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- A Crimeia Está às Escuras e Quase Ninguém na Rússia Sabe
Há semanas, centenas de milhares de pessoas na Crimeia vivem sem eletricidade durante dias seguidos. A forma como uma comunidade aprende a funcionar ao lado do que prefere não ver diz mais sobre a condição humana do que sobre a guerra que a causou. Uma mulher risca um fósforo na escuridão, três vezes antes de pegar. A chama, pequena, ilumina só as mãos e a mesa da cozinha, não o resto da casa. Já sabe de cor onde fica a vela, sabe quantos passos há até à porta sem precisar de ver, e sabe também, com a mesma naturalidade prática, que esta noite vai ser outra vez assim. Imagem ilustrativa de uma figura numa zona escura, iluminada por luzes fortes ao fundo. Não é a primeira semana sem luz, nem promete ser a última. A rotina da escuridão instalou-se depressa: o telemóvel poupado para o essencial, a comida cozinhada antes de o gerador desligar, as crianças que aprenderam a não perguntar quando volta a eletricidade, porque a resposta nunca é satisfatória. Há também um som que se aprende a reconhecer no escuro, o zumbido de um gerador a trabalhar longe, que tanto pode ser um vizinho com sorte como um aviso de que, esta noite, vale a pena poupar a bateria do telemóvel para o que for mesmo preciso. A cena podia pertencer a qualquer século, mas está a acontecer agora, no norte da península da Crimeia. Desde junho, uma campanha ucraniana com drones tem atingido a rede elétrica da região, sobretudo junto a instalações militares russas, e por volta de finais de julho todas as cidades e vilas maiores do norte da península já tinham passado por apagões completos. Numa única semana, segundo um diplomata russo citado pela agência estatal Tass, os ataques cortaram a eletricidade a 1,4 milhões de pessoas, numa população que antes da guerra rondava os 2,5 milhões. Uma análise de imagens de satélite feita pelo Meduza, um órgão de comunicação social em língua russa, registou, no início de julho, uma iluminação noturna inferior a um quinto do habitual. Os apagões não pouparam ninguém: nem o litoral turístico do sul, onde a água canalizada passou a chegar só três horas por dia, nem as estações de comboio do interior, fechadas por falta de energia, nem os pequenos negócios que penduraram cartazes a explicar a ausência de luz. Numa cidade do norte, depois de duas semanas sem eletricidade, os moradores começaram por fim a ter duas horas de corrente por dia, mas a uma voltagem alta o suficiente para estragar eletrodomésticos. Numa localidade costeira, as autoridades reinstalaram cabines telefónicas públicas, um objeto que a maioria das pessoas mais novas nunca tinha usado, para que as famílias pudessem comunicar depois de as redes móveis caírem junto com a rede elétrica. Dentro da mesma escuridão há também diferenças de peso. Quem vive em casas isoladas, com quintal, consegue às vezes ligar um gerador; quem vive num prédio, normalmente não. Mesmo entre os que têm gerador, o combustível ficou caro ao ponto de se tornar um cálculo diário: gerar eletricidade durante cinco horas pode custar cerca de vinte dólares, uma despesa pesada para o rendimento médio russo, e mesmo assim não chega para o frigorífico, só para carregar telemóveis e manter uma luz acesa. O peso da escuridão acaba por seguir linhas sociais que já existiam antes de a luz se ir embora. Já este verão, antes mesmo do pico dos apagões, escassezes graves de gasolina tinham levado alguns turistas e residentes a decidir sair da península mais cedo do que planeavam. Na quarta semana de apagões, as autoridades locais ainda prometiam equipar cada hospital com um gerador próprio, uma garantia que devia ter existido muito antes de a crise chegar a este ponto. A Rússia ofereceu um pagamento único, equivalente a cerca de 190 dólares, às famílias sem eletricidade durante mais de 48 horas, um valor que não cobre sequer o custo de comprar e alimentar um pequeno gerador durante um mês. Nas fábricas paradas do norte, alguns trabalhadores perderam o emprego, outros ficaram apenas suspensos, à espera de uma retoma sem data. Às empresas ligadas ao turismo, mais visíveis e mais fáceis de compensar politicamente, foi prometido algum apoio financeiro. Sobre as fábricas fechadas, as autoridades não se pronunciaram. Do lado ucraniano, a lógica é declarada sem rodeios. As forças que comandam os ataques falam abertamente em enfraquecer a capacidade militar russa na península, ocupada pela Rússia desde 2014, e o comandante das forças de drones ucranianas chegou a gabar-se, publicamente, de ter "desligado o interruptor" da Crimeia, depois de mais de cem infraestruturas energéticas atingidas só nas primeiras três semanas de julho. O presidente ucraniano já veio dizer que a população civil da península não é o alvo, ainda que a distinção entre infraestrutura militar e vida civil, numa rede elétrica que serve as duas coisas ao mesmo tempo, seja mais fácil de anunciar do que de manter. A quilómetros dali, do outro lado da mesma península, ou mais longe ainda, do outro lado da fronteira russa, quase ninguém sabe que isto está a acontecer. A televisão estatal evita mostrar imagens das zonas afetadas e garante que as necessidades da população estão a ser satisfeitas. Blogueiros de estilo de vida publicam vídeos de praias e pores do sol na Crimeia para contrariar o que descrevem como propaganda ucraniana. Um encontro do presidente russo com responsáveis governamentais, este mês, tocou no tema do abastecimento de combustível à península, sem uma palavra sobre os ataques com drones da noite anterior, que tinham voltado a deixar o norte às escuras. Quem seguia os registos oficiais da reunião registou a ausência; para a generalidade dos telespectadores russos, porém, a Crimeia continuava, nesse dia, a ser apenas mais uma região a precisar de gasóleo. Ao lado dos apagões, constrói-se ali uma segunda realidade, com a função de tornar a primeira dispensável de se ver. Um jornalista russo exilado que estuda a propaganda televisiva do seu país explica o mecanismo em termos simples: mostrar a escala real da crise obrigaria o poder a admitir uma fragilidade que prefere esconder dos próprios cidadãos. A explicação é sóbria e, por isso mesmo, incompleta, porque a mesma escolha, entre ver e não ver, pertence tanto ao poder como às pessoas que vivem dentro da crise, que decidem todos os dias, sem que ninguém lhes peça, quanto da verdade cabe num dia normal e quanto teria de ser adiado só para se conseguir continuar a funcionar. Esse padrão já apareceu antes, noutras cidades, sob outros cercos. Durante o cerco de Leninegrado, com a cidade cercada pelas forças alemãs, cortada de comida e de aquecimento durante quase novecentos dias, a orquestra da rádio local ensaiou e estreou, no verão de 1942, uma sinfonia inteira, com músicos que desmaiavam de fome durante os ensaios e outros que morreram antes da estreia. O concerto foi transmitido pela rádio para toda a cidade, e também, através de altifalantes viradas para as linhas alemãs, para os soldados que a cercavam. Funcionava, entre outras coisas, como prova de que a cidade continuava a existir enquanto cidade, e não apenas enquanto população sitiada. Em Londres, durante os bombardeamentos alemães da Segunda Guerra Mundial, o governo