveis, pessoas que manipulam, pessoas que lucram com a confusão e pessoas que partilham porque estão cansadas. Não são equivalentes. A conta que afirma sem prova que o vírus foi fabricado não é igual a quem pergunta se deve preocupar-se com transmissão entre pessoas. Quem não entende uma lista de eventos monitorizados não é igual a quem a recorta para insinuar causalidade. Quem teme novas restrições por memória pessoal não é igual a quem anuncia confinamentos inexistentes para ganhar adesão. Quando estas diferenças desaparecem, a resposta fica pobre. Ou ridiculariza tudo. Ou amplifica tudo. Ou se refugia em citações oficiais, como se bastasse empilhar autoridade para resolver desconfiança. Nenhuma dessas opções serve bem o leitor que ainda está a tentar perceber. Esse leitor existe, embora faça pouco ruído. Viu uma publicação alarmista, mas ainda não a partilhou. Tem medo, mas ainda escuta. Não domina termos técnicos, mas aceita uma explicação clara. Recorda a pandemia com raiva ou cansaço, mas não quer transformar qualquer alerta num plano oculto. Precisa de frases úteis, não de sermão. Algumas dessas frases parecem secas. Contacto com roedores não é transmissão comunitária. Transmissão rara entre pessoas não é capacidade pandémica ampla. Vigilância de eventos adversos não é prova de causalidade. Isolamento de casos ou contactos não é confinamento geral. Risco baixo não é risco zero. Atualização de informação não é confissão de mentira anterior. São distinções pouco vistosas. Seguram a conversa onde ela costuma partir. Quando desaparecem, cada palavra técnica fica disponível para outro uso. A comunicação pública não pode limitar-se a publicar documentos corretos e esperar que atravessem as plataformas sem deformação. Se diz risco baixo, deve explicar baixo para quem, em que condições, com que medidas e com que incerteza. Se diz transmissão rara, deve dizer que tipo de contacto está em causa. Se fala em vigilância, deve explicar o que procura e o que ainda não encontrou. Se fala em isolamento, deve dizer quem é abrangido, porquê e durante quanto tempo. Se corrige informação, deve mostrar o que mudou. Nada disso convence quem já decidiu que qualquer explicação oficial é mentira. Ajuda outro público: o que ainda está entre medo e decisão. O episódio não indicava, pelos dados disponíveis, uma repetição da COVID-19. Indicava que a memória da COVID-19 continua ativa. Está nos grupos que procuram novos sinais, nas contas que reciclam velhos esquemas, nos leitores que já não sabem onde acaba a prudência e começa o exagero, e nas instituições que ainda falam como se os seus termos técnicos chegassem intactos ao público. Não chegam intactos. Chegam cortados, legendados, traduzidos à pressa, postos ao lado de imagens antigas, misturados com ressentimento, medo e desconfiança. A próxima ocorrência pode envolver outro vírus, outro hospital, outro navio, outro país, outro documento mal lido. O mecanismo não depende do hantavírus. Precisa de um nome estranho, uma autoridade a investigar, informação incompleta, uma comunidade predisposta e uma plataforma onde a suspeita encontre recompensa. Antes do primeiro comunicado completo, já haverá capturas de ecrã, traduções apressadas, listas fora de contexto, vídeos com setas, comparações com 2020 e certezas sem lastro. A resposta sanitária terá de cuidar das pessoas expostas e, ao mesmo tempo, impedir que palavras necessárias — isolamento, vigilância, risco, transmissão — sejam arrancadas do seu uso e devolvidas como ameaça. No cruzeiro, essa disputa começou cedo. No próximo surto, começará outra vez, talvez com outro nome e outro mapa. A autoridade que falar depois não estará só a explicar uma doença. No intervalo, as palavras já terão começado a circular noutro sentido.
