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- A IA já consegue criar vírus que nunca existiram
Dos 285 genomas escolhidos para síntese, 16 produziram vírus capazes de se replicar. O trabalho mostra que sequências propostas por um modelo de inteligência artificial já podem sobreviver ao teste laboratorial, embora a experiência tenha sido limitada a bacteriófagos simples e conhecidos. Cientistas de Stanford criam vírus funcionais desenhados por inteligência artificial Um modelo de inteligência artificial usado por investigadores de Stanford e do Arc Institute conseguiu gerar sequências que, depois de sintetizadas em laboratório, deram origem a vírus funcionais capazes de infetar bactérias. Em 16 placas de laboratório, as bactérias começaram a desaparecer. Os investigadores tinham introduzido nelas moléculas de ADN construídas a partir de sequências propostas por Evo, um modelo de inteligência artificial. Essas sequências produziram partículas virais, os vírus romperam as células onde se tinham formado e conseguiram depois infetar outras bactérias. A equipa da Universidade de Stanford e do Arc Institute tinha levado 285 genomas ao laboratório. A maioria não produziu vírus funcionais. Os 16 que resultaram, porém, conseguiram replicar-se; alguns multiplicaram-se mais depressa do que o Phi X-174, o bacteriófago natural usado como referência. O estudo foi publicado a 6 de agosto na revista Science. O que os investigadores fizeram não foi sintetizar uma cópia informática de um vírus conhecido. Evo recebeu informação genética, aprendeu regularidades presentes nessas sequências e propôs genomas completos que não existiam na natureza. O modelo já tinha sido treinado com aproximadamente nove biliões de nucleótidos provenientes de milhões de sequências de animais, plantas, micróbios e vírus. O princípio aproxima-se do utilizado nos modelos de linguagem, embora a matéria seja diferente: em vez de procurar relações entre palavras, Evo trabalha com sequências compostas pelas quatro unidades do ADN, A, C, G e T. Os genes dependem da ordem desses nucleótidos. Há combinações que permitem produzir proteínas funcionais e relações entre partes do genoma que precisam de funcionar em conjunto. Muitas dessas regras ainda não foram descritas pelos biólogos de forma completa. Evo foi treinado para encontrar regularidades diretamente nas sequências disponíveis. Os investigadores escolheram o Phi X-174, estudado há perto de um século e conhecido em grande detalhe. Tem 5386 nucleótidos e 11 genes. Um genoma humano ultrapassa os três mil milhões de nucleótidos. Além da diferença de escala, o Phi X-174 é um bacteriófago: infeta Escherichia coli, não seres humanos. Samuel King, estudante de doutoramento em Stanford e um dos autores do trabalho, descreveu a passagem de genes isolados para um genoma inteiro como “o passo seguinte óbvio”. Evo recebeu outro ciclo de treino, desta vez com os 11 genes do Phi X-174 e cerca de 15 mil vírus próximos, e gerou aproximadamente 700 mil versões possíveis. A equipa escolheu 285 das sequências consideradas mais promissoras, mandou produzir as respetivas moléculas de ADN e introduziu-as em bactérias espalhadas por placas de cultura. Na maior parte das experiências, as bactérias continuaram a crescer. A sequência proposta pelo modelo não tinha conseguido produzir um vírus funcional. Noutras placas, surgiram zonas transparentes no crescimento bacteriano. As células nesses pontos tinham sido destruídas. O ADN introduzido produzira os componentes necessários para formar vírus, que saíram das células e continuaram a infetar bactérias próximas. Foi assim que a equipa chegou aos 16 genomas funcionais. Oliver Crook, químico de proteínas da Universidade de Oxford, que não participou na investigação, assinalou que alguns desses vírus não se comportavam como versões debilitadas do Phi X-174. Alguns multiplicaram-se mais rapidamente. Crook chamou também a atenção para a proximidade entre os vírus obtidos e organismos naturais. Evo não demonstrou conseguir construir livremente qualquer tipo de vírus nem produzir organismos afastados da biologia com a qual tinha sido treinado. Também não se sabe se a experiência terá resultados semelhantes noutros grupos virais. O modelo produziu cerca de 700 mil candidatos; os investigadores selecionaram 285; 16 deram origem a vírus viáveis. Algumas das variantes concebidas por Evo conseguiram infetar estirpes de E. coli resistentes ao Phi X-174 natural. Noutro ensaio, uma mistura de fagos produzidos a partir das propostas do modelo conseguiu ultrapassar essa resistência em condições em que uma mistura de fagos naturais não obteve o mesmo efeito. Os fagos infetam bactérias e podem ser utilizados para procurar formas de atacar estirpes que já não respondem bem aos antibióticos. Um dos obstáculos das terapias com bacteriófagos é encontrar o vírus adequado para determinada bactéria. Dispor de muitas variantes propostas computacionalmente aumentaria o número de candidatos que um laboratório poderia testar, em vez de depender apenas dos fagos encontrados na natureza. Foram excluídos do treino vírus que infetam seres humanos. Os investigadores retiraram também vírus semelhantes que afetam outros animais, plantas e fungos. Brian Hie, biólogo computacional de Stanford e autor do estudo, explicou que a equipa quis ser “especialmente cuidadosa”. Moritz Hanke, do Johns Hopkins Center for Health Security, elogiou a decisão, mas chamou a atenção para a ausência de orientações que obrigassem os investigadores a adotá-la. Uma equipa que queira utilizar métodos semelhantes pode ter de decidir por si própria que material exclui e que tipo de genoma aceita gerar. Os National Institutes of Health anunciaram, entretanto, uma política destinada a impedir determinadas experiências de alto risco que tornem agentes biológicos mais perigosos. Segundo a própria agência, a investigação puramente computacional que gere ADN viral com inteligência artificial não é automaticamente proibida, exceto quando envolve uma entidade já considerada preocupante. Para agentes identificados, existem listas e informação acumulada sobre os seus efeitos. Uma sequência nova pode não ter esse historial. Hanke colocou a dificuldade desta forma: “Qual é o risco daquilo que nunca vi antes?” Em 2025, investigadores da Microsoft Research utilizaram inteligência artificial para produzir numerosas variantes de toxinas conhecidas, incluindo ricina. Algumas afastavam-se suficientemente das sequências de referência para escapar a ferramentas utilizadas no rastreio de encomendas de ADN sintético, que procuram semelhanças com material biológico perigoso já catalogado. As empresas envolvidas atualizaram posteriormente os sistemas de deteção. O mecanismo continua, contudo, dependente da capacidade de reconhecer sequências que não têm necessariamente correspondência direta nas bases de dados existentes. Nos Estados Unidos, não existe ainda uma obrigação federal geral que imponha a todas as empresas de síntese de ADN o mesmo rastreio das encomendas e a mesma verificação da identidade dos clientes. Parte do sistema funciona através de práticas voluntárias adotadas pelo setor. Os senadores Tom Cotton e Amy Klobuchar apresentaram, em fevereiro de 2026, o Biosecurity Modernization and Innovation Act. A proposta pretende reforçar estes controlos, mas continuava pendente no Congresso. Filippa Lentzos, do King's College London, inclui entre as precauções a segurança aplicada ao treino dos modelos, a avaliação dos projetos científicos, o rastreio feito pelas empresas que recebem encomendas de ADN e as condições em que esse material é depois utilizado no laboratório. Os próprios autores do estudo da Science recomendam que futuras experiências dedicadas ao desenho de genomas completos integrem especialistas em biossegurança e biocontenção desde o início. Foi isso que procuraram fazer com Evo, ao escolherem um bacteriófago que infeta E. coli e ao retirarem do treino famílias de vírus consideradas mais sensíveis. Essas escolhas limitaram deliberadamente aquilo que o modelo poderia aprender a produzir. Os vírus obtidos são próximos do Phi X-174. A maior parte das sequências sintetizadas falhou e o estudo não demonstra que Evo consiga gerar, com a mesma eficácia, vírus maiores, agentes capazes de infetar seres humanos ou genomas com propriedades previamente especificadas. Das 285 sequências levadas ao laboratório, 16 produziram vírus capazes de se replicar. Começaram como propostas de um modelo, foram transformadas em ADN e introduzidas em células, onde formaram vírus que depois infetaram novas bactérias. As regras existentes terão de lidar também com sequências produzidas desta forma quando não correspondam a agentes biológicos já conhecidos. #InteligênciaArtificial #IA #Ciência #Stanford #Biotecnologia #Biossegurança #Genética #Vírus #BiologiaSintética #Investigação
- JD Vance Foi Combater Washington. Washington Deu-lhe um Gabinete
JD Vance fala para uma América que reconhece varandas, empregos comuns e a sensação de que Washington é um lugar onde outras pessoas decidem. Em Washington há assessores, seguranças e doadores; há também gabinetes e portas que se abrem com bastante facilidade para quem já chegou ao poder. Um político pode continuar a dizer que está do lado de quem ficou longe dali, mesmo depois de se instalar. Vance não inventou essa habilidade. A capital americana conhece há muito candidatos que chegam para combater Washington e acabam por descobrir que algumas das suas cadeiras são bastante confortáveis. Ganhar uma eleição implica necessariamente mudar de lugar; para quem ficou a ouvi-lo do outro lado, permanece a tarefa menos confortável de perceber quanto dessa distância entrou também no discurso. JD Vance chegou a Washington para combater Washington. Entretanto, deram-lhe um gabinete.
- Trump, o Boné e a Pequena Maçada de Governar os Estados Unidos
“America First” cabe num boné, e isso já lhe dá uma vantagem considerável sobre a administração de um país. As instituições ocupam edifícios inteiros. Os aliados telefonam, a economia não aceita ordens de palco e os eleitores, às vezes, lembram-se das promessas feitas quando ainda havia música no comício. Trump fez da força uma parte central da sua política, com decisões rápidas, pressão e resultados apresentados sem grande demora. Só que uma decisão presidencial continua nos tribunais, nas relações externas e dentro das instituições muito depois de terminar a conferência de imprensa; por vezes, fica também uma conta para pagar. Regras e compromissos podem ser empurrados durante algum tempo sem grande ondas. A ausência só se torna evidente quando alguém precisa deles e descobre que já não estão onde estavam. “America First” cabe perfeitamente num boné. Os tribunais, os aliados, a economia e as consequências insistem em precisar de mais espaço.
- Trump Entrou no Médio Oriente. Alguém Viu a Saída?
