O Mundial e os países que já não cabem no futebol
- Zé das Verdades Meias

- 7 de jun.
- 11 min de leitura
Mundial 2026 e identidade: Entre os lugares vazios no Canadá, a ansiedade dos Estados Unidos e a ausência italiana, o torneio expõe uma crise de pertença que o futebol não criou — apenas tornou visível.
O lugar vazio antes do apito inicial
No mapa digital do estádio, o lugar aparece como uma pequena mancha disponível. Não tem corpo, nem voz, nem a impaciência de alguém à espera que o jogo comece. É apenas um ponto entre muitos, preso a uma fila, a um setor, a uma promessa de boa visibilidade. O telemóvel mostra o preço. O polegar aproxima-se, hesita, afasta-se. A compra não acontece.
O gesto dura pouco. Talvez dois segundos. Não chega a ser uma decisão solene, daquelas que uma pessoa recorda depois. É mais parecido com fechar uma porta devagar para não fazer barulho.
A poucos dias do primeiro jogo em Toronto, essa pequena recusa diz mais sobre o Mundial de 2026 do que muitas fotografias oficiais. Não há bandeiras suficientes para esconder um estádio por vender. Não há cerimónia capaz de transformar automaticamente um evento em festa. Um país pode receber o maior torneio desportivo do mundo e, ainda assim, vê-lo passar diante de si como quem observa uma carruagem iluminada pela janela.
O futebol não deixou de comover. Ainda há homens que se lembram do cheiro da relva sintética de um campo municipal, raparigas que sabem de cor o nome de laterais que os adultos ignoram, emigrantes que torcem por uma seleção e sentem, por noventa minutos, uma terra que talvez já não lhes pertença inteiramente. O jogo conserva esse poder antigo de chamar as pessoas por zonas que a política quase nunca alcança. Uma camisola, um hino, uma falta mal assinalada, a cara de um guarda-redes antes de uma grande penalidade. Tudo parece excessivo. Tudo é excessivo. Por isso funciona.
Mas a entrada na festa tornou-se outra coisa.
O Canadá e o custo da festa nova
O Mundial chega à América do Norte com patrocinadores, zonas premium, pacotes de hospitalidade, regras de utilização de marcas, zonas de adeptos, bilhetes dinâmicos, aeroportos preparados, hotéis atentos e presidentes de câmara prontos a falar de legado. O povo aparece em todo o lado: nas imagens de promoção, nos vídeos, nas frases sobre comunidade, diversidade e paixão global. Aparece como cor. Como ruído. Como prova visual de que o evento ainda tem carne.
Depois chega a página de pagamento.
No Canadá, o contraste ficou exposto antes de a bola rolar. Toronto e Vancouver, cidades habituadas a vender ao mundo uma imagem de pluralidade urbana, receberam o torneio com milhares de lugares ainda livres. A equipa nacional talvez seja a melhor da sua história. O país voltou a um Mundial em 2022, depois de décadas de ausência, e agora joga em casa. Haveria ali matéria para uma comoção nova, menos hereditária do que a mexicana, menos programática do que a americana. Uma relação ainda em formação. Uma espécie de descoberta.
Só que a descoberta custa caro.
Um bilhete de topo a milhares de dólares não é apenas um preço. É uma fronteira. Não tem arame, nem polícia, nem carimbo, mas separa com eficácia. De um lado, a experiência. Do outro, o entusiasmo remoto, doméstico, talvez resignado. A pessoa que não compra o bilhete não abandona necessariamente o futebol. Abandona a pretensão de estar presente no momento em que lhe dizem que o futebol pertence a todos.
O Canadá podia ter oferecido ao Mundial uma coisa rara: uma festa menos saturada de mitologia. O México tem o futebol inscrito no quotidiano, nas praças, nos clubes, nas conversas de família. Os Estados Unidos vivem há décadas numa relação de expectativa com o jogo, sempre à espera de que ele atravesse finalmente a última porta da cultura nacional. O Canadá estava noutro ponto. Não era uma potência emocional do futebol, nem uma potência indiferente. Era um lugar onde o torneio podia ganhar uma forma própria, mais discreta, talvez mais urbana, talvez mais dispersa.
Mas uma festa nova precisa de ser acessível antes de ser memorável.
