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  • O que estava arquivado

    Existe, no Arquivo Nacional Torre do Tombo, em Lisboa, um fundo com o nome da polícia política que o produziu. Chama-se Arquivo PIDE/DGS. Contém processos abertos a cidadãos suspeitos de subversão, relatórios de vigilância, fichas de informadores, transcrições de interrogatórios. Está parcialmente acessível ao público desde os anos oitenta. Há pessoas vivas que foram lá ler o que havia sido escrito sobre elas. A extrema-direita não chegou de fora. Estava guardada. Capa editorial de “O Que Estava Arquivado”, publicada sob o selo Atlantic Lisbon. O que esse arquivo contém não é apenas o registo de um regime. É o registo de uma gramática — a gramática de um mundo em que era permitido designar quem não merecia estar onde estava, apontar quem tinha as ideias erradas, registar quem frequentava as pessoas erradas. Uma gramática que funcionou durante quarenta e oito anos porque tinha o respaldo da lei, mas que não precisava da lei para existir. Precisava apenas de permissão. Quando o regime caiu, em abril de 1974, essa permissão foi retirada. Não a gramática. A gramática ficou — guardada, arquivada, esperando. A ascensão da extrema-direita na Europa e nos Estados Unidos tem sido descrita, repetidamente, como ruptura. Uma quebra com a ordem estabelecida. Um fenómeno novo, alimentado por redes sociais, por crises económicas, por migrações, por uma classe política que perdeu o contacto com o eleitorado. Cada uma destas explicações contém alguma verdade. Nenhuma chega ao que está por baixo. O que está por baixo não é novo. É a reactivação de permissões que existiam antes de 1945, antes de 1974, antes de todos os momentos que escolhemos como marcos da ruptura com o passado. Permissões que foram suspensas — pelo horror do que tinham produzido, pelo constrangimento colectivo de quem sabia o que tinha acontecido e preferia não repetir. Suspensas, não abolidas. Arquivadas, não destruídas. O que mudou, nas últimas duas décadas, não foi a sociedade. Foi o custo de exprimir certas coisas em público. Esse custo baixou. E quando o custo baixa, as coisas voltam. Portugal é um caso de estudo particular, porque a memória aqui é mais curta no sentido mais literal: a ditadura terminou em 1974. Há pessoas a votar hoje que nasceram antes do 25 de Abril. O intervalo entre o fim do autoritarismo e o regresso de um partido com retórica autoritária ao parlamento é, em Portugal, de menos de cinquenta anos. Em França, na Alemanha, na Itália, os intervalos são mais longos — mas a lógica é a mesma. Durante décadas, Portugal foi apresentado, dentro e fora do país, como excepção. Aqui não — essa frase, dita ou implícita, atravessou os anos noventa, os anos dois mil, os anos dez. O país que vivera mais tempo sob ditadura na Europa Ocidental do século XX seria, paradoxalmente, o mais imune ao regresso do que a ditadura representava. A explicação variava conforme quem a dava: a memória viva, a fragilidade democrática que tornava os portugueses mais vigilantes, a ausência de uma direita radical organizada. Em 2019, o Chega elegeu um deputado. Em 2024, elegeu cinquenta. A excepção não durou. Não porque Portugal fosse diferente do que se pensava — mas porque nunca tinha sido excepção. Tinha sido um país onde a permissão ainda não tinha sido dada. Quando foi dada, o resultado foi o que se viu. A palavra permissão é importante aqui, porque desloca a análise de onde ela costuma ficar. A maioria das explicações para a ascensão da extrema-direita centra-se nas causas — o que empurrou os eleitores para lá. Desigualdade, insegurança, identidade ameaçada, elites distantes. Estas causas existem. Mas explicam o combustível, não a ignição. A ignição é outra coisa. É o momento em que alguém com autoridade — um político, um comentador, um familiar mais velho — diz algo que não era dito há anos, e não é corrigido. Não pela lei, não pelos presentes, não pelo silêncio desconfortável que antes seguia certas frases. É dito e fica. E quando fica, o que ficou não é apenas a frase. É a sinalização de que aquele território voltou a estar disponível. Os historiadores do autoritarismo europeu descreveram este processo em contextos diferentes, mas o padrão é reconhecível: antes de os regimes mudarem, a linguagem muda. Não a linguagem oficial — a linguagem tolerada. O que se pode dizer numa mesa de café. O que se pode escrever num comentário sem ser moderado. O que um político pode afirmar numa entrevista sem perder aliados. Quando essa linguagem se alarga, o mapa do permitido alarga-se com ela. Há uma objecção óbvia a esta leitura: se as permissões nunca foram abolidas, só suspensas, porque é que a suspensão durou tanto? Porque é que o período entre 1945 e o início do século XXI foi, em comparação com o que veio antes e com o que está a chegar, relativamente estável? A resposta tem várias camadas, mas uma delas é esta: a suspensão foi mantida por uma geração que sabia o que tinha acontecido. Não como abstracção histórica — como experiência. As pessoas que construíram as democracias europeias do pós-guerra tinham visto o que as permissões produziam quando dadas sem controlo. A memória funcionava como travão. Esse travão não é eterno. Não porque as sociedades sejam congenitamente propensas ao autoritarismo. Mas porque a memória tem uma vida útil que não coincide com a duração dos processos históricos que tenta conter. As gerações que viveram o que não devia ser repetido envelheceram e morreram. O que ficou foi a narrativa da ruptura — a ideia de que havia um antes e um depois, e que o depois era irreversível. Essa narrativa, repetida como garantia, tornou-se ela própria um obstáculo à vigilância. Se a ruptura era definitiva, não havia nada que vigiar. A extrema-direita contemporânea não surgiu apesar dessa narrativa. Surgiu em parte por causa dela. De Lisboa, esta dinâmica tem uma nitidez particular. Portugal não teve a narrativa da ruptura definitiva que a Alemanha teve, com o peso da culpa colectiva institucionalizada, ou que a França construiu em torno da Résistance. A narrativa portuguesa do 25 de Abril foi sempre mais ambígua — uma revolução feita por militares, uma transição negociada, um passado que não foi completamente julgado. Os agentes da PIDE não foram, na sua grande maioria, julgados. Muitos continuaram a viver nas mesmas cidades, nas mesmas ruas. O arquivo existe — mas o processo público que lhe devia ter correspondido não teve a mesma intensidade que noutros países. Talvez por isso, em Portugal, o regresso das permissões não precisou de muito disfarce. Não chegou vestido de novidade nem de revolução. Chegou como o que toda a gente pensa mas ninguém diz — a frase que o Chega e os seus congéneres em toda a Europa repetem como se fosse uma descoberta, quando é apenas o levantamento de um constrangimento. O que toda a gente pensava, afinal, não era o que toda a gente pensava. Era o que uma parte da sociedade pensava e que, durante um período, não tinha permissão para dizer em público. Quando a permissão voltou, pareceu uma maioria. Como sempre parece. O que está a acontecer não é o fim da democracia liberal. Ainda não. É algo mais subtil e, de certa forma, mais perturbador: é a redefinição do que é tolerável dentro da democracia. A extrema-direita contemporânea, na maior parte dos casos, não chegou ao poder pela força. Chegou pelo voto. Não quebrou as regras — usou-as. E usou-as para alargar o mapa do permitido até incluir coisas que, há vinte anos, teriam custado uma carreira política. Esse alargamento é o processo. Não o resultado — o processo. O resultado, se o processo continuar, é outra coisa. Mas estamos ainda na fase em que é possível observar o mecanismo a funcionar: a linguagem que alarga, as permissões que regressam, o arquivo que começa a ser consultado de outra forma. Em Lisboa, o fundo PIDE/DGS continua no Torre do Tombo. As caixas estão lá. A gramática que contêm não desapareceu quando as caixas foram fechadas. Nunca desaparece. Fica à espera de ser de novo ensinada — não como história, mas como possibilidade.

  • O mundo acabou. Ainda bem.

    Não se assuste com o título. Ele é apenas a forma mais sincera de começar. O mundo acabou, sim. Não ontem, não com uma guerra, não com uma pandemia, mas em silêncio. Acabou aos poucos, enquanto olhávamos para ecrãs e fingíamos que estávamos vivos. Acabou quando as palavras perderam peso, quando as notícias se tornaram ruído, quando a verdade e a mentira se tornaram gémeas siamesas, impossíveis de separar. Mas há uma boa notícia escondida nisto: quando um mundo acaba, outro começa. O fim de um mundo não é uma explosão, é um cansaço. Uma espécie de exaustão coletiva que nos deixa vazios de sentido, como se a vida tivesse perdido a sua gravidade. E, talvez, seja justamente nesse vazio que se pode recomeçar. Porque só quando as coisas deixam de fazer sentido é que nos lembramos de perguntar o que é que, afinal, importa. A pressa em que vivemos, esta corrida para nada, deixou-nos órfãos do silêncio. Acreditámos que estar informados era o mesmo que estar lúcidos. Acreditámos que partilhar frases soltas era o mesmo que pensar. E, no entanto, nunca fomos tão desinformados, nunca pensamos tão pouco. O mundo acabou quando deixámos de olhar verdadeiramente uns para os outros. Quando reduzimos tudo a um “scroll” infinito. Quando desistimos da lentidão. Escrever isto é como soprar poeira de um espelho. O que lhe queremos dizer não é novo, mas talvez seja urgente: é preciso parar. Não por desistência, mas por resistência. Parar para escutar o que o ruído tapa. Parar para ler uma frase inteira sem olhar para o relógio. Parar para sentir o desconforto de não ter nada para dizer. Parar para que algo volte a nascer. Este texto é a nossa primeira carta. Não uma carta qualquer, mas uma carta para os que ainda lêem. Para aqueles que não esperam fórmulas rápidas nem promessas fáceis. Aqui não vamos oferecer respostas prontas, nem textos embalados para consumo imediato. A nossa ambição é outra: oferecer algo que o obrigue a parar. A sentir que a leitura é um ato íntimo, quase secreto, um pacto entre quem escreve e quem lê. E talvez esteja a perguntar: por que razão o mundo acabou? A resposta não cabe num parágrafo, nem num ensaio. Mas podemos dizer-lhe o que vemos: um tempo que se contenta com frases de dez palavras, um espaço público saturado de ódio e sarcasmo, uma política que deixou de imaginar o futuro, uma cultura que já não se recorda do que é transcendente. Vemos adultos exaustos a fingirem alegria, jovens perdidos a fingirem força, e uma solidão que já não é romântica, é apenas mecânica. O mundo acabou porque nos tornámos espectadores do nosso próprio vazio. Mas — e isto é o que importa — há algo de libertador nisto. Quando uma casa cai, vemos o céu. Quando um ruído cessa, ouvimos os pássaros. Quando as palavras gastas morrem, podem nascer novas. A ruína é também um lugar fértil. É por isso que estamos aqui. Não para erguer monumentos, mas para acender pequenas velas. Não para anunciar soluções, mas para lembrar que há perguntas que valem mais do que qualquer resposta. Se ficou até esta linha, então pertence a uma minoria. A minoria dos que ainda acreditam que vale a pena demorar-se numa página, como quem se demora a olhar para um rio. Este é o segundo texto da nossa newsletter, e talvez seja o único. Não prometemos datas, não prometemos regularidade. Só prometemos escrever quando tivermos algo que valha o seu tempo. Se não formos capazes disso, não haverá texto nenhum. Porque o que menos queremos é contribuir para o ruído. Talvez tenha chegado aqui por acaso, talvez porque alguém lhe falou deste espaço, ou porque uma curiosidade antiga o trouxe. Mas, agora que está aqui, pedimos-lhe apenas uma coisa: não leia com pressa. Leia como quem escuta um amigo ao fim da tarde. Como quem abre uma carta que não esperava. O mundo acabou — mas a vida não. Há um outro mundo a começar, e talvez ele não esteja no futuro, mas nas pequenas coisas que decidimos não perder: um abraço demorado, uma ideia que se escreve devagar, uma palavra que não se vende. Esse mundo começa quando deixamos de olhar para o que morreu e começamos a cuidar do que pode nascer. Se ficou até ao fim, então já fez parte do nosso gesto: parou. E, por isso, já valeu a pena escrever. Até breve, quando houver algo que justifique este breve milagre que é partilhar palavras. AC Rosto Esquecido de um Mundo Que Já Não Vê #CartaParaQuemLê #OQueImporta #OValorDoSilêncio #AlbertoCarvalho #LerDevagar #Esperança #ReflexãoProfunda