britânico distribuiu cartazes com o lema hoje reproduzido até à exaustão, Keep Calm and Carry On, mas a continuidade real veio de outro lado: dos cinemas que reabriam horas depois de um ataque, dos autocarros que voltavam às rotas antes de os escombros estarem removidos, das lojas que despachavam clientes com a fachada ainda de pé só por um fio. Manter a rotina custava esforço e organização, mas garantia às pessoas alguma decisão sobre a própria vida, mesmo que fosse só decidir que autocarro apanhar. O cerco de Sarajevo durou quase quatro anos, na década de 1990, com franco-atiradores a disparar sobre quem atravessasse certas ruas. Mesmo assim, a cidade manteve temporadas de teatro, exposições de arte e um desfile de moda com roupa cosida a partir do que havia disponível. Estes gestos não travavam balas, mas serviam para outra coisa, mais difícil de medir e provavelmente mais necessária. O mesmo mecanismo aparece em escalas muito mais pequenas, dentro de uma única casa. Famílias que evitam, à mesa de jantar, o assunto que todos sabem que existe mas ninguém nomeia; casais que mantêm as rotinas de sempre, o café da manhã, o comentário sobre o trânsito, enquanto um dos dois sabe que algo mudou e ainda não encontrou as palavras certas. É a esse gesto, normalmente, que se chama cuidado, não mentira. Leninegrado e Londres continuaram a funcionar por decisão de quem vivia dentro do cerco, gente a decidir, todos os dias, continuar a ser cidade. Na Crimeia atual, a normalidade que aparece nos ecrãs é fabricada a centenas de quilómetros de distância, por decisão de quem nunca passou uma noite sem luz. A construção dessa segunda realidade também não é perfeita, nem unânime. Nas redes sociais do responsável russo nomeado para a Crimeia, moradores da península têm deixado, nos últimos meses, comentários de frustração que a moderação não consegue apagar depressa o suficiente. Um homem do sul da península, entrevistado por um jornal norte-americano, admitiu não perceber como uma rede elétrica podia ter ficado tão indefesa, e disse não saber como continuar a viver sem conseguir comunicar com a família; confirmou as suas próprias palavras ao jornal, mas pediu para não ser identificado, com medo das consequências. Ao mesmo tempo, um pedido de ajuda publicado por um empresário local, a pedir água potável para o norte, foi partilhado o suficiente para gerar uma pequena rede informal de entregas, com vídeos de centenas de pessoas, na maioria idosas, em fila para recolher os bidões. Dentro do próprio apagão, há ainda uma terceira camada da mesma escolha, mais pequena e mais compreensível do que qualquer uma das outras duas. Um cabeleireiro do centro da península continuou a cortar cabelo a meio de um apagão, com tesoura e uma máquina a pilhas, iluminado só pela luz que entrava pela janela; disse depois que, enquanto tivesse essa luz, estava bem. Uma jovem mãe, instalada há poucos anos numa cidade do norte, continua a acreditar que as autoridades vão resolver a situação, ainda que também admita que o que as pessoas precisam mesmo é do fim da guerra, um assunto que a maioria à sua volta prefere não tocar. Tratar todas estas formas de continuar como a mesma coisa simplifica demasiado a diferença real entre elas. Continuar a cortar cabelo à luz da janela é uma forma pequena e legítima de manter alguma soberania sobre o próprio dia, quando quase tudo o resto foi tirado. Evitar em voz alta o assunto da guerra, num país onde fazê-lo pode ter consequências legais, é sobrevivência, não ingenuidade. Mas quando é o próprio Estado a decidir, por quem quer que seja, o que essa pessoa pode ou não saber sobre a dimensão real da própria crise, a escolha deixa de ser dela. Passa a ser feita em nome dela, o que é uma coisa bastante diferente. A família que evita o assunto à mesa de jantar mantém, pelo menos, a decisão dentro de si mesma; é ela quem decide o que dizer e quando. A mulher que risca o fósforo na escuridão sabe exatamente o que falta, e sabe também, com a mesma clareza, o que não vai voltar tão cedo. O gesto de acender a vela organiza a vida à volta da crise, um dia de cada vez, da forma como isso é possível fazer-se sem esperar por ninguém. A vela ilumina a mesa da cozinha, os pratos ainda por lavar, um calendário na parede com um mês inteiro riscado a caneta. Lá fora, algures na mesma península, um ecrã mostra imagens de uma praia ao pôr do sol, sem gente, sem apagões, só o mar a repetir-se como sempre repetiu. A mulher apaga o fósforo com dois dedos, sem pressa, e senta-se à mesa para comer o que ainda está morno. #Crimeia #Guerra #Apagões #Rússia #Ucrânia #Propaganda #CondiçãoHumana #Ensaio #AtlanticLisbon
- A Varíola Não Nasceu Assassina
A genética de um vírus extinto sugere que a letalidade se constrói a perder substância. Essa lógica ultrapassa a biologia. O avô ergueu a manga da camisa até ao ombro e mostrou a marca ao neto. Era um círculo pequeno, com a pele ligeiramente deprimida e mais clara à volta, como se uma moeda quente tivesse sido pressionada contra o braço décadas antes e a pele nunca tivesse esquecido a forma. O rapaz tocou-lhe com o indicador. Perguntou o que era. Trabalho de microscopia eletrónica em laboratório de investigação "Vacina da varíola", respondeu o avô, sem grande cerimónia, como quem explica uma cicatriz de infância qualquer. O nome não significava nada para o neto. Nunca tinha ouvido falar de uma doença capaz de desfigurar rostos, encher hospitais inteiros e reduzir gerações. Sabia de vacinas como sabe de escovar os dentes: um gesto sem história, aplicado sem drama, que os adultos tratam como óbvio. Ignorava que aquele pequeno círculo no braço guardava, comprimida, uma das maiores vitórias médicas da espécie humana e também um dos seus terrores mais antigos. A varíola matou, só no século XX, cerca de trezentos milhões de pessoas. Foi erradicada globalmente na década de setenta, um dos feitos mais extraordinários da medicina moderna, e mesmo assim continua presente: qualquer discussão séria sobre armas biológicas volta a ela mais cedo ou mais tarde, como se a memória da doença se recusasse a desaparecer junto com o vírus. O que surpreende, para uma ameaça tão estudada, é quanto ainda ignoramos sobre a sua origem: ninguém sabe de que espécie animal terá saltado para os humanos, nem há quanto tempo exatamente nos acompanha. O próprio vírus, tecnicamente extinto na natureza desde a erradicação, continua a existir em dois laboratórios de alta segurança, um nos Estados Unidos e outro na Rússia, guardado por decisão política, mais do que por necessidade científica. A última pessoa a morrer de varíola foi infetada dentro de um laboratório. Chamava-se Janet Parker, era fotógrafa numa faculdade de medicina em Birmingham, e morreu em 1978, depois de o vírus escapar de um laboratório situado no andar por baixo do seu local de trabalho, onde ainda se estudava a doença mesmo depois de esta ter sido praticamente extinta na natureza. Nos últimos anos, a genética começou a responder a perguntas que a história sozinha nunca resolveu. Investigadores recuperaram fragmentos de ADN do vírus em corpos de séculos passados: uma criança lituana do século XVII, um bebé preservado num museu londrino, quatro genomas da era viking extraídos de ossos do norte da Europa com mais de mil anos. Um achado