Donald Trump entra no Médio Oriente com uma vantagem que muitos presidentes americanos apreciaram antes dele: no início, ainda é possível acreditar que o mapa explica alguma coisa. Depois chegam os generais e os aliados; aparecem também os aliados dos outros, e uma decisão tomada em Washington começa a produzir respostas em lugares onde Washington não decide sozinho. Trump prefere resultados visíveis e acordos que possam ser anunciados. As vitórias com muitas notas de rodapé dão menos jeito. Uma intervenção pode resolver um problema e deixar outro à porta, enquanto os presidentes mudam, as estratégias recebem nomes novos e os mapas regressam à mesa. O buraco já existia antes da chegada de Trump. Entrar nele continua a poder ser decidido num gabinete; a saída depende de muito mais gente. No Médio Oriente, Washington costuma encontrar a porta de entrada com extraordinária facilidade. A de saída continua pessimamente sinalizada.
- Os EUA abriram os ficheiros dos OVNIs. O que ficou secreto?
Washington está a divulgar documentos, vídeos e relatos militares sobre fenómenos anómalos não identificados. Parte do material continua classificado, e os ficheiros tornados públicos não contêm prova de que os Estados Unidos tenham encontrado tecnologia de origem extraterrestre. Durante décadas, consultar os ficheiros norte-americanos sobre OVNIs significava procurar documentos dispersos por diferentes organismos, apresentar pedidos de acesso à informação e lidar com páginas censuradas ou arquivos incompletos. Em 2026, Washington começou a reunir e publicar deliberadamente parte desse material. Os Estados Unidos abriram os ficheiros dos OVNIs. Os novos ficheiros divulgados pelos Estados Unidos voltam a colocar os UAP no centro do debate. Parte da documentação permanece classificada. A mais recente divulgação acrescentou 41 ficheiros desclassificados ao arquivo público dedicado aos chamados fenómenos anómalos não identificados, ou UAP. Os documentos abrangem várias décadas e incluem relatórios provenientes de estruturas militares, serviços de informações e outros organismos federais. Entre eles há relatos associados a operações militares recentes. Num documento relacionado com a base aérea de Bagram, no Afeganistão, é descrita uma grande forma triangular e silenciosa observada no céu. Noutro caso, uma tripulação de um AC-130J registou, através de sensores térmicos, objetos descritos como orbes durante um exercício no golfo de Omã. A coleção inclui também observações de pilotos, registos obtidos por sistemas militares e documentação histórica acumulada ao longo de décadas. O facto de esses materiais pertencerem agora a um arquivo governamental demonstra que as ocorrências foram registadas. Não estabelece aquilo que provocou cada uma delas. Um relatório pode confirmar que um piloto comunicou uma observação ou que uma unidade militar não conseguiu identificar imediatamente determinado objeto. Uma fotografia ou um vídeo podem igualmente ficar associados a um caso sem fornecer elementos suficientes para determinar a sua origem. A sigla UAP substituiu progressivamente a designação UFO. Um fenómeno não identificado pode acabar por ser explicado como um balão, um drone, uma aeronave, um fenómeno atmosférico ou um efeito produzido por um sensor. Noutros casos, os dados disponíveis não são suficientes para uma identificação segura. Os Estados Unidos criaram, entretanto, uma estrutura própria para tratar estes episódios. O All-domain Anomaly Resolution Office, ou AARO, recebe e analisa relatos de UAP. O Congresso aprovou regras sobre a conservação e divulgação da documentação, e os Arquivos Nacionais criaram o Record Group 615 para reunir registos provenientes das agências federais. A coleção existe porque o Estado norte-americano acumulou, ao longo de décadas, informação classificada, investigada ou arquivada sob diferentes designações relacionadas com OVNIs e UAP. A legislação aprovada no âmbito do orçamento da Defesa para 2024 obrigou os organismos federais a identificar os documentos que possuíam e a preparar cópias digitais para transferência para os Arquivos Nacionais. A lei admite documentos integralmente públicos, versões com partes ocultadas e registos cuja divulgação pode ser adiada. As razões incluem a proteção de dados pessoais, compromissos de confidencialidade e informação classificada relacionada com a segurança nacional. Há motivos militares evidentes para algumas dessas restrições. Um vídeo pode revelar as capacidades de um sensor, a distância a que determinada plataforma consegue detetar um alvo ou a localização de equipamentos. Um relatório pode identificar fontes ou métodos utilizados pelos serviços de informações. Também pode acontecer que um episódio tenha ocorrido durante uma operação que continua secreta por razões sem relação com o objeto observado. Para quem está fora do sistema de classificação, nem sempre é possível perceber por que razão determinado material permanece secreto. Antigos militares e funcionários ligados à defesa afirmaram perante o Congresso que existem programas, materiais recuperados ou informações que não chegaram aos canais normais de fiscalização. Até agora, as alegações mais extraordinárias apresentadas nessas audições não vieram acompanhadas de prova pública suficiente para confirmar a existência de tecnologia não humana. As próprias audições trouxeram para o debate o grau de acesso que os representantes eleitos têm a programas classificados e à informação mantida nas estruturas de defesa e de informações. Os governos democráticos mantêm documentos militares e de informações classificados. As dúvidas surgem quando os mecanismos de fiscalização podem não conhecer todos os programas que deveriam poder supervisionar. Foi uma das razões para a pressão política no sentido da transferência de documentação para os Arquivos Nacionais. O processo está longe de funcionar como a abertura de um único arquivo. Os documentos encontram-se espalhados por vários organismos, foram classificados em momentos diferentes e, em alguns casos, chegaram aos arquivos sem toda a documentação que permitiria reconstruir o episódio. Muitas observações foram também mal documentadas desde o início. Um piloto pode ter visto um objeto durante poucos segundos. Um sensor pode ter limitações conhecidas. A distância pode não ter sido determinada. Pode não existir um segundo registo independente. Décadas depois, um documento desclassificado não consegue recuperar informação que nunca foi recolhida. À medida que os arquivos crescem, tornam-se públicos casos que antes eram desconhecidos. Alguns acabam por ser identificados. Noutros, aquilo que aparece é apenas a documentação de uma observação que continua sem dados suficientes para uma conclusão. Os ficheiros recentemente divulgados contêm exemplos que chamam facilmente a atenção, como o objeto triangular descrito sobre uma instalação militar ou os registos obtidos por sensores no golfo de Omã. A possibilidade de avaliar esses episódios depende, porém, das condições da observação, dos dados originais, do equipamento utilizado e da existência de outros registos. Sem esses elementos, a classificação de um caso como não identificado diz pouco sobre aquilo que esteve efetivamente no céu. Um vídeo comprimido e separado dos dados técnicos do sensor pode ter enorme impacto público e pouco valor para uma análise independente. Um relatório escrito anos depois de uma observação pode preservar uma memória sem permitir testá-la. A divulgação terá mais valor se os investigadores tiverem acesso aos materiais que permitem reconstruir as ocorrências, e não apenas às descrições finais. Para as forças armadas, um objeto desconhecido próximo de uma instalação ou de uma aeronave pode representar um problema operacional, independentemente da sua origem. Pode tratar-se de um drone de outro país, de uma nova plataforma de vigilância, de uma falha de equipamento ou simplesmente de algo que o observador não reconheceu. Em qualquer destes casos, saber o que foi observado tem utilidade militar. Durante grande parte do século XX, os relatos de OVNIs ocuparam uma posição estranha. Eram matéria de cultura popular e, ao mesmo tempo, objeto de investigações governamentais que muitas vezes permaneciam classificadas. Pilotos e militares podiam recear que um relato prejudicasse a sua reputação profissional. Hoje existem procedimentos formais para comunicar determinadas observações, um organismo encarregado de as analisar, audições no Congresso e uma coleção específica nos Arquivos Nacionais. Os documentos públicos incluem ocorrências entretanto explicadas, outras que permanecem inconclusivas e algumas que continuam oficialmente sem identificação. Até agora, nenhum dos materiais divulgados fornece prova pública inequívoca de tecnologia de origem não humana. O processo de transferência para os Arquivos Nacionais continua. Novos registos deverão ser publicados à medida que os organismos federais concluam a revisão dos materiais que possuem. Alguns poderão esclarecer episódios antigos. Outros chegarão ao público com partes ocultadas ou sem informação suficiente para determinar aquilo que foi observado. Os Arquivos Nacionais continuam a receber documentação de diferentes organismos federais, e parte dos registos permanece classificada ou sujeita a revisão antes de poder ser publicada. #OVNIs #UAP #EstadosUnidos #Pentágono #ArquivosSecretos #Desclassificação #SegurançaNacional #AtlanticLisbon
- O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão
Linha editorial: Ensaio · Consciência e condição humana · Testemunho e morte · Alberto Carvalho O Corpo no Canto da Sala Um médico habituado a certificar mortes afirma ter observado o próprio corpo inerte depois de perder os sentidos. Uma reflexão sobre os limites da memória, da consciência e da prova clínica. Um médico habituado a certificar mortes afirma ter contemplado o próprio corpo inerte. Sem registo clínico conhecido, o episódio ficou entregue à memória. Este ensaio integra O Limite do Eu, um dossiê da Atlantic Lisbon sobre o corpo, a consciência e a morte. José Morales levantou-se de uma sesta durante um fim de semana e perdeu os sentidos. A recordação seguinte situa-o de pé, à altura habitual dos próprios olhos. O seu corpo estava noutro ponto da divisão. Via-o num canto, entre um móvel e a parede. Parecia inerte. Morales diz que não respirava. Reconheceu-o e concluiu que estava morto. Durante cerca de quarenta anos, sobretudo como médico rural, fora chamado a casas onde alguém acabara de morrer. Aproximava-se do corpo, procurava os sinais necessários e certificava o óbito. Na experiência que descreve, aplicou esse conhecimento à figura caída. A ausência de movimento e de respiração tinha, para ele, um significado profissional preciso. O corpo observado era o seu. A profissão explica parte da força do testemunho. Um médico conhece os sinais exteriores associados à morte e dispõe de vocabulário para descrever alterações do estado de consciência. Essa competência termina onde começam os dados que ninguém recolheu. Morales estava inconsciente. Não podia medir a própria tensão arterial, verificar o ritmo cardíaco, avaliar reflexos ou registar a atividade cerebral. A entrevista também não esclarece quanto tempo durou a perda de consciência. Não apresenta um eletrocardiograma, um registo de paragem cardiorrespiratória ou uma avaliação feita por outra pessoa. Desconhece-se se alguém o encontrou durante o episódio, verificou a respiração ou iniciou manobras de reanimação. A expressão «morte clínica» exigiria elementos que não aparecem no excerto. O que existe é uma sequência narrada: Morales levantou-se, perdeu os sentidos e recorda ter visto o próprio corpo sem respirar. A conclusão de que estava morto formou-se dentro dessa