- Netanyahu e o Desmantelamento da Democracia Israelita
Na manhã de 26 de março, dois jactos de negócios descolaram de Telavive com destino a Al Ain, nos Emirados Árabes Unidos. Os sistemas de rastreio de voos registaram a partida, o pouso, as seis horas no solo, o regresso. Como Netanyahu governa no espaço entre o que se faz e o que se reconhece Naquela tarde, o gabinete do primeiro-ministro israelita Benjamin Netanyahu emitiu um comunicado: tinha ocorrido uma visita secreta ao líder emiradense Mohamed bin Zayed, que havia produzido "um avanço histórico nas relações" entre os dois países. Horas depois, o Ministério dos Negócios Estrangeiros dos Emirados publicou um desmentido: tal visita nunca tinha acontecido. Nessa mesma tarde, Ziv Agmon — antigo porta-voz de Netanyahu — partilhou nas redes sociais uma descrição entusiasmada: tinha acompanhado o primeiro-ministro ao palácio, o xeque Mohamed tinha conduzido pessoalmente o carro desde a pista, a receção fora calorosa, histórica, digna de um rei. Os jactos constavam nos registos. O desmentido constava nos comunicados oficiais. A descrição do antigo porta-voz constava nas redes sociais. As três versões coexistiam. Nenhuma cancelava as outras. O que as três versões revelam é um modo de exercer o poder que funciona precisamente porque mantém sempre duas em circulação — a que se confirma quando convém e a que se nega quando convém — não em simultâneo, mas com a mesma facilidade. Netanyahu, Gaza, os Emirados e a erosão democrática israelita: um ensaio sobre o poder que funciona porque nunca precisa de se confirmar. Amos Harel, analista de defesa do Haaretz, disse de Netanyahu que "não quer dizer o que diz nem diz o que quer dizer." Mas a incoerência pressupõe acidente — e o que Netanyahu tem demonstrado, ao longo de décadas, é outra coisa: uma capacidade de operar sistematicamente no espaço entre o que se faz e o que se reconhece ter feito, um espaço que não é acidente nem falha, mas um modo de trabalhar. Na política doméstica israelita, essa arquitetura tem uma forma específica: a acumulação. Yohanan Plesner, presidente do Israel Democracy Institute, identificou cerca de 80 iniciativas em curso para enfraquecer o poder judicial, subordinar o serviço civil e reposicionar as estruturas de supervisão sob controlo político direto. Algumas são urgentes e escandalosas. Outras estão em banho-maria. Cada uma pode ser apresentada, isoladamente, com linguagem constitucional. Em conjunto, não descrevem erosão. Descrevem estratégia. A Procuradora-Geral, Gali Baharav-Miara, apresentou ao Supremo Tribunal uma petição de 68 páginas sobre a gestão que o ministro da Segurança Nacional, Itamar Ben-Gvir, faz da polícia — o que descreveu como um "sistema de pressão" para orientar a força para as suas posições extremistas. A resposta do governo, em tribunal, evocou Actéon, o caçador da mitologia grega que ultrapassou os seus limites e foi despedaçado pelos próprios cães. Era um aviso. Era também, formalmente, apenas uma referência clássica. O tribunal não emitiu a decisão. Enviou as partes para negociação — Netanyahu ficou no governo, Ben-Gvir no cargo. Desde a chegada de Ben-Gvir ao ministério, em 2022, mais de 700 cidadãos de cidades árabes israelitas foram assassinados — o dobro da taxa anual que existia antes. A explicação oficial é a de que a força trata a violência nas comunidades árabes "com o mais alto nível de seriedade." Quanto à Cisjordânia, onde ataques de colonos israelitas deixaram dezenas de palestinianos mortos e mais de dois mil feridos, a polícia de fronteiras tem falhado sistematicamente em prevenir — e, segundo o monitor de direitos humanos B'Tselem, tem criado espaço para — essa violência. Cada ação tem cobertura formal. O que não tem cobertura formal fica no espaço entre o feito e o dito. Em abril, numa cafetaria em Modi'in, um romancista chamado Alex Sinclair usava uma kipá bordada com as bandeiras israelita e palestiniana. Um homem religioso aproximou-se