recente alarga o mapa ao outro lado do Atlântico: cientistas encontraram genomas de varíola em esqueletos de um cemitério inca em Camarones, no litoral norte do Chile, datados de algures entre o final do século XV e o início do século XVII. É a primeira prova genética da doença nas Américas. Durante décadas, a pista mais citada para a origem antiga da varíola foi o rosto do faraó Ramessés V, morto há três mil anos, coberto de marcas que pareciam bexigas. Investigadores mais recentes duvidam dessa leitura. Descobriram que outra doença, a hepatite B, produz erupções cutâneas muito semelhantes, e confirmaram o engano ao analisar o corpo de uma criança italiana morta há quase quinhentos anos, cujas marcas na pele, atribuídas de início à varíola, se revelaram afinal hepatite B assim que alguém foi procurar o ADN certo por baixo da pele certa. A superfície enganou, neste caso, porque era exatamente o que se esperava encontrar. Comparando as sequências de todas as amostras conhecidas, os investigadores construíram uma árvore genealógica do vírus. Todas as estirpes partilham um antepassado comum de há cerca de mil e quinhentos anos. A partir daí, dividiram-se em ramos distintos. As estirpes vikings ocupam hoje um ramo extinto, sem parentesco próximo com o vírus moderno, enquanto as estirpes chilenas de Camarones se situam numa posição intermédia, mais próximas da varíola atual mas ainda assim num ramo próprio, também ele desaparecido. Só as estirpes dos séculos XVII e XVIII, a lituana e a londrina, se aproximam geneticamente do vírus que conhecemos hoje. O detalhe mais incómodo está noutro sítio. Ao longo desses séculos, o vírus foi perdendo genes, um ou dois por século, segundo os cálculos dos investigadores. A estirpe viking já tinha mais de duas dezenas de genes desativados. A chilena tinha ainda mais genes desligados. As dos séculos XVII e XVIII perderam mais do que as duas anteriores juntas. Alguns desses genes talvez servissem para infetar outras espécies antes de o vírus se especializar em humanos; livre deles, terá ficado mais eficiente a multiplicar-se em células humanas, e quanto mais eficiente se multiplicava, mais letal parece ter-se tornado. Não há registos escritos de epidemias de varíola no norte da Europa durante o período viking, o que sugere que a maioria das pessoas sobrevivia à infeção e ficava imune. Aquele ramo mais brando do vírus acabou por se extinguir sem deixar memória histórica de si. A letalidade que hoje associamos à varíola, capaz de matar um em cada três infetados, parece ter sido conquistada tarde, talvez já no século XVIII, favorecida possivelmente pelo crescimento populacional europeu: mais gente próxima permitia ao vírus continuar a encontrar novos hospedeiros mesmo matando os anteriores com rapidez. Quando os europeus chegaram às Américas, levaram consigo estirpes já num estádio avançado dessa transformação. Encontraram populações sem qualquer imunidade prévia, agravada pela fome, pela escravatura e pela pobreza impostas pelo domínio colonial. O resultado, hoje reforçado pela evidência genética que se soma aos registos históricos, foi devastador. Historiadores discutem há décadas a dimensão exata dessa mortandade, com estimativas que variam consoante a região e a fonte; a genética resolve uma questão mais básica do que essa disputa de números: confirma que o vírus já circulava entre as populações americanas na época do primeiro contacto, mais cedo do que sugeriam certas leituras mais céticas. As revoluções mais violentas da história raramente começaram como projetos de violência. Começaram, quase sempre, como projetos largos, de justiça, de fraternidade, de reorganização do mundo, cheios de contradições internas, de vozes discordantes, de dúvidas sobre os próprios métodos. A violência instala-se depois, à medida que essas vozes vão sendo silenciadas ou expulsas, porque o projeto vai perdendo, ao longo do tempo, as convicções que o complicavam. O Terror da Revolução Francesa não nasceu no primeiro dia da Revolução; foi-se formando à medida que o movimento perdia as suas facções moderadas, os seus tribunais independentes, a sua tolerância a opiniões divergentes. Os grandes expurgos totalitários do século XX seguiram um padrão semelhante: começaram com programas amplos, cheios de promessas concorrentes entre si, e foram-se estreitando aos poucos. Começaram por eliminar os adversários externos. Passado algum tempo, foi a vez dos aliados incómodos. No final, sobravam apenas os membros que ainda hesitavam, e também esses acabaram por cair. O que sobrava, no final desses processos, era mais simples do que o ponto de partida, e por essa mesma razão, mais eficiente a fazer uma única coisa. Estudiosos da radicalização contemporânea descrevem um processo comparável à escala individual. Ninguém nasce disposto a matar por uma causa; esse estado constrói-se, tipicamente, através da erosão progressiva de tudo o que tornaria o outro humano aos olhos de quem radicaliza: o rosto do adversário, a sua história pessoal, as suas razões, a possibilidade de ele estar certo nalguma coisa. Cada uma dessas perdas facilita a seguinte. No fim, resta uma versão do mundo mais limpa e internamente mais coerente. É também, de forma perturbadora, mais eficaz a causar dano. Há ainda uma terceira variante do mesmo padrão, menos ligada à fúria e mais à administração. A filósofa Hannah Arendt descreveu, a propósito dos burocratas do extermínio nazi, uma forma de mal que não exigia ódio nem convicção ideológica particularmente intensa, apenas a repetição de pequenos gestos técnicos, cada um deles isolado do quadro geral, cada um suficientemente insignificante para não obrigar quem o executava a qualquer confronto moral consigo próprio. Essa atrocidade dispensava indivíduos monstruosos: bastavam-lhe processos fragmentados em passos pequenos o bastante para que ninguém, em nenhum momento, sentisse estar a decidir alguma coisa. É outra forma de perda: a da visão de conjunto, distribuída por tantas mãos que deixa de pertencer inteiramente a nenhuma delas. Esta analogia comporta, no entanto, um risco evidente, que a honestidade obriga a assinalar. Nem toda a perda é corrupção. A coragem exige, com frequência, perder o medo paralisante. A disciplina pede o mesmo em relação ao excesso, e a maturidade em relação a certas ilusões reconfortantes sobre nós próprios e sobre os outros. Reduzir tudo a um único princípio, o de que o perigo cresce quando se perde substância, seria trocar uma simplificação perigosa por outra, apenas mais confortável para quem escreve ensaios. Os monges que se despojam de bens materiais praticam também uma forma de perda deliberada, e associamo-la a clareza, a uma espécie de foco que só a renúncia permite. A própria ciência valoriza a perda como método: entre duas explicações para o mesmo fenómeno, prefere-se sempre a mais despida de pressupostos desnecessários, um princípio antigo que continua a orientar a investigação séria. Perder aponta para uma transformação. O que importa é o que se sacrifica e o que resta depois disso. O que separa a estirpe viking, branda e extinta sem deixar memória de epidemias, da estirpe que se tornaria letal séculos depois, é o que especificamente se perdeu, e o que essa perda permitiu ao que restou fazer. O mesmo vale, presumivelmente, para as