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Como a Rua Mudou o Comando da Guerra na Ucrânia

Durante seis dias, milhares de ucranianos exigiram duas mudanças: o regresso de Mykhailo Fedorov ao Ministério da Defesa e a saída de Oleksandr Syrskyi do comando das Forças Armadas. As manifestações retomaram a estética e a designação do "Maidan de Cartão", usadas pela primeira vez nos protestos anticorrupção do verão anterior. Entre os nomes apontados para suceder a Syrskyi, um ganhava força: Mykhailo Drapatyi.


O general que a rua escolheu


Capa do Atlantic Lisbon sobre os protestos em Kiev e a mudança no comando militar ucraniano.
A Praça da Independência, em Kiev, sob a bandeira ucraniana. Seis dias de protestos antecederam a substituição do comandante-chefe das Forças Armadas.

Antes de os protestos começarem, Fedorov tinha proposto a Zelensky a substituição de Syrskyi; Zelensky recusara. A 15 de julho, afastou Fedorov do Ministério da Defesa, mantendo Syrskyi no comando. Seis dias de contestação depois, perante a continuação dos protestos, afastou também Syrskyi e escolheu para o substituir o major-general Mykhailo Drapatyi, quarenta e três anos, então comandante das Forças Conjuntas, com responsabilidades nas defesas do eixo nordeste.


Syrskyi nasceu na região russa de Vladimir, ainda União Soviética, e estudou numa escola militar em Moscovo ao lado de colegas de turma que se tornariam, décadas depois, comandantes do exército que ele passou os últimos anos a combater. Oficiais mais jovens descreviam-no como um comandante de estilo soviético — decisões centralizadas, microgestão a partir do topo, manter posições independentemente do custo humano. Rob Lee, analista militar radicado em Kiev, notou depois que essa descrição simplifica: Syrskyi tinha ideias antiquadas, mas também percebia o valor dos drones na guerra moderna. Na véspera de ser afastado, publicou um artigo em que disse ter ficado surpreendido com a descrição de um conflito entre ambos, e pediu desculpa a Fedorov caso o tivesse ofendido.


Drapatyi nunca estudou em Moscovo. Formou-se em 2004 no Instituto de Tropas Blindadas de Karkiv e entrou nas fileiras da 72.ª Brigada Mecanizada Separada — uma unidade ucraniana, treinada por ucranianos, num país que ainda não sabia que precisaria dela. Em 2014, já major, tornou-se conhecido do público por um vídeo: o seu veículo blindado a atravessar barricadas pró-russas nas ruas de Mariupol. Depois de travar um avanço russo perto de Kryvyi Rih e ajudar a libertar Kherson, em 2022, ajudou a estabilizar a frente perto de Karkiv no verão de 2024 e tornou-se pouco depois comandante das Forças Terrestres ucranianas. Em janeiro de 2025, recebeu também responsabilidades operacionais no eixo de Donetsk. A 1 de junho de 2025, um ataque russo atingiu um centro de formação militar sob a sua área de comando, matando pelo menos doze militares e ferindo dezenas. Drapatyi apresentou a demissão.


A demissão não interrompeu a carreira. Dois dias depois, recebeu uma função menos elevada na hierarquia, mas diretamente ligada às operações de combate: o comando das Forças Conjuntas. A verdadeira promoção só chegaria pouco mais de um ano depois.


Numa hierarquia militar tradicional — e o modelo soviético que Syrskyi encarnava é disso um exemplo bem documentado —, admitir publicamente a responsabilidade por uma tragédia é incomum, e pode comprometer uma carreira. A demissão de Drapatyi foi lida por muitos, um ano depois, como a prova de que ele era o tipo de comandante que o país sentia estar a faltar-lhe no topo.


O coronel Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea ucraniana responsável pela defesa aérea de curto alcance, apresentou a demissão a 16 de julho, no dia seguinte ao afastamento de Fedorov. Outros responsáveis militares manifestaram publicamente apoio a Fedorov nos dias seguintes.