  • Musk, SpaceX e a zona cinzenta da IA

    CONTEXTO · Economia e Poder · EUA/Europa · Tecnologia e IA. Em 2018, Elon Musk pediu 100 milhões de dólares emprestados à SpaceX. Segundo documentos internos divulgados publicamente, o recurso à empresa espacial não ficou por esse primeiro empréstimo: entre 2018 e 2020, o montante total terá chegado a 500 milhões de dólares, em condições favoráveis, com garantia em ações da própria SpaceX. O dinheiro terá sido devolvido até ao final de 2021, com juros. Musk, SpaceX, X e a zona cinzenta do poder tecnológico. A operação não pesa apenas pelo valor. Pesa pelo lugar da SpaceX no conjunto de empresas associadas a Musk. A empresa fundada em 2002 deixou de ser apenas a companhia dos foguetões reutilizáveis, dos contratos espaciais, dos satélites e da Starlink. Tornou-se o ativo mais valioso de um sistema empresarial que toca a Tesla, o X, a xAI e outras apostas ligadas ao mesmo fundador. Quando esse ativo serve também como fonte de liquidez, o problema deixa de ser doméstico. Passa a ser uma pergunta sobre risco, decisão e benefício. A imagem do astronauta suspenso no vazio serve como metáfora do ecossistema Musk: ambição tecnológica, dependência financeira e risco concentrado num mesmo centro de gravidade. Numa empresa cotada, os empréstimos diretos a executivos de topo enfrentariam limites severos e obrigações de divulgação muito mais apertadas. A SpaceX, por ser privada, move-se com outra margem. Essa margem não transforma, por si só, uma operação em abuso, mas reduz a quantidade de luz disponível. O fundador tem prestígio, controlo, capacidade de persuasão e uma posição acionista central; os restantes investidores têm menos acesso público aos termos em que certas decisões são tomadas. Durante anos, a SpaceX foi apresentada como uma empresa quase civilizacional: baixar o custo de acesso ao espaço, levar seres humanos a Marte, transformar satélites em infraestrutura global. A narrativa resistiu porque a empresa entregou resultados. Contudo, uma companhia com esse valor e esse peso contratual já não pode ser lida apenas pela ambição tecnológica. É também uma reserva de capital, um instrumento de influência e, em certas circunstâncias, uma almofada para outras apostas. A Tesla já tinha mostrado essa proximidade. Em 2008, num momento difícil para a fabricante de automóveis elétricos, Musk recorreu à SpaceX para apoio financeiro. Mais tarde, a empresa espacial comprou dívida da SolarCity, companhia de energia solar fundada por familiares de Musk e onde ele tinha interesses relevantes, antes de a Tesla a adquirir. A compra da SolarCity foi contestada por investidores e discutida em tribunal. Musk venceu essa frente, mas o desconforto não desapareceu: quando uma empresa próxima ajuda outra, nem sempre é evidente se a decisão serve a empresa que paga ou o desenho geral do fundador. A xAI trouxe a mesma questão para a inteligência artificial. Criada por Musk, comprou o X num momento em que a antiga Twitter enfrentava dificuldades financeiras. Depois surgiu a integração da xAI com a SpaceX, apresentada como combinação de capacidades tecnológicas. Dados, modelos de IA, redes sociais e infraestrutura espacial podem, em abstrato, reforçar-se. Um investidor da SpaceX não olha apenas para a abstração. Olha para a empresa em que investiu e pergunta se ela está a comprar futuro ou a absorver fragilidades. O vocabulário empresarial tem uma grande capacidade de amortecer este tipo de tensão. Fala-se em integração, ecossistema, sinergia, plataforma comum. As palavras podem ser verdadeiras e, ainda assim, insuficientes. Uma operação que parece visão estratégica durante uma fase de entusiasmo pode ser relida como socorro financeiro quando surgem perdas, diluição acionista, saídas internas ou necessidade de nova capitalização. A diferença raramente se decide no comunicado. Se a SpaceX avançar para a bolsa, a pergunta deixará de circular apenas entre investidores privados, documentos internos e processos judiciais. Uma entrada em mercado público obrigaria a empresa a explicar melhor as suas contas, as relações com Musk e as transações com partes relacionadas. A bolsa não traz apenas dinheiro novo. Traz perguntas novas, feitas por gente que não depende da confiança pessoal no fundador. A Tesla vive há anos nesse regime. Por estar cotada, tornou-se palco de disputas acionistas sobre decisões de Musk, incluindo a compra da SolarCity, alegações de recursos desviados para outras empresas e a relação com a xAI. Algumas ações foram rejeitadas; outras não produziram os efeitos pretendidos pelos queixosos. Ainda assim, o padrão incomoda. Um dirigente com várias empresas pode deslocar capital, oportunidades, atenção e talento entre elas, sem que o dever principal seja sempre óbvio. A corrida à inteligência artificial tornou essa ambiguidade mais cara. Os modelos avançados exigem centros de dados, energia, chips, equipas técnicas e acesso continuado a capital. A OpenAI, a Anthropic, a Google, a Meta, a Microsoft, a Amazon, a Oracle, a xAI e outros operadores disputam a infraestrutura de uma indústria que promete alterar a programação, a pesquisa, a publicidade, o trabalho administrativo e parte dos serviços empresariais. A promessa já mobilizou somas gigantescas. O retorno económico ainda não acompanha todos os discursos. Há adoção real. As empresas pagam por ferramentas de código, assistentes internos, análise documental e automação. Milhões de pessoas usam produtos de IA todos os dias, muitas sem pagar ou pagando pouco. Entre uso e lucro fica a parte mais difícil: transformar escala em receita recorrente, e receita recorrente em margem suficiente para sustentar a infraestrutura que está a ser construída. A história económica não estranha esta distância entre promessa e rentabilidade. A ferrovia, as telecomunicações e a internet deixaram ativos decisivos depois de destruírem capital em excesso. Uma tecnologia pode ser verdadeira e, mesmo assim, arruinar muitas empresas que tentaram capturá-la cedo demais ou com balanços frágeis. A IA pode tornar-se indispensável sem preservar todos os vencedores aparentes da primeira fase. O litígio entre Musk e a OpenAI pertence a esse mesmo terreno, embora entre por outra porta. Musk acusa antigos parceiros de terem afastado a organização da missão original; a OpenAI rejeita essa leitura e descreve a ação como uma ofensiva contra a empresa. A disputa tem matéria jurídica própria, mas não vive isolada dela: a IA avançada nasceu muitas vezes envolta em linguagem de benefício público, segurança e acesso amplo ao conhecimento, e entrou depois num regime industrial que exige milhares de milhões para competir. A passagem de uma missão idealizada para uma estrutura capaz de captar capital é mais do que uma alteração societária. O X enfrenta pressão de natureza diferente. Em França, a investigação sobre práticas da plataforma e ferramentas associadas à inteligência artificial coloca a empresa no campo penal e regulatório: conteúdos ilegais, deepfakes, abuso sexual de menores e responsabilidade das plataformas digitais. A tradição norte-americana protege um campo largo de expressão. A legislação europeia aceita limites mais diretos quando estão em causa determinados danos, crimes ou deveres de moderação. A mesma plataforma fica presa entre duas conceções jurídicas que não foram desenhadas para se acomodarem uma à outra. A dificuldade aumentou porque plataformas como o X já não se limitam a alojar mensagens de utilizadores. Ordenam visibilidade, sugerem conteúdos, automatizam respostas, incorporam modelos de IA e podem gerar imagens. Quando um sistema participa na produção ou amplificação de conteúdos, a responsabilidade deixa de caber apenas na remoção posterior de publicações denunciadas. Toca o desenho do produto, as regras internas, a prevenção técnica e a capacidade real de cumprir leis nacionais. Para os reguladores europeus, está em causa aplicar a lei a uma empresa que opera no seu território. Para Musk e para uma parte do debate político norte-americano, intervenções deste tipo aproximam-se de censura ou perseguição ideológica. A divergência não se resolve com uma fórmula elegante. Uma tradição aceita mais risco discursivo em nome da liberdade de expressão; outra admite intervenção pública mais cedo perante certos danos. A inteligência artificial torna a fratura mais difícil de gerir, porque não apenas transporta conteúdos: pode produzi-los, modificá-los e distribuí-los em escala. Musk concentra demasiadas camadas para que o seu caso seja tratado como mais uma disputa de personalidade. A SpaceX liga-se a infraestrutura espacial e contratos públicos. A Tesla continua a ter peso industrial e financeiro. O X permanece politicamente influente. A xAI tenta entrar na corrida mais cara da tecnologia contemporânea. A OpenAI, embora fora do seu controlo, está envolvida numa disputa que remete para a origem e o futuro comercial da IA. Cronologia essencial 2002 — Fundação da SpaceXElon Musk funda a SpaceX, que viria a tornar-se uma das empresas centrais do seu universo empresarial. 2008 — Apoio financeiro à TeslaNum momento difícil para a Tesla, Musk recorre à SpaceX para apoiar financeiramente a fabricante de automóveis elétricos. 2018-2020 — Empréstimos internos da SpaceXMusk terá obtido empréstimos junto da SpaceX num total de 500 milhões de dólares, com garantia em ações da própria empresa. 2021 — Reembolso dos empréstimosOs empréstimos terão sido devolvidos até ao final de 2021, com juros. 2025 — xAI compra o XA xAI, empresa de inteligência artificial de Musk, compra o X, antiga Twitter, num movimento que aproxima IA e plataforma social. 2026 — Pressão judicial e regulatória. As investigações e litígios envolvendo X, OpenAI, xAI e SpaceX colocam em evidência questões de governação, regulação e poder privado. Chamar a isto “império” pode soar forte, mas resolve pouco. O problema está na forma. São empresas formalmente distintas, com investidores, riscos e deveres próprios, atravessadas pela mesma figura e por operações que podem alterar o equilíbrio entre elas. A estrutura não cabe bem na imagem clássica de um grupo empresarial transparente, nem na fábula simples do fundador visionário. Fica num meio-termo desconfortável, onde resultados tecnológicos reais convivem com perguntas elementares de governação. Nem toda a colaboração entre empresas relacionadas é suspeita. Nem toda a aposta transversal é abuso. A integração entre IA, satélites, dados e plataformas pode ter sentido industrial. Mas a concentração de poder reduz a tolerância aceitável à opacidade. Quando uma empresa empresta ao fundador, compra dívida de uma companhia próxima, absorve uma aposta deficitária ou se prepara para abrir o capital ao público, a explicação não pode assentar apenas na confiança no génio de quem decide. Algumas empresas privadas já organizam infraestruturas usadas por Estados, mercados, cidadãos e forças armadas. Não são instituições públicas, mas produzem efeitos públicos. A lei das sociedades, a regulação digital e os tribunais continuam a trabalhar com categorias conhecidas: acionistas, administradores, dever fiduciário, conteúdo ilegal, responsabilidade de plataforma, concorrência. Essas categorias continuam necessárias. Nem sempre chegam a tempo. Uma investigação em França não explica a SpaceX. Um processo contra a OpenAI não explica a Tesla. Um empréstimo interno não explica a xAI. Lidos em conjunto, porém, estes episódios mostram como capital, plataformas e inteligência artificial passaram a circular dentro de arquiteturas empresariais pouco legíveis. Se a SpaceX chegar à bolsa, não terá apenas de vender uma promessa de crescimento. Terá de mostrar, com mais detalhe, que relações ajudaram a sustentar uma parte do poder que, até agora, permaneceu dentro da esfera privada.