pessoas e para os movimentos. Perder dúvida pode ser lucidez ou pode ser fanatismo, consoante aquilo que a dúvida ainda protegia. A história, escrita muito depois dos factos, costuma ser a única a distinguir os dois casos, e mesmo essa distinção raramente reúne unanimidade. A vacina que deixou a marca no braço do avô oferece, talvez sem se propor a isso, uma resposta parcial a essa distinção. Funciona precisamente através de uma perda controlada: introduz no corpo uma versão do vírus despojada da sua capacidade de matar, mas ainda suficientemente reconhecível para que o sistema imunitário aprenda a combatê-la sem correr o risco de morrer com a lição. É uma amputação dirigida, com um objetivo declarado. Nada nisso se parece com o processo lento e sem autor que transformou um vírus brando num dos maiores assassinos da história humana, nem com o processo, também ele lento e raramente reconhecido enquanto acontece, que transforma um movimento largo numa máquina estreita de causar dano. O que distingue as duas formas de perda é quem a dirige, para onde a dirige, e se alguém, a meio do caminho, ainda está a fazer as perguntas certas sobre aquilo que fica para trás. Uma vacina pode ser revista, corrigida, retirada de circulação se os riscos ultrapassarem os benefícios. Poucos processos deste género, sejam virais, ideológicos ou burocráticos, oferecem essa mesma possibilidade de correção a quem sofre os seus efeitos. O neto ainda tinha o dedo pousado na marca quando perguntou se doía. O avô disse que não se lembrava, que tinha sido vacinado com poucos meses de idade, e que a única coisa que sabia sobre aquele círculo era o que lhe tinham contado. A conversa desviou-se depois para outra coisa qualquer, uma trivialidade da tarde, e a manga da camisa voltou a descer sobre o braço. A marca ficou onde sempre esteve, por baixo do tecido, sem que ninguém precisasse de voltar a olhar para ela para saber que continuava lá. #Varíola #Vacinas #GenéticaAntiga #HistóriaDaMedicina #CondiçãoHumana #Violência #Ideologia #Ensaio #AtlanticLisbon
- Como a Rua Mudou o Comando da Guerra na Ucrânia
Durante seis dias, milhares de ucranianos exigiram duas mudanças: o regresso de Mykhailo Fedorov ao Ministério da Defesa e a saída de Oleksandr Syrskyi do comando das Forças Armadas. As manifestações retomaram a estética e a designação do "Maidan de Cartão", usadas pela primeira vez nos protestos anticorrupção do verão anterior. Entre os nomes apontados para suceder a Syrskyi, um ganhava força: Mykhailo Drapatyi. O general que a rua escolheu A Praça da Independência, em Kiev, sob a bandeira ucraniana. Seis dias de protestos antecederam a substituição do comandante-chefe das Forças Armadas. Antes de os protestos começarem, Fedorov tinha proposto a Zelensky a substituição de Syrskyi; Zelensky recusara. A 15 de julho, afastou Fedorov do Ministério da Defesa, mantendo Syrskyi no comando. Seis dias de contestação depois, perante a continuação dos protestos, afastou também Syrskyi e escolheu para o substituir o major-general Mykhailo Drapatyi, quarenta e três anos, então comandante das Forças Conjuntas, com responsabilidades nas defesas do eixo nordeste. Syrskyi nasceu na região russa de Vladimir, ainda União Soviética, e estudou numa escola militar em Moscovo ao lado de colegas de turma que se tornariam, décadas depois, comandantes do exército que ele passou os últimos anos a combater. Oficiais mais jovens descreviam-no como um comandante de estilo soviético — decisões centralizadas, microgestão a partir do topo, manter posições independentemente do custo humano. Rob Lee, analista militar radicado em Kiev, notou depois que essa descrição simplifica: Syrskyi tinha ideias antiquadas, mas também percebia o valor dos drones na guerra moderna. Na véspera de ser afastado, publicou um artigo em que disse ter ficado surpreendido com a descrição de um conflito entre ambos, e pediu desculpa a Fedorov caso o tivesse ofendido. Drapatyi nunca estudou em Moscovo. Formou-se em 2004 no Instituto de Tropas Blindadas de Karkiv e entrou nas fileiras da 72.ª Brigada Mecanizada Separada — uma unidade ucraniana, treinada por ucranianos, num país que ainda não sabia que precisaria dela. Em 2014, já major, tornou-se conhecido do público por um vídeo: o seu veículo blindado a atravessar barricadas pró-russas nas ruas de Mariupol. Depois de travar um avanço russo perto de Kryvyi Rih e ajudar a libertar Kherson, em 2022, ajudou a estabilizar a frente perto de Karkiv no verão de 2024 e tornou-se pouco depois comandante das Forças Terrestres ucranianas. Em janeiro de 2025, recebeu também responsabilidades operacionais no eixo de Donetsk. A 1 de junho de 2025, um ataque russo atingiu um centro de formação militar sob a sua área de comando, matando pelo menos doze militares e ferindo dezenas. Drapatyi apresentou a demissão. A demissão não interrompeu a carreira. Dois dias depois, recebeu uma função menos elevada na hierarquia, mas diretamente ligada às operações de combate: o comando das Forças Conjuntas. A verdadeira promoção só chegaria pouco mais de um ano depois. Numa hierarquia militar tradicional — e o modelo soviético que Syrskyi encarnava é disso um exemplo bem documentado —, admitir publicamente a responsabilidade por uma tragédia é incomum, e pode comprometer uma carreira. A demissão de Drapatyi foi lida por muitos, um ano depois, como a prova de que ele era o tipo de comandante que o país sentia estar a faltar-lhe no topo. O coronel Pavlo Yelizarov, vice-comandante da Força Aérea ucraniana responsável pela defesa aérea de curto alcance, apresentou a demissão a 16 de julho, no dia seguinte ao afastamento de Fedorov. Outros responsáveis militares manifestaram publicamente apoio a Fedorov nos dias seguintes. Fedorov afirmou que Alex Karp, diretor executivo da Palantir, lhe telefonara a propor um projeto conjunto; disse também ter recebido ofertas de emprego de outras grandes empresas tecnológicas, que recusou. Zelensky, por seu lado, ofereceu-lhe outros cargos no governo. As manifestações continuaram mesmo depois da nomeação de Drapatyi, organizadas por um veterano, Dmytro Koziatynskyi, com uma nova convocatória marcada para poucos dias depois e a ameaça de um protesto "indefinido" caso Fedorov não regressasse ao cargo. Moscovo reagiu com desdém oficial: a troca de comandante-chefe, disse o Kremlin, não muda nada na linha da frente. Portugal já viveu uma versão diferente desta pergunta — não a de uma multidão a tentar impor um general fora dos mecanismos constitucionais, mas a de uma mobilização popular em torno de um general que tentou usar um mecanismo constitucional esvaziado pela ditadura que o devia servir. Em 1958, o general Humberto Delgado foi candidato formal à Presidência da República contra o candidato do regime de Salazar, ao abrigo da Constituição de 1933, que ainda previa a eleição presidencial direta. Chamavam-lhe "o General Sem Medo". As multidões que o seguiram pelo país — em número que surpreendeu o próprio regime — levaram a candidatura até às urnas: Delgado recebeu oficialmente 23,6% dos votos, num escrutínio marcado por fraude e ausência de fiscalização democrática. O canal constitucional existia. O regime impediu que funcionasse. Foi precisamente o impacto popular da candidatura de Delgado que levou o Estado Novo, no