experiência. O estado fisiológico pode ter sido grave, breve ou diferente daquilo que ele julgou observar. A entrevista não permite reconstruí-lo. A memória é a única fonte disponível para aquele intervalo. Quando alguém recupera uma recordação, o cérebro não reproduz necessariamente uma gravação preservada. Reúne fragmentos, sensações, conhecimentos anteriores e explicações posteriores. A ordem dos momentos pode alterar-se. Duas partes separadas podem regressar como uma sequência contínua. A perda de consciência torna esse processo particularmente difícil de examinar. A própria pessoa não observou continuamente aquilo que lhe aconteceu. A memória pode ter-se formado antes da inconsciência completa, durante a recuperação ou enquanto o cérebro reorganizava a perceção do corpo e do espaço. Morales pode ter vivido uma sensação nítida de separação corporal sem conseguir localizar o instante em que a imagem surgiu. A convicção com que a descreve mostra a presença da recordação na sua vida; não permite determinar a sua origem. A formação médica terá fornecido parte das palavras com que interpretou o episódio. Pode também ter influenciado a forma assumida pela memória. O material disponível não permite saber em que medida isso aconteceu. Outro narrador talvez descrevesse apenas um corpo imóvel. Morales reconheceu sinais que associava à morte porque os tinha procurado durante décadas nas pessoas que examinara. Uma tradição religiosa ofereceria a imagem da alma separada do corpo. A neurofisiologia dispõe de conceitos como dissociação, alteração da representação corporal e experiência autoscópica. A possibilidade de alguém sentir que observa o próprio corpo a partir de outro lugar levanta uma questão diferente da morte: [até onde coincide a pessoa com o corpo que reconhece como seu?] As sensações de estar fora do corpo surgem em contextos diferentes. Foram relatadas durante o sono, em estados associados à anestesia, em crises neurológicas e noutras alterações da integração sensorial. Algumas pessoas sentem que se observam de cima ou a partir de um ponto da divisão onde o corpo não se encontra. A investigação relacionou parte destes fenómenos com perturbações no modo como o cérebro combina a informação visual, vestibular e corporal. Redes próximas da junção temporoparietal participam na construção da posição do corpo e do ponto a partir do qual uma pessoa sente que observa o espaço. A visão pode indicar uma localização enquanto o equilíbrio, os músculos e as articulações fornecem informações que deixaram de coincidir com ela. A posição sentida afasta-se então da posição física do organismo. Um mecanismo desta natureza permite compreender a formação de uma perspetiva extracorporal sem exigir uma deslocação física da consciência. Aplicá-lo ao episódio de Morales exigiria dados neurológicos que a entrevista não contém. Talvez tenha ocorrido uma perturbação breve da representação corporal. A imagem pode ter surgido durante a recuperação da consciência. Também é possível que partes diferentes da experiência se tenham formado em momentos distintos. O material disponível não permite escolher uma destas possibilidades como explicação do caso. Os estudos sobre experiências próximas da morte enfrentam uma dificuldade semelhante. Dependem de sobreviventes capazes de falar depois de situações críticas. Algumas pessoas descrevem paz, luz, alterações da perceção do tempo, encontros com figuras conhecidas ou a sensação de terem observado a própria reanimação. Outras não conservam qualquer memória. As sequências variam, tal como o conteúdo, a condição clínica, a medicação administrada, o período de inconsciência e o momento da entrevista. Sob a mesma designação reúnem-se experiências que podem ter ocorrido em circunstâncias fisiológicas muito diferentes. O estudo multicêntrico AWARE II acompanhou 567 casos de paragem cardíaca em ambiente hospitalar. Sobreviveram 53 pessoas e 28 puderam ser entrevistadas. Onze relataram memórias ou perceções consideradas sugestivas de alguma forma de consciência durante ou em torno da reanimação. Os investigadores distinguiram experiências associadas à recuperação durante as manobras, recordações posteriores à reanimação, conteúdos semelhantes a sonhos e relatos interpretados pelos participantes como transcendentes. Em alguns dos doentes monitorizados surgiram padrões de atividade elétrica cerebral que os investigadores consideraram compatíveis com funções cognitivas. Foram registados até 35 a 60 minutos depois do início da reanimação. Esses sinais não identificam o conteúdo vivido por cada pessoa nem demonstram que uma consciência separada tenha observado a sala. Muitos sobreviventes morrem antes de poderem ser entrevistados. Outros permanecem demasiado debilitados ou não recordam o período crítico. Mesmo quando existe monitorização, os equipamentos registam o ritmo cardíaco, a circulação, a oxigenação e a atividade elétrica. Nenhum desses dados mostra diretamente uma imagem interior. Depois da recuperação, o investigador recebe palavras. Pode comparar relatos, classificar elementos recorrentes e relacioná-los com dados clínicos. Continua a ser difícil estabelecer, em muitos casos, o momento exato em que uma imagem foi formada e guardada. Morales conhecia bem o outro lado desse problema. Quando certificava uma morte, trabalhava com sinais observáveis. Examinava o corpo e registava uma conclusão. O certificado precisava de uma identidade, de uma hora e da verificação clínica exigida. Na experiência que relata, conservou a posição de quem examina. Acreditava estar de pé enquanto o corpo permanecia no chão. Aplicava os critérios profissionais à figura caída, embora não houvesse outro médico na divisão a avaliar o seu organismo. Uma pessoa inconsciente não pode examinar-se de forma independente. A cena recordada contorna essa impossibilidade colocando o observador noutro ponto do quarto. Morales descreve uma localização concreta. O corpo estava entre um móvel e uma parede. A altura do olhar correspondia aproximadamente àquela que teria se estivesse de pé. A experiência preservou uma perspetiva corporal habitual, apesar de a posição dessa perspetiva já não coincidir com o organismo visível. Na vida quotidiana, essa coincidência parece automática. Olhamos para as mãos e reconhecemo-las. Movemos um braço sem confirmar visualmente cada ordem. Uma dor na perna é sentida como nossa. Essa continuidade depende da combinação de vários sinais. A visão mostra a posição dos membros. Os músculos e as articulações fornecem informação sobre o movimento. O sistema vestibular acompanha a posição da cabeça e o equilíbrio. O toque ajuda a estabelecer os limites do corpo. Uma falha de integração pode alterar a experiência de localização. Há pessoas que deixam de reconhecer um membro como seu. Outras sentem uma presença próxima ou colocam o ponto de vista fora do lugar ocupado pelo organismo. O corpo não mudou de posição. Mudou a experiência através da qual a pessoa se localiza. Morales reconheceu a figura caída como sua a partir de outro ponto da divisão. A experiência conservou a identidade do corpo e deslocou o lugar de onde essa identidade era reconhecida. A linguagem quotidiana contém uma pequena distância semelhante. Dizemos «o meu corpo», «a minha mão» ou «o meu cérebro», como se existisse um proprietário separado. A biologia encontra a pessoa no organismo, nas suas funções e na sua continuidade. Certos estados de consciência permitem que esse organismo seja vivido como objeto. O testemunho de Morales regista um momento em que a posição sentida deixou de coincidir com o corpo reconhecido como próprio. Não esclarece se uma pessoa pode existir para além desse corpo. Alguns ouvintes interpretarão a separação como a saída da alma. A investigação neurofisiológica procura mecanismos ligados à representação corporal, à memória e à recuperação da consciência. O relato, isoladamente, deixa em aberto a questão metafísica e o mecanismo clínico específico. Morales conhece a experiência que recorda. O acontecimento fisiológico precisaria de ser reconstruído a partir de dados exteriores. A condição de médico costuma ser usada para atribuir maior valor probatório a relatos deste género. O raciocínio parte da ideia de que um profissional habituado a reconhecer a morte dificilmente confundiria uma experiência comum com uma separação efetiva entre a consciência e o corpo. Um médico reconhece uma paragem cardíaca quando examina outra pessoa ou consulta registos adequados. A imagem do próprio corpo imóvel durante uma perda de consciência não fornece essa confirmação. A precisão da descrição e a existência de dados clínicos são matérias diferentes. Morales contou o episódio depois de ter recuperado. Entre a queda e a entrevista, retomou a perceção habitual do corpo, organizou a memória e encontrou uma forma de narrar o que lhe acontecera. Não sabemos se a cena regressou inteira. Pode ter surgido por partes e adquirido uma sequência mais definida ao longo do tempo. Cada nova narração também pode reforçar certos detalhes sem que a pessoa tenha consciência dessas alterações. Os acidentes, as doenças graves e os momentos de medo extremo transformam-se frequentemente em referências biográficas. A pessoa passa a organizar a vida em torno do que existia antes e do que mudou depois. A explicação escolhida começa a acompanhar a própria recordação. Morales regressou ao episódio com o conhecimento de quem certificara mortes. Esse conhecimento ajudou-o a nomear a ausência de respiração e a imobilidade. O que se passara no organismo durante a inconsciência continuava fora do seu alcance. Na entrevista, o domínio da anatomia e da fisiologia surge como garantia de credibilidade. Sustenta a interpretação profissional dos sinais que Morales julgou ver. A determinação do estado clínico dependeria de outra fonte. Uma experiência inteiramente produzida pelo cérebro pode alterar profundamente a vida de quem a atravessa. A dor, o medo, o sonho e a memória dependem da atividade cerebral e produzem consequências concretas. Morales viveu subjetivamente uma cena em que contemplava o próprio corpo. A afirmação de que o organismo esteve morto continua sem confirmação clínica no material conhecido. Também a nitidez da memória deixa por esclarecer o mecanismo que a produziu. O problema torna-se ainda mais preciso quando existem paragem cardíaca, reanimação e registos fisiológicos. [O que acontece à consciência quando o coração para?] é precisamente a questão examinada no último ensaio deste dossiê. A medicina poderá melhorar a monitorização durante a reanimação, estudar durante quanto tempo permanecem determinadas formas de atividade cerebral e compreender melhor as experiências autoscópicas. Cada caso continuará dependente dos dados recolhidos enquanto ocorria. No episódio relatado por Morales, esses dados não aparecem. Há um homem que se levantou de uma sesta, perdeu os sentidos e regressou com a memória de ter observado o próprio corpo num canto da divisão. Depois, sentiu uma espécie de sucção, como se fosse afastado do lugar onde acreditava estar. O relato prossegue para além do quarto. A questão clínica ficou junto do corpo. Durante décadas, Morales certificara mortes através de sinais que podia examinar. Naquele fim de semana, a única testemunha capaz de contar o intervalo era precisamente a pessoa que perdera os sentidos. O Limite do Eu — Atlantic Lisbon O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina? O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para? #AtlanticLisbon #OLimiteDoEu #ExperiênciaDeQuaseMorte #Consciência #ExperiênciaExtracorporal #Corpo #Cérebro #Neurociência #Medicina #Perceção #ConsciênciaHumana #JoséMorales #VidaEMorte
- A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina?
