Rússia ataca Leipzig com drones e Alemanha responde na Ucrânia
Segundo responsáveis alemães e europeus, a Rússia visou esta semana, com drones armados, o aeroporto de Leipzig, um aeroporto alemão de grande utilização. Um dos engenhos parecia ter como alvo pelo menos um avião de carga ucraniano. Falharam. Avariaram. Não houve danos nem vítimas.
Em Berlim, a reação não se afastou do padrão repetido depois de provocações anteriores. Em Bruxelas, o secretário-geral da NATO, Mark Rutte, disse na quarta-feira que a Rússia se tornou cada vez mais imprudente e acusou-a de um aumento de atividades maliciosas a visar diretamente o nosso território, juntando na mesma frase ataques incendiários a fábricas de armamento que ajudam a Ucrânia e o caso falhado de Leipzig. De Moscovo, Putin acusou os alemães de terem plantado provas para atribuir a culpa à Rússia.
O serviço de informações alemão não tem o mandato estatutário nem as capacidades da CIA para operações encobertas em solo estrangeiro. É, por desenho, um aparelho de recolha de informação. A reforma em curso que lhe daria mais margem executiva confina-se, por ora, ao cibernético. A Alemanha tem, aquém de uma declaração de guerra, opções legais limitadas para prejudicar adversários para além de sanções diplomáticas e económicas. Quando agentes russos usaram o agente neurotóxico Novichok contra um antigo espião em Salisbury, em 2018, a maioria dos países da UE e os EUA expulsou dezenas de diplomatas russos, incluindo um número considerável tido como ligado aos serviços de espionagem.
Berlim continua a dizer que uma linha foi cruzada. Dizer isso obriga, perante a opinião pública, a agir de forma diferente da vez anterior. Como esse instrumento diferente não existe em casa, o preço acaba por ser cobrado noutro lado, por outro exército.
Nico Lange, o antigo chefe de gabinete do Ministério da Defesa alemão, resumiu a doutrina que os responsáveis já aplicam sem a citar: por cada ataque híbrido, a Alemanha devia aumentar a sua assistência à Ucrânia. Putin precisa de ser pressionado onde dói, disse Lange. Defendeu o bloqueio da frota sombra russa de petroleiros ilícitos, a proibição de circulação livre de diplomatas russos entre países da UE e mais pressão sobre países que ajudam Moscovo a contornar sanções da UE.
Na terça-feira, um responsável alemão disse que Berlim iria enviar novas baterias de defesa aérea e milhares de drones de ataque para a Ucrânia e intensificar a cooperação de informações com Kiev. É com esse material que o apoio financeiro e militar europeu está a ajudar a Ucrânia a lançar ataques no interior da Rússia, atingindo instalações cruciais para a indústria petrolífera geradora de receita e bases logísticas vitais para a guerra, e a prejudicar a capacidade de Moscovo reabastecer as suas forças na península da Crimeia, ocupada desde 2014. O que tinha sido um sucesso militar russo transformou-se num fardo que consome recursos.
Responsáveis alemães explicaram que calibraram a resposta a Leipzig porque os drones avariaram. O chanceler Friedrich Merz quer manter uma margem para uma resposta mais dura caso a Rússia continue ou intensifique este tipo de ataques. Para já, a mensagem mais importante era uma resposta medida que sinalizasse a Moscovo que nada do que a Rússia fizer vai abalar o apoio de Berlim à Ucrânia.
Esta semana, responsáveis alemães disseram estar a investigar dois ataques falhados a subestações elétricas, sem indicar responsáveis. A polícia encontrou, em dois locais distintos, fogo de artifício montado em campos, concebido para disparar material condutor contra linhas de alta tensão e provocar curto-circuitos, depois de explosões que já tinham interrompido temporariamente a transmissão de eletricidade nas duas zonas. O método foi confirmado. O autor não foi nomeado.
Em toda a Europa há apoio alargado a sanções ou expulsões limitadas visando cidadãos russos, ainda que muitos responsáveis defendam que uma reação mais dura devia passar pela UE ou pela NATO. Os membros europeus da NATO não têm mostrado apetite para usar a aliança, assente numa doutrina de defesa coletiva, para lá de defender as suas fronteiras e ajudar a canalizar ajuda militar para a Ucrânia. Procuram, em vez disso, criar dilemas para Putin através do reforço do apoio a Kiev. Tentativas de ação mais forte na UE ou na NATO são frequentemente travadas pela exigência de consenso.
A margem de manobra está também limitada pela lista de medidas já tomadas. Muitas das opções que restam são complexas ou dispendiosas, como impedir países terceiros de ajudar a Rússia a contornar sanções, ou politicamente dolorosas, como acabar por completo com as importações de gás natural russo.
Só no mês passado, responsáveis europeus atribuíram diretamente à Rússia 20 incidentes de sabotagem e atividades semelhantes, segundo o centro de estudos Sahaidachnyi Security Center, da Ucrânia. Um dos números mensais mais elevados desde a invasão em larga escala de 2022.
Na quarta-feira, em Bruxelas, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, disse junto de Rutte que a Europa e a NATO não se vão limitar a manter a pressão sobre a Rússia, vamos aumentá-la.
Enquanto von der Leyen prometia aumentar a pressão, a polícia descrevia o método dos ataques às subestações e retinha a atribuição. É, outra vez, a mesma sequência de Leipzig. Descrever o procedimento, reter o autor, aguardar para ver se o próximo engenho funciona. A pressão aumenta, como prometido. Só que aumenta do lado errado da fronteira para se poder chamar dissuasão.





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