ano seguinte, a abolir a eleição presidencial direta e a substituí-la por um colégio eleitoral controlado — eliminando o mecanismo que a oposição conseguira transformar num desafio real ao regime. Delgado foi afastado da vida militar, exilou-se, continuou a organizar oposição a partir de fora do país. Em fevereiro de 1965, foi assassinado pela polícia política do regime em território espanhol, perto de Villanueva del Fresno. O corpo, enterrado clandestinamente junto com o da sua secretária, Arajaryr Campos, foi encontrado pouco mais de dois meses depois. Não há indício nenhum de que a história ucraniana vá pelo caminho de Delgado, e seria irresponsável sugeri-lo. O que os dois momentos partilham não é a ausência de um mecanismo formal — é a pergunta sobre se o mecanismo que existe ainda serve para o que devia servir. Em Portugal, o mecanismo existia no papel e foi esvaziado por dentro; a resposta demorou dezasseis anos, uma guerra colonial insustentável e, por fim, oficiais mais jovens a organizarem-se de dentro das próprias Forças Armadas — não uma multidão nas ruas — para derrubar o regime que o tornara inútil. Zelensky descreveu a troca de comando como um "reset" — uma tentativa de recomeçar a gestão da guerra, não necessariamente uma cedência aos manifestantes. A sequência dos factos, porém, é difícil de separar dessa leitura: antes dos protestos, tinha escolhido manter Syrskyi e afastar Fedorov; seis dias de contestação depois, afastou também Syrskyi. Chame-se-lhe reorganização ou cedência: a rua conseguiu uma das suas duas exigências centrais. Syrskyi saiu, Drapatyi entrou. Fedorov, porém, não regressou — e é por isso que os protestos continuam. A pergunta que fica em aberto não é se Drapatyi vai ser um bom comandante-chefe: o currículo, as três classes da Ordem de Bohdan Khmelnytskyi que já tem, e o modo como fala em responsabilidade e autoavaliação em vez de posições a manter a qualquer custo não permitem prever desempenho no comando máximo, mas tornam a expectativa compreensível. A pergunta é sobre o que Zelensky ainda não resolveu. Fedorov disse só aceitar voltar ao Ministério da Defesa, porque nenhum outro cargo lhe dá, nas suas palavras, "autoridade real" para acabar o que começou. O regresso de Fedorov ao Ministério da Defesa teria também um custo político para Zelensky: devolveria autoridade a um antigo colaborador que, depois dos protestos, começou a ser visto como um possível centro alternativo de poder. Portugal soube que um mecanismo formal, por si só, não garante que a vontade popular se torne poder real. A Ucrânia está, esta semana, a descobrir uma versão diferente da mesma distância: a rua exigiu a mudança de um comandante-chefe e, seis dias depois, conseguiu vê-la concretizada. Falta ver se consegue trazer de volta um ministro — e o que resta de Zelensky se conseguir. #Ucrânia #Zelensky #Drapatyi #Fedorov #Syrskyi #GuerraNaUcrânia #PoderPolítico #ForçasArmadas
- Duas Visitas a um Homem Distante
Duas Visitas e um Silêncio Voltei hoje a São Vicente de Fora para o cumprimentar. Não sei bem que palavra usar para o que ali se faz. Não é bem oração. Também não é bem visita de cortesia. Fica algures a meio, e o mais parecido que encontro é dizer que fui fechar, à minha maneira, algo que o tempo tinha deixado por fechar. O que ele foi para mim não cabe em lápide nenhuma — coube de forma completa numa única tarde, há décadas, e num silêncio que se seguiu e nunca mais se desfez. Fui recebido com uma correção perfeita, uma cordialidade tão bem executada que não deixava fenda por onde entrar. Frieza não é a palavra certa para isto. Tinha esse rosto comprido que as fotografias oficiais também mostram, sempre grave, sempre composto para o retrato, como se o rosto fosse mais um paramento a vestir do que uma superfície a mostrar. Os olhos fixavam sem hesitar; a boca não cedia nunca ao sorriso de circunstância que qualquer outro homem naquela posição teria oferecido por puro ofício. Falava pouco e bem, ouvia com uma atenção que até parecia genuína, e mesmo assim não aquecia nada à sua volta. Agradeci-lhe o tempo que me deu. Aceitou o agradecimento com um aceno definido, cortês, sem nada a mais. Passados dias, enviei-lhe dois livros. Não eram meus, para que não pairasse vaidade nenhuma no gesto. Eram livros de literatura portuguesa, publicados por uma pequena editora que se esfalfava, como todas se esfalfam, a pôr no mundo o que mais ninguém queria financiar. O gesto não era para ele. Era para a literatura — e, sobretudo, para essa gente que faz livros sem nenhuma das garantias que fazem outros negócios valer a pena. Pareceu-me que um homem da sua posição, com a sua audiência, podia ao menos saber que aquilo existia. Nunca soube se os livros chegaram a ser abertos. Não veio um bilhete, nem o secretário a confirmar a receção, nem palavra alguma, nem então nem depois. Não foi ríspido: não houve nada de ríspido em nenhum momento daquele encontro. Foi apenas silêncio: tão bem-educado como o resto dele que nem chega a ser descortesia. O gesto simplesmente desapareceu, como se tivesse caído num poço sem fundo visível. Chamam-lhe moderador da transição para a democracia: o homem que ajudou o país a sair de uma ditadura sem saber bem o que fazer com a liberdade que tinha acabado de ganhar. Ao fim da tarde recebia sindicalistas e políticos no Patriarcado, e ninguém sabia ao certo o que se dizia ali dentro. Dava poucas entrevistas, quase nenhumas, segundo quem o tratou de perto, e preferia deixar que fosse o púlpito da Sé a falar por ele. Percebi, lendo isto, que a distância que eu tinha sentido como pessoal era, na verdade, o método. Perceber a razão do silêncio não o apaga; só lhe dá o contexto que eu precisava. Um homem pode ser, ao mesmo tempo, uma figura de moderação histórica e um destinatário que nunca confirma ter recebido dois livros. As duas coisas cabem na mesma pessoa sem se contradizerem, e é essa coexistência, mais do que qualquer heroísmo ou qualquer falha, que fica comigo, décadas depois, parado outra vez diante do mármore. Não escrevo isto como queixa: seria fácil, e seria pequeno, dizer só que ele nunca respondeu. O tempo trata estas coisas de outra maneira: absorve-as, e o que fica, no fim, não é a falta de resposta — é a memória de quem escreve sobre ela. Ele era o homem que era, reservado até à última fibra; isso não me cabe corrigir nem lamentar. A mim cabe-me outra coisa: defender a liberdade de consciência de cada um, e acreditar no afeto que se deve aos outros independentemente do que se recebe de volta. Não vim aqui pedir-lhe nada, nem sequer uma resposta atrasada; vim apenas dizer-lhe, a ele, ou ao ar que fica onde ele já não está, que a pequena editora continuou a publicar depois disso, com ou sem a sua confirmação, e que os livros, mesmo sem resposta, chegaram a outras mãos que os abriram. A gratidão que lhe dirigi nunca precisou de ser recebida por ele para ser verdadeira. Só eu precisava de voltar aqui, uma segunda vez, para lho dizer pessoalmente. Desta vez nem espero resposta: só queria que o gesto ficasse feito outra vez, aqui, à porta de um homem que continua, décadas depois, a ser por mim enaltecido e honrado. O túmulo de D. António Ribeiro, Cardeal-Patriarca de Lisboa entre 1971 e 1998, no Panteão dos Patriarcas do Mosteiro de São Vicente de Fora.
