A pergunta que os 250 anos dos EUA não querem responder
- Alberto Carvalho

- 18 de jul.
- 3 min de leitura
OPINIÃO · Poder · Estados Unidos · Aniversários, memória e ficção distópica · Alberto Carvalho
Aos 250 anos, uma nação descobre que celebrar não é o mesmo que corrigir-se — e que a ansiedade que a história hesita em nomear já apareceu, há muito, na ficção
Um aniversário nacional funciona como um pretexto social — talvez o único que uma sociedade se dá a si própria com regularidade — para confrontar os ideais com que se fundou com a realidade em que hoje vive. Quanto mais redondo o número, mais gente sente essa obrigação.
A história sugere que os grandes marcos nacionais raramente correm em paz. Coincidem, com uma regularidade quase incómoda, com crises políticas, guerras, recessões e um ceticismo popular que os discursos oficiais preferem não mencionar. Tornam-se, por isso, palco tanto de celebração como de protesto — e essa tensão é, provavelmente, o sinal mais honesto de que a data ainda significa alguma coisa para quem a vive.
Há um risco maior do que o protesto: a comemoração transformar-se em mercadoria — bandeiras em toalhas de mesa, o patriotismo embalado e vendido de volta ao cidadão como produto sazonal. Isso produz um cinismo previsível: a data transforma-se em campanha de vendas, e perde, pelo caminho, o convite à reflexão que a tornava relevante.
Os grandes aniversários repetem, também, um padrão mais antigo e mais perigoso: celebrar o progresso técnico e territorial como se fosse, por si só, prova de justiça cumprida. Estradas, fábricas, fronteiras alargadas — tudo isso aconteceu, de facto, ao lado de fraturas sociais que continuaram abertas, e de grupos inteiros que ficaram de fora dos direitos que a própria celebração dizia garantir a todos.
Por trás disto está uma questão de desenho institucional. Uma sociedade que se pretende democrática precisa de manter viva a capacidade de se corrigir a si própria — de rever as suas próprias regras fundamentais quando deixam de servir. Um bloqueio prolongado nessa capacidade transforma a ideia de regras democráticas vivas numa formalidade distante, sem correspondência na prática quotidiana.
O bloqueio institucional tem, em geral, uma origem mais silenciosa: a erosão da capacidade cívica de dialogar, discutir e decidir em conjunto — a competência mais básica de qualquer democracia, e também a mais fácil de deixar atrofiar. Reconstruir essa competência, começando pela escala local, é uma condição prévia para qualquer tentativa séria de reescrever um pacto social ou constitucional. Uma reforma sem essa base deliberativa tende a ser imposta, e as reformas impostas raramente duram.
A literatura distópica contemporânea faz, cada vez mais, um trabalho que a história ainda hesita em fazer com a mesma clareza. Mundos de vigilância biométrica governamental, de controlo de dados por corporações, de cidadãos declarados "não verificados" e por isso excluídos da própria cidadania — este género tornou-se o principal espaço onde essa ansiedade específica ganha nome e forma.
O argumento contrário merece ser levado a sério mesmo quando incomoda: toda a geração encontra a sua distopia preferida, e toda a sociedade sobrevive, de alguma forma, ao seu próprio pessimismo cíclico. Aniversários anteriores também produziram profecias sombrias que o tempo acabou por desmentir. Vale a pena examinar, ainda assim, a escala a que essa ficção passou a soar mais precisa do que os relatos verificáveis sobre o presente — uma precisão que, há uma geração, teria soado como exagero de género.
A coincidência literária revela algo sobre a capacidade coletiva de nomear o que se está a viver enquanto ainda está a acontecer — capacidade que nenhum livro, por si só, substitui. Tratar um aniversário nacional como celebração pura, sem abrir esse espaço de reconhecimento, desperdiça exatamente o instrumento que qualquer nação fundada na ideia de autocorreção deveria saber usar.
A pergunta que um aniversário redondo devia obrigar a fazer é simples: porque é que essas ficções distópicas soam tão familiares — e ninguém, ainda, quer responder em voz alta.




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