com a cara zangada e disse-lhe que era ilegal. A polícia apareceu. Levaram-no para a esquadra. Ficou vinte minutos numa cela. A kipá foi devolvida com um buraco onde a bandeira palestiniana tinha estado. Exibir a bandeira palestiniana é discurso protegido em Israel — o Supremo Tribunal afirmou-o em 2003. O mesmo acórdão prevê exceções em casos de lesão "substancial, profunda e severa." Ben-Gvir tem explorado essa exceção, instruindo a polícia a remover a bandeira sempre que haja risco de incitamento. Na prática, a exceção tornou-se regra. A polícia age. O tribunal corrige o caso específico. Quando isso acontece, o governo já abriu outra frente. Sinclair fotografou a kipá — antes e depois — e publicou as imagens. Foram amplamente partilhadas. A polícia disse que a situação fora tratada "com o mais alto nível de seriedade." O acórdão foi invocado para fazer o contrário do que o acórdão estipulava. Depois, a polícia declarou ter agido com o mais alto nível de seriedade. Netanyahu anunciou em maio um plano para reocupar a cidade de Gaza, onde cerca de um milhão de palestinianos — metade da população do território — se encontram comprimidos. O objetivo declarado é a derrota definitiva do Hamas. Harel sugere que o objetivo real é outro: prolongar a guerra. Uma guerra em curso serve para mais de um fim. Adia a investigação ao Sete de Outubro, que Netanyahu tem bloqueado invocando o risco de "Estado profundo." O julgamento de corrupção perde urgência enquanto há operações militares a decorrer. E os partidos que dependem do conflito para a sua relevância — Ben-Gvir, Smotrich — ficam com motivo para se manter na coligação. O Hamas deixou de ser uma organização militar com hierarquias e redes de comando. É agora uma forma de resistência descentralizada, que recruta a partir da população que a guerra foi destruindo. "Não há um momento de Iwo Jima," disse Harel. Não há um ponto de rendição. E, no entanto, a lógica do conflito continua a ser apresentada como se houvesse — como se a pressão militar suficiente produzisse colapso, como se o colapso produzisse paz. Mais de 60 000 palestinianos morreram desde o início da guerra. As mortes por inanição contam-se já por centenas, segundo o Ministério da Saúde de Gaza. A ajuda humanitária chegou, durante meses, em volumes incompatíveis com as necessidades. O sistema alternativo de distribuição que Israel apoiou foi descrito pelo ministro das Finanças Bezalel Smotrich como "o início da derrota do Hamas" — a lógica sendo a de que o Hamas desviava a ajuda que chegava através da ONU. Relatórios da USAID e da Reuters não encontraram "nenhuma evidência de roubo sistemático." A narrativa persistiu. Os alimentos não chegaram. Portugal viveu 48 anos de um regime que manteve constituições, tribunais, eleições periódicas. O Estado Novo não se anunciou como ditadura — durante anos houve juristas, académicos e funcionários que trabalharam dentro das suas formas enquanto o conteúdo se esvaziava. A diferença entre o que Netanyahu está a construir e o que Salazar construiu é real: Israel tem uma sociedade civil com capacidade de resistência, uma imprensa que ainda funciona, um Supremo Tribunal que ainda decide. Mas a direção do movimento é legível para quem conhece o sentido do percurso. Não porque o destino seja o mesmo — ninguém sabe qual é. Mas há um padrão que se reconhece antes de saber onde termina. O que acontece a um sistema quando as instituições continuam a existir mas o seu funcionamento se torna sistematicamente diferido — cada decisão judicial respondida com uma iniciativa legislativa que a neutraliza, cada nomeação retida até a lei que a rege ser reescrita? A Procuradora-Geral que contraria o governo é objeto de uma tentativa de despedimento anulada por unanimidade. O que fica não é uma rutura. É uma superfície de normalidade sobre uma estrutura que já não funciona da forma que se pressupõe. Plesner disse que a sua preocupação não é um "Seis de Janeiro israelita." É algo mais subtil: a delegitimação progressiva das instituições democráticas, o ponto em que o resultado eleitoral pode ser aceite ou recusado consoante o governo decida que o tribunal, e não os eleitores, o determinou. Netanyahu já instalou o vocabulário para esse movimento: o "Estado profundo", a magistratura que governa em vez do povo, os partidos de oposição como instrumentos de interesses não-sionistas. Na tarde de quarta-feira, quando o gabinete de Netanyahu anunciou a visita a Abu Dhabi, o texto do comunicado era cuidadoso. Dizia que a visita tinha sido secreta "até hoje." Não especificava quando tinha ocorrido, como Netanyahu tinha viajado, nem o que havia sido discutido. Dizia apenas que havia produzido "um avanço histórico." Os Emirados negaram. Os registos de voo confirmaram a partida, o pouso, as seis horas no solo. O antigo porta-voz confirmou o resto — com entusiasmo considerável. A visita ficou suspensa entre o anunciado e o desmentido, entre o histórico e o inexistente — uma posição que, de certo modo, a torna mais útil do que se houvesse sido simplesmente confirmada por ambas as partes. Uma visita confirmada tem consequências diplomáticas fixas. Uma visita simultaneamente confirmada e desmentida pode ser mobilizada ou abandonada conforme o momento o exija. É esse espaço — entre o que se faz e o que se reconhece — que Netanyahu tem cultivado. Na diplomacia secreta, porque nenhuma das partes precisa de confirmar nada. Na guerra, porque uma guerra sem fim não tem um momento em que se possa dizer que foi perdida. O mesmo vale para a erosão judicial: cada avanço isolado parece contestável sem nunca parecer definitivo. O sistema funciona enquanto nenhum momento for claro o suficiente para servir de prova. Na cafetaria de Modi'in, a kipá foi devolvida com um buraco. Sinclair disse sentir-se um pouco culpado por a história ter recebido tanta atenção — há incidentes mais graves que ficam sem visibilidade. Tinha razão. Mas o buraco na kipá ficou fotografado. Circulou. Não desapareceu. O registo é o que resta quando as versões oficiais se contradizem. Não é muito.
- Lisboa e os Rapazes que Atravessam a Cidade
Os primeiros grupos aparecem quando a luz começa a sair das fachadas e ainda não é noite. Duas bicicletas eléctricas junto ao rio, uma trotineta na retaguarda, um telemóvel levantado para filmar a manobra. No Cais do Sodré, em Belém, na Almirante Reis ou no Martim Moniz, a cena repete-se com pequenas diferenças: um rapaz levanta a roda da frente, outro passa demasiado perto de uma esplanada, alguém grita, um carro trava, os turistas param antes de perceberem se aquilo é perigo, espetáculo ou apenas a cidade. A cidade que já não lhes pertence. Lisboa aprendeu depressa a irritar-se com estes grupos. Há velocidade a mais em sítios onde devia haver cuidado. Há exibicionismo. Há quedas, sustos, atropelamentos possíveis, uma irresponsabilidade que não desaparece só porque acontece sobre duas rodas. Um passeio não é uma pista. Uma passadeira não é um palco. Quem atravessa uma praça a rasar pessoas não está a defender a vida urbana; está, muitas vezes, a pôr outros em risco. Um rapaz atravessa Lisboa em equilíbrio instável, entre a cidade que o observa e a cidade que talvez já não lhe pertença. Mas a irritação parece maior do que o perigo de cada caso isolado. Há ali qualquer coisa que incomoda de outro modo. Talvez porque estes rapazes não cabem na Lisboa que a cidade passou anos a compor para si própria. Lisboa foi sendo arrumada para ser vista. As ruas foram limpas, iluminadas, promovidas, convertidas em percursos de consumo e memória pronta. As fachadas ganharam importância cénica. Há zonas onde tudo parece preparado para fotografias tiradas por quem ficará quarenta e oito horas antes de partir com a impressão de ter tocado uma autenticidade já embalada quando chegou. A cidade sempre viveu de circulação, chegada, partida e mistura. Outra coisa é passar a comportar-se como produto sensível à avaliação permanente de