Não basta mudar o nome de um estádio. Não basta vestir um edifício como se fosse uma bola. Não basta que um primeiro-ministro beije o troféu diante das câmaras. A posse de um Mundial faz-se em gestos menos oficiais: uma camisola lavada na véspera, um café que tira duas mesas para caber mais gente, uma criança que pergunta a que horas joga o Canadá, um homem que não seguia futebol e, de repente, sabe o nome do ponta-de-lança. As grandes competições só se tornam populares quando deixam rastos em rotinas pequenas.
A FIFA sabe organizar um torneio. Não sabe fabricar esse tipo de intimidade. Pode alugá-la, filmá-la, vendê-la em pacotes, mas não a produz.
Talvez a bola resolva parte do problema. O futebol tem uma tendência irritante para desmentir previsões elegantes. Um golo cedo, uma expulsão absurda, um guarda-redes em estado de graça, uma criança apanhada pela câmara a chorar no colo do pai — e, subitamente, a análise parece ter envelhecido mal. Há sempre um momento em que o jogo escapa aos donos. Continua a haver relva, erro, medo, vaidade, talento, cansaço. Continua a haver um avançado que decide rematar quando devia passar. Essa margem de imprevisibilidade é o que resta de democrático no espetáculo.
Ainda assim, o lugar vazio fica
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Os Estados Unidos e a pergunta que não passa
Nos Estados Unidos, o vazio tem outra forma. Não é uma cadeira por vender. É uma pergunta que dura há muito tempo: quando é que o futebol deixa de ser futuro?
O país recebe a maior parte dos jogos. Tem estádios gigantescos, transmissões em horário nobre, marcas, celebridades, equipas de produção e uma capacidade incomparável de transformar competições em narrativas nacionais. Nenhum outro país sabe tão bem construir uma semana de expectativa em torno de um jogo. A América inventou uma arte própria de tornar o desporto inevitável, com música, estatística, publicidade, heroísmo, família, consumo e memória. O futebol, porém, continua a entrar nessa sala como alguém que foi convidado, mas ainda não sabe onde se sentar.
A seleção americana carrega essa hesitação. Em 2022, no Qatar, havia juventude, promessa, uma energia de equipa em construção. Perder com os Países Baixos não destruiu a sensação de avanço. Parecia haver tempo. Quatro anos inteiros até ao Mundial em casa. Quatro anos para amadurecer, corrigir, fixar uma identidade, convencer um país inteiro de que a bola redonda já não era uma experiência lateral.
Os quatro anos passaram.
Agora há talento, há ansiedade e há a obrigação de não desperdiçar o palco. Christian Pulisic, Weston McKennie, Tyler Adams, Gio Reyna, Folarin Balogun e outros nomes carregam mais do que uma campanha desportiva. Carregam uma pergunta cultural. Se a equipa americana fizer um bom Mundial, dir-se-á que o futebol deu mais um passo para dentro da vida nacional. Se falhar cedo, haverá quem veja nisso uma interrupção, talvez até um retrocesso. É injusto, como quase todos os julgamentos feitos em torneios curtos. Mas os Mundiais vivem dessas injustiças.
Um país pode trabalhar durante vinte anos e ser julgado por uma bola no poste.
O futebol americano, o basquetebol e o basebol não precisam de explicar por que pertencem à imaginação dos Estados Unidos. Estão lá. Habitam a infância, o cinema, os feriados, os anúncios, as conversas entre pais e filhos, os corpos dos bairros e das universidades. O futebol ainda precisa, muitas vezes, de apresentar o seu caso. A liga cresceu. As academias melhoraram. Há jogadores americanos em clubes europeus relevantes. As bancadas já não são uma curiosidade sociológica. Mas entre praticar um desporto e sonhar através dele há uma distância que não se mede em inscrições federativas.
O sonho tem outro tipo de infraestrutura.
Pochettino pode pedir crença. Os dirigentes podem falar de legado. As televisões podem vender o torneio como ponto de viragem. Os adeptos mais antigos podem sentir que chegou, finalmente, o momento que lhes foi prometido desde a infância. Mas o futebol só se torna cultura plena quando deixa de precisar de pedir autorização. Quando uma derrota passa a doer sem explicação. Quando um miúdo não escolhe o jogo porque o pai quer, nem porque a escola oferece, nem porque é uma atividade saudável, mas porque aquela bola, aquela finta, aquele nome, aquele som do estádio lhe parecem inevitáveis.