  • A base secreta no Iraque e a guerra contra o Irão

    CONTEXTO · Geopolítica e Poder · Médio Oriente · Israel-Irão/Iraque. No deserto iraquiano, uma força enviada para verificar movimentos invulgares acabou sob fogo aéreo. O incidente, ocorrido em março segundo as versões citadas no relato jornalístico, deixou um militar iraquiano morto e dois feridos. Bagdade tratou-o como uma operação estrangeira não autorizada. Durante semanas, ficou sobretudo como mais um episódio opaco numa zona onde há muito espaço, pouca visibilidade e demasiados atores armados. Israel teve uma base secreta no Iraque? Orelato publicado pelo Wall Street Journal deu-lhe outra leitura: a de que Israel teria montado uma instalação clandestina em território iraquiano para apoiar a campanha aérea contra o Irão. Segundo pessoas citadas pelo jornal, o local teria servido de ponto logístico, abrigo de forças especiais e plataforma para equipas de busca e salvamento. Israel não confirmou. O Iraque negou a presença atual de forças não autorizadas. Essa distância entre relato, confirmação e negação deve acompanhar toda a leitura do caso. A instabilidade interna iraquiana torna mais sensível qualquer suspeita de uso do território por forças externas. O relato sobre uma instalação clandestina israelita expõe a logística da guerra aérea contra o Irão e a fragilidade da soberania iraquiana. O assunto pesa menos pela imagem imediata de uma “base secreta” do que pelo mecanismo que deixa entrever. Uma guerra aérea a longa distância precisa de apoios fora do mapa oficial: pontos de espera, evacuação, coordenação ou aproximação ao teatro de operações. Quando esses apoios entram no território de um terceiro Estado, a operação deixa de ser apenas militar. A campanha contra o Irão colocou Israel perante uma dificuldade simples: a distância. Um ataque aéreo não depende apenas da capacidade de chegar ao alvo. Depende também do que acontece antes e depois: por onde passam as aeronaves, onde podem receber apoio, que resposta existe se uma tripulação ficar em risco. Grande parte dessa estrutura não aparece nos comunicados militares. É nesse quadro que uma instalação discreta no Iraque teria utilidade. Não teria de ser uma base permanente, nem sequer uma infraestrutura grande. Bastaria funcionar como ponto avançado durante a campanha: um lugar de apoio, de passagem ou de contingência, suficientemente perto do teatro iraniano para reduzir tempos de resposta e suficientemente remoto para escapar, pelo menos durante algum tempo, à atenção pública. A presença relatada de equipas de busca e salvamento é um dos elementos mais relevantes. Numa guerra aérea, um piloto abatido transforma uma operação militar num problema urgente de tempo, território e exposição política. A recuperação tem de ser rápida. Também tem de ser negável, se ocorrer fora de um quadro oficialmente reconhecido. Para o Iraque, a questão começa no controlo do território. O deserto não é espaço neutro por ser remoto. Se uma força estrangeira o usa sem autorização pública, mesmo por pouco tempo, o problema passa a ser outro: saber se o Estado iraquiano consegue identificar a presença, interrompê-la e explicar depois o que aconteceu. Bagdade vive esta dificuldade de forma quase permanente. Tem relações institucionais com Washington, depende de equilíbrios internos frágeis, convive com forças próximas do Irão e tenta evitar que o país seja arrastado para cada nova colisão regional. Uma operação israelita em solo iraquiano, se confirmada, atingiria precisamente esse ponto fraco. A reação iraquiana ao incidente de março encaixa nessa tensão. As autoridades denunciaram uma operação não coordenada nem aprovada e apresentaram a ocorrência como ataque de forças estrangeiras apoiadas por meios aéreos. A atribuição inicial aos Estados Unidos também é significativa. No Iraque, a presença militar norte-americana é conhecida, contestada e politicamente visível. A presença israelita, pelo contrário, seria formalmente inadmissível. O país não mantém relações oficiais com Israel e a normalização é politicamente tóxica. A negação iraquiana não encerra a questão. Pode significar que nada existia no momento em que foi feita. Pode significar que a presença foi breve. Pode também refletir a dificuldade política de admitir que uma força estrangeira operou no país sem controlo claro das autoridades. Nenhuma destas hipóteses deve ser transformada em certeza. Também aqui a palavra “base” exige cuidado. No uso comum, sugere permanência. Numa operação militar, um local pode servir por horas ou dias e, mesmo assim, ser decisivo. A diferença entre base, ponto avançado, destacamento e local de extração não é detalhe técnico; muda o peso político da acusação. O deserto iraquiano ajuda a perceber a plausibilidade operacional do relato. Zonas vastas, pouco povoadas e difíceis de vigiar oferecem condições para movimentos discretos. Forças especiais, equipas de reconhecimento e unidades de apoio já usaram, em vários conflitos, áreas semelhantes para preparar operações ou reduzir distâncias. Isso não prova, por si só, a existência da instalação relatada. Mas explica por que razão um local remoto no Iraque poderia ser útil numa campanha contra o Irão. Para Israel, a utilidade de um ponto deste tipo seria simples: encurtar uma guerra que, no mapa, é longa. A campanha contra o Irão depende de alcance, repetição e capacidade de resposta. Quanto mais distante o alvo, mais relevantes se tornam os apoios intermédios. A tecnologia não apaga essa limitação; apenas permite trabalhar dentro dela. Em Bagdade, uma explicação operacional não resolve o problema. Mesmo que o local tivesse sido usado apenas como apoio temporário, isso significaria que uma parte do território iraquiano serviu uma guerra que o governo não declarou e que dificilmente poderia admitir. É esse ponto que torna o caso politicamente sensível: não a dimensão física da instalação, mas o facto de ela poder ter existido fora do controlo claro do Estado. O papel dos Estados Unidos fica num ponto sensível. O relato atribui a Washington conhecimento da instalação, mas separa esse conhecimento da ação contra as tropas iraquianas. Essa distinção é indispensável: saber de uma operação não equivale, por si só, a executá-la. Politicamente, porém, a nuance pode não bastar. No Iraque, a presença militar norte-americana já é contestada por vários atores. Qualquer suspeita de que forças israelitas operaram em território iraquiano com conhecimento de Washington alimenta uma leitura difícil de conter: a de que Bagdade não controla inteiramente o uso estratégico do seu próprio território. O caso recai sobre um país que já vive entre pressões incompatíveis. O Iraque coopera com os Estados Unidos, tem de lidar com forças próximas do Irão e tenta evitar que o confronto regional se instale abertamente no seu território. Uma suspeita de operação israelita clandestina entra diretamente nessa fragilidade. O caso também mostra uma característica das guerras recentes na região: parte do conflito acontece antes de ser assumida e, muitas vezes, nunca é assumida. Há operações que só aparecem quando falham, quando deixam mortos, quando uma patrulha local se aproxima demasiado ou quando uma fuga de informação lhes dá forma pública. Essa opacidade serve os intervenientes externos. Dá-lhes margem para agir, negar ou deixar a responsabilidade suspensa. Para o Estado em cujo território a operação ocorre, o efeito é diferente: ficam mortos, versões contraditórias e uma pergunta difícil de responder em público — quem mandava ali naquele momento? O Iraque conhece bem esse problema. A soberania não se mede apenas pela posição que um governo anuncia depois de um incidente. Mede-se pela capacidade de perceber o que ocorreu no terreno e de impedir que outros imponham a sua própria versão. Quando isso não acontece, cada ator ocupa o vazio com a narrativa que mais lhe convém. O episódio não precisa de ser ampliado para ser relevante. A instalação pode ter sido pequena, breve ou diferente da imagem sugerida pela palavra “base”. Ainda assim, aponta para uma dificuldade real: uma guerra aérea contra o Irão exige apoios que nem sempre podem ser assumidos. Quando esses apoios atravessam o território de outro Estado, a questão deixa de ser apenas logística. Também seria excessivo tratar o caso como se ele explicasse sozinho toda a guerra regional. O que se sabe publicamente ainda depende de relatos, versões oficiais incompletas e negações interessadas. Há diferença entre uma instalação clandestina duradoura, uma posição temporária e uma operação pontual. Misturar tudo numa mesma palavra pode tornar o caso mais explosivo, mas menos preciso. Mesmo assim, a suspeita já produziu efeito político. Reabriu a questão do uso do território iraquiano por forças externas e voltou a colocar Washington numa posição desconfortável. Para parte do sistema iraquiano, os Estados Unidos continuam a ser necessários. Para outra parte, qualquer sombra de coordenação com Israel confirma precisamente o contrário. A suspeita interessa também a Teerão, porque qualquer presença israelita perto das suas fronteiras reforça a leitura de que a guerra se desloca para espaços vizinhos. Para Israel, pelo contrário, um ponto avançado seria apenas uma peça de uma campanha conduzida à distância. O Iraque fica no centro da tensão: não é o alvo principal, mas é o território onde a disputa pode ganhar forma sem ser oficialmente declarada. Mesmo sem confirmação oficial israelita, o relato obriga a olhar para a campanha contra o Irão para lá dos ataques visíveis. Uma operação aérea prolongada precisa de retaguardas, pontos de apoio e soluções de emergência. Algumas podem estar dentro de bases conhecidas. Outras podem depender de locais temporários, politicamente sensíveis e difíceis de reconhecer. O Iraque surge, neste quadro, como território especialmente vulnerável. Está próximo do Irão, mantém relação militar com os Estados Unidos, vive sob pressão de forças próximas de Teerão e tenta preservar uma margem de autonomia cada vez mais estreita. Por isso, qualquer suspeita de presença israelita clandestina não é apenas um detalhe operacional. É um problema interno iraquiano e uma peça adicional da disputa regional. A confirmação plena dos detalhes continua limitada. O ponto, porém, não depende apenas da palavra “base”. Pode ter havido uma presença curta, um ponto de apoio ou uma equipa avançada. Mesmo assim, a dificuldade permanece: se uma guerra usa território de um Estado que não a assume, esse Estado fica preso entre a negação pública e a perda concreta de controlo. O episódio deve ficar nesse lugar mais limitado e mais útil: um indício de como a guerra contra o Irão pode depender de apoios discretos fora dos territórios diretamente envolvidos. No caso iraquiano, isso basta para abrir uma questão séria sobre controlo territorial, responsabilidade política e risco de arrastamento regional.

  • Guerra do Irão: 32 milhões sem voz em Islamabade

    O nitrato de amónia viaja por navio. A maior parte do que chega aos campos agrícolas do Sul da Ásia, da África Subsaariana e do Corno de África passa pelo Oceano Índico, pelo Golfo de Omã, por corredores marítimos que dependem da estabilidade do Estreito de Ormuz para funcionar com a regularidade que a agricultura industrial exige. Qual o impacto da guerra do Irão nos países mais pobres? Quando o Estreito fecha — ou quando o seguro marítimo sobe ao ponto de tornar a viagem economicamente inviável — o fertilizante ou não chega ou chega tarde. Uma estação agrícola perdida não se recupera na estação seguinte. Recupera-se, quando se recupera, ao longo de anos. O fertilizante não chega. As negociações continuam. A guerra do Irão fechou o Estreito em fevereiro de 2026. As negociações entre Washington e Teerão continuam. Os analistas discutem centrifugadoras, interceptores Patriot, calendários políticos americanos e a intransigência dos Guardiões. O nitrato de amónia está a não chegar. A guerra do Irão ameaça transformar uma crise energética e diplomática numa crise alimentar silenciosa, empurrando milhões de pessoas para a pobreza sem que tenham voz nas negociações de Islamabade. Alexander De Croo, secretário-geral adjunto das Nações Unidas que dirige o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, formulou o mecanismo com uma precisão que os mercados financeiros raramente conseguem: "A guerra é o desenvolvimento ao contrário. O que se constrói em décadas destrói-se em sete semanas de guerra." O PNUD estima que o aumento dos preços da energia, a disrupção dos sistemas alimentares e a desaceleração económica desencadeados pela guerra poderão empurrar até trinta e dois milhões de pessoas para a pobreza. Trinta e dois milhões é um número que não cabe numa manchete sobre o Estreito de Ormuz. Não tem rosto, não tem capital, não tem delegação em Islamabade. Tem campos. Tem estações de sementeira. Tem crianças que vão comer menos proteína durante os próximos dois anos porque o preço do fertilizante subiu num mês mais do que subiu em toda a década anterior. A guerra da Ucrânia fornece o precedente mais próximo. Quando a Rússia invadiu em 2022, os preços do trigo e dos fertilizantes dispararam. A Somália, que importava grande parte do seu trigo da Ucrânia, enfrentou uma crise alimentar que os números do PNUD já classificavam como catástrofe. A resposta internacional foi a Iniciativa dos Cereais do Mar Negro — um corredor humanitário negociado pela ONU que permitiu às exportações ucranianas continuar a fluir durante meses. De Croo disse-o de forma direta: "Encontrámos facilmente uma solução para fazer sair o grão da Ucrânia." O problema da guerra do Irão é diferente em estrutura. Não é o grão que falta — são os ingredientes para produzir o grão. O fertilizante, o combustível para os tratores, o querosene para os aviões que transportam medicamentos e equipamento agrícola. Coisas que não têm um corredor humanitário possível enquanto o Estreito estiver fechado, porque o Estreito não é uma exceção à rota — é a rota. A solução não depende de nenhum acordo entre a ONU e dois países beligerantes. Depende do fim de uma guerra que nenhuma das partes parece próxima de querer terminar nos termos que a outra aceita. Portugal tem uma relação com esta geometria que não é abstrata. Durante cinco séculos, foi um dos atores que decidiu as rotas marítimas do mundo — quem passava, a que preço, em que condições. O que esse período deixou não foi apenas monumentos e língua. Deixou a memória, nos países que essas rotas atravessavam, de que o controlo das vias de comércio é sempre exercido por alguém e raramente por quem mais depende delas. A disrupção do Estreito de Ormuz em 2026 tem uma lógica que Lisboa devia reconhecer: são os países mais distantes da negociação, mais dependentes do corredor, mais incapazes de influenciar o seu desfecho, os que pagam o preço mais alto e mais duradouro. A Somália não tem assento em nenhuma das mesas onde o futuro do Estreito está a ser discutido. O Bangladesh também não. O Sahel também não. Pagam em preços de fertilizante, em estações agrícolas comprometidas, em crianças com menos proteína disponível, numa proporção que nenhum dos atores com assento nessas mesas vai ser obrigado a contabilizar quando o acordo for assinado. A guerra do Irão é apresentada nos seus próprios termos como um conflito sobre nuclearização, sobre o Estreito, sobre a hegemonia regional americana e a sobrevivência do regime dos Guardiões. Esses termos são reais. Contudo, a cobertura que os segue produz uma narrativa com um ângulo de visão específico — o ângulo de Washington, de Teerão, de Riade, de Bruxelas. O ângulo das capitais com capacidade de agir sobre o conflito. As perturbações de combustível que desencadearam violência, paragens de trabalho e especulação em partes da Ásia e de África não chegam às primeiras páginas dos jornais que cobrem as negociações de Islamabade. Não há nada de conspirativo nisto. É a lógica normal da atenção mediática: a crise que acontece onde há correspondentes e câmaras é a crise que existe. A crise que acontece onde não há é uma estatística do PNUD. Trinta e dois milhões de pessoas é uma estatística do PNUD. Fatih Birol, diretor da Agência Internacional de Energia, descreveu o impacto da guerra como "a maior ameaça à segurança energética global da história". A formulação é correta e é também enganadora — porque "segurança energética global" é uma categoria que pesa de forma diferente consoante o ponto de observação. Para a Europa, significa preços do combustível e inflação. Para os Estados Unidos, significa pressão política e problemas de logística para o Campeonato do Mundo. Para o Sul Global, significa estações agrícolas perdidas e o tipo de fome que não tem fotografia porque acontece devagar, ao longo de meses, em lugares onde ninguém está a filmar. De Croo acrescentou que o peso dos choques económicos "cai mais pesado sobre os que menos conseguem absorvê-lo". É um mecanismo tão antigo quanto o comércio internacional: as perturbações nas grandes rotas sempre custam mais aos atores mais pequenos, mais periféricos, mais dependentes. O que muda é a escala. A negociação vai continuar. O Estreito vai reabrir, numa versão ou noutra, com um consórcio ou sem ele, com supervisão americana ou com outra arquitetura. Os mercados vão estabilizar. Os analistas vão escrever sobre o que cada lado ganhou e perdeu. O que não vai aparecer nessa contabilidade é o custo da estação agrícola que o Bangladesh perdeu em março de 2026 porque o fertilizante não chegou a tempo. Nem o da Somália. Nem o do Sahel. Esse custo não tem linha nos acordos que forem assinados. Não tem cláusula de compensação. Não tem nome nos tratados. Tem trinta e dois milhões de pessoas. E a memória, nessas regiões, de que as guerras das grandes potências sempre terminam com um acordo entre as grandes potências — e com a conta a pagar por quem não estava na sala. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; dados do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, abril de 2026. #GuerraDoIrão #SulGlobal #CriseAlimentar #EstreitorDeOrmuz #PNUD #Geopolítica #AtlanticLisbon #Pobreza #SegurançaAlimentar

  • Irão - O cenário perfeito foi perfeito uma vez. Desta não.