Fedorov afirmou que Alex Karp, diretor executivo da Palantir, lhe telefonara a propor um projeto conjunto; disse também ter recebido ofertas de emprego de outras grandes empresas tecnológicas, que recusou. Zelensky, por seu lado, ofereceu-lhe outros cargos no governo. As manifestações continuaram mesmo depois da nomeação de Drapatyi, organizadas por um veterano, Dmytro Koziatynskyi, com uma nova convocatória marcada para poucos dias depois e a ameaça de um protesto "indefinido" caso Fedorov não regressasse ao cargo. Moscovo reagiu com desdém oficial: a troca de comandante-chefe, disse o Kremlin, não muda nada na linha da frente.


Portugal já viveu uma versão diferente desta pergunta — não a de uma multidão a tentar impor um general fora dos mecanismos constitucionais, mas a de uma mobilização popular em torno de um general que tentou usar um mecanismo constitucional esvaziado pela ditadura que o devia servir.


Em 1958, o general Humberto Delgado foi candidato formal à Presidência da República contra o candidato do regime de Salazar, ao abrigo da Constituição de 1933, que ainda previa a eleição presidencial direta. Chamavam-lhe "o General Sem Medo". As multidões que o seguiram pelo país — em número que surpreendeu o próprio regime — levaram a candidatura até às urnas: Delgado recebeu oficialmente 23,6% dos votos, num escrutínio marcado por fraude e ausência de fiscalização democrática. O canal constitucional existia. O regime impediu que funcionasse. Foi precisamente o impacto popular da candidatura de Delgado que levou o Estado Novo, no ano seguinte, a abolir a eleição presidencial direta e a substituí-la por um colégio eleitoral controlado — eliminando o mecanismo que a oposição conseguira transformar num desafio real ao regime.


Delgado foi afastado da vida militar, exilou-se, continuou a organizar oposição a partir de fora do país. Em fevereiro de 1965, foi assassinado pela polícia política do regime em território espanhol, perto de Villanueva del Fresno. O corpo, enterrado clandestinamente junto com o da sua secretária, Arajaryr Campos, foi encontrado pouco mais de dois meses depois.


Não há indício nenhum de que a história ucraniana vá pelo caminho de Delgado, e seria irresponsável sugeri-lo. O que os dois momentos partilham não é a ausência de um mecanismo formal — é a pergunta sobre se o mecanismo que existe ainda serve para o que devia servir. Em Portugal, o mecanismo existia no papel e foi esvaziado por dentro; a resposta demorou dezasseis anos, uma guerra colonial insustentável e, por fim, oficiais mais jovens a organizarem-se de dentro das próprias Forças Armadas — não uma multidão nas ruas — para derrubar o regime que o tornara inútil.


Zelensky descreveu a troca de comando como um "reset" — uma tentativa de recomeçar a gestão da guerra, não necessariamente uma cedência aos manifestantes. A sequência dos factos, porém, é difícil de separar dessa leitura: antes dos protestos, tinha escolhido manter Syrskyi e afastar Fedorov; seis dias de contestação depois, afastou também Syrskyi. Chame-se-lhe reorganização ou cedência: a rua conseguiu uma das suas duas exigências centrais. Syrskyi saiu, Drapatyi entrou. Fedorov, porém, não regressou — e é por isso que os protestos continuam.


A pergunta que fica em aberto não é se Drapatyi vai ser um bom comandante-chefe: o currículo, as três classes da Ordem de Bohdan Khmelnytskyi que já tem, e o modo como fala em responsabilidade e autoavaliação em vez de posições a manter a qualquer custo não permitem prever desempenho no comando máximo, mas tornam a expectativa compreensível. A pergunta é sobre o que Zelensky ainda não resolveu. Fedorov disse só aceitar voltar ao Ministério da Defesa, porque nenhum outro cargo lhe dá, nas suas palavras, "autoridade real" para acabar o que começou. O regresso de Fedorov ao Ministério da Defesa teria também um custo político para Zelensky: devolveria autoridade a um antigo colaborador que, depois dos protestos, começou a ser visto como um possível centro alternativo de poder. Portugal soube que um mecanismo formal, por si só, não garante que a vontade popular se torne poder real. A Ucrânia está, esta semana, a descobrir uma versão diferente da mesma distância: a rua exigiu a mudança de um comandante-chefe e, seis dias depois, conseguiu vê-la concretizada. Falta ver se consegue trazer de volta um ministro — e o que resta de Zelensky se conseguir.


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