Na ilusão da mão de borracha, o toque sentido numa mão escondida pode ser atribuído ao objeto colocado diante dos olhos. Este ensaio integra O Limite do Eu, um dossiê da Atlantic Lisbon sobre o corpo, a consciência e a morte. A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina? Uma pessoa pode saber que uma mão é de borracha e, mesmo assim, começar a senti-la como sua. Experiências reais mostram até que ponto o cérebro consegue alterar a fronteira entre o corpo e aquilo a que chamamos «eu». O investigador aproxima uma lâmina da mão pousada sobre a mesa. A pessoa sentada à sua frente sabe que aquela mão foi fabricada. Viu-a antes de a experiência começar. O braço verdadeiro continua escondido atrás de uma divisória. Durante alguns minutos, dois pincéis moveram-se ao mesmo tempo: um sobre a mão verdadeira, fora do campo visual, e outro sobre a mão de borracha. A pessoa via as cerdas percorrerem os dedos artificiais e sentia o toque na própria pele. A coincidência começou a alterar o lugar onde a sensação parecia ocorrer. Alguns participantes passam a sentir a mão de borracha como parte do corpo. Continuam a reconhecer o objeto e recordam onde colocaram o braço. Quando surge uma ameaça, podem reagir como se a mão artificial precisasse de proteção. O estudo clássico publicado em 1998 chamou-lhe ilusão da mão de borracha. Os participantes observavam o objeto a ser tocado enquanto sentiam um estímulo correspondente na mão escondida. Quando lhes pediam que indicassem a posição da mão verdadeira, muitos apontavam para um lugar deslocado na direção da mão artificial. (doi.org) Outros investigadores introduziram posteriormente uma agulha ou uma lâmina. A ameaça dirigida ao objeto provocou respostas relacionadas com a ansiedade e com a perceção do estado interno do organismo. A reação tendia a ser mais intensa entre os participantes que sentiam uma maior sensação de pertença à mão de borracha. (pmc.ncbi.nlm.nih.gov) A experiência depende de condições precisas. Os pincéis têm de se mover em sincronia. A mão artificial deve possuir uma forma plausível, estar orientada de modo compatível com o braço escondido e ocupar uma posição que o cérebro consiga integrar. Um objeto sem aparência corporal ou colocado numa orientação impossível é incorporado com maior dificuldade. A intensidade da ilusão diminui quando o toque visto e o toque sentido deixam de coincidir. A experiência anterior do organismo limita aquilo que pode ser reconhecido como parte dele. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov) A pessoa identifica corretamente os elementos presentes no laboratório. Sabe que a mão verdadeira está atrás da divisória e que o objeto sobre a mesa não possui sensibilidade. A resposta à ameaça ocorre enquanto esse conhecimento permanece disponível. Agarramos um copo sem confirmar previamente que a mão nos pertence. A posição dos dedos, a força usada e a distância até ao objeto são integradas durante o gesto. Os olhos acompanham o movimento. Os músculos e as articulações informam sobre a posição. O toque confirma o contacto. O sistema vestibular participa na orientação da cabeça e no equilíbrio. A ação produz, na maior parte das vezes, o resultado esperado. Na experiência, o toque ocorre na mão escondida enquanto a visão o localiza no objeto sobre a mesa. A sincronização permite que os dois sinais sejam reunidos temporariamente numa representação corporal alterada. Uma criança estabelece estas correspondências antes de conseguir descrevê-las. Move uma mão, vê o movimento e encontra repetidamente uma relação entre a intenção, a posição e o resultado. O processo continua enquanto aprende a sentar-se, caminhar, alcançar objetos e evitar obstáculos. Mais tarde, a coordenação raramente exige atenção. Um copo é alcançado sem que a pessoa precise de acompanhar conscientemente todas as etapas do movimento. A dor interrompe essa facilidade. Um problema no joelho transforma o ato de se levantar numa sequência de escolhas sobre o peso, a flexão e o apoio. A pessoa começa a antecipar degraus, distâncias e o tempo que conseguirá permanecer de pé. Na fala quotidiana, o membro surge como algo que impõe limites: «o joelho não deixa», «as costas não aguentam», «a mão já não obedece». Quando a doença se prolonga, certos trajetos tornam-se difíceis. O cansaço aparece mais cedo. O apetite, o sono ou a força deixam de acompanhar os hábitos e os projetos que a pessoa conservou. O rosto refletido pode introduzir outra diferença. A pessoa reconhece-o e, por vezes, estranha a idade que nele aparece. A imagem interior e o corpo visível avançam a ritmos diferentes. Dizemos «o meu corpo» com a mesma estrutura usada em «a minha casa» ou «o meu casaco». A gramática coloca um possuidor diante daquilo que possui. Esse proprietário não se deixa localizar fora do organismo. A memória depende do cérebro. A voz que pronuncia o nome nasce no corpo. Os olhos reconhecem lugares e pessoas; as mãos executam decisões. Até uma ideia de interioridade separada é pensada através de processos corporais. Durante a dor ou a doença, falamos do corpo como algo que começou a impor condições. Dizemos que falhou, deixou de acompanhar ou obrigou a mudar de vida. Também o vemos como um objeto. As mãos e as pernas aparecem no campo visual. Tocamos o rosto e reconhecemo-nos em fotografias. O organismo ocupa o lugar de onde parte a perspetiva e surge dentro dela. Nunca vemos diretamente o próprio rosto. Conhecemo-lo através de espelhos, fotografias e reações de outras pessoas. A imagem refletida está invertida. A fotografia foi captada a partir de um ponto que os próprios olhos não podem ocupar. Apesar dessa mediação, reconhecemos aquela face como nossa e integramos nela alterações que não acompanhámos de momento a momento. Em experiências com vídeo e realidade virtual, alguns participantes observaram uma representação de si próprios a partir de uma posição exterior enquanto recebiam estímulos táteis sincronizados. Em certas condições, a figura vista começou a atrair a sensação de identidade e a localização indicada pelos participantes alterou-se. (pubmed.ncbi.nlm.nih.gov) A identificação com um determinado corpo, o lugar onde alguém sente estar e o ponto visual a partir do qual observa o espaço costumam coincidir. A realidade virtual permite introduzir pequenas discordâncias entre estas componentes. As deslocações relatadas são limitadas. Os participantes mantêm a identificação geral com o corpo e regressam à localização habitual depois da estimulação. Durante a experiência, alguns situam-se ligeiramente fora da posição física real. O cérebro recebe a imagem de um corpo observado a partir do exterior e estímulos sentidos no organismo. A sincronização influencia a figura com que a pessoa se identifica e o lugar onde julga encontrar-se. Um condutor aprende a calcular a largura do automóvel quando atravessa um espaço estreito. O utilizador de uma bengala recebe informações sobre o chão através da extremidade do objeto. Um músico executa movimentos precisos sem dirigir a atenção para cada contacto com o instrumento. O automóvel, a bengala e o instrumento entram no cálculo da ação. Participam na forma como o corpo mede distâncias, superfícies e movimentos. Uma peça fabricada pode substituir parte de um membro e passar a integrar gestos quotidianos. A prótese participa na maneira como a pessoa se move, trabalha e se apresenta aos outros. A resposta aos movimentos intencionais e o uso repetido alteram gradualmente o lugar que ocupa na experiência. Uma mão de borracha sentida durante alguns minutos não reproduz a continuidade de uma mão que cresceu com a pessoa. Com a mão verdadeira, a pessoa aprendeu movimentos, sofreu lesões, ganhou força e perdeu-a. Pode conservar cicatrizes cuja história faz parte da biografia. A prótese também adquire marcas de uso e participa na formação de novos hábitos. O objeto inicial entra numa continuidade corporal sem se transformar em tecido vivo. Quando alguém diz «eu», a palavra inclui a voz, a aparência, os gestos aprendidos e os sinais pelos quais é reconhecido. Inclui relações, lembranças, compromissos e projetos que não correspondem a um órgão isolado. A memória liga acontecimentos vividos por um organismo que mudou fisicamente. O rosto envelhece, o peso varia, as células são substituídas e partes podem ser removidas. A pessoa continua a reconhecer episódios anteriores como pertencentes à sua vida. Uma família pode continuar a reconhecer a face e a voz de alguém que já não identifica nomes, relações ou episódios partilhados. A aparência mantém-se reconhecível, enquanto a reciprocidade que sustentava aquelas relações começa a desaparecer. As memórias dependem de condições orgânicas para serem conservadas e recuperadas. Dependem ainda das relações em que foram formadas e nas quais continuam a ter significado. O corpo, a memória e o reconhecimento pelos outros podem mudar a ritmos diferentes. Nenhum deles fornece, isoladamente, uma definição completa da pessoa. José Morales descreveu uma separação abrupta. Depois de perder os sentidos, recordou-se de observar o próprio corpo num canto da divisão. Reconheceu-o como seu e situou o ponto de vista noutro lugar. O episódio foi analisado em [O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão], primeiro ensaio deste dossiê. O primeiro ensaio deste dossiê examinou os limites clínicos do relato. A entrevista não contém registos que permitam determinar o que aconteceu ao organismo durante a perda de consciência ou identificar o mecanismo que produziu a perspetiva extracorporal. Dentro da recordação, Morales continuava a falar a partir de um «eu» que identificava aquele corpo como «meu». A relação de pertença permaneceu, embora o observador já não se situasse no organismo visto no chão. Os fenómenos autoscópicos e as experiências laboratoriais mostram que o cérebro pode produzir perspetivas nas quais o próprio corpo surge como objeto exterior. Esta possibilidade não permite reconstruir o episódio de Morales. Indica apenas que a localização sentida pode afastar-se da posição física. Nos sonhos, uma pessoa pode correr, cair ou tocar objetos enquanto permanece deitada. O espaço vivido não precisa de corresponder à posição dos membros nem ao quarto onde o corpo se encontra. Ao acordar, os olhos abrem-se a partir da cabeça pousada na almofada. As mãos aparecem no lugar esperado e o quarto substitui o espaço sonhado. A reorganização é rápida e raramente deixa uma dúvida duradoura sobre a posição do corpo. Numa experiência autoscópica, a memória da discordância pode permanecer e adquirir outro significado. Uma experiência produzida num laboratório não responde ao que acontece durante uma paragem cardíaca. Essa questão pertence ao terreno clínico examinado em [O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para?]. A pele separa os tecidos do meio exterior. A ação pode prolongar-se através de um instrumento, de uma bengala ou de uma prótese. Em laboratório, a localização sentida pode deslocar-se alguns centímetros sem que o organismo mude de lugar. Uma fotografia conserva uma imagem sem possuir a experiência da pessoa fotografada. Alguém próximo guarda memórias partilhadas sem ocupar a consciência do outro. Uma ferramenta prolonga o movimento sem sentir a superfície que toca. A dor, o equilíbrio, a fome, o cansaço e a temperatura são vividos no organismo. É também através dele que uma pessoa atua sobre aquilo que a rodeia. O medo acelera o coração e modifica a respiração. A vergonha aquece o rosto. O cansaço altera a atenção e a capacidade de decidir. Os pensamentos variam com o estado corporal, mesmo quando o seu conteúdo parece afastado da matéria. Na experiência da mão de borracha, a pessoa sabe que o objeto não possui sensibilidade. A sincronização anterior entre a visão e o toque pode provocar uma resposta de proteção quando surge uma ameaça. Quando os pincéis deixam de se mover em conjunto, a sensação de pertença tende a diminuir. A mão artificial volta a ser tratada como um objeto sobre a mesa. Depois, o investigador pede ao participante que indique a posição da mão verdadeira, ainda escondida atrás da divisória. Muitos apontam para um lugar ligeiramente deslocado na direção da mão de borracha. O braço nunca saiu do lugar. A origem exata do desvio indicado pelos participantes continua a ser estudada. O Limite do Eu — Atlantic Lisbon O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina? O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para? #AtlanticLisbon #OLimiteDoEu #Consciência #Corpo #Identidade #Neurociência #Perceção #ConsciênciaCorporal #IdentidadePessoal #FilosofiaDoCorpo #ExperiênciasExtracorporais #Ensaio
- O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para?