    Em março de 2026, Donald Trump disse ao New York Times que o que os Estados Unidos tinham feito na Venezuela era "o cenário perfeito". Capturaram Nicolás Maduro numa operação noturna de forças especiais, negociaram com Delcy Rodríguez a continuidade de um governo funcional, garantiram acesso às reservas de petróleo e declararam vitória. Na sua cabeça, o método parecia limpo: remove-se o chefe, fala-se com quem fica, conserva-se o aparelho mínimo do Estado e controla-se o recurso que interessa. Meses depois, Trump tentou transportar essa fórmula para o Irão. O problema é que o Irão não é a Venezuela. Trump removeu o líder iraniano com o manual de Caracas. Mas o Irão não tem Delcy Rodríguez, não tem petróleo controlável e não tem regime sem alternativa — tem Ormuz O modelo que funcionou na Venezuela falha no Irão: onde Trump viu uma fórmula repetível, encontrou um regime com outra estrutura de poder, outra alavancagem estratégica e outro mapa. A Venezuela de Maduro era um Estado concentrado à volta de uma figura. Hugo Chávez tinha feito do culto político uma arquitetura de poder, e Maduro herdara essa forma de governo como quem herda uma casa já construída: os símbolos, os aparelhos de lealdade, o partido, os militares, a dependência quase absoluta do petróleo. Havia, claro, fações, interesses e medos. Mas o regime estava organizado à volta de uma centralidade visível. Quando essa centralidade foi retirada, o que ficou procurou sobreviver. Delcy Rodríguez tinha poder suficiente para negociar porque o regime precisava de alguém que negociasse. Não era uma chefe alternativa com base autónoma, nem uma comandante de uma estrutura militar capaz de redesenhar o Estado à sua imagem. Tinha margem porque o acordo lhe oferecia uma continuação possível. Sem acordo, a sobrevivência do aparelho era muito mais duvidosa. Trump olhou para esse caso e viu uma regra. Talvez tenha sido esse o erro inicial. O que acontecera na Venezuela não era uma receita diplomática universal — era uma coincidência rara de circunstâncias favoráveis: uma liderança removível, um recurso físico fácil de identificar, uma sucessora com incentivo para cooperar e um regime sem grandes alternativas externas. Tudo isso existia em Caracas. Quase nada disso existia em Teerão. O poder iraniano nunca dependeu de um só homem da forma como o poder venezuelano dependia de Maduro. Khamenei era indispensável, mas não era apenas um chefe sentado no vértice de uma pirâmide obediente. Era árbitro. A sua autoridade vinha da capacidade de equilibrar os Guardiães da Revolução, o clero, o parlamento, os serviços de informações, os tribunais e as várias famílias ideológicas da República Islâmica. Mantinha o sistema unido não por eliminar todas as tensões, mas por as administrar. Quando os ataques americanos e israelitas mataram Khamenei e atingiram a liderança política iraniana, não apareceu uma Delcy Rodríguez persa, pronta a assinar a continuidade do regime em troca de um acordo. O que avançou para ocupar o espaço foi a estrutura mais armada, mais disciplinada e menos inclinada a concessões: os Guardiães da Revolução. Mohammad Bagher Ghalibaf, em Islamabade, não era uma figura solta à procura de margem. Era o rosto diplomático possível de uma linha definida por outros. Chegou às negociações com os limites traçados por Mohammad Bagher Zolghadr e Ahmad Vahidi — homens cuja autoridade não dependia da simpatia ocidental nem da necessidade de agradar a Washington. Vance terá saído das conversações convencido de que Ghalibaf queria um acordo. Talvez quisesse. Mas querer um acordo não é o mesmo que poder fazê-lo. Danny Citrinowicz, antigo oficial de informações israelita, resumiu melhor o problema: Ghalibaf não estava habilitado nem inclinado a ceder nas questões nucleares estratégicas. Na Venezuela, o recurso estava nos campos petrolíferos, nos oleodutos, nas refinarias. Podia ser supervisionado, condicionado, auditado, integrado num arranjo de transição. Era matéria física, infraestrutura, produção. O petróleo venezuelano precisava de um Estado funcional para continuar a sair. No Irão, o recurso decisivo não é apenas petróleo. É Ormuz. E Ormuz não se gere como uma refinaria. Não se coloca simplesmente sob supervisão técnica, nem se transforma num ativo controlável por uma equipa de transição. O Estreito abre ou fecha porque Teerão decide abri-lo ou fechá-lo. Enquanto o Irão conseguir sustentar essa decisão, a alavancagem está do lado iraniano. Não apenas sobre o Golfo, mas sobre o preço mundial da energia, sobre os aliados dos Estados Unidos, sobre a Rússia, sobre a Europa, sobre a própria economia americana. A Venezuela tinha petróleo. O Irão tem uma passagem por onde o mundo precisa de continuar a passar. Portugal conhece, por experiência histórica, a diferença entre possuir força e compreender o terreno onde ela se aplica. Durante treze anos, o Estado Novo insistiu em África num modelo que já não correspondia ao mundo real: administração, tropa, polícia e tempo. Partiu do princípio de que os movimentos independentistas eram perturbações locais, sem legitimidade própria nem capacidade de desgaste. Não eram. Angola, Moçambique e Guiné-Bissau tinham dinâmicas próprias, aliados, populações mobilizadas e geografias difíceis. O regime não corrigiu o erro quando percebeu que o modelo falhava. Reforçou-o. No fim, o colapso veio de dentro do próprio exército, já incapaz de acreditar na saída que lhe mandavam defender. Trump não está a repetir a guerra colonial portuguesa. Mas está a repetir uma tentação antiga do poder: acreditar que um método bem-sucedido num lugar passa a servir em todos os lugares. Quando a realidade resiste, não se interroga o método. Aumenta-se a pressão. No caso iraniano, essa pressão produz efeitos que o modelo venezuelano nunca teve de considerar. O Irão tem Rússia. Tem China. Tem redes regionais. Tem uma memória política construída em torno da resistência a pressões externas. Tem a experiência da guerra contra o Iraque, quando sobreviveu a oito anos de conflito contra um inimigo apoiado por grande parte do Ocidente. E tem, acima de tudo, a convicção de que ceder sob humilhação é mais perigoso para o regime do que prolongar a crise. A pressão americana também não fica confinada ao Irão. Ao tentar aliviar o choque energético provocado pelo fecho de Ormuz, Washington emitiu isenções temporárias às sanções sobre o petróleo russo. O resultado foi imediato: as receitas petrolíferas de Moscovo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março. A guerra que pretendia forçar Teerão a recuar acabou, por essa via, a dar oxigénio financeiro à Rússia. Na Venezuela não havia uma potência rival a beneficiar diretamente da pressão exercida sobre o regime. Não havia um estreito capaz de perturbar a economia mundial. Não havia um sistema político em que a remoção do líder fortalecesse precisamente a fação mais dura. Trump escreveu no Truth Social que o regime iraniano já tinha mudado, porque os antigos dirigentes estavam mortos e os novos eram "menos radicais" e "muito mais razoáveis". A frase é quase uma confissão involuntária do erro. Ahmad Vahidi, agora à frente dos Guardiães, tem desde 1994 um mandado de captura internacional ligado ao atentado contra a AMIA, em Buenos Aires. Zolghadr foi sancionado pela ONU pelo papel no programa de mísseis iraniano e pelo Reino Unido por atividade nuclear. Estes não são tecnocratas de transição à procura de um acordo que lhes garanta sobrevivência. São homens formados na lógica mais dura da segurança revolucionária iraniana. O modelo exigia alguém semelhante a Delcy Rodríguez. A realidade entregou Vahidi e Zolghadr. É possível que haja ainda um acordo. Quase sempre há, quando o custo da continuação se torna insuportável. Mas, se houver, não nascerá da fantasia de que o Irão se comportará como a Venezuela. Nascerá do reconhecimento tardio de que Teerão só assina algo que possa apresentar como resistência bem-sucedida, não como submissão. E nascerá, sobretudo, quando Washington perceber que a utilidade de uma vitória depende menos da encenação da derrota do adversário do que da capacidade de terminar a crise sem tornar a próxima inevitável. O "cenário perfeito" foi perfeito uma vez, num lugar concreto, com condições que não se repetiram. Transformá-lo em doutrina não foi génio estratégico. Foi preguiça de olhar para o mapa. E o mapa, desta vez, não passava por Caracas. Passava por Teerão, por Ormuz, por Moscovo, por Pequim, por Riade, por Islamabade — e por todos os lugares onde uma decisão tomada com demasiada confiança acaba por cobrar o preço daquilo que não quis compreender. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026; entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026. #GuerraDoIrão #Trump #Venezuela #Irão #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Diplomacia #Guardiões #Ormuz