quem a atravessa sem se comprometer com ela. Nessa cidade, a espontaneidade torna-se incómoda. O improviso começa a parecer uma falha. O corpo que não se adapta ao percurso previsto passa a ser tratado como um problema de gestão. Os cafés antigos desaparecem porque ocupam espaço pouco rentável. As mercearias tornam-se lojas neutras onde se vende uma ideia portátil de autenticidade portuguesa. Os bairros populares sobrevivem cada vez mais como a memória estética, não como um organismo social. Há ruas onde Lisboa parece ter sido traduzida para uma língua que todos compreendem e quase ninguém fala de nascença. Os adolescentes em bicicletas eléctricas não interrompem apenas o trânsito. Interrompem essa composição. Não se deslocam como turistas disciplinados, trabalhadores cansados ou moradores discretos que aprenderam a ocupar pouco espaço. Movem-se de forma excessiva, ruidosa, às vezes quase absurda. Fazem wheelies junto a eléctricos cheios, atravessam túneis em grupo, descem ruas estreitas filmando tudo para redes onde os vídeos desaparecem depressa. A cidade dura menos ali do que o gesto. Serve para provar passagem, velocidade, presença. Há uma imagem que vale mais do que a explicação toda: o rapaz de pé nos pedais, corpo ligeiramente inclinado para trás, uma mão no guiador, a outra a equilibrar o telemóvel de quem o filma ao lado. Atrás dele, a montra de uma loja demasiado branca reflete o movimento como se a cidade estivesse a ver aquilo sem querer. A roda da frente fica suspensa uns segundos. Não há discurso. Há equilíbrio, ameaça, vaidade, pertença. O corpo sabe coisas antes da política. Durante anos, as cidades europeias foram ensinadas a justificar cada metro de espaço através da sua função: circulação, segurança, produtividade, valorização imobiliária, eficiência turística, mobilidade sustentável, redução do ruído, experiência do visitante. O banco público deve permitir permanência, mas não demasiada. A praça deve ser viva, mas não descontrolada. A rua deve acolher diferença, desde que a diferença não atrapalhe a fotografia. A juventude real raramente cabe nisso. Lisboa gosta mais facilmente dos jovens quando eles vêm convertidos em imagem abstrata: estudantes Erasmus, festivais de Verão, campanhas municipais com skates, murais coloridos, laboratórios criativos. A juventude barulhenta, impaciente, mal vestida, contraditória, às vezes malcriada, quase sempre excessiva, continua a gerar desconforto. A cidade aceita-a melhor quando já chega transformada em evento, marca, público-alvo ou estatística. Houve uma Lisboa que tolerava pequenas desordens quotidianas. Não era uma cidade melhor por definição, nem mais justa, nem mais pura. Era apenas menos vigiada pela própria imagem. Uma cadeira podia ficar tempo demais no passeio. Um rádio podia atravessar uma janela aberta. Uma conversa podia demorar na porta do café sem se transformar em “ocupação indevida do espaço”. Havia irritação, queixas, conflitos. Mas havia também a margem para comportamentos que não precisavam de justificação moral, estética ou económica. Essa margem encolheu. A cidade estava degradada, perdeu população durante anos, precisava de recuperação, investimento, segurança, transporte, cuidado. Não vale a pena fingir saudade de fachadas degradadas, casas vazias, comércio abandonado e ruas que a própria Lisboa parecia ter desistido de habitar. A regeneração trouxe vida, dinheiro, reparação, fachadas recuperadas, ruas menos abandonadas. Trouxe também uma disciplina escondida: menos abandono, menos improviso, menos excesso. A certa altura, certas zonas começaram a pertencer mais à versão oficial da cidade do que aos próprios habitantes. Ainda há quem use Lisboa sem grande reverência, mas não do mesmo modo. O turista muito jovem ainda se perde antes de aprender a consumir património. O estafeta conhece a cidade pelas subidas, pelos buracos e pelo tempo morto à porta dos restaurantes. O imigrante recém-chegado não vê nostalgia nem postal; vê