O Mundial americano será medido em resultados, mas talvez o seu verdadeiro teste venha depois. No dia seguinte. Na semana seguinte. Quando já não houver zonas de adeptos, nem contagens decrescentes, nem anúncios com crianças de todas as origens a correr em câmara lenta. Ficará alguma coisa no corpo do país? Ou o futebol voltará a ser essa promessa muito bem organizada, sempre pronta a começar no futuro?
A Itália e a porta que não abriu
O Canadá olha para o preço da festa. Os Estados Unidos olham para o medo de não a possuir. A Itália, sem entrar, obriga a olhar para a porta.
A ausência italiana tem uma violência particular. Não é a violência do inédito absoluto. As grandes seleções também falham. O futebol conserva, ao menos em teoria, a capacidade de humilhar brasões antigos. Mas a Itália fora de três Mundiais consecutivos já não parece apenas um acidente. É demasiado longa para ser tratada como azar, demasiado simbólica para ser reduzida a tática.
Em 2006, a Itália ganhou o Mundial à França. Para muitos italianos, essa noite ainda pertence a uma memória física: praças cheias, buzinas, camisolas azuis, uma juventude que dormiu pouco e acordou campeã. Quatro títulos mundiais, uma tradição quase imperial, a sensação de que certos países podiam cair, sofrer, discutir, mas acabavam por regressar ao centro. A história parecia uma rede de segurança.
A história não defende penáltis.
O futebol italiano envelheceu com o país. Envelheceu nos números, na demografia, na dificuldade em renovar talentos, mas também numa forma de pensar. Durante anos, a explicação mais cómoda foi repetir que havia estrangeiros a mais na Serie A. A frase circula bem porque parece desportiva antes de parecer política. Fala de clubes, minutos de jogo, oportunidades para jovens nacionais. Mas a palavra "estrangeiro", no futebol europeu, carrega quase sempre mais peso do que aparenta.
Quem conta como italiano? Quem é visto como promessa nacional? Quem é apenas tolerado como presença social antes de ser aceite como símbolo?
Há crianças nascidas em Itália que cresceram em italiano, estudaram em escolas italianas, viram jogos italianos, discutiram árbitros italianos, mas que durante anos não foram plenamente italianas para o Estado. A bola pode não perguntar pelo passaporte; a seleção pergunta. A camisola nacional, antes de ser sonho, é documento.
Não é preciso transformar a lei de cidadania numa explicação total para a decadência italiana. Isso seria uma facilidade. Houve erros de formação, de investimento, de modelo competitivo, de gestão federativa, de cultura tática. Houve academias que falharam, clubes que preferiram comprar feito, treinadores agarrados a prudências antigas, jovens sem espaço, bairros sem campos, escolas sem continuidade. Nenhuma seleção desaparece por uma única causa.
Mas um país que reconhece tarde parte da sua juventude começa a perder antes do apito inicial.
O espelho da França e o retrato antigo
A França, com todas as suas contradições, mostrou há muito que uma seleção pode tornar visível um país que o discurso político hesita em aceitar. A equipa francesa não resolveu o racismo francês, nem absolveu o colonialismo, nem pacificou as periferias. Em certos momentos, até tornou tudo mais tenso. Mas pôs em campo uma evidência: a França real era mais vasta do que a França imaginada pelos guardiões da pureza nacional. Espanha mudou. A Alemanha mudou. A Inglaterra mudou. Nenhuma dessas seleções se tornou moralmente superior por ter jogadores de origens diversas. Apenas deixou de poder fingir que a nação cabia no retrato antigo.
A Itália, por demasiados anos, pareceu preferir o retrato.
É aí que a ausência italiana fala para lá do futebol. A Europa envelhecida precisa de jovens, de trabalhadores, de filhos de migrantes, de escolas ainda cheias, de bairros que não se transformem em museus. Precisa dessa energia para pagar pensões, cuidar de idosos, manter cidades abertas, renovar ofícios, sustentar clubes, inventar futuros. Depois, quando essa energia pede símbolos, a hesitação começa. O trabalho, sim. Os impostos, sim. A presença, sim. O hino? A bandeira? A camisola?
As nações querem vida nova sem mexer na fotografia da sala.
O Mundial como espelho de países em crise
O Mundial de 2026 encontra países em diferentes fases dessa dificuldade. O Canadá recebe jogos, mas descobre que uma celebração global pode ficar suspensa quando a população comum se sente convidada apenas em teoria. Os Estados Unidos recebem o centro do torneio, mas ainda se perguntam se o futebol se tornou verdadeiramente seu. A Itália fica fora e vê regressar, em forma de derrota, perguntas que adiou sobre cidadania, raça, juventude e pertença.