Estudos com sobreviventes de paragem cardíaca e registos cerebrais durante a reanimação tentam localizar, no tempo, aquilo que alguns doentes recordam depois de recuperar. Este ensaio integra O Limite do Eu, um dossiê da Atlantic Lisbon sobre o corpo, a consciência e a morte. A Medicina à Porta da Morte O coração para, começa a reanimação e alguns sobreviventes regressam com memórias. Estudos recentes tentam perceber o que o cérebro estava a fazer nesses minutos — e quando essas experiências podem ter ocorrido. Em 2023, foram publicados os resultados do AWARE II, um estudo que acompanhou 567 paragens cardíacas ocorridas em 25 centros hospitalares. Cinquenta e três doentes sobreviveram. Vinte e oito recuperaram o suficiente para participar posteriormente numa entrevista sobre aquilo de que se recordavam. Essas experiências e aquilo que revelam sobre a relação entre corpo e identidade são examinadas em [A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina?]. Onze desses 28 relataram memórias ou perceções que os investigadores relacionaram com o período da paragem cardíaca, da reanimação ou da recuperação. Nos testes experimentais, houve um reconhecimento do estímulo auditivo; os alvos visuais preparados pelos investigadores não foram identificados. Nalguns doentes foi possível obter registos eletroencefalográficos enquanto decorria a reanimação. Surgiram padrões de atividade que os autores consideraram compatíveis com processos cognitivos, em certos casos entre 35 e 60 minutos depois do início das manobras. Nesse período estavam a ser realizadas compressões torácicas e outras intervenções destinadas a manter ou restabelecer a circulação e a oxigenação. Clinicamente, tratava-se de uma paragem cardíaca sob reanimação, durante a qual continuava a existir uma tentativa de recuperação. A frase «estive morto durante cinco minutos» pode, assim, designar situações diferentes. Cinco minutos sem circulação espontânea são uma possibilidade. Outra é um intervalo sem pulso detetável antes de a reanimação começar. Também pode incluir tempo já decorrido sob compressões torácicas. O relato isolado não permite distinguir entre estas situações. Quando o coração deixa de produzir circulação eficaz, a consciência perde-se rapidamente e a respiração normal desaparece. Seguem-se, quando indicadas, compressões, ventilação, medicamentos e desfibrilhação. A circulação espontânea pode regressar. Quando isso não acontece e termina a tentativa de reanimação, aplicam-se os procedimentos necessários à determinação da morte. Esses procedimentos variam consoante a situação clínica e podem basear-se em critérios circulatórios ou neurológicos. Nos casos de determinação por critérios neurológicos, é necessário estabelecer uma causa capaz de explicar a lesão cerebral, excluir condições suscetíveis de falsear o exame e avaliar componentes clínicos específicos, entre eles o coma, os reflexos do tronco cerebral e a capacidade de respirar espontaneamente. O World Brain Death Project, publicado em 2020, tornou-se uma referência internacional para a harmonização destes procedimentos. Em 2023, uma orientação clínica consensual conjunta da American Academy of Neurology, da American Academy of Pediatrics, da Child Neurology Society e da Society of Critical Care Medicine atualizou as recomendações para adultos e crianças. Hipotermia, medicamentos com efeito depressor sobre o sistema nervoso e alterações metabólicas relevantes estão entre os fatores avaliados antes de determinados testes. Um doente ventilado pode apresentar movimentos do tórax e manter atividade cardíaca durante esse processo. A determinação por critérios neurológicos depende do exame previsto no protocolo e dos respetivos pré-requisitos. Em 2001, Pim van Lommel e os seus colegas acompanharam 344 sobreviventes de paragem cardíaca em dez hospitais neerlandeses. O estudo, publicado na Lancet, encontrou 62 pessoas que relataram uma experiência de quase-morte. Quarenta e uma preencheram os critérios usados pelos investigadores para uma experiência central. A equipa comparou esses doentes com os restantes sobreviventes e considerou variáveis como a duração da paragem cardíaca, o período de inconsciência, os medicamentos administrados e o medo da morte anterior ao episódio. Os resultados não permitiram associar de forma simples a ocorrência das experiências a qualquer dessas variáveis. As entrevistas eram realizadas depois da recuperação. Entre a interrupção da circulação e o momento em que um sobrevivente consegue contar o que recorda podem ter ocorrido várias fases: perda de consciência, compressões torácicas, retorno da circulação espontânea, sedação, coma e recuperação progressiva. Uma memória muito nítida pode atravessar todas essas fases sem trazer consigo informação suficiente para determinar quando se formou. O primeiro AWARE, publicado em 2014, incluiu 2060 eventos de paragem cardíaca. Os sobreviventes entrevistados descreveram medo, imagens, familiares, luz e outras experiências ocorridas em torno do período de perda de consciência e reanimação. Uma pequena proporção relatou recordações relacionadas com acontecimentos da própria reanimação. Os protocolos passaram a incluir alvos visuais e, mais tarde, estímulos auditivos colocados no ambiente onde decorria a reanimação. A identificação posterior de um desses estímulos poderia relacionar uma perceção relatada com um elemento exterior conhecido pelos investigadores. AWARE II acrescentou monitorização cerebral quando as circunstâncias clínicas o permitiam. O EEG regista atividade elétrica cerebral. Alguns padrões observados durante reanimações eram semelhantes aos que, noutras circunstâncias, aparecem associados a processos cognitivos. A informação obtida através desse registo limita-se, porém, ao padrão elétrico: o conteúdo de uma eventual experiência subjetiva permanece fora do alcance do exame. A entrevista fornece outro tipo de informação. O sobrevivente descreve aquilo de que se recorda depois da recuperação, mas essa recordação precisa ainda de ser relacionada com a sequência fisiológica registada durante a emergência. Os estímulos externos foram introduzidos precisamente para acrescentar uma referência temporal e ambiental. Entre os 28 entrevistados do AWARE II houve um reconhecimento auditivo. Os alvos visuais não foram identificados. Também em 2023, investigadores da Universidade do Michigan publicaram dados de quatro doentes em coma acompanhados durante a retirada do suporte ventilatório. Em dois foram observados aumentos de atividade gama e de conectividade em determinadas regiões cerebrais durante o processo de morrer. Os quatro doentes morreram. Nos dois casos em que surgiu a alteração eletrofisiológica, os investigadores ficaram apenas com o registo. Já não seria possível realizar uma entrevista posterior que permitisse saber se tinha ocorrido alguma experiência subjetiva associada àquela atividade. Nos estudos com sobreviventes, a dificuldade aparece noutro ponto. A pessoa regressa e pode produzir uma descrição extensa, enquanto a correspondência entre essa descrição e o estado cerebral num instante preciso continua por estabelecer. Circulação, oxigenação, frequência cardíaca, respiração e atividade elétrica cerebral podem ser monitorizadas. Um exame neurológico testa respostas e reflexos. Cada uma destas medições descreve aspetos do funcionamento do organismo. O conteúdo de uma experiência consciente não é uma variável que qualquer desses instrumentos consiga registar diretamente. Os relatos de quase-morte podem ser recolhidos de forma sistemática e comparados entre sobreviventes. A partir daí, a investigação precisa de determinar quando se formaram e que processos fisiológicos os acompanharam. Entre as hipóteses estudadas estão os efeitos da redução do fluxo sanguíneo e do oxigénio sobre o cérebro, alterações da atividade neuronal durante a perda e recuperação da circulação e processos relacionados com a recuperação da consciência e da memória. Os relatos reunidos sob a expressão «experiência de quase-morte» apresentam diferenças suficientes para que não se possa pressupor uma origem fisiológica única. O próprio AWARE II encontrou recordações de natureza diferente. Algumas foram associadas pelos investigadores ao período da reanimação; outras situavam-se depois do retorno da circulação. Surgiram experiências semelhantes a sonhos e relatos enquadrados pela equipa numa categoria de experiências recordadas de morte. A classificação organiza aquilo que foi relatado. A cronologia fisiológica de cada memória exige informação adicional. Todos os participantes entrevistados eram sobreviventes. Tinham atravessado uma paragem cardíaca e, nalguns casos, uma reanimação prolongada. O intervalo investigado terminou com uma recuperação suficiente para que a pessoa pudesse posteriormente participar no estudo. Com José Morales, a documentação é muito mais escassa. Morales contou que perdeu os sentidos e que depois se recordava de observar o próprio corpo inerte num canto da divisão. Era médico e tinha passado décadas a certificar mortes. Dentro da experiência, interpretou como morto o corpo que via. Não é conhecido