uma morada, trabalho, sobrevivência. Os adolescentes em bicicletas eléctricas pertencem a essa mesma família imperfeita: atravessam Lisboa como chão, não como cenário. Talvez seja por isso que certos vídeos gravados no centro provoquem reações tão violentas. Não mostram apenas comportamentos irritantes. Mostram pessoas indiferentes à cidade cuidadosamente arrumada para ser vista. Gente que não parece grata por passar diante de fachadas recuperadas. Gente que não baixa a velocidade para respeitar a luz. Gente que usa a rua sem pedir licença ao retrato que Lisboa prefere dar de si. Lisboa vende calma, luz, segurança emocional, autenticidade de postal. Parte disso é verdadeiro. A cidade tem ainda uma doçura física que muitas capitais perderam: uma luz que abranda as coisas, uma escala que resiste à brutalidade vertical, uma melancolia de pedra quente, um modo de deixar o rio ao fundo como se fosse uma explicação. Mas a mesma cidade tenta reduzir a fricção visível. O conflito tornou-se mau para o negócio. O excesso, desconfortável para o investimento. O barulho passou a parecer falha de administração. A cidade que durante séculos viveu de chegada, mistura e pobreza quer agora parecer fácil. Entretanto, uma geração inteira cresce dentro de rendas impossíveis, empregos frágeis, transportes cheios, bairros deslocados e promessas cada vez menos convincentes. Muitos destes adolescentes dificilmente viverão, em adultos, nos lugares onde aprenderam a circular. Talvez não tenham ainda linguagem para isso. Talvez nem pensem nesses termos. Atravessam-na depressa, em grupo, filmando, testando limites, como se o movimento fosse a última forma disponível de pertença. Isto é meu porque passo aqui; isto não será meu porque nunca mo deixarão ficar. Não defendem Lisboa. Também não acreditam muito nela. Limitam-se a atravessá-la depressa. A irritação adulta nasce muitas vezes daí. Não apenas do perigo das bicicletas, embora ele exista; não apenas da falta de civismo, que também existe; mas da recusa de participar na pose organizada da cidade europeia contemporânea. Não fingem encantamento. Não caminham devagar. Não consomem a rua com a reverência de quem comprou uma experiência. Passam por ela como quem ainda não aceitou que a cidade se tornou demasiado cara até para a sua própria desordem. Durante alguns segundos, obrigam toda a gente a lembrar-se de que as cidades não são espaços de consumo harmonioso. O reformado que atravessa devagar, o turista que procura a próxima fotografia, o empregado que fuma antes de voltar à cozinha, o estafeta atrasado, o adolescente que levanta a roda da frente, o motorista irritado, o morador que já não reconhece a rua onde nasceu: todos disputam a mesma superfície estreita. A cidade não é a soma pacífica dessas presenças. É o atrito entre elas. Lisboa está a entrar numa fase em que já não consegue controlar completamente a maneira como é usada, filmada, atravessada, interrompida. Nenhuma grande cidade permanece eternamente organizada à medida do olhar exterior. Mais cedo ou mais tarde aparecem grupos que voltam a tratá-la como território imperfeito, físico, disponível, mesmo quando esse gesto é perigoso, irritante ou injusto para quem apenas tenta atravessar a rua em paz. Quando uma cidade só consegue responder à juventude com repressão, programação cultural ou publicidade institucional, alguma coisa falhou antes do primeiro wheelie. Que cidade resta aos que não podem comprá-la, herdá-la, arrendá-la, gerir a sua imagem ou transformá-la em conteúdo rentável? Às vezes resta-lhes apenas estes movimentos. A velocidade. O gesto inútil. A manobra exibida diante de quem preferia uma rua tranquila. Lisboa, que aprendeu a posar tão bem para quem chega, ainda não sabe o que fazer com quem passa por ela sem pedir licença. #Lisboa #AtlanticLisbon #EspaçoPúblico #Juventude #Cidade #BicicletasElétricas #Turismo #Habitação #VidaUrbana
- Cartoon - A Rússia no Sistema Chinês