  • O país que não recebia armas tornou-se fornecedor dos que as tinham

    Num campo de treino algures nos Emirados Árabes Unidos, em março de 2026, instrutores ucranianos ensinavam militares do Golfo a abater drones com interceptores que custam dez mil dólares. Os drones que estavam a ser simulados custavam entre oitenta mil e cento e trinta mil dólares cada. A diferença de preço não era um detalhe técnico. Era o argumento de venda. Ucrânia vende drones ao Golfo: o mercado que a guerra do Irão criou. A Ucrânia tinha chegado ao Golfo com algo que nenhum dos fornecedores habituais de armamento conseguia oferecer: quatro anos de experiência operacional real contra exatamente o tipo de ameaça que o Irão acabara de demonstrar ser capaz de lançar em escala industrial. Não era teoria. Não era simulação. Era o conhecimento acumulado de quem aprendeu a sobreviver em condições que os países do Golfo estavam agora a descobrir pela primeira vez. A guerra do Irão abriu no Golfo um mercado inesperado para a experiência ucraniana: o país que dependia de armas ocidentais passou a vender drones, formação e tecnologia contra-drone a aliados que julgavam estar protegidos. O Irão fechou o Estreito de Ormuz em fevereiro de 2026 com uma combinação de mísseis balísticos e drones Shahed que rapidamente se tornou o padrão tático do conflito. Os países do Golfo, que tinham sistemas Patriot instalados nos seus territórios mas viram esses sistemas a ser reorientados para prioridades americanas, perceberam com a brutalidade dos factos consumados que a defesa contra drones baratos e em volume é um problema diferente da defesa contra mísseis convencionais. Exige outra doutrina, outros equipamentos, outra cadeia de decisão. Exige, acima de tudo, experiência que não se compra num catálogo de armamento. A Ucrânia tinha essa experiência. Tinha-a construído pela necessidade — o tipo de necessidade que não admite erro porque o erro custa vidas — durante quatro anos de guerra contra uma força que usava os mesmos Shaheds iranianos, comprados por Moscovo e integrados na sua doutrina de ataque a infraestruturas civis. Quando o Golfo começou a procurar quem pudesse ensinar o que sabia, havia um único país com credenciais operacionais verificadas e disponibilidade imediata. A guerra do Irão privou a Ucrânia de interceptores Patriot e criou-lhe um mercado no Golfo que Washington não controla e não antecipou. Zelensky assinou acordos de defesa com a Arábia Saudita, os Emirados Árabes Unidos e o Qatar. Os acordos incluíam fornecimento de drones, construção de linhas de produção no próprio Golfo, formação de pessoal e transferência de tecnologia de contra-drone. Por março de 2026, mais de duzentos especialistas militares ucranianos estavam no terreno em países do Golfo Pérsico. Não como conselheiros. Como instrutores com experiência direta do que estavam a ensinar. A mesma guerra que reduziu o fornecimento de interceptores Patriot à Ucrânia — porque os Estados Unidos os redirecionaram para as operações no Golfo — criou as condições para que a Ucrânia encontrasse um mercado que não dependia dos Estados Unidos para existir. A escassez que Washington impôs a Kyiv tornou o conhecimento ucraniano mais valioso, não menos. O país que estava a ser privado de armamento ocidental tornou-se fornecedor de segurança para os países que esse armamento estava a proteger em vez dela. Portugal reconhece esta geometria, ainda que em versão mais antiga e menos dramática. Durante séculos, o valor estratégico de um país pequeno não dependeu do seu tamanho mas da sua posição — o que controlava, o que sabia, o que outros precisavam de atravessar para chegar ao que queriam. Sagres não era uma base militar. Era o ponto onde o conhecimento náutico português se tornava indispensável para qualquer projeto de expansão atlântica. As Lajes não eram território americano. Eram o sítio sem o qual a logística americana no Atlântico não funcionava. A Ucrânia está a fazer algo estruturalmente semelhante — a transformar competência adquirida em condições extremas num ativo estratégico que outros países precisam e não têm. O Golfo não pode esperar décadas. Precisa agora. Os acordos com os três países do Golfo não são apenas transações comerciais. São o início de uma arquitetura de relações bilaterais que a Ucrânia não tinha antes da guerra e que a guerra do Irão acelerou de forma que nenhum planeamento estratégico teria conseguido antecipar. A Arábia Saudita, os Emirados e o Qatar são atores com capacidade financeira, influência diplomática e posições em fóruns multilaterais que a Ucrânia tem interesse em cultivar independentemente de qualquer acordo de armamento. O drone é o produto. A relação é o investimento. Orysia Lutsevych, do Chatham House, formulou-o com precisão: a Ucrânia quer mostrar que é "a linha da frente de uma revolução tecnológica militar" e que acordos de segurança com Kiev tornam os parceiros "mais seguros". É uma narrativa de posicionamento — a Ucrânia não como país em guerra à procura de apoio, mas como potência tecnológica de nicho com algo concreto a oferecer. A distinção importa porque muda a natureza da relação. Um país que pede apoio depende da generosidade do outro. Um país que vende competência tem alavancagem. Esta transformação não apaga os custos da guerra nem resolve o problema central de Kiev — que continua a ser a Rússia, que continua a atacar, que continua a beneficiar dos preços do petróleo inflacionados pelo fechamento do Estreito. O que muda é a posição relativa da Ucrânia num sistema internacional que estava a tratá-la crescentemente como um problema de gestão humanitária em vez de como um ator com interesses e capacidades próprias. Há um número que ilustra a distância entre os dois mundos que a Ucrânia habita simultaneamente. Os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito. No mesmo período, a Ucrânia declarava capacidade de produzir dois mil interceptores próprios por dia, metade dos quais disponíveis para exportação. O país que não recebia Patriot suficientes estava a tornar-se fornecedor dos que os tinham. A assimetria não é apenas económica. É doutrinária. Os sistemas ocidentais foram desenhados para ameaças convencionais de alta intensidade — mísseis balísticos, aviões de combate, blindados. O drone barato e em volume é uma ameaça diferente, que exige respostas diferentes, que a Ucrânia desenvolveu por necessidade enquanto o Ocidente continuava a investir nos sistemas que conhecia. Quando o Golfo descobriu que o Patriot não é a resposta certa para uma nuvem de Shaheds, a Ucrânia já tinha a resposta. Tinha-a há anos. Tinha-a porque não havia alternativa. A guerra continua. Kiev continua a receber mísseis balísticos e drones noturnos. A atenção americana continua desviada para o Golfo. As garantias de segurança ocidentais continuam a ser uma promessa cujo cumprimento depende de calendários políticos que a Ucrânia não controla. Ao mesmo tempo, os instrutores ucranianos ensinam nos Emirados. As linhas de produção de drones estão a ser construídas na Arábia Saudita com tecnologia ucraniana. O Qatar assinou. A lista pode crescer. Não é o fim da guerra. Não é sequer o começo do fim. É a Ucrânia a perceber, pela experiência direta e sem alternativa, que a sobrevivência de um país pequeno num sistema internacional instável raramente depende apenas de quem o apoia. Depende também do que tem para oferecer quando os outros precisam. Por agora, o que tem para oferecer são drones que custam dez mil dólares e a memória operacional de como se usa um deles para abater outro que custa dez vezes mais. Fontes: reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #Ucrânia #GuerraDoIrão #Drones #Golfo #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Defesa #EstreitorDeOrmuz #Zelensky #Armamento

  • Guardiães do Irão: por que a nova liderança é mais dura

    A 18 de julho de 1994, uma carrinha armadilhada explodiu em frente ao edifício da Associação Mutualista Israelita Argentina, em Buenos Aires. Morreram oitenta e cinco pessoas. Foi o maior atentado terrorista da história da América Latina, e continua por julgar. A Argentina emitiu mandados de captura internacionais para vários suspeitos. Um deles era Ahmad Vahidi, então oficial da força de elite Al-Quds dos Guardiães da Revolução Islâmica. Vahidi nunca foi extraditado. Negou o envolvimento. Fez carreira. Por que a morte de Khamenei tornou o regime iraniano mais perigoso. A nova liderança iraniana emergiu da ala mais dura dos Guardiães da Revolução, transformando a morte de Khamenei não num sinal de abertura, mas num fator de consolidação militar do regime. Em março de 2026, foi nomeado comandante dos Guardiães da Revolução Islâmica — o cargo mais poderoso das forças armadas iranianas — depois de os dois titulares anteriores terem sido mortos em ataques israelitas. O mandado de Buenos Aires continua ativo. O que sobrou foi Vahidi, Mohammad Bagher Zolghadr e Mohammad Bagher Ghalibaf. Os três formaram-se durante a guerra Irão-Iraque dos anos oitenta, na estrutura dos Guardiães da Revolução, numa época em que o regime estava a aprender a sobreviver contra um inimigo convencional com apoio ocidental. O que aquela guerra de oito anos produziu naquela geração não foi moderação — foi a certeza operacional de que a sobrevivência do regime depende da recusa em ceder. Os ataques americanos e israelitas removeram a camada que ainda tinha memória de um Irão anterior à República Islâmica, que negociava com o vocabulário da política e não apenas com o vocabulário da guerra, e que funcionava para os Guardiães como contrapeso institucional — por vezes incómodo, por vezes paralisante. Khamenei era um homem cauteloso. Ali Vaez, diretor do Projeto Irão no International Crisis Group, disse-o sem rodeios: a estratégia de "ir a fundo" — atacar todos os vizinhos, fechar o estreito, responder sem moderação — foi desenhada sob o pai, mas os Guardiães têm agora "muito mais liberdade de manobra e muito menos constrangimentos" do que teriam se ele ainda estivesse vivo. As potências ocidentais pensam a decapitação de regimes com uma sequência que o século XX desmentiu repetidamente: o líder é o regime; sem o líder, o regime perde coerência; a incoerência produz abertura; a abertura produz negociação. Os casos em que a remoção de um líder moderou o regime dependem de condições específicas que raramente estão presentes — uma oposição organizada capaz de preencher o vácuo, uma estrutura de poder descentralizada que permite a emergência de fações reformistas, ou um colapso económico tão profundo que torna a continuidade impossível. O Irão de 2026 não tem oposição organizada. Tem uma estrutura de poder descentralizada em que a descentralização favorece os Guardiães, não os reformistas. E tem uma economia danificada, não colapsada: Vaez estima dois a três meses de reservas suficientes para absorver o bloqueio, e os Guardiães acreditam que o calendário político americano é mais curto do que o seu. Washington encontrou em Islamabade um regime reorganizado em torno do seu núcleo mais duro, com o Estreito de Ormuz como alavanca e com a convicção — partilhada, segundo Vaez, pela maioria da liderança atual — de que a guerra já foi ganha em termos estratégicos, independentemente do resultado das negociações. Ghalibaf em Davos, em 2008, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares e que o diálogo com Washington era possível se os Estados Unidos tratassem Teerão como parceiro. A entrevista foi publicada com o subtítulo "modernizador autoritário". A formulação tinha os dois termos certos mas invertia a ordem de importância. Dezoito anos depois, o mesmo homem sentou-se em Islamabade como representante de um regime que fechara um dos corredores marítimos mais estratégicos do mundo e que não mostrou, ao longo de vinte e uma horas de negociações, disposição para o reabrir nas condições que Washington exigia. A sua visibilidade nas negociações é produto da sua experiência em contextos internacionais. É um rosto que Washington consegue ler. O que Danny Citrinowicz, ex-oficial de informações militares israelita, escreveu imediatamente após as declarações de Vance é a informação que importa: Ghalibaf "chegou a qualquer negociação com limites claramente definidos em Teerão. Não está habilitado nem inclinado a comprometer em questões estratégicas nucleares." Os limites foram definidos por Zolghadr e Vahidi. O primeiro dirige o Conselho Supremo de Segurança Nacional; o segundo comanda os Guardiões. Ghalibaf representa — no sentido literal do termo — o que aqueles dois homens decidiram que era negociável. Zolghadr foi sancionado pelo Conselho de Segurança da ONU em 2007 pelo seu papel no desenvolvimento do programa de mísseis iraniano. Em 2023, o Reino Unido sancionou-o por envolvimento em "atividade nuclear". O seu antecessor no Conselho Supremo de Segurança Nacional era Ali Larijani — descrito nos documentos disponíveis como pragmático e mais moderado. Larijani foi morto num ataque aéreo israelita. Zolghadr substituiu-o. A substituição não foi neutra. Foi, nas palavras de Behnam Ben Taleblu, analista da Foundation for Defense of Democracies, "mais prova da consolidação militar dos Guardiões" — uma linha de desenvolvimento que a guerra não criou mas acelerou de forma irreversível. O regime iraniano tinha, antes de fevereiro de 2026, uma estrutura em que o poder do líder supremo funcionava como árbitro entre fações — Khamenei era o ponto de convergência de tensões entre pragmatistas, conservadores e militares, e a sua autoridade derivava precisamente da capacidade de gerir essa tensão sem deixar que nenhuma fação dominasse completamente. Quando essa função arbitral desapareceu, o vácuo não foi preenchido por consenso. Foi preenchido pela fação que tinha as armas, a inteligência e a memória operacional de como o regime sobrevive. O Estado Novo durou quarenta e oito anos. Sobreviveu à morte de Salazar, à transição para Caetano, a guerras coloniais em três frentes simultâneas, a pressão diplomática crescente, a uma economia em deterioração. O que o derrubou não foi uma crise de liderança nem um ataque externo à sua cúpula. Foi um golpe interno conduzido por oficiais militares que tinham servido nas guerras coloniais e que tinham chegado à conclusão, pela experiência direta, de que o regime não tinha saída — e essa decisão demorou décadas a amadurecer dentro da própria estrutura militar que o sustentava. No Irão de 2026, os homens que detêm os meios de força chegaram à conclusão oposta. Os danos da guerra são reais — extensos, possivelmente mais profundos do que os da guerra com o Iraque, segundo Vaez. Mas não produziram a clivagem interna que Washington antecipou. Produziram coesão em torno dos Guardiães e a certeza partilhada de que qualquer sinal de cedência seria lido, dentro e fora do regime, como o início do fim. A questão nuclear espelha esta dinâmica. Vaez argumenta que nenhum dos dois lados pode aceitar as condições do outro na sua formulação atual: os Estados Unidos não podem reconhecer oficialmente o direito iraniano ao enriquecimento de urânio; o Irão não pode aceitar a desnuclearização completa sem perder o único ativo que garante que Washington não tenta novamente o que tentou em fevereiro. O enriquecimento é, para os Guardiães, a lição de Ormuz escrita em centrifugadoras — a dissuasão exige que o custo de um ataque seja insuportável. Trump declarou em Truth Social que o regime mudou porque "o anterior foi dizimado, destruído, estão todos mortos. O próximo regime está maioritariamente morto. E o terceiro regime — estamos a lidar com pessoas diferentes." São pessoas diferentes. São mais duras, mais militaristas e com menos constrangimentos do que as anteriores. Vahidi comanda os Guardiães com um mandado de captura internacional ativo desde 1994. Buenos Aires ficou por julgar. O Estreito de Ormuz continua fechado. A negociação continua em curso com homens que aprenderam, há quarenta anos, que a única coisa que um regime não pode fazer é mostrar que pode ser dobrado. #GuardiãesDoIrão #GuerraDoIrão #Irão #Geopolítica #MédioOriente #AtlanticLisbon #Negociações #Nuclear #EUA #Khamenei #Islamabade

