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DISCURSO DE ACEITAÇÃO DO PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA

7 de out.
5 min de leitura

Atualizado: há 7 horas

Numa sala do terceiro andar em Arroios, alguém empurrara as mesas para as paredes para abrir um corredor no meio. Não para circular. Para que ninguém se toque por engano. De um lado sentaram-se quatro miúdos, do outro cinco. Todos chegavam no mesmo autocarro, da mesma pensão na Mouraria. Todos pediam pão da mesma maneira no café em baixo. Mas na escola tinham de escolher com que mão escreviam.


O PRÉMIO NOBEL DA LITERATURA


O professor de História chegava com dois marcadores, um azul e um preto. Dava a mesma aula duas vezes. Escrevia a mesma data no quadro, uma de cada lado do corredor. Não porque a data fosse diferente. Porque lhe pediram para não escrever no meio.


Isto aconteceu em Lisboa, no outono de 1996. Os miúdos tinham chegado no verão anterior, depois de saírem de aldeias onde a língua servia para tudo, e descobriram que em Lisboa a língua que traziam já vinha partida de origem. Na pensão falavam entre si sem precisar de escolher. Na escola, a escolha era obrigatória.


O nome composto que aquela língua teve durante trinta e sete anos não era um acordo linguístico. Era uma solução de engenharia. Como uma viga feita de duas madeiras coladas com a fibra cruzada: aguenta mais peso precisamente porque não é pura. Cortá-la ao meio para obter duas vigas mais puras produz duas vigas que aguentam menos de metade cada uma. É isto que acontece quando se separa uma língua que torcia para os dois lados.


O que interessa em Arroios não é quem tem razão sobre o nome. O que interessa é o trabalho extra que a separação obriga.


O professor precisava de duas cores. Precisava de apagar o quadro duas vezes. Precisava de garantir que não se enganava na mão. Os miúdos precisavam de aprender a fingir que não entendiam o que estava escrito do outro lado do corredor, quando entendiam perfeitamente. O mais velho começou a copiar os apontamentos do outro lado às escondidas, porque a letra do professor com a esquerda era mais legível. Repreenderam-no por ter olhado para o lado errado, não por copiar.


Lisboa, em 1996, gostava de receber. Tinha festivais, cartazes com muitas bandeiras, senhoras de associações que traziam bolos. Era uma cidade que coleccionava diferenças, desde que cada diferença ficasse no seu sítio. O problema daqueles miúdos é que a diferença deles não tinha sítio. Era larga demais. Não cabia numa bandeira. Era uma ferramenta, não uma bandeira. E Lisboa, como Toronto, só sabia arquivar bandeiras.


Durante meses, aquela sala funcionou com corredor. Depois deixou de funcionar, não porque alguém tenha feito um discurso sobre a tolerância, mas porque o professor se cansou. Uma manhã de novembro chegou atrasado. Tinha só um marcador, o azul. Escreveu a data no meio do quadro. Ninguém se levantou. Os miúdos copiaram. A aula seguiu. O corredor ficou ali, vazio, como ficam vazios os corredores que já não precisam de separar nada mas que ninguém tem coragem de ocupar.


Eu estava lá. Era um deles.


Sala de aula com crianças e professor na pintura Schulstube, de Albert Anker.
Albert Anker, Schulstube (Sala de aula), 1862. Óleo sobre tela. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons.

Foi nesse instante que percebi. Não foi uma epifania. Foi cansaço. A língua não é um território que se defende. É uma ferramenta que se usa. E usar uma ferramenta com as duas mãos, mesmo que doa, é diferente de escolher uma mão e chamar traidor a quem usa a outra.


Voltei à sala anos depois. Já não havia corredor. Tinham voltado a pôr as mesas como antes, em filas. No quadro ainda se via, muito apagada, a marca de onde o marcador preto escrevia. Alguém tentou apagar melhor, mas ficou o fantasma.


Não nasceu uma língua nova daquela sala. Ficou o gesto de escrever com as duas mãos, mesmo que doa, para não ter de dizer que a outra mão está errada.