O vagão russo está parado. Ninguém o prende. Essa é a parte mais desagradável. Tem um brasão, peso antigo, madeira escura, uma ideia de grandeza que ainda não percebeu bem onde acordou. Dentro, um homem espera junto à janela. Não parece derrotado. Talvez fosse mais fácil se parecesse. A estação chinesa continua: contentores, trabalhadores, máquinas, horários, luz branca sobre o cimento. Nada ali está contra ele. Nada ali precisa dele no centro. Putin observa Pequim a partir de um vagão imperial. Do outro lado da plataforma, a China não espera. A dependência raramente aparece como dependência no primeiro dia. Vem misturada em contratos de energia, descontos, rotas alternativas, pagamentos feitos por outros canais, peças industriais que continuam a chegar quando muitas portas se fecharam. A Rússia ainda fala como se escolhesse o caminho; cada vez mais, porém, encontra esse caminho já desenhado. A guerra empurrou Moscovo para leste. A China recebeu esse movimento sem pressa e sem necessidade de o chamar pelo nome certo. Para Pequim, uma Rússia enfraquecida mas funcional serve melhor do que uma Rússia caída: continua contra o Ocidente, vende energia, ocupa espaço, conserva orgulho suficiente para parecer parceira. No desenho, o vagão mantém o brasão. Isso talvez seja o mais exacto. Ninguém lhe retirou os símbolos. Ninguém precisou. Fica parado na estação, enquanto à volta o trabalho continua. Talvez alguns impérios deixem de se afirmar assim. Não com uma queda, mas com uma permanência estranha. Continuam sentados, a olhar pela janela, enquanto lá fora se decide a hora do próximo comboio.
- A Rússia no Sistema Chinês
O comboio vindo do norte entra na China atravessando florestas, plataformas ferroviárias novas, depósitos de contentores e cidades médias que cresceram demasiado depressa para aparecerem ainda nos mapas mentais europeus. Durante muito tempo, a Eurásia foi sobretudo uma abstração estratégica usada por diplomatas, militares e académicos fascinados pela geografia do poder. Agora ganhou peso físico: oleodutos, linhas ferroviárias, corredores comerciais, cabos, energia. É nesse espaço que a relação entre Rússia e China deixou de ser apenas diplomática. Vladimir Putin chegará a Pequim poucos dias depois da partida de Donald Trump. A sequência ajuda a perceber melhor a posição chinesa do que muitos comunicados oficiais. Enquanto Washington continua preso à necessidade de anunciar resultados rápidos, Pequim trabalha numa escala mais lenta e mais material. Menos centrada em declarações, mais centrada em circulação. A aproximação entre Moscovo e Pequim já não parece uma aliança entre iguais, mas uma deslocação lenta da Rússia para dentro do sistema chinês. Como a guerra na Ucrânia tornou Moscovo dependente de Pequim sem que nenhuma das partes o admita. A guerra na Ucrânia acelerou esse movimento. Antes da invasão, Moscovo ainda conservava margem suficiente para imaginar uma posição intermédia entre a Europa e a Ásia. Vendia o gás ao Ocidente, mantinha canais financeiros relativamente abertos e cultivava relações simultâneas com Pequim, Berlim, Ancara, Nova Deli e Washington. O Kremlin gostava de se apresentar como potência autónoma, suficientemente forte para negociar com todos sem depender inteiramente de ninguém. Essa margem estreitou-se. As sanções ocidentais, a perda parcial do mercado europeu e a necessidade crescente de exportar energia para leste transformaram lentamente a Rússia num parceiro muito mais vulnerável à China do que era há dez anos. Pequim não comenta isso de forma agressiva. Xi Jinping percebe que uma Rússia humilhada seria menos útil do que uma Rússia funcional, ressentida em relação ao Ocidente e suficientemente estável para continuar integrada no grande espaço continental asiático que a China tenta consolidar. A relação sino-russa já não assenta verdadeiramente na igualdade. Assenta na utilidade recíproca, embora a distribuição de força seja hoje muito diferente da que existia no início do século. A Rússia fornece