- Correia da Serra Deixa a América
O QUARTO DO ABADE A cadeira de vime estala sempre no mesmo ponto, e Correia já sabe onde pousar o peso para que se cale. Aprendeu isso há três verões. Ou quatro. Perdeu a conta. O calor sobe da terra vermelha de Monticello num bafo espesso que lhe cola a batina preta às omoplatas. Jefferson insistiu, à chegada, que a despisse. Correia disse que sim, obrigado, e não a despiu. A república que Correia da Serra conheceu nos Estados Unidos nascera poucas décadas antes da guerra de independência e continuava a construir a sua identidade política. Tira os óculos, sopra sobre uma das lentes, limpa-a à manga. A haste direita está presa com um fio de cobre torcido duas vezes sobre si mesmo — partiu-se em Filadélfia, no inverno, e ele nunca arranjou tempo, ou coragem, para a mandar soldar a sério. Ajusta o fio. Volta a pôr os óculos. A haste desce um pouco, sempre um pouco, ao longo da tarde. Jefferson está sentado à secretária ao fundo da sala, de costas meio voltadas, a dobrar uma carta que já dobrou três vezes. Fala sem levantar os olhos. — Ainda há esperança de o Brasil ficar como está? Correia olha para as próprias mãos. — A orquídea que trouxe de Filadélfia não sobreviveu à viagem. As raízes apodreceram dentro do pano húmido que alguém enrolara mal, na caixa amolgada de um lado, algures num saco de correio que ficou dias ao sol antes de chegar. Jefferson acena com a cabeça e volta à carta. O pássaro entra pela janela sem pedir licença e pousa em cima das cartas por responder, na mesa ao fundo. É cinzento, com as pontas das asas brancas, e pisa o papel com passos curtos, as garras a arranhar a tinta ainda fresca de uma linha. Jefferson estende dois dedos, sem olhar, e o pássaro avança até eles, bica qualquer coisa que não está lá, recua. — Ele gosta de si — diz Jefferson. — Fica mais perto quando você está na sala. Correia não sabe se isto é verdade. Não pergunta como Jefferson sabe. Diz: — Em Serpa havia um homem que ensinava pintarroxos a repetir os nomes dos filhos. Chamava-se... — pára. Não se lembra do nome do homem. Lembra-se do quintal, da poeira, do som. Jefferson está a olhar para a janela, para o fim da tarde a espalhar-se sobre o pomar novo, e diz qualquer coisa sobre a colheita de macieiras deste ano, sobre um enxerto que não pegou, sobre o filho de um vizinho que partiu para o Ohio. Correia sente a fome desde o meio-dia — recusou o prato de presunto ao almoço, por vergonha de comer sozinho enquanto os outros discutiam a colheita de tabaco, e agora o estômago ronca baixo, um som que ele abafa apertando o braço contra o corpo. Ninguém repara. Ou repararam e não disseram nada. Tira do bolso do colete um pedaço de papel dobrado em quatro, já amarelecido nas dobras. É a etiqueta de um espécime que nunca acabou de escrever — o género está lá, a caligrafia firme, e depois o resto da linha em branco. Vira o papel. Volta a dobrá-lo. Guarda-o. — O senhor devia escrever a Lisboa sobre o clima de cá — diz Jefferson, ainda de costas meias. — As suas observações sobre a chuva de junho seriam úteis à Academia. — Escrevi. Em abril. — E? — Não sei se chegou. O pássaro salta da mesa para o encosto da cadeira de Jefferson, depois para o chão, onde encontra uma migalha de qualquer coisa e a trabalha com o bico, virando-a, largando-a, apanhando-a outra vez. Há um som de louça na cozinha, distante, e uma voz de mulher que não se percebe se está a cantar ou a repreender alguém. Correia pensa que devia perguntar por Martha, pela saúde dela, mas o momento para essa pergunta já passou há dois minutos e agora seria estranho voltar a ele. Fica calado. A luz que entra pela janela já não é branca. É da cor de um cobre velho, e cai sobre a mesa, sobre as cartas por responder, até alcançar o pássaro, que agora está imóvel, com uma pata levantada, como quem hesitou a meio de um passo e se esqueceu de terminá-lo. — Está calor — diz Correia, e arrepende-se de o ter dito assim que a frase sai, porque não é isso que queria dizer, e já não sabe bem o que queria dizer. Jefferson levanta-se, devagar, com uma mão na secretária e outra nos rins, e diz que vai mandar trazer água fresca do poço, que ainda deve estar fria a esta hora. Sai da sala sem esperar resposta. Correia fica sozinho com o pássaro. Tira outra vez os óculos. Sopra sobre a lente. Limpa-a à manga, embora já não tenha nada para limpar. Ajusta o fio de cobre, que cede um pouco mais, e a haste fica torta de um jeito novo, diferente do de há uma hora. Põe os óculos. Olha para o papel dobrado que voltou a tirar do bolso sem se aperceber, e para a linha em branco depois do género latino, e pega na pena que está pousada ao lado do tinteiro de Jefferson, sem lhe pedir licença, e molha a ponta, e a tinta pinga uma vez sobre a mesa antes de ele conseguir escrever a primeira letra da segunda palavra, e o pássaro vira a cabeça para o som da gota a cair, e não faz mais nada. Base histórica (nota editorial, não faz parte do conto): José Correia da Serra (1750-1823) foi ministro plenipotenciário de Portugal em Washington a partir de 1816 e amigo próximo de Thomas Jefferson, que o recebeu várias vezes em Monticello, onde existe ainda hoje uma divisão conhecida como "o quarto do Abade". Jefferson mantinha um sabiá-do-norte (mockingbird) domesticado que circulava livremente pela casa. Estes factos são documentados. A cena, o diálogo, os gestos e o pormenor interior de Correia são invenção literária — não citação, não biografia. Imagem: - The New York Public Library
- D. João VI: Um Rei Sozinho à Janela
D. João VI A gordura escorria-lhe entre os dedos e ele lambia-a devagar, um dedo de cada vez, como quem repete um gesto que já não precisa de pensar. A coxa de galinha, roída até ao osso, estava pousada ao lado do prato, e as unhas ficavam-lhe de um amarelo escuro que o criado, na manhã seguinte, havia de limpar sem dizer nada, como sempre fazia. Era noite fechada e o calor não tinha descido com o sol. Lá longe, em Lisboa, a esta hora talvez já chovesse — aqui não chovia nunca à hora certa. A noite no Rio era só uma continuação mais escura do dia, cheia de insetos a bater no vidro e de aves que não dormiam quando deviam dormir, lá fora, nas gaiolas grandes que ele mandara construir e de que já quase não se lembrava de ter pedido. D. João VI de costas, a olhar pela janela para o porto do Rio de Janeiro Comia assim, com as mãos, só quando ficava sozinho. De dia, à mesa comprida, com os pratos de prata que tinham feito a viagem inteira dentro de caixas forradas a feltro, comia com talher, devagar, de olhos postos num ponto vago à frente, porque de dia havia sempre alguém a olhar. Nessa manhã tinha sido um bispo, vindo de Salvador com um rosário e uma petição que demorou quarenta minutos a ler, e D. João tinha ficado de pé o tempo todo, a peruca a apertar-lhe as têmporas, o suor a descer-lhe por dentro da casaca sem que nada no rosto o denunciasse. Carlota estivera sentada num banco lateral, mais perto da janela, e ele sentira, sem precisar de olhar, o modo como ela olhava para o bispo sem pestanejar. De noite, Custódio trazia-lhe o tabuleiro sem perguntar, punha-o na mesinha junto à janela e retirava-se para o canto, de pé, como fazia há vinte anos, e D. João comia com as mãos, devagar, sem ninguém a corrigir-lhe os cotovelos ou o ritmo da mastigação, e por uns minutos o mundo tinha o tamanho exato de um prato. Custódio tinha vindo de Queluz, ainda rapaz, no ano em que D. João fizera doze anos, e já não trocavam duas