O México, mesmo menos presente neste recorte, lembra outra coisa: há países onde o futebol não precisa de pedagogia. Existe antes da organização, antes do patrocínio, antes da candidatura conjunta. É uma língua. Não uma política pública. Isso não torna o México imune a problemas, nem transforma paixão em justiça. Mas muda a textura do torneio. Onde o jogo já pertence ao quotidiano, a FIFA chega tarde. Onde ainda procura raízes, chega com peso excessivo.
As grandes competições sempre serviram para encenar países. Mussolini percebeu-o cedo, com a brutal clareza dos regimes que usam a unidade como espetáculo. As democracias também se serviram do futebol, embora com outra linguagem. A França de 1998, a Espanha de 2010, a Alemanha de 2014: cada equipa campeã foi lida como uma forma de país, às vezes com excesso de esperança, às vezes com ingenuidade, quase sempre com vontade de encontrar numa equipa aquilo que a política não conseguia organizar.
Hoje, essa operação é mais difícil. Os países estão mais caros, mais partidos, mais desconfiados. As pessoas reconhecem a diferença entre comunidade e campanha. Sabem quando são chamadas para dar atmosfera a um evento que não lhes pertence. Sabem quando a palavra "inclusão" aparece ao lado de preços que excluem. Sabem quando lhes pedem emoção depois de lhes terem vendido a distância.
O futebol que escapa aos donos
O lugar vazio em Toronto não prova que o Mundial canadiano falhou. Um torneio muda depressa. Um jogo transforma uma cidade. Uma vitória inventa memórias à força. Mas aquele lugar, antes do começo, tem a sinceridade involuntária dos objetos sem retórica. Está ali. Disponível. Caro. Luminoso. À espera de alguém.
À mesma hora, haverá gente a ver em casa. Em bares, em cozinhas, em ecrãs pequenos, em transmissões ligeiramente atrasadas, em cafés onde alguém grita golo antes de a imagem chegar à mesa do fundo. Haverá imigrantes a torcer por dois países e a sentir culpa por ambos. Haverá crianças a escolher jogadores por causa do cabelo, do número ou da maneira de correr. Haverá adultos que não comprariam um bilhete, mas que se deixam apanhar pela curva de um remate. O futebol sobrevive muitas vezes longe do sítio onde é monetizado.
Talvez tenha sido sempre assim. A FIFA administra, vende, disciplina, protege marcas, pune usos indevidos, organiza calendários, escolhe sedes, distribui jogos. Mas não cria a apropriação íntima. Uma mulher que nunca ligou a futebol e começa a seguir a seleção porque a filha sabe os nomes todos não entra em nenhum relatório de legado. Um homem que muda de cidade e continua a consultar o resultado do clube de infância não interessa a patrocinadores. Uma criança que fica presa a uma equipa por uma razão absurda não sabe que acabou de entrar numa economia global.
É nessa zona que o futebol ainda escapa.
Duas competições em campo
O Mundial de 2026 será, oficialmente, uma competição entre seleções. Terá grupos, eliminatórias, favoritos, surpresas, lesões, polémicas de arbitragem e imagens repetidas durante anos. Alguém levantará a taça. Haverá confetes. Um capitão chorará. Um país dirá que nunca esquecerá. Outro dirá que foi roubado. Tudo isso pertence ao teatro normal do jogo.
Mas há outra competição, menos visível, a decorrer por baixo. Entre preço e pertença. Entre documento e identidade. Entre espetáculo e povo. Entre países reais e os países que ainda gostam de imaginar que são.
O futebol tem uma crueldade útil: põe abstrações a correr. Cidadania aparece num avançado que não pôde vestir uma camisola a tempo. Classe social aparece num adepto que fecha a página de compra. Soberania aparece numa candidatura conjunta atravessada por tensões comerciais e políticas. Cultura aparece num país que quer desesperadamente sentir um jogo que milhões já praticam. Nada disto se resolve em campo, mas tudo passa por ali, nem que seja por um instante.
No fim, talvez a imagem mais duradoura não venha de uma baliza. Talvez venha desse assento no mapa digital, ainda por ocupar. Um lugar sem rosto, à espera de alguém que talvez ame o futebol, talvez ame o país, talvez queira apenas dizer que esteve lá quando começou. O dedo aproxima-se outra vez. O preço não muda. A festa chama.
Do outro lado do ecrã, alguém faz contas.




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