energia, profundidade territorial e pressão permanente sobre o flanco europeu da NATO. A China fornece mercados, liquidez, capacidade industrial e uma espécie de respiração económica parcial num momento em que Moscovo perdeu grande parte do acesso normal ao sistema ocidental. Os dois países continuam, ainda assim, a pensar o poder de maneira diferente. O que une Pequim e Moscovo não é ideologia nem amizade. É necessidade com distribuição desigual de poder. A Rússia permanece marcada pela imaginação imperial clássica: fronteiras, segurança militar, estatuto estratégico, memória histórica. A China parece mais interessada em circulação, produção industrial, cadeias logísticas, tecnologia e administração paciente de dependências económicas. Enquanto os Estados Unidos continuam a dominar militarmente grande parte do sistema internacional, Pequim investe sobretudo naquilo que organiza movimento: portos, caminhos-de-ferro, minerais raros, energia, semicondutores, financiamento, infraestruturas digitais. A Rússia tornou-se importante dentro dessa lógica porque a guerra a empurrou para dentro dela. Os oleodutos que ligam a Sibéria à China ganharam peso novo. O projeto Power of Siberia deixou de ser apenas cooperação energética. Hoje faz parte de uma tentativa chinesa mais ampla de reduzir vulnerabilidades marítimas e consolidar segurança continental. Pequim consegue abastecimento estável; Moscovo garante receitas de que precisa cada vez mais. Ao mesmo tempo, a capacidade negocial russa vai diminuindo. A China compra energia em condições vantajosas porque sabe que o Kremlin dispõe de menos alternativas. Nada disto significa submissão simples. Moscovo continua demasiado armada, demasiado imprevisível e demasiado orgulhosa para aceitar um papel puramente subordinado. Mesmo assim, o equilíbrio entre os dois países já não é o mesmo. Taiwan permanece no centro desse cálculo, mesmo quando quase desaparece das manchetes. A ilha obriga Washington a dispersar atenção estratégica entre o Pacífico, Ucrânia, Médio Oriente e tensões internas americanas. Pequim parece confortável com essa dispersão prolongada. Talvez porque a liderança chinesa acredite que o tempo joga a seu favor, desde que consiga evitar confrontos prematuros. O Irão encaixa no mesmo desenho de forma menos visível, mas igualmente importante. A crise recente à volta do Estreito de Ormuz mostrou que a China já não observa o Médio Oriente apenas como cliente distante de petróleo. A estabilidade energética asiática depende diretamente daquela região. Isso aproxima Pequim de Teerão, ao mesmo tempo que mantém relações cuidadosas com as monarquias do Golfo. Não há aqui afinidade ideológica profunda. Há necessidade económica. Durante muito tempo, os Estados Unidos presumiram que o domínio do dólar, das infraestruturas financeiras globais e das cadeias comerciais internacionais lhes garantiria capacidade quase ilimitada de pressão. Em muitos aspetos, continuam a possuir essa capacidade. Mas o uso massivo de sanções começou também a produzir adaptações. A Rússia foi empurrada para sistemas paralelos de pagamentos, comércio energético fora do dólar e novas rotas terrestres euroasiáticas. A China acompanha tudo isto atentamente porque sabe que poderá enfrentar formas semelhantes de pressão no futuro. Não está a nascer uma nova ordem mundial pronta a substituir a anterior. A realidade costuma ser mais confusa do que os slogans históricos. A China continua dependente de mercados ocidentais, de estabilidade financeira internacional e de acesso tecnológico externo em várias áreas críticas. Mesmo assim, alguma coisa mudou. Pequim parece cada vez mais instalada numa posição que lhe permite arbitrar relações, administrar dependências e ganhar influência sem assumir ainda os custos completos da liderança global tradicional. Putin chega a Pequim dentro desse contexto. Não exatamente como igual. E já sem a autonomia estratégica que Moscovo julgava possuir há apenas alguns anos.