qualquer eletrocardiograma daquele momento, registo de pulso ou circulação, EEG, documentação de reanimação ou avaliação médica realizada enquanto permanecia inconsciente. A profissão de Morales ajuda a perceber a interpretação que atribuiu àquilo que viu. O estado fisiológico correspondente ao episódio ficou por determinar. Uma síncope integra o conjunto de causas compatíveis com uma perda transitória de consciência. A informação disponível não permite selecionar uma causa específica. A sensação de observar o próprio corpo a partir de outro lugar pode, contudo, ser estudada independentemente da causa do episódio. Experiências com integração multissensorial mostraram que a localização corporal sentida pode ser modificada. Uma pessoa pode começar a atribuir uma mão artificial ao próprio corpo. Em determinadas experiências de realidade virtual, a localização indicada pelo participante aproxima-se de uma representação corporal observada a partir de outra perspetiva. Estes trabalhos decorrem em pessoas vivas, com estímulos definidos e condições controladas. O seu objeto é o mecanismo através do qual construímos a localização do corpo. As alterações fisiológicas de uma paragem cardíaca pertencem a outro contexto experimental. Morales recordou uma divergência entre o lugar onde se sentia e aquele onde via o próprio corpo. Enquanto o episódio ocorria, não havia monitorização que permitisse relacionar essa experiência com o estado do organismo. No AWARE II havia monitorização hospitalar, equipas de reanimação e documentação clínica. Dos 567 episódios acompanhados, 53 pessoas sobreviveram e 28 chegaram à entrevista. A diferença entre estes números resulta, em grande parte, da própria população estudada. Muitas pessoas que sofrem uma paragem cardíaca hospitalar morrem; entre as que sobrevivem, nem todas recuperam em condições que permitam uma entrevista detalhada. Os testemunhos disponíveis representam, por isso, uma parte reduzida do grupo inicialmente acompanhado. Van Lommel encontrou experiências de quase-morte em cerca de 18% dos 344 sobreviventes incluídos no seu estudo. No AWARE II, 11 dos 28 entrevistados apresentaram memórias ou perceções classificadas pelos investigadores como sugestivas de consciência. As proporções resultam de populações, protocolos, critérios e categorias diferentes. Uma comparação direta entre as percentagens produziria uma precisão que os desenhos dos estudos não oferecem. A própria palavra «consciência» surge nestes trabalhos com significados operacionais diferentes. Numa entrevista, refere-se à experiência que um sobrevivente afirma recordar. Na eletroencefalografia, determinados padrões cerebrais são relacionados com atividade encontrada noutros estados. No exame clínico, a avaliação passa pelas respostas do doente e pode recorrer a métodos complementares em situações específicas. Coma, paragem cardíaca sob reanimação e morte determinada por critérios neurológicos exigem avaliações diferentes. Também diferem a possibilidade de recuperação e as decisões médicas associadas a cada estado. Os investigadores do Michigan registaram atividade cerebral durante o processo de morrer. O AWARE II obteve alguns registos durante uma reanimação ainda potencialmente reversível. Van Lommel entrevistou sobreviventes depois da recuperação. No caso de Morales, existe essencialmente uma recordação pessoal. No caso de José Morales, analisado em [O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão], existe essencialmente uma recordação pessoal. Estas situações produzem tipos de informação que não coincidem no tempo. Um registo fisiológico pode existir sem testemunho posterior. Um testemunho pode chegar sem qualquer monitorização contemporânea. Quando ambos estão disponíveis, permanece a tarefa de demonstrar a correspondência entre o que foi medido e o que depois foi recordado. Os registos eletroencefalográficos podem ganhar resolução temporal. Os protocolos podem introduzir outros estímulos externos. As entrevistas podem ocorrer mais cedo ou de forma mais padronizada. Mesmo assim, será necessário demonstrar que determinada experiência corresponde ao intervalo fisiológico que o investigador pretende estudar. No hospital, os critérios usados para determinar a morte respondem a uma necessidade clínica concreta. Durante uma reanimação, a equipa acompanha a circulação, o ritmo cardíaco, a resposta às intervenções, a causa provável da paragem e as restantes condições clínicas para decidir sobre a continuação das manobras. A determinação por critérios neurológicos segue outro protocolo, com pré-requisitos e exames próprios. Os estudos sobre a consciência fazem uma pergunta diferente. Procuram saber o que pode ter sido experimentado durante estados em que a capacidade de responder desapareceu ou esteve gravemente comprometida. Essa investigação decorre ao lado dos critérios clínicos de morte, sem fazer parte deles. AWARE II conseguiu reunir relatos de sobreviventes, registos de atividade cerebral obtidos durante algumas reanimações e estímulos externos previamente definidos. Entre os 28 participantes que chegaram à entrevista, surgiu um reconhecimento auditivo. Nenhum reconheceu o alvo visual. Ficaram também relatos que os investigadores procuraram situar na sequência da paragem cardíaca e da recuperação. Para alguns deles, essa localização temporal continua sem poder ser feita com a precisão necessária. O Limite do Eu — Atlantic Lisbon O Médico que Viu o Próprio Corpo no Chão A Pessoa Acaba Onde o Corpo Termina? O Que Acontece à Consciência Quando o Coração Para? #AtlanticLisbon #OLimiteDoEu #Consciência #ParagemCardíaca #ExperiênciaDeQuaseMorte #Neurociência #Medicina #Cérebro #Reanimação #ConsciênciaHumana #Ciência #Morte #AWAREII
- O Espaço é a Chaminé Mais Alta Que Já Construímos
Para arrefecer os centros de dados que alimentam a inteligência artificial, cientistas querem agora mandá-los para órbita. A ideia não é nova: é a resposta mais antiga da engenharia a um problema que nunca resolvemos, aplicada agora à escala mais extrema possível. Imagine-se um engenheiro, algures numa cidade industrial do século dezanove, a supervisionar a construção de mais um anel de tijolo no topo de uma chaminé já alta. O tijolo é pesado, ainda quente da cozedura recente, e o andaime range um pouco a cada subida. Lá de cima, a cidade parece mais pequena e mais suja do que vista da rua: um emaranhado de outras chaminés, quase todas mais baixas, todas a lançar a mesma fumarada cinzenta e constante para um céu que já não se lembra de ter sido claro. É para que esse fumo suba mais alto antes de descer outra vez sobre os telhados, não para queimar menos carvão ou produzir menos fumo, e para que, quando descer, já esteja disperso o suficiente para incomodar menos gente, ou para incomodar gente que já não é a que vive mesmo por baixo. Levar centros de dados para órbita pode aliviar a pressão sobre a água, a energia e o território — mas também pode apenas deslocar para o espaço os custos ambientais da inteligência artificial. A lógica é simples e muito antiga: quando um problema não se consegue eliminar, tenta-se pelo menos empurrá-lo para mais longe. Mais longe de quem se queixa, mais longe de quem vota, mais longe dos olhos que contam. Funciona quase sempre, durante algum tempo, precisamente porque o problema nunca deixa de existir de facto; deixa apenas de aparecer nos relatórios de quem o mediu primeiro. Duzentos anos depois, a mesma lógica está a ser aplicada à escala mais extrema que a engenharia humana até hoje imaginou: em vez de construir uma chaminé mais alta, cientistas e empresas querem agora sair de vez da atmosfera, ultrapassando não só a cidade vizinha mas o próprio planeta inteiro. Esta semana, o Instituto de Tecnologia da Califórnia e a Sophia Space, uma startup dedicada a computação orbital, anunciaram uma patente para um sistema de arrefecimento que dizem poder permitir o lançamento de centros de dados para órbita já no início da década de 2030, alimentados por painéis solares que, no espaço, recebem luz do sol vinte e quatro horas por dia. A motivação, tal como a da chaminé mais alta, nasce de um incómodo bem terreno. Os centros de dados que alimentam a atual vaga de inteligência artificial ocupam terrenos extensos, disparam contas de eletricidade das comunidades vizinhas e, nalguns casos, esgotam reservas de água usadas para os arrefecer. Um relatório do Fórum Económico Mundial, publicado este ano, calculava que cerca de sete em cada dez norte-americanos se opõem à construção de novos centros de dados perto de onde vivem. A urgência tem uma explicação concreta: treinar e operar os grandes modelos de inteligência artificial que hoje respondem a perguntas, geram imagens ou resumem documentos exige uma quantidade de eletricidade que cresce mais depressa do que a maioria das redes elétricas locais consegue acompanhar. Cada novo centro de dados anunciado é, ao mesmo tempo, uma promessa de capacidade computacional e uma fonte garantida de tensão com quem vive à sua volta. Há, no fundo, duas abordagens concorrentes a este desafio. Uma delas evita transmitir eletricidade da órbita até à Terra, algo