  • O acordo existe. Trump é que não o consegue assinar

    A 26 de fevereiro de 2026, em Genebra, Steve Witkoff e Jared Kushner sentaram-se em frente à delegação iraniana. Tinham voado para a Suíça sem equipas de especialistas, sem cadernos de posições preparados, sem o aparato técnico que qualquer negociação desta escala normalmente exige. A mensagem que transmitiram foi simples: não precisamos de peritos, não precisamos de detalhes, precisamos apenas que aceitem os nossos termos. A reunião terminou sem acordo. Por que as negociações com o Irão não chegam a acordo? O impasse não está na inexistência de um acordo possível, mas na incapacidade política de Trump em aceitar uma solução que permita ao Irão assinar sem parecer derrotado. Há guerras que terminam por esgotamento militar. Esta não vai terminar assim. O Irão tem reservas para dois a três meses de bloqueio. Os Estados Unidos têm um calendário político que os iranianos calculam ser ainda mais curto — semanas, não meses, antes que o preço do petróleo, a falta de combustível para aviões e a pressão económica acumulada tornem o custo doméstico insuportável para uma administração que chegou ao poder prometendo exatamente o contrário. Nenhum dos dois lados vai dobrar o outro pela força. Ambos sabem disso. A questão não é se haverá acordo. É se o homem que teria de o assinar consegue fazê-lo sem destruir a possibilidade no próprio ato de a criar. Trump construiu a sua identidade política à volta de uma ideia de vitória que exige a visibilidade da derrota do outro. Não basta ganhar — é preciso que o outro seja visto a perder. Esta não é uma preferência estilística. É uma limitação estrutural quando aplicada a negociações com um regime que sobreviveu quarenta anos de pressão externa precisamente porque aprendeu a nunca parecer dobrado. O Irão não assina o que pareça rendição — não porque os seus líderes sejam irracionais, são calculistas e pragmáticos dentro dos seus próprios parâmetros, mas porque a legitimidade interna do regime depende da perceção de que resistiu onde outros teriam cedido. A diplomacia, na sua forma mais exigente, é a arte de construir acordos em que cada parte pode apresentar o resultado aos seus como uma vitória. Ou pelo menos como não uma derrota. "Unconditional surrender" foi a formulação que Trump usou nos primeiros dias da guerra. É a formulação que os iranianos ouviram. E é a formulação que torna o acordo estruturalmente mais difícil cada vez que é repetida, porque obriga a contraparte a provar, para consumo interno, que não foi isso que aconteceu. Enquanto Witkoff e Kushner esperavam em Genebra que os iranianos aceitassem os seus termos, as delegações iranianas percorriam o mundo. Islamabade, para as conversações com os paquistaneses. Mascate, para os omanis. Moscovo, para discutir com os russos o que fazer com as reservas de urânio enriquecido. Três capitais em dias. Ambos os lados sabem o que é preciso. O obstáculo não é o Irão — é a prática política de um presidente que só reconhece a vitória quando o adversário aparece visivelmente derrotado. E é o comportamento de um regime que está a construir a arquitetura de uma saída que não pareça uma saída — que está a criar, com a paciência de quem tem décadas de experiência em sobreviver à pressão externa, as condições para que um eventual acordo possa ser apresentado em Teerão como algo diferente de capitulação. Os americanos, neste mesmo período, não se moveram. Ficaram à espera. A assimetria não é de poder. É de método que aplicam. Portugal tem uma memória longa sobre o que acontece quando um ator com mais força não percebe que a força não é o instrumento certo. Durante treze anos, o Estado Novo travou guerras coloniais em Angola, Moçambique e Guiné-Bissau contra movimentos de independência que não podiam vencer militarmente mas que também não podiam ser derrotados por meios militares. O impasse não foi resolvido pela força de nenhum dos lados. Foi resolvido quando, dentro do próprio exército português, oficiais que tinham servido nessas guerras chegaram à conclusão de que a continuidade era impossível — e construíram uma saída que preservou a dignidade de quem saía. O 25 de Abril não foi uma derrota. Foi uma retirada com arquitetura suficiente para não parecer uma fuga. A administração Trump não está a construir essa arquitetura. Está a insistir na formulação que a torna impossível. As condições para um acordo existem e são conhecidas. Do lado iraniano: algum grau de enriquecimento de urânio reconhecido, levantamento das sanções, acesso a mercados. Do lado americano: garantias de não proliferação, reabertura do Estreito de Ormuz, alguma forma de supervisão internacional. Nenhuma destas posições é irreconciliável com a da outra parte. O que não existe é uma formulação que permita a Trump apresentar o resultado como rendição iraniana e aos Guardiães apresentá-lo como vitória estratégica. Há uma solução técnica possível para o Estreito — um consórcio internacional, um sistema de portagens partilhado, uma supervisão multilateral que retire ao Irão o controlo exclusivo sem o obrigar a ceder formalmente a soberania. A solução técnica só funciona se o contexto político a deixar funcionar — se nenhuma das partes precisar de a apresentar como derrota da outra. Com a gramática atual de Washington, esse contexto não existe. Vaez formulou-o com uma precisão que poucos analistas conseguem: Trump poderia ter tido, na sua primeira presidência, um acordo melhor do que o que Obama assinou. Tinha a alavancagem económica, tinha o contexto, tinha a disposição iraniana. O que não tinha era a capacidade de deixar o outro lado sair sem humilhação. E sem isso, não há acordo — não com os iranianos, não com ninguém que tenha aprendido a tratar a dignidade como recurso estratégico. A guerra continua. O Estreito permanece fechado. O petróleo sobe. As companhias aéreas cancelam voos por falta de combustível. O Campeonato do Mundo está marcado para os Estados Unidos e começam a haver dúvidas sobre a logística de um torneio sem querosene suficiente para os aviões dos adeptos. Trump declarou em Truth Social que tem "todo o tempo do mundo". É o tipo de frase que se diz quando se perdeu o controlo do calendário. O Irão sabe que o tempo americano é mais curto do que o seu. Os mercados sabem. Os aliados europeus, que se recusaram a abrir as bases para as operações americanas e que continuam a ver o custo económico do conflito a subir, sabem. As negociações continuam. Os iranianos continuam a viajar. Os americanos continuam à espera que o outro lado aceite os seus termos. Em Genebra, a 26 de fevereiro, Witkoff e Kushner tinham dito que não precisavam de peritos. Tinham razão num sentido que não pretendiam: o problema não é técnico. É a questão mais antiga da diplomacia — como se constrói um acordo em que ambos os lados podem olhar para o resultado e chamar-lhe vitória. É uma arte. E há homens que simplesmente não a aprenderam. Fontes: entrevista de Ali Vaez ao The New Yorker, abril de 2026; reportagens de Robin Wright ao The New Yorker, abril de 2026. #GuerraDoIrão #Trump #Negociações #Irão #Diplomacia #EstreitorDeOrmuz #Geopolítica #AtlanticLisbon #MédioOriente #Acordo #PolíticaExterna

  • Guerra do Irão: o que as bases dos EUA não protegem

    Trinta e três quilómetros. Na estrangulação mais apertada do Estreito de Ormuz, é essa a distância entre as costas iranianas e a península de Musandam, no sultanato de Omã. Uma hora de travessia a velocidade de cruzeiro para um navio-tanque. Tempo suficiente para transportar uma fração do petróleo e do gás liquefeito que, durante décadas, fluiu por ali sem que o mundo prestasse grande atenção ao que tornava aquela passagem possível — e ao que seria necessário para a fechar. Por que as bases militares dos EUA no Golfo não protegem os seus anfitriões. A geografia estreita de Ormuz expôs uma fragilidade maior: a presença militar americana no Golfo não garante, por si só, a proteção dos aliados nem o controlo político da crise. Em março de 2026, esse corredor tornou-se o ponto de convergência de uma equação que ninguém tinha querido formular em voz alta: o Irão decidira fechá-lo, e nenhum dos países com bases militares americanas instaladas ao longo de toda a costa sul do Golfo Pérsico estava em condições de o reabrir. Não por falta de meios. Por falta de um cálculo que valesse a pena fazer — ou que alguém com poder de decisão estivesse disposto a assumir publicamente. O que falhou não foi a capacidade militar. Foi a premissa. Durante cinquenta anos, a presença americana no Golfo assentou numa lógica que raramente precisou de ser articulada, precisamente porque nunca tinha sido testada com esta brutalidade. A base era a garantia. O porta-aviões ancorado ao largo, os interceptores Patriot estacionados nos arredores de Riade e Abu Dhabi, os militares americanos a circular nos centros comerciais de Doha — tudo isso dizia, sem precisar de dizer: estamos aqui, portanto estão protegidos. Os países do Golfo aceitaram este argumento durante décadas, pagaram-no em contratos de armamento avaliados em centenas de milhares de milhões de dólares e em cooperação política que incluía silêncios convenientes sobre políticas domésticas, e construíram sobre ele a sua arquitetura de segurança. A condição não estava escrita — funcionava enquanto o Irão respeitasse a dissuasão. O Irão deixou de a respeitar — e a revelação teve uma crueldade específica para quem estava dentro do sistema. Os Emirados Árabes Unidos, que acolhem a maior base aérea americana do Médio Oriente, foram o país do Golfo mais duramente atingido pelos ataques iranianos. A escolha não foi aleatória. Teerão construiu deliberadamente uma estrutura de incentivos para punir qualquer aproximação a Israel: atacar o anfitrião mais visível da presença americana era a mensagem, escrita em mísseis balísticos sobre instalações portuárias e de dessalinização. A base não protegeu os Emirados. Tornou-os alvo preferencial, com a precisão de quem quer que o exemplo seja lido corretamente pelos vizinhos. Dania Thafer, diretora do Gulf International Forum, nomeou o mecanismo com precisão: existe "uma preocupação real sobre uma hierarquia de aliança entre os EUA e Israel, e os EUA e os Estados do Golfo, com Israel mais acima nessa hierarquia." Qualquer analista do Médio Oriente teria subscrito esta formulação em 2018, ou em 2010, ou em 1990. O que a guerra fez foi torná-la indisfarçável. Há uma memória em Lisboa sobre este mecanismo que Washington parece ter esquecido, ou nunca aprendido direito. Em outubro de 1973, quando a guerra de Yom Kippur ameaçava destruir as forças israelitas no Sinai e no Golã, a administração Nixon precisava com urgência de uma ponte aérea para Telavive. A rota mais direta passava pelos Açores. Portugal, governado então por Marcelo Caetano e em negociação longa e difícil com Washington sobre a renovação dos acordos de utilização das Lajes, acabou por ceder à pressão americana — a base foi disponibilizada, os voos de reabastecimento partiram da Terceira a partir de 13 de outubro, e a operação ajudou a virar o equilíbrio militar no terreno. As consequências chegaram em semanas. Os países árabes produtores de petróleo incluíram Portugal no embargo que lançaram contra os que tinham apoiado Israel, diretamente ou por facilitar a logística americana. Uma economia já fragilizada, a menos de seis meses da revolução que poria fim ao Estado Novo, pagou o preço de uma estratégia que não tinha desenhado e de uma guerra em que não tinha nenhuma posição própria. Portugal assinou um acordo de utilização com cláusulas escritas — e recebeu as cláusulas não escritas conforme chegaram, sem aviso prévio e sem direito de veto. Segundo Zelensky, os Estados Unidos utilizaram cerca de oitocentos interceptores Patriot nos primeiros três dias da guerra com o Irão — mais do que a Ucrânia recebeu em quatro anos de conflito contra uma força que usa os mesmos drones iranianos comprados por Moscovo. Os países do Golfo viram os sistemas instalados nos seus territórios, apresentados publicamente como escudo da sua segurança, a ser reorientados para uma prioridade diferente sem que ninguém se tivesse dado ao trabalho de lhes explicar a lógica operacional. A base estava lá. O que ela estava a proteger tinha mudado. No topo da hierarquia que se tornou visível não estavam os Emirados, nem a Arábia Saudita, nem o Qatar — aliados comprados a peso de ouro e de silêncio diplomático durante décadas. Estava a operação militar americana no estreito, e dentro dessa operação a segurança de Israel e a batalha pelo preço do barril numa economia americana já fragilizada pela desorganização tarifária dos meses anteriores. Os países do Golfo já sabiam, em abstrato, que Washington tinha interesses próprios que nem sempre coincidiam com os seus. Saber isso com portos atacados e sistemas Patriot redirecionados é uma informação de outra ordem — operacional, mensurável, documentada em interceptores por dia. A Arábia Saudita aprofundou o acordo de defesa com o Paquistão, que ganhou credibilidade adicional como mediador entre Washington e Teerão. O Qatar consolida os laços com a Turquia, que tem os seus próprios cálculos em relação à NATO e à Rússia e que não é, por isso, uma âncora simples. A China, com relações comerciais densas com o Irão e interesses diretos na estabilidade do corredor de Ormuz para as suas importações energéticas, posiciona-se como o ator com credenciais de mediação que Washington erodiu. Fala-se de arquiteturas regionais de segurança coletiva, de um "NATO árabe", de consórcios internacionais para a gestão dos corredores marítimos do Golfo — ideias que circulavam em conferências académicas há quinze anos e que a guerra trouxe para negociações concretas. O problema com estas alternativas não é a sua incoerência. É que replicam, em versão mais fragmentada e com menos recursos, a mesma premissa que acabou de ser testada até ao ponto de ruptura: uma arquitetura de segurança assente em garantias mútuas funciona enquanto a ameaça aceitar ser dissuadida. O Irão que fechou Ormuz após ter absorvido ataques que mataram o seu líder supremo, decimaram a sua liderança política e destruíram parte substancial da sua infraestrutura militar demonstrou que essa condição tem limites que nem a presença de um porta-aviões americano foi capaz de fixar. Se uma arquitetura alternativa, construída sobre interesses parcialmente contraditórios entre a Turquia, o Paquistão, a China e os próprios países do Golfo, estaria em melhor posição para lidar com esse Irão — é uma pergunta que ninguém em Abu Dhabi ou Riade consegue responder com convicção, porque a convicção exigiria um grau de confiança nos novos parceiros que ainda não foi construído. O que existe é menos dependência de uma única garantia. Não é uma estratégia acabada, mas é o único terreno disponível depois de o anterior ter cedido. Do outro lado do mundo, a Europa assistia a um espelho do mesmo problema, com variações que tornavam o reflexo mais incómodo do que a imagem original. Trump exigiu que os aliados da NATO abrissem as suas bases para as operações americanas contra o Irão. Vários recusaram ou limitaram o acesso. A resposta de Washington foi imediata: "NATO WASN'T THERE WHEN WE NEEDED THEM, AND THEY WON'T BE THERE IF WE NEED THEM AGAIN." Moscovo tratou a fratura como confirmação do argumento que alimentara durante anos sobre a fragilidade estrutural do sistema de alianças ocidentais. O enviado presidencial russo Kirill Dmitriev escreveu que os europeus tinham finalmente revelado o seu verdadeiro rosto — o comentário de um ator que beneficia diretamente do ruído que gera, e que o sabe. A recusa europeia não foi um abandono da aliança. Foi a aplicação da mesma lógica que os países do Golfo tinham aplicado, com a diferença de que os europeus têm parlamentos e opiniões públicas que tornam impossível a aceitação silenciosa. Acolher uma base americana não equivale a uma carta branca para todas as guerras que o seu proprietário decida travar. Os europeus tinham reservas sobre a guerra com o Irão — expressas em reuniões do Conselho Europeu, em declarações de chefes de governo, em análises de serviços de informações que não partilhavam o otimismo de Washington sobre a rapidez com que o regime iraniano capitularia — e essas reservas foram ignoradas durante o planeamento da operação. Recusar o uso das bases foi a única forma de as exprimir que ainda estava disponível depois de a guerra ter começado. Trump leu isto como traição. Os europeus leram como diferença legítima de avaliação estratégica sobre uma guerra em que não tinham sido consultados. Moscovo leu como oportunidade de exploração. A Rússia é o único ator para quem as três leituras são simultaneamente verdadeiras — e que se beneficia precisamente dessa simultaneidade. Os meses que se seguiram confirmaram o encadeamento. Com o preço do petróleo disparado pelo fechamento do estreito, a administração americana emitiu uma isenção temporária que suspendeu parcialmente as sanções ao petróleo russo para aliviar a pressão nos mercados energéticos ocidentais. As receitas russas de petróleo subiram de 9,7 mil milhões de dólares em fevereiro para 19 mil milhões em março. A atenção americana e os interceptores Patriot estavam no Golfo, e a Ucrânia continuava a receber, noite após noite, vagas de mísseis balísticos e drones Shahed — construídos com componentes russos, baseados em tecnologia iraniana, montados em fábricas que os dois países tinham desenvolvido em conjunto durante os anos em que o mundo estava a olhar para outro lado. Na madrugada de 15 de abril, a Rússia lançou sobre a Ucrânia três mísseis balísticos e trezentos e vinte e quatro drones de ataque, incluindo duzentos e cinquenta Shaheds. Na noite seguinte, dezanove mísseis balísticos, vinte e cinco mísseis de cruzeiro e seiscentos e cinquenta e nove drones. Morreram pelo menos dezassete pessoas. Foi um dos maiores ataques aéreos dos quatro anos de guerra. A base em Rammstein, a base em Aviano, a base em Mildenhall: continuavam lá. Serviam uma prioridade diferente. A palavra "aliança" cobre mais território do que qualquer tratado descreve — e parte desse território só se torna visível quando alguém precisa de o atravessar. Há um detalhe nas negociações de Islamabade que vale a pena registar com cuidado, porque é fácil de sobrecarregar de sentido. Mohammad Bagher Ghalibaf, que liderou a delegação iraniana nas vinte e uma horas de conversações que terminaram sem acordo, construiu parte da sua reputação pública como modernizador pragmático. Em 2008, quando era presidente da câmara de Teerão e frequentava o Fórum Económico Mundial em Davos, disse ao New York Times que o Irão não queria construir armas nucleares, que o diálogo com Washington era possível, e que a condição era simples: ser tratado como parceiro, não como réu. A entrevista foi publicada com o subtítulo de "authoritarian modernizer". Dezoito anos depois, o mesmo homem sentava-se do outro lado da mesa numa tentativa de pôr fim a uma guerra que começara com a morte do líder supremo do seu país em ataques aéreos guiados por informações americanas. O que Ghalibaf disse em Davos e o que disse em Islamabade não são posições contraditórias — são a mesma posição em contextos de poder radicalmente diferentes. Em 2008, o Irão precisava de ser ouvido e não tinha alavancagem suficiente para exigir que o ouvissem. Em 2026, o Irão controlava o corredor por onde fluía um quinto do petróleo mundial, e a delegação americana que veio a Islamabade incluía o vice-presidente J. D. Vance. A diferença entre ser tratado como parceiro e ser tratado como problema nunca esteve nas declarações de intenção de nenhuma das partes. Estava na presença ou ausência de alavancagem — e a alavancagem, neste caso, não vinha dos anos de resistência às sanções nem da retórica revolucionária. Vinha de trinta e três quilómetros de água e da decisão de os fechar. Suzanne Maloney, do Brookings Institution, disse-o de forma direta: os iranianos "acreditam que ganharam a guerra" e "ainda detêm o trunfo do controlo sobre o estreito." Enquanto isso for verdade — e continua a ser, com o estreito largamente fechado — não há incentivo estrutural para a capitulação que Trump descreveu publicamente como o modelo venezuelano. A Venezuela funcionou porque Maduro não tinha Ormuz. O Irão tem. #GuerraDoIrão #EstreitorDeOrmuz #BasesAmericanas #GeopolíticaDoGolfo

  • O que significa celebrar o 25 de Abril hoje?

    Ensaio Numa sala de reuniões de uma câmara municipal, as cadeiras já estão alinhadas antes de alguém chegar. A mesa espera. As bandeiras também. Há um programa impresso com horas, nomes, talvez uma palavra gasta sobre liberdade. Lá fora, noutro município, alguém testa o som para um concerto. Há cartazes, cabos pelo chão, gente que passa sem parar, uma criança que segura um cravo sem perceber bem o que transporta na mão. As duas cenas pertencem ao mesmo dia. Não precisam de se tocar. O que significa celebrar o 25 de Abril hoje? O 25 de Abril sempre foi muitas coisas ao mesmo tempo: memória, rutura, promessa, disputa. A data não mudou, nem o calendário, nem sequer o vocabulário que a acompanha. Mudou a forma como se habita aquilo que ela significa. E, mais devagar, a forma como se deixa de o habitar. Durante anos, a pergunta era saber se a democracia portuguesa sobreviveria ao seu próprio nascimento. A resposta foi-se acumulando em factos: eleições regulares, alternância, integração europeia, normalidade institucional, uma espécie de respiração administrativa que, por si só, já era muito para um país saído de ditadura, guerra colonial e isolamento. O regime consolidou-se. A pergunta perdeu urgência, talvez até tenha perdido público. Vieram outras, menos visíveis. Entre a festa pública e o protocolo institucional, a democracia portuguesa mostra sinais discretos de desgaste. Num país que já não precisa de provar que é democrático, o problema desloca-se. Não é a ausência de instituições. É a relação com elas. Não é a falta de liberdade formal. É a forma como essa liberdade circula no espaço comum: usada, ignorada, invocada, gasta, por vezes reduzida a palavra disponível para quase tudo. Um cravo permanece, mas já não ocupa o centro — entre a luz e a sombra, a liberdade torna-se presença discreta. A diferença entre uma celebração que se prolonga em cultura e outra que se fixa no protocolo não pertence apenas ao domínio da estética. Não é só questão de preferências políticas ou de estilos de governação local. Aponta para o modo como a democracia se transforma quando deixa de ser urgência e passa a ser dado adquirido: uma coisa que está ali, como a iluminação pública ou a calçada, reparada apenas quando falha. Há um momento em que a liberdade deixa de ser conquista e se torna cenário. Continua ali. Já não interrompe ninguém. Essa acomodação não costuma anunciar-se. Vem em mudanças de tom. Vem também na distância entre aquilo que se diz celebrar e aquilo que se pratica no dia seguinte, quando as cerimónias acabam, as cadeiras regressam ao armazém e o país volta à conversa habitual sobre suspeitas, irritações, culpas e pequenos ressentimentos que se oferecem como explicação de tudo. A linguagem altera-se primeiro. Certas palavras permanecem no lugar, mas perdem peso ou mudam de função. “Liberdade”, por exemplo, pode passar a designar coisas incompatíveis entre si — o direito de protestar e a vontade de humilhar, a autonomia cívica e o capricho agressivo, a crítica ao poder e o desprezo por qualquer limite comum. A ambiguidade, longe de ser resolvida, torna-se útil. Ao mesmo tempo, a desconfiança ganha terreno. Não a desconfiança crítica, que examina e distingue, mas uma suspeita difusa, que coloca tudo no mesmo plano. As instituições, os media, a justiça, a política: tudo passa a parecer igualmente contaminado. Não é recusa informada. É desgaste. E o desgaste tem uma vantagem sobre a rutura: não exige coragem, nem programa, nem rosto. Um discurso que antes seria recusado torna-se tolerável. Uma simplificação que antes pareceria grosseira passa a parecer eficaz. Uma exclusão que antes exigiria justificação começa a circular sem ela. A repetição faz o trabalho que a convicção ainda não conseguiria fazer. Depois de suficientemente repetida, a frase deixa de parecer violenta e começa a parecer apenas uma opinião entre outras. O país que saiu de uma ditadura construiu a sua democracia a partir de uma experiência concreta de limite. Sabia o que era não poder falar, não poder reunir, não poder escolher. Sabia também o que era medir palavras, desconfiar da parede, baixar a voz, conhecer alguém que tinha sido chamado, detido, vigiado, empurrado para fora da sua própria vida. Esse conhecimento não era doutrina. Era vida. O problema de uma democracia consolidada é diferente: a ausência dessa memória direta nas gerações seguintes. Não porque a História desapareça, mas porque deixa de ser experiência. Aprende-se uma data, talvez um slogan, talvez uma fotografia repetida nos manuais. Mais difícil é transmitir o peso daquilo que não se viveu: o ar parado de uma sociedade onde a prudência se confundia com sobrevivência. A transmissão não é automática. Entre o que aconteceu e o que se entende há sempre um intervalo. Pode ser preenchido por ensino, cultura, discussão pública, conflito honesto, contacto com testemunhos, leitura de documentos, prática cívica. Ou pode ficar vazio, entregue à pressa das redes, à simplificação partidária, à fadiga das famílias, à ideia cómoda de que a democracia é uma paisagem e não uma construção. Quando fica vazio, o passado não desaparece. Torna-se abstrato. E o abstrato protege menos. Ninguém arrisca grande coisa por uma abstração sem corpo. Arrisca-se por uma lembrança concreta, por uma injustiça reconhecida, por alguém a quem se deu nome, por uma ferida que ainda encontra linguagem. A diferença entre uma democracia que se defende e uma democracia que se presume começa aí. Na primeira, a liberdade é testada contra a realidade. Na segunda, é assumida como mobiliário da casa. Existe, ocupa espaço, parece sólida; mas ninguém pergunta quem a conserva, quem a limpa, quem a repara quando uma perna começa a ceder. Nada disto se traduz necessariamente em mudanças visíveis no funcionamento das instituições. O parlamento continua a reunir. Os tribunais continuam a decidir. Os jornais continuam a publicar. O calendário político mantém-se. A forma democrática pode resistir durante muito tempo ao empobrecimento da sua matéria. Mas a relação com esse conjunto altera-se. Uma democracia pode continuar a existir formalmente e perder densidade no modo como é vivida. Não há contradição nisso. Há desfasamento. As palavras permanecem; o uso que delas fazemos, esse, começa a mudar. O 25 de Abril não produz esse desfasamento. Expõe-no. Quando uma cidade celebra com intensidade cultural e outra cumpre com precisão institucional, não estamos apenas perante estilos diferentes. Estamos perante leituras diferentes do que ainda precisa de ser defendido. Numa, a memória é ativada como prática: sai à rua, procura público, mistura gerações, arrisca algum excesso. Noutra, é preservada como referência: fica ordenada, respeitosa, muitas vezes impecável, talvez demasiado segura de si. Nenhuma destas posições explica sozinha o estado da democracia. A coexistência das duas, quase sem atrito, diz alguma coisa sobre o momento. Diz que o consenso se deslocou. Não necessariamente contra Abril; talvez para longe dele, para uma zona onde a data é aceite, mas já não organiza o imaginário comum com a mesma força. Durante décadas, o 25 de Abril funcionou como ponto de convergência. Não eliminava divergências políticas, mas definia um terreno comum. Esse terreno ainda existe. Tornou-se menos evidente. A democracia já não tem apenas adversários exteriores ou nostálgicos declarados; tem também o cansaço dos que a herdam sem espanto e a usam sem gratidão, como se tivesse nascido com o mobiliário urbano. A disputa não é frontal. Não aparece como rejeição aberta da data ou do que ela representa. Passa por gestos mais discretos: a forma como se fala do passado, a forma como se redesenha o que conta como ameaça, a forma como se desloca a atenção de uma promessa coletiva para uma soma de irritações privadas. Quando a liberdade deixa de ser linguagem de emancipação e passa a ser apenas linguagem de licença, algo mudou no centro da conversa. Uma democracia não se esgota na sua origem. Mas a forma como trata essa origem denuncia alguma coisa do que se tornou. Portugal não é um caso isolado. Em várias democracias consolidadas, a relação com os seus momentos fundadores está a mudar. O problema não é apenas a perda de memória. É a conversão da memória numa coisa disponível, maleável, sem poder de orientação. Os acontecimentos permanecem nos arquivos; o seu sentido passa a circular mais leve, mais disputável, mais vulnerável a apropriações que dele retiram o incómodo. O 25 de Abril, visto a partir de Lisboa, não é só uma data nacional. É também peça de uma história mais larga: a de um país que foi centro de um império e que, ao perder esse lugar, teve de reaprender o tamanho da sua voz. Essa aprendizagem nunca ficou concluída. Nem poderia. Um país não se torna subitamente lúcido sobre si próprio por mudar de regime. Leva consigo hábitos antigos, fantasmas, hierarquias, nostalgias, formas de obediência que sobrevivem à queda das estátuas e ao fim das palavras oficiais. Há uma experiência acumulada — de poder, perda, adaptação, atraso, sobrevivência — que continua a informar a forma como se olha para o presente. Não como doutrina. Como fundo. Talvez por isso faça sentido desconfiar das narrativas demasiado triunfais, das certezas rápidas, da ideia de que a democracia é uma linha ascendente que só precisa de tempo para se aperfeiçoar. O olhar de Lisboa, quando não se deixa adormecer por si mesmo, pode ter essa utilidade: reparar no que se estraga devagar. Nas margens antes do centro. No tom antes da lei. Na piada antes da norma. Na impaciência antes da violência. Não como ameaça súbita. Como deslocação. No final do dia, as cadeiras são arrumadas. Os cabos de som são desligados. Os cravos começam a murchar. Alguém varre o chão perto da entrada da sala. Noutro lugar, desmonta-se o palco. A criança talvez já tenha largado a flor, ou a tenha levado para casa sem saber se deve pô-la num copo com água. A data passa. O que fica não é o programa nem o discurso. É a forma como, no dia seguinte, se continua — ou não — a habitar aquilo que se disse celebrar. #25DeAbril #Democracia #Liberdade #Memoria #Portugal #AtlanticLisbon #PensamentoCritico #Cultura #Historia #Politica #Sociedade #Reflexao #Europa

  • Amar os livros não é o mesmo que ler. Os filhos sabem.

    O corredor estreito da Livraria Bertrand da Rua Garrett, em Lisboa, obriga quem entra a andar de lado para deixar passar quem sai. É uma das mais antigas livrarias do mundo ainda em funcionamento — o facto consta das paredes, numa placa discreta — e em certas tardes de outubro fica cheia de gente que parece ali estar por razões completamente diferentes. Por que os filhos de pais leitores não lêem? Há quem compre. Há quem folheie durante vinte minutos e saia de mãos vazias. Há quem entre simplesmente para estar naquele cheiro. E há, cada vez mais, gente que tira fotografias às lombadas sem abrir um único volume. A livraria como cenário. O livro como adereço. Não é uma observação moralista. É um dado. Entre a reverência pelo livro e o hábito real de leitura há uma distância que as crianças aprendem a reconhecer muito cedo. Existe uma distinção que os estudos sobre hábitos de leitura raramente formulam com clareza suficiente: a diferença entre amar livros e ler. As duas coisas não são a mesma. É possível ter uma relação intensa, quase devota, com o objeto-livro — a sua textura, o seu peso, a promessa das suas páginas — sem ter uma prática de leitura consistente. E é possível, também, o inverso: ler com regularidade sem nenhum fetichismo particular pelo artefacto. A confusão entre as duas coisas tem consequências práticas, sobretudo quando se tenta perceber como é que os hábitos de leitura se formam — ou não se formam — numa criança. O argumento mais comum diz que o ambiente doméstico decide quase tudo. Que uma casa com livros produz leitores. Que pais que lêem têm filhos que lêem. Há investigação que apoia esta leitura, e ela não está errada. Mas está incompleta de uma forma específica que raramente se nomeia: o que se transmite, na maioria dos casos, não é o hábito de ler. É a posição social da leitura. A ideia de que livros são importantes. O gesto de os ter. A retórica da sua necessidade. Isso é muito diferente de transmitir o prazer concreto, físico, quase viciante, de acabar um capítulo às duas da manhã porque não se consegue largar o livro. Pense-se numa cena comum. Uma família de classe média urbana, escolarizada, com uma estante bem abastecida na sala. Os filhos crescem rodeados de livros. Ouvem, desde pequenos, que ler é fundamental. A escola reforça a mensagem. Os avós oferecem livros no Natal. Há uma biblioteca pública a dez minutos de casa que nunca foi visitada. Os pais, quando questionados, dizem que adoravam ler — usam o imperfeito com uma certa melancolia — mas que agora não têm tempo. O telemóvel está sempre à mão. A série está sempre a meio. O dia é sempre demasiado longo e demasiado curto ao mesmo tempo. A criança observa — não o que lhe dizem, mas o que fazem. A observação não pretende culpar ninguém. É apenas o que acontece. As crianças aprendem comportamentos muito mais do que aprendem declarações. E quando o comportamento observado é — os livros ficam na estante, o ecrã fica na mão — a mensagem recebida não tem nada a ver com a mensagem enviada. A criança percebe, com a crueldade analítica que é específica da infância, que os adultos à sua volta acreditam que ler é importante da mesma forma que acreditam que fazer exercício é importante: com convicção sincera e prática irregular. Existe uma ideia na economia comportamental — o nudge, a pequena empurra — que parte de uma observação banal: as pessoas não agem de acordo com as suas convicções. Agem de acordo com a fricção. Com o que é mais fácil, mais imediato, mais disponível no momento em que têm de escolher. Richard Thaler ganhou um Nobel por levar isso a sério. Aplicado à leitura, o argumento tem uma consequência incómoda: não basta valorizar os livros. É preciso que os livros sejam o objeto de menor resistência no ambiente. Que estejam espalhados, acessíveis, normais. Que não sejam reservados a um território especial — a estante da sala, o quarto de estudo, a lista de presentes de aniversário — mas que apareçam na mesa de jantar, no quarto de banho, na mochila do carro, na mesa de cabeceira com um marcador a meio. O livro como objeto de uso, não de reverência. A reverência é, possivelmente, um dos maiores obstáculos à leitura. Transforma o livro numa categoria moral. E ninguém quer passar o tempo livre a praticar uma atividade moral. A leitura competia, durante séculos, com um número relativamente pequeno de alternativas. A conversa. O trabalho manual. O passeio. A carta. O jogo de cartas. Em cada uma dessas alternativas havia fricção — o jogo de cartas exigia companhia, a conversa exigia energia social, a carta exigia papel e tinteiro e tempo de resposta. O livro, nesse contexto, era muitas vezes o caminho de menor resistência para quem quisesse estar sozinho e ocupado ao mesmo tempo. Esse contexto desapareceu. O telemóvel oferece o mesmo — solidão ocupada, estimulação imediata, possibilidade de pausa e retoma a qualquer momento — sem nenhuma das exigências do livro. Sem a necessidade de manter a atenção durante mais do que trinta segundos. Sem a obrigação de seguir um fio narrativo entre sessões. Sem o investimento inicial de entrar num mundo que ainda não se conhece. Não é que as crianças de hoje sejam menos capazes de ler do que as de gerações anteriores. É que o custo de oportunidade da leitura aumentou de forma dramática. E ninguém fala honestamente sobre isso porque implicaria admitir que o problema não está nas crianças. Está nos adultos que lhes criaram o ambiente. Existe uma geração — a que tem hoje entre trinta e cinco e cinquenta anos, grosso modo — que aprendeu a ler antes da internet e cresceu com a internet. Que tem uma relação com os livros formada num tempo em que eles eram o principal veículo de ficção e conhecimento disponível a baixo custo, e que vive agora num tempo em que essa função foi quase inteiramente substituída. Esta geração continua a comprar livros. Continua a ter estantes. Continua a recomendar títulos e a oferecer volumes e a falar de leitura com uma certa saudade de si própria. Mas a verdade é que lê menos. Muito menos, provavelmente, do que imagina. O resultado é uma espécie de dupla mensagem que as crianças recebem desde muito cedo: os livros são importantes — e os adultos que mais os valorizam são precisamente os que menos tempo passam a lê-los. A dissonância não passa despercebida. Uma criança de oito anos não tem vocabulário para a articular, mas tem antenas suficientemente finas para a detetar. E o que deteta não é hipocrisia — os adultos são genuínos na sua convicção — mas incoerência. A incoerência que existe entre o valor declarado e o uso real. A transmissão de um hábito funciona diferentemente da transmissão de um valor. Um valor pode ser ensinado, repetido, argumentado, reforçado por autoridade. Um hábito só se forma por modelagem — pela observação direta de alguém a fazer a coisa, com regularidade, como parte natural do quotidiano. Um pai que vai à missa todos os domingos transmite o hábito da missa muito mais eficazmente do que um pai que explica a importância da fé sem nunca entrar numa igreja. Um pai que cozinha transmite o prazer de cozinhar de forma que nenhuma conversa sobre gastronomia consegue replicar. A leitura não é diferente. A criança que vê o pai ou a mãe pegar num livro ao fim do dia, não como performance pedagógica mas como gesto natural de quem quer estar naquele lugar durante uma hora, recebe uma informação que nenhuma conversa sobre a importância da leitura consegue transmitir: que um adulto inteligente, ocupado, com muitas outras opções disponíveis, escolhe isto. Que isto é o que um adulto faz quando finalmente tem tempo para si. Essa informação vale mais do que qualquer lista de leituras recomendadas. Há um problema estrutural, contudo, que os argumentos sobre modelagem tendem a ignorar. A modelagem funciona quando o modelo é genuíno. Quando o adulto lê porque quer ler, não porque decidiu que vai ler na frente dos filhos para lhes dar bom exemplo. A segunda situação — o adulto que força o hábito como estratégia parental — é detetável com a mesma precisão com que a criança deteta todas as outras formas de performance adulta. O teatro da virtude é sempre transparente para quem o observa de fora. O que isto significa, na prática, é que a formação de leitores exige algo que nenhum guia parental consegue prescrever: que os pais gostem genuinamente de ler. Que a leitura seja, para eles, um prazer real e não um dever cultural. Que o livro que está na mesa de cabeceira esteja ali porque não conseguiram largar a história antes de adormecer, não porque decidiram que era importante ter um livro visível. E é aqui que o argumento fecha sobre si próprio de uma forma desconfortável: se a transmissão do hábito depende da autenticidade do modelo, e se a geração de pais atuais tem uma relação com a leitura marcada pela dissonância entre o valor declarado e a prática real, então o problema não se resolve com mais estantes nem com mais recomendações de títulos adequados à idade. Resolve-se — se é que se resolve — quando os adultos voltam a ler por prazer próprio, sem agenda pedagógica, sem propósito de exemplo. O que é uma conclusão estranha. Porque sugere que a melhor coisa que um pai pode fazer pela leitura dos filhos é, simplesmente, ler. Não para eles. Para si. Em outubro passado, a Bertrand da Rua Garrett estava, numa tarde de quinta-feira, surpreendentemente cheia. Havia uma sessão de autógrafos que tinha terminado há pouco, e as pessoas que tinham comprado o livro saíam com ele debaixo do braço, a maioria sem o ter aberto. No corredor estreito, uma rapariga de talvez dez anos estava sentada no chão, encostada a uma prateleira de bolso, a ler. Não estava à espera de ninguém. Não estava a ser observada — ou não sabia que estava. Tinha os joelhos dobrados, o livro pousado neles, e uma expressão de ausência completa do lugar onde se encontrava. Ninguém sabe o que a pôs ali. Se foi uma mãe que lia no sofá ou uma professora que lhe deu o livro certo na altura certa ou simplesmente o acidente de ter encontrado uma história que a entrou de forma que não conseguiu resistir. Essas coisas raramente se sabem. O que se sabe é o resultado: uma criança que escolheu, num lugar cheio de distrações, sentar-se no chão e desaparecer dentro de um livro. O que a fez chegar ali é a pergunta que fica. E é uma pergunta que, quanto mais se estuda o assunto, menos tem resposta certa.

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