Há décadas que escrevo sobre pessoas que não conseguem dizer o que sentem. Não porque não saibam as palavras. Porque as palavras que têm foram partidas por alguém que não as precisava. Escrevi sobre um homem numa mercearia em Arroios que mantém dois cadernos: um para as contas em português, outro para as contas na língua que trouxe. Quando lhe perguntei por que não junta, disse que se junta perde a conta. Não se referia ao dinheiro.


A literatura que me interessa mantém. Não explica.


Manter uma língua que serve para pedir pão em qualquer mercado dá mais trabalho do que manter uma língua que serve para provar que és diferente no mercado. A primeira exige que aceites que a mesma palavra se escreva de duas maneiras e continue a ser a mesma palavra. A segunda exige só que escolhas uma maneira e chames traidor a quem usa a outra. A literatura fácil escolhe a segunda. A literatura que tento escrever escolhe a primeira e não porque isso seja virtuoso. Simplesmente não sei escrever de outro modo.


As personagens dos meus livros são pessoas que falham de formas pequenas e persistentes. Uma mulher que não consegue pedir desculpa. Um homem que copia apontamentos do lado errado do corredor porque a letra é mais legível. Um filho que telefona para a mãe todas as semanas e nunca lhe diz o que realmente lhe aconteceu. Não os tornei simpáticos para que os leitores os perdoassem. Tornei-os verdadeiros para que os leitores os reconhecessem.


Natureza-morta cubista com um poema e objetos sobrepostos, pintada por Juan Gris em 1915.
Juan Gris, Natureza-morta com um poema, 1915. Óleo sobre tela, Norton Simon Museum. Reprodução em domínio público, via Wikimedia Commons.


O reconhecimento é a única coisa que a literatura pode oferecer sem mentir. Não oferece redenção nem lição. Sabe demasiado para isso. Oferece apenas o gesto de dizer que isto aconteceu, que tu sabes, e que esse saber agora é partilhado.


Disseram-me que o prémio Nobel da Literatura era meu. A primeira coisa que pensei não foi na cerimónia, nem no discurso, nem na história. Pensei naquele professor de História, que já deve ter oitenta anos, e na pergunta que nunca lhe fiz: se, no dia em que escreveu a data no meio do quadro com um só marcador, sabia que estava a fazer algo que eu levaria comigo para sempre. Não como lição. Como peso. Como a textura de um quarto onde o segredo viveu.


A literatura não guarda o segredo. Guarda a textura do quarto.


Não acredito que os livros mudem o mundo. Acredito que mudam a pessoa que os lê, não de imediato, nem de forma visível, mas da mesma forma que um corredor que deixou de separar nada continua a ocupar espaço na sala. Ainda o contornamos. Ainda sabemos que esteve lá. E um dia, sem que ninguém decida, deixamos de contorná-lo e sentamo-nos onde ele estava. Não porque alguém fez um discurso sobre tolerância. Porque nos cansámos de fingir que o corredor ainda separa alguma coisa.


Os meus livros, se serviram para alguma coisa, serviram para isso. Para que alguém, numa manhã qualquer, percebesse que já não precisa de escolher com que mão escreve.


Que pode escrever com as duas, mesmo que doa. Que a dor de escrever com as duas mãos é diferente da dor de ter de escolher uma e chamar errada à outra.


Obrigado a quem leu. Obrigado a quem não leu mas guardou o livro na estante como quem guarda uma chave que já não abre nenhuma porta; porque um dia, talvez, precise de lembrar que alguma porta existiu.


E obrigado a quem me ensinou, sem o saber, que a manutenção é a forma mais honesta de amor. Manter uma língua viva não é gritar que ela é pura. É usá-la para pedir pão. É escrever com ela mesmo quando ninguém pede. É manter dois cadernos quando um bastaria, porque se junto, perco a conta.


Não estou a falar de dinheiro.


Capa: duas mãos sobre um caderno aberto, entre planos cubistas de uma sala de aula e de Lisboa. Ilustração criada para o Atlantic Lisbon.


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