que continua tecnicamente complexo e dispendioso: processa os pedidos ali mesmo, dentro do satélite, aproveitando o sol constante para alimentar o cálculo, e envia apenas a informação já tratada, muito mais leve do que a energia bruta, resolvendo de um só golpe dois problemas que, na Terra, continuam separados e sem solução à vista: onde arrefecer e como alimentar continuamente uma máquina que nunca para. A outra abordagem, mais antiga e ainda por comercializar em escala, tenta mesmo transmitir energia solar captada em órbita até recetores na Terra, através de micro-ondas ou lasers, um caminho que agências governamentais e universidades têm vindo a explorar, com avanços lentos, há já várias décadas. A primeira abordagem tem uma elegância própria: em vez de tentar trazer a energia de volta, deixa-a inteira lá em cima, e traz só aquilo que já foi transformado por ela, um pouco como quem, em vez de transportar o carvão de volta para casa, prefere trazer só o calor que ele já produziu, sem se preocupar com o resto da viagem. É a mesma chaminé de sempre, elevada à sua versão mais literal possível. Trata-se agora de mandar o fumo para fora do planeta inteiro, não apenas um pouco mais alto, para um vazio tão grande que absorve praticamente qualquer coisa sem nunca ficar cheio. Há uma retórica muito específica que costuma acompanhar este tipo de anúncio: não se fala em desviar o problema, fala-se em resolver uma crise energética para o planeta inteiro. A linguagem da salvação tecnológica tende a preferir a escala mais ampla possível, precisamente porque a escala ampla dissolve, tal como o oceano ou a chaminé alta, os detalhes incómodos sobre quem exatamente vai carregar o peso físico da solução. Há também algo de muito antigo nesta fantasia particular, para lá da engenharia. Enviar para o céu aquilo que pesa demasiado cá em baixo tem ecos de rituais muito mais velhos do que a revolução industrial: o fumo de um sacrifício que sobe até uma divindade, a alma que se liberta do corpo ao subir, o lixo que se queima precisamente para que desapareça "para cima" em vez de ficar a apodrecer "cá em baixo". A ideia de que o alto é limpo e o baixo é sujo antecede em muito qualquer chaminé de tijolo. A prática de construir chaminés cada vez mais altas para dispersar poluição, em vez de a reduzir, tem um nome na história da engenharia ambiental: "a diluição é a solução para a poluição", uma frase que chegou a circular como princípio de engenharia respeitável antes de se tornar sinónimo de má-fé regulatória. Ao longo do século vinte, sobretudo depois de leis de qualidade do ar começarem a limitar a concentração de poluentes junto ao solo, muitas centrais elétricas responderam não queimando combustíveis mais limpos, mas erguendo chaminés mais altas, algumas com mais de duzentos metros, o suficiente para que o fumo se dispersasse por uma área tão vasta que, localmente, deixava de ultrapassar os limites legais. O problema passava a ser responsabilidade de outra região, muitas vezes a centenas de quilómetros de distância, sob a forma de chuva ácida, sem nunca ter verdadeiramente desaparecido. Durante boa parte do século vinte, países industrializados também lançaram ao mar, sem grande cerimónia, resíduos químicos e até radioativos de baixa intensidade, na convicção de que um oceano tão vasto conseguiria diluir praticamente qualquer coisa até à insignificância. Só tratados internacionais assinados já perto do final do século vieram travar essa prática, depois de décadas a testar até onde a paciência do oceano realmente ia. Uma versão ainda mais recente do mesmo instinto acontece, todos os dias, com o lixo eletrónico. Computadores, telemóveis e ecrãs descartados em países ricos viajam, com frequência, milhares de quilómetros até serem desmontados, muitas vezes à mão e sem grande proteção, em pátios de reciclagem informal noutros continentes, onde o problema do lixo tóxico deixa de ser visível para quem o produziu. Há, no entanto, uma diferença real entre estes dois casos e o dos centros de dados em órbita, e seria injusto ignorá-la. O espaço não é apenas mais um sítio distante onde despejar um problema: oferece, de facto, algo que a Terra não tem para dar, luz solar sem interrupção, sem noite, sem nuvens, sem a necessidade de baterias caras para atravessar as horas escuras. É, ao mesmo tempo, uma forma de empurrar o problema para mais longe e de aproveitar uma vantagem física real que nenhuma chaminé, por mais alta que fosse, alguma vez teve para oferecer. Mas essa vantagem não resolve o problema que motivou a ideia em primeiro lugar. Quem se opõe à construção de centros de dados perto de casa raramente se opõe apenas ao consumo de eletricidade; opõe-se também ao ruído constante dos sistemas de ventilação, ao volume de água desviado para os arrefecer, à ocupação de terrenos que podiam servir outros fins, à presença física de um edifício enorme e barulhento na paisagem onde antes não havia nada parecido. Mandar esse edifício para o espaço resolve a proximidade, mas não resolve a procura crescente de processamento que, algures, continua a crescer sem travões visíveis. Há também céticos que consideram o projeto inteiro uma distração cara, um desvio de atenção e de investimento que adia decisões mais difíceis e imediatas sobre como gerir, hoje e não daqui a uma década, a procura energética que a inteligência artificial já está a criar na Terra. Mesmo que a tecnologia funcione exatamente como prometido, alguém continuará a pagar a fatura de a pôr em órbita: o lançamento de satélites consome combustível, gera detritos, e depende de uma indústria aeroespacial que também tem pegada ambiental própria. Trocar o incómodo local por um custo distribuído e menos visível torna esse custo mais difícil de contabilizar, sem realmente o eliminar. Quem beneficia mais diretamente da computação em órbita não é necessariamente quem hoje vive ao lado de um centro de dados terrestre; é, sobretudo, quem já beneficia da própria expansão da inteligência artificial, empresas de tecnologia, investidores, utilizadores dispostos a pagar por respostas cada vez mais rápidas. O incómodo que se tenta afastar tinha, pelo menos, a vantagem de recair sobre quem vivia perto; distribuído pelo espaço, o custo passa a ser de todos e de ninguém ao mesmo tempo, o que raramente é boa notícia para quem, no futuro, tiver de decidir quem paga por ele. O espaço, aliás, já não é o vazio incontaminado que a imaginação do século vinte gostava de anunciar. Órbitas próximas da Terra acumulam, há décadas, fragmentos de satélites antigos, estágios de foguetões gastos e parafusos perdidos, todos a viajar a milhares de quilómetros por hora, um problema que os próprios promotores da computação orbital terão de somar, mais cedo ou mais tarde, à conta final. Vale notar que nada disto está perto de acontecer, apesar de todo o entusiasmo dos anúncios. Os próprios promotores destes projetos admitem que faltam, pelo menos, vários anos até qualquer sistema destes chegar à órbita, e a história recente da inovação energética está cheia de anúncios semelhantes que nunca chegaram a sair do papel. A fusão nuclear é descrita, há sete décadas, como uma solução a vinte anos de distância; carros voadores e cidades subaquáticas povoam arquivos de imprensa de décadas passadas sem nunca terem saído dos protótipos. Isso não significa que a computação orbital vá seguir o mesmo destino, mas convida a alguma paciência antes de a tratar como um problema já resolvido. Não ver um problema não é o mesmo que não o ter. É, quando muito, uma forma mais confortável de conviver com ele, pelo menos até que alguém, nalgum lugar mais distante e antes esquecido, comece também a reclamar. O engenheiro que mandou erguer mais um anel de tijolo na chaminé nunca soube, provavelmente, para onde ia parar o fumo que produzia, nem teve grande curiosidade em perguntar. Sabia apenas que deixava de cair, com tanta força, sobre o próprio bairro, e isso já lhe parecia trabalho suficiente para um dia. Os satélites que talvez um dia processem os pedidos que fazemos a uma inteligência artificial vão funcionar, no fundo, segundo a mesma lógica: o calor que produzem vai continuar a existir, algures, só que finalmente longe o suficiente para que ninguém aqui em baixo precise de lhe sentir a temperatura, nem de se perguntar demasiado sobre para onde foi parar. À noite, quem souber onde procurar já consegue ver satélites a atravessar o céu, pontos de luz que se movem devagar entre as estrelas paradas, indistinguíveis a olho nu de qualquer outra luz do firmamento, tão discretos que quase ninguém, ao olhar para cima, se lembra de perguntar o que realmente são. Dentro de alguns anos, talvez, um desses pontos esteja, algures lá dentro, a processar uma pergunta qualquer que alguém fez a um computador, sem que nem quem fez a pergunta nem quem olha para o céu percebam a ligação entre as duas coisas. #InteligênciaArtificial #CentrosDeDados #ComputaçãoOrbital #TecnologiaEspacial #EnergiaSolar #Espaço #Sustentabilidade #Ambiente #Inovação #Energia #DetritosEspaciais #FuturoDaTecnologia
- Marcham Há Trezentos Anos. O Inimigo é que Muda.
Em Belfast, os desfiles que celebram uma vitória de 1690 continuam praticamente iguais a si próprios. O alvo da desconfiança, esse, já mudou várias vezes, e a mudança mais recente aconteceu à vista de todos. Imagine-se uma criança que pergunta, à beira do passeio, o que significam as faixas cor de laranja que os homens usam por cima da camisa. Quem está ao lado responde, sem pensar muito, que é tradição, que é assim desde sempre. A criança aceita a resposta sem perceber bem o que "desde sempre" quer dizer, porque para quem tem seis ou sete anos qualquer coisa que já aconteceu duas vezes parece ter acontecido sempre. Fica, mesmo assim, com a palavra na cabeça, e vai voltar a usá-la, sem saber muito bem porquê, sempre que alguém lhe perguntar, daqui a uns anos, porque é que ainda se faz este desfile. Participantes numa marcha unionista percorrem uma rua da Irlanda do Norte com faixas cerimoniais cor de laranja, perante moradores e outros elementos do desfile. Os tambores começam a marcar o ritmo, as bandeiras britânicas sobem em mastros improvisados, e a fila de bandas marciais começa a andar. A criança vai ver o mesmo desfile no próximo mês de julho, e no seguinte, e provavelmente vai continuar a não perceber bem o que significam as faixas, porque a certa altura ninguém continua a perguntar. É o Doze de Julho em Belfast, a data que a comunidade lealista da Irlanda do Norte reserva, desde há mais de trezentos anos, para assinalar a vitória do exército protestante comandado por Guilherme de Orange sobre as forças do rei católico deposto, na Batalha do Boyne, em 1690. A Ordem de Orange, uma fraternidade religiosa e cultural, organiza desfiles, bandas e fogueiras que se repetem, ano após ano, com poucas variações. Este ano, porém, o desfile aconteceu poucas semanas depois de uma vaga de violência anti-imigração ter varrido vários bairros lealistas da cidade, na sequência de um crime grave atribuído a um requerente de proteção internacional. Casas e negócios ligados a comunidades imigrantes foram alvo de incêndios, e várias famílias tiveram de deixar as próprias casas à pressa, sem saber, nessa noite, se teriam para onde voltar. Historicamente, a desconfiança lealista teve como alvo a comunidade católica da mesma cidade, herdeira do mesmo conflito que a própria Batalha do Boyne resume e que décadas de violência armada, já no século vinte, tornaram ainda mais profundo. Nos últimos anos, à medida que a Irlanda do Norte, ainda a região menos etnicamente diversa do Reino Unido, começou a receber mais imigração, uma parte dessa comunidade voltou a mesma desconfiança para um alvo novo. O ritual manteve-se praticamente intacto: as mesmas bandas, os mesmos tambores, o mesmo trajeto pelas mesmas ruas. O que mudou foi apenas o nome que se dá, em cada geração, à ameaça que o justifica. É, na verdade, um padrão que tende a repetir-se sempre que uma tradição sobrevive mais tempo do que a circunstância original que a fez nascer, sem ser de forma alguma uma singularidade desta comunidade. O mecanismo funciona, em boa parte, porque uma tradição bem-sucedida não precisa de se explicar a si própria; basta repetir-se. Ninguém que participa numa marcha ou acende uma fogueira precisa de justificar, todos os anos, porque é que aquele gesto continua a fazer sentido: o simples facto de já ter sido feito no ano anterior, e no anterior a esse, funciona como justificação suficiente. É essa inércia, a força de um hábito que não precisa de se defender, que permite a um ritual sobreviver ao desaparecimento do motivo original que o justificava, e acolher, sem esforço de tradução, qualquer motivo novo que lhe apareça à porta. Há também uma vantagem prática nisto, do ponto de vista de quem quiser instrumentalizar a ansiedade coletiva: é muito mais fácil canalizar hostilidade para dentro de uma estrutura já existente, com data marcada, coreografia definida e legitimidade histórica incontestada, do que construir de raiz um novo veículo para a mesma emoção. Na Inglaterra, a Noite de Guy Fawkes assinala, desde 1605, a descoberta de uma conspiração católica para explodir o parlamento e matar um rei protestante. Durante séculos, as fogueiras dessa noite queimaram bonecos que representavam o conspirador original, mas também, ao longo do tempo, papas, primeiros-ministros impopulares e outras figuras que nada tinham a ver com a conspiração de 1605. Na localidade inglesa de Lewes, a tradição foi ainda mais longe: ao lado do boneco do conspirador original, as fogueiras locais têm queimado, ao longo da sua história, também efígies do papa, um costume que continua a gerar controvérsia até aos dias de hoje. A memória do complô de 1605 nunca desapareceu do calendário inglês; o que mudou, ao longo de mais de quatro séculos, foi apenas quem ocupava, a cada época, o lugar do vilão a arder. O historiador Eric Hobsbawm chamou a isto "tradição inventada": rituais que parecem imutáveis e antiquíssimos, mas que são, na prática, reformulados de geração em geração para responder a ansiedades bem presentes, vestidas com a roupa de uma continuidade que raramente é tão contínua quanto parece. A palavra "inventada" quer dizer apenas que alguém, nalgum momento, a moldou de propósito, e que outros, depois, continuaram a remodelá-la sem se aperceberem bem de que o estavam a fazer. Para a maioria dos jovens que hoje desfilam, a Batalha do Boyne já não é uma memória viva nem sequer uma memória de família transmitida por quem lá esteve; é uma data de manual escolar, uma canção que se aprende a cantar antes de se perceber bem a letra, um símbolo que se herda antes de se questionar, tal como a criança à beira do passeio herda a palavra "tradição" sem perguntar o que ela cobre exatamente. É precisamente essa distância, essa abstração progressiva do acontecimento original, que deixa espaço livre para que o ritual absorva outras ansiedades, mais recentes e mais concretas do que um rei morto há mais de trezentos anos. Nem toda a tradição que sobrevive ao seu motivo original se torna perigosa. Uma canção pode continuar a cantar-se só pela beleza da melodia; uma dança pode manter-se só pelo prazer de dançar, sem que ninguém precise de inventar um novo adversário para lhe dar sentido. O risco está em precisar de um alvo para continuar a justificar-se, e em encontrar esse alvo em quem, de cada vez, calha estar mais à mão e mais indefeso, não simplesmente em o ritual sobreviver à circunstância que o fez nascer. O antropólogo e filósofo René Girard descreveu um mecanismo parecido, a uma escala ainda mais antiga: sociedades em tensão interna tendem a projetar essa tensão sobre uma figura ou grupo exterior, um "bode expiatório" cuja exclusão, real ou simbólica, permite à comunidade recuperar, por momentos, uma sensação de coesão. O alvo escolhido raramente tem relação direta com a origem real da tensão; é escolhido, sobretudo, por estar disponível, visível, e suficientemente indefeso para não poder responder à altura. A diferença entre o mecanismo que Girard descreveu e um ritual como o Doze de Julho é que este último já vem, por construção, com um inimigo desenhado à partida, um rei católico derrotado há mais de três séculos. Isso torna a substituição ainda mais fácil: não é preciso inventar de raiz a figura do adversário, basta apontar o dedo, dentro da mesma estrutura simbólica que já existia, para um alvo mais recente. Nem todos os que desfilam veem as coisas da mesma maneira, e essa divisão interna raramente aparece nas imagens que circulam lá fora. Para uns, o desfile é, sobretudo, uma questão de convívio e continuidade familiar; para outros, tornou-se também um espaço onde cabe a defesa mais explícita de fronteiras identitárias, com tudo o que isso possa implicar. Isso não torna toda a celebração do Doze de Julho, por si só, num ato de hostilidade. A grande maioria de quem desfila fá-lo pela mesma razão que qualquer pessoa participa em qualquer tradição de família: pelo prazer do gesto repetido, pelo convívio, pela sensação de continuidade que atravessa gerações. A estrutura da marcha, construída há séculos à volta da ideia de um inimigo, é que oferece um lugar pronto a qualquer nova hostilidade que precise de casa, muito mais do que o simples gesto de marchar. Interromper esse deslizamento é mais difícil do que impedir uma manifestação organizada de raiz, precisamente porque não há um único responsável a quem pedir contas, nem um momento único de decisão que se possa desfazer. Ninguém decidiu, este ano em particular, que o Doze de Julho ia acolher ansiedade sobre imigração; foi, antes, um processo gradual, quase impercetível de ano para ano, do tipo que só se torna visível quando já está bem instalado. Sondagens de opinião realizadas ao longo dos últimos vinte anos, como o Northern Ireland Life and Times Survey, mostram uma queda constante no número de pessoas que se identificam como unionistas ou lealistas. É razoável supor que essa erosão, a par de outras mudanças demográficas, alimente nalguns uma sensação de identidade ameaçada, terreno mais recetivo a discursos que apresentam qualquer recém-chegado como perigo. Não é preciso que a maioria de uma comunidade acredite nesses discursos para que eles produzam dano; basta que encontrem, nalguns, terreno fértil o suficiente para passar da palavra ao fogo posto. O padrão de Belfast não está isolado, nem é propriedade exclusiva desta cidade em particular. Em várias regiões europeias marcadas por décadas de declínio económico ou por identidades comunitárias longamente ameaçadas, mensagens de extrema-direita têm encontrado receção facilitada precisamente onde a sensação de perda já vinha de outras fontes, muito antes de qualquer imigrante chegar. A imigração torna-se, nesses contextos, menos a causa original da ansiedade do que o recipiente mais recente onde essa ansiedade pode ser despejada. A própria cidade de Belfast oferece outro exemplo do mesmo princípio, mas em pedra e vedação metálica em vez de tambores e faixas. Dezenas de quilómetros de muros e barreiras, erguidos durante décadas de conflito para separar bairros católicos de bairros protestantes, continuam de pé, muito depois de o acordo de paz de 1998 ter formalmente encerrado o conflito armado. Boa parte dos residentes de ambos os lados, quando questionados em sondagens ao longo dos anos, tem preferido que os muros se mantenham, mesmo sabendo que a violência aberta que os justificou já não é, para a maioria, uma ameaça diária. Um muro, tal como um ritual, também pode sobreviver ao medo específico que o fez erguer-se, e continuar de pé só porque ninguém, entretanto, se sentiu suficientemente seguro para o derrubar. Há, nesta história, dois medos que raramente se cruzam mas que talvez não sejam assim tão diferentes um do outro. O medo de quem, tendo fugido de algures para reconstruir a vida num bairro desconhecido, se vê subitamente a fugir outra vez, desta vez de casas em chamas. E o medo de quem vê a rua onde cresceu, o bairro que sempre reconheceu como seu, tornar-se irreconhecível ano após ano, sem que ninguém lhe tenha perguntado se queria isso. Nenhum dos dois medos anula o outro, e nenhum deles, por si só, justifica o que aconteceu em junho. O segundo medo, porém, tem um lugar antigo para onde escoar, um ritual já pronto à sua espera havia séculos, e é isso, mais do que qualquer outra coisa, que o torna capaz de produzir um dano que o primeiro medo, sozinho, nunca produziria. A criança que perguntou pelo significado das faixas cor de laranja ainda vai continuar, durante anos, sem perceber bem a resposta que lhe deram. Vai crescer a ouvir os mesmos tambores, a ver as mesmas bandeiras, a aprender a cantar as mesmas canções antes de perceber bem a letra, e talvez só muito mais tarde, se algum dia parar para pensar nisso, perceba que a pergunta que fez em criança nunca teve, verdadeiramente, uma resposta fixa. A resposta muda; a pergunta, essa, fica sempre por responder de vez, o suficiente para que alguém, algures, continue a ter de a responder de novo. O desfile deste ano acabou ao fim da tarde, como todos os anteriores. As bandas recolheram os instrumentos para os guardar até ao próximo mês de julho, quando tudo vai recomeçar, com o mesmo som, os mesmos tambores, e, provavelmente, com outro nome para a mesma desconfiança antiga. #OrdemDeOrange #IrlandaDoNorte #Unionismo #Protestantismo #Belfast #Identidade #MemóriaHistórica #ConflitoNorteIrlandês #ReinoUnido #MarchasUnionistas #Política #História
- Revista Atlantic Lisbon, Edição Especial n.º 1
Esta é a Edição Especial n.º 1 da Revista Atlantic Lisbon. Reúne, em texto integral e num único ficheiro PDF, ensaios do Atlantic Lisbon. Descarregue a edição abaixo e leia ao seu ritmo, no ecrã ou em papel. Edição Especial da Revista Atlantic Lisbon
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Turistas em Lisboa - O morador chegou das compras, com o pão, os tomates e a garrafa de azeite, e descobriu que a sua varanda passou a miradouro. Ao fim de dez minutos de espera ainda não decidiu se há de pedir licença para entrar em casa ou comprar bilhete. Turistas em Lisboa tratam a cidade como cenário. Banda desenhada do Atlantic Lisbon.