frases onde bastava uma. Ficava no canto, com as mãos cruzadas à frente do corpo, e só falava quando havia mesmo alguma coisa para dizer — o que, tratando-se de Custódio, queria dizer quase nunca. Nos vinte e tantos anos que se seguiram, tinha visto o rapaz gordo e assustado de outros tempos ficar mais velho e mais calado, e nunca dissera nada sobre isso, nem então nem agora. Esta noite falou. — Chegou um recado de Buenos Aires, Senhor. D. João não parou de comer. Levou outro pedaço à boca, mastigou-o com o mesmo cuidado de sempre, e só depois de engolir é que perguntou, sem levantar os olhos do prato: — Recado para quem. — Para a Rainha, Senhor. Veio por mão de um capitão espanhol. Diz-se na cozinha que... — Não quero saber o que se diz na cozinha. Custódio calou-se. D. João continuou a comer, e por um instante o único som no quarto foi o dos seus próprios dentes e, lá fora, uma coruja qualquer que respondia a outra. Não era a primeira vez. Havia meses — talvez já um ano — que as cartas de Buenos Aires chegavam com uma regularidade que ninguém explicava em voz alta, embora todos na casa soubessem mais ou menos do que se tratava. Carlota tinha partidários do outro lado do oceano. Havia um nome dela a correr em folhetos que ele fingia não ter lido. E havia, sobretudo, uma ambição que ela nunca se dava ao trabalho de esconder atrás de boas maneiras — ao contrário dele. Ela queria ser regente de um território que não era este, governado por gente que não era esta. Ele próprio já nem se lembrava da última vez que quisera alguma coisa com aquela firmeza toda. Tinham-nos casado quando ela tinha dez anos e ele pouco mais de dezassete, por procuração, em Madrid, sem que nenhum dos dois tivesse posto os olhos no outro antes da assinatura. Lembrava-se, sem dor, porque a dor já lá não estava havia muito — ficara só o facto, seco, do dia em que finalmente a viu em carne e osso, em Lisboa, já os dois mais crescidos, e do modo como ela o observou de cima a baixo, sem pressa, com uma curiosidade fria, e nada mais. Ele tinha sorrido, porque era o que se fazia, e ela não tinha sorrido de volta, e ele lembrava-se de ter pensado, na altura, que talvez isso mudasse com o tempo. Tinha mudado, de facto. Tinha piorado. Chupou o osso. Era um gesto que fazia desde pequeno, em Queluz, quando a mãe ainda vivia e ninguém achava estranho um infante comer galinha com as mãos, sentado no chão de um corredor, escondido das visitas. Ninguém pensaria, a vê-lo agora — cinquenta e tantos anos, o corpo pesado, o Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves inteiro a pesar-lhe nos ombros do mesmo jeito que a casaca de gala lhe apertava debaixo dos braços — que era ainda o mesmo gesto, a mesma fome que não era bem fome, era outra coisa a que ele nunca dera nome. Lá fora, uma ave gritou, e outra respondeu, e por um instante o pátio encheu-se daquele alvoroço que os bichos faziam sempre que alguma coisa mudava no ar — um cheiro, uma pressão. D. João levantou a cabeça, ouviu, e havia nele, mesmo sem saber ainda que a trovoada se preparava, uma espécie de reconhecimento antigo, uma tensão nos ombros que lhe vinha sempre antes de saber porquê. Tinha medo de trovoadas desde menino. Era coisa sabida na corte, dita em surdina, motivo de troça bem escondida atrás de reverências — o rei que se escondia debaixo das mesas quando o céu rugia, o rei que mandava fechar todas as portadas ao primeiro relâmpago e ficava sentado no chão, entre dois móveis, até passar. Ninguém falava nisso à frente dele. Só falavam de outras coisas — do tempo, da ceia. Voltou a comer. Custódio, no canto, não se tinha mexido, mas havia qualquer coisa na sua imobilidade que não era bem a imobilidade do costume — como se estivesse a decidir se dizia mais alguma coisa, e a decidir, ao mesmo tempo, que não. — Trouxeste a carta ou só o recado? — Só o recado, Senhor. A carta está com Sua Majestade. D. João concordou, como se aquilo resolvesse alguma coisa, e talvez resolvesse: não ter a carta na mão era não ter de decidir se a lia. Podia continuar, por mais uma noite, a saber só pela metade — era a única maneira de saber que ainda suportava, havia anos. Sabia o bastante para não poder dizer depois que ninguém o avisara. Preferia não saber o resto. Havia, além disso, um segundo papel, dobrado, que Custódio ainda não tinha mencionado e que D. João já tinha visto assomar por baixo do tabuleiro. Uma letra que reconhecia — a do filho mais velho, de Vila Rica ou de onde quer que andasse agora, sempre a percorrer o interior como quem foge de qualquer coisa que ainda não tinha nome próprio. Não perguntou por ela. Custódio também não a ofereceu. Ficaram os dois, por um momento, a fingir que aquele papel dobrado não estava ali, coisa que já sabiam fazer bem os dois, de tanto praticarem. Partiu mais um pedaço de carne. A gordura, já fria, colava-se-lhe aos dedos de um jeito diferente, mais espesso, e ele ficou a olhar para isso mais tempo do que era preciso. Pensou — não chegava a ser pensamento, era mais uma imagem que lhe atravessou o corpo sem pedir licença — num quarto em Queluz, no inverno, com a chuva a bater no vidro de um jeito que aqui nunca batia, e ele, ainda rapaz, deitado no chão do corredor com o irmão mais velho, os dois a ouvir a chuva e a fingir que não tinham medo de nada, porque o pai estava algures na casa e um infante não podia ter medo à frente do pai, mesmo que o pai não estivesse a ver. Lembrava-se do frio da pedra através da roupa. Lembrava-se de gostar daquele frio, sem saber bem porquê. Lembrava-se também, com menos nitidez, de uma outra chuva, mais tarde, na noite em que souberam que os franceses vinham a caminho de Lisboa e que teriam de partir antes de o exército chegar aos portões — a correria pelos corredores, os baús meio cheios, a mãe já então doente e confusa, a repetir perguntas a que ninguém respondia, e ele, já homem, já regente, de pé no cais debaixo de água que lhe entrava pela gola dentro, a decidir, pela primeira vez na vida, uma coisa que ninguém mais podia decidir por ele. Tinha decidido bem, diziam agora os que escreviam sobre isso. Ele lembrava-se sobretudo do frio, e de como, mesmo nessa noite, tinha sentido mais vontade de se sentar no chão do cais e ficar ali do que de subir para o navio. Aqui não havia esse frio. Aqui havia só isto — o calor parado, o suor por baixo da camisa mesmo de noite, as aves inquietas, Custódio de pé no canto, tão parado que era fácil esquecer que ali estava um homem. — Ainda aqui estás — disse, não como pergunta. — Sim, Senhor. — Podias ter ido. — Podia, Senhor. Não foi. Nunca ia, até D. João dizer que podia dormir, e mesmo essa ordem, ao longo dos anos, se tinha tornado uma formalidade que os dois cumpriam sem acreditar bem nela — uma espécie de reverência mútua a um tempo em que as ordens ainda queriam dizer alguma coisa. O ar mudou primeiro. D. João sentiu-o antes de ouvir fosse o que fosse — uma pressão nova contra as têmporas, o mesmo aperto que a peruca lhe dava de manhã mas sem peruca nenhuma, só o ar a engrossar-se, e lá fora as aves calaram-se todas ao mesmo tempo, o que era pior do que gritarem, e depois um relâmpago cortou o céu ao longe, mudo ainda, uma luz sem som, e ele contou, sem querer contar, os segundos até ao trovão, do mesmo modo que contava desde os oito anos, à espera de saber a que distância estava a coisa que temia. O trovão veio mais perto do que esperava. D. João não se mexeu logo. Ficou com o pedaço de carne a meio caminho da boca, os olhos fixos na janela escura. O corpo velho sabia o que costumava fazer quando o céu rugia assim. Havia nele, porém, qualquer coisa mais cansada, mais recente, que já não tinha a certeza se valia a pena. O segundo trovão foi mais perto ainda, e desta vez o vidro tremeu de facto, um tremor curto que ele sentiu nos dentes. Ele pousou a carne. Levantou-se devagar — o corpo pesado a protestar contra a cadeira, contra os anos, contra o calor — e Custódio, pela primeira vez naquela noite, deu um passo à frente, como quem se prepara para ajudar num gesto que já conhece de cor: fechar as portadas, puxar a cadeira para o canto mais afastado das janelas, sentar-se ali com o rei até passar a tempestade, os dois em silêncio, como tantas outras vezes ao longo de vinte anos. D. João fez um sinal com a mão, quase distraído, que Custódio interpretou como sendo para ficar onde estava. Foi até à janela. Abriu-a. O ar que entrou era espesso, cheirava a terra molhada antes mesmo de a chuva começar, e por baixo desse cheiro havia outro, mais fundo, que ele não saberia dizer se vinha do jardim ou de dentro de si — um cheiro de coisa prestes a mudar e já sem forma de o impedir. A chuva começou de repente, sem aviso gradual, como faz nos trópicos — não pinga, cai. Molhou-lhe a manga antes de ele ter tempo de decidir se ia recuar. Não recuou. Ficou ali, à janela aberta, com a coxa de galinha ainda na outra mão, e deixou que a chuva lhe batesse na cara e no peito da camisa. O trovão veio outra vez, mais um relâmpago que lhe iluminou as mãos gordurosas erguidas contra a escuridão do jardim, e ele não fechou os olhos, não se encolheu, não fez nenhum dos gestos que fazia a vida inteira quando o céu se comportava assim. Atrás dele, ouviu Custódio mover-se — um passo, talvez dois — e depois parar. D. João ficou ali o tempo que a primeira fúria da chuva demorou a assentar num ritmo mais parelho. Sentia a água a escorrer-lhe pela nuca, a molhar-lhe o colarinho, a misturar-se com a gordura que ainda tinha nos dedos e que agora escorria também, mais diluída, pelo pulso abaixo, sem que ele fizesse nenhum gesto para a limpar. Não estava a pensar em Carlota, nem na carta de Buenos Aires que continuava por ler. O papel dobrado do filho continuava também onde estava, debaixo do tabuleiro. Nem sequer lhe ocorria que aquilo fosse coragem — não era. Sabia isso com uma clareza que não costumava ter sobre si próprio. Era só que, por uma noite, decidira não se esconder do que não podia impedir. A galinha, na mão erguida contra a chuva, começou a perder a forma, a ficar mole, a escorregar-lhe entre os dedos como tinha escorregado a gordura no início da noite. Ele não a largou. Ficou ali até a chuva lhe encharcar a camisa por completo, até já não conseguir distinguir, nas próprias mãos, o que era chuva e o que era gordura, e deixou de tentar. Atrás dele, Custódio esperava, de pé, no canto, como sempre esperara, e não disse nada, e a chuva continuou a cair sobre um homem que segurava, contra o peito molhado, o que restava de um osso. #DJoãoVI #ContosDemorados #FicçãoHistórica #LiteraturaPortuguesa #ExílioNoBrasil
- A negociação começou sem nós | Cartoon
Há países e instituições que chegam às negociações com uma agenda cuidadosamente preparada. Segurança. Energia. Tecnologia. Comércio. Valores. Levam propostas, posições, linhas vermelhas e a convicção de que ainda vão discutir a ordem dos trabalhos. Depois descobrem que a negociação começou antes da reunião. Não foram excluídos. A porta continua aberta. Há cadeiras, documentos e provavelmente café. Apenas chegaram a uma mesa onde algumas decisões já adquiriram a forma desagradável dos factos. O atraso, nestes casos, não se mede em minutos. A agenda estava pronta. A negociação também — mas começou noutro lugar.
- Europa: a carroça avança, mas ninguém segura as rédeas
A Europa nunca teve falta de ideias. Tem documentos, estratégias, cimeiras, grupos de trabalho, recomendações e relatórios suficientes para encher uma biblioteca. O problema começa quando chega o momento de decidir quem pega realmente nas rédeas. Neste cartoon, a carroça continua a avançar, mas cada passageiro olha para uma direção diferente. Uns discutem a competitividade, outros falam da defesa, há quem continue concentrado na transição energética e quem procure apenas sobreviver politicamente à próxima eleição. Entretanto, a estrada vai desaparecendo. Talvez a sátira não esteja na quantidade de problemas que a Europa enfrenta. Está antes na facilidade com que cada nova crise produz mais um plano, mais uma comissão e mais um conjunto de papéis, como se o peso da burocracia pudesse substituir a velocidade da decisão. No fim, a carroça continua a mover-se. A dúvida é se ainda segue um caminho ou apenas ganhou velocidade suficiente para já ninguém ter coragem de puxar o travão. A carroça chama-se Europa. Passageiros não faltam. O difícil continua a ser encontrar quem conduza na mesma direção. #Europa #UniãoEuropeia #PolíticaEuropeia #CartoonEditorial #Sátira #AtlanticLisbon
- Os portões de Karaj
Em julho de 2018, dezoito anos depois de Ahmad Shamlou ter morrido, um punhado de admiradores tentou depositar flores no seu túmulo, num cemitério à saída de Teerão. As forças de segurança chegaram primeiro. Fecharam os portões. Cinco pessoas foram detidas, duas delas ligadas à Associação de Escritores do Irão. Não houve confronto, nem discurso, nem bandeira erguida — só um cadeado, e um grupo de pessoas paradas do lado de fora de um cemitério, impedidas de colocar flores num túmulo que já tinha trinta e cinco anos. Os portões continuam fechados. Ilustração original para o ensaio "Os portões de Karaj", Atlantic Lisbon. Shamlou é, para a maior parte dos iranianos, o maior poeta do seu século. Não morreu no exílio, nem em fuga. Viveu quase sempre dentro do país que o queria calado. Saiu uma vez, em 1977, durante um ano, em protesto contra o Xá — voltou assim que a revolução começou a ganhar forma, entusiasmado, para logo se desiludir com o que via nascer no lugar da monarquia que ajudara a combater. A partir de 1980, viveu de forma cada vez mais recolhida, sem nunca deixar o país, com obra proibida ora por um regime, ora pelo seguinte. Morreu em 2000, em casa, em Karaj. No funeral, milhares de pessoas encheram as ruas de Teerão. A lista que ninguém questiona A coluna em causa — cinco livros, escolhidos por um crítico americano, para quem quiser "compreender o Irão" — segue uma lógica que, à primeira vista, parece impecável. Começa com Richard Frye e a sua história clássica da Pérsia pré-islâmica, atravessa Amir Taheri sobre Khomeini, Ryszard Kapuściński sobre a queda do Xá, um estudo académico sobre as raízes eleitorais iranianas, e fecha com a banda desenhada autobiográfica de Marjane Satrapi sobre a infância sob a revolução. Frye era um orientalista americano, professor em Harvard, que estudava a Pérsia como quem estuda uma civilização morta — com rigor, com amor, mas de fora. Taheri tinha sido diretor de um jornal iraniano antes da queda do Xá, e escreveu o seu retrato de Khomeini já exilado, em Paris. Kapuściński era um repórter polaco de passagem, no país o tempo suficiente para captar a textura de uma sociedade a desfazer-se, e depois foi-se embora, como fazem os repórteres. Satrapi escreveu a sua infância iraniana já instalada em França, adulta, a olhar para trás através da distância que faz da memória uma coisa suportável. Portugal já fez este exercício, só que ao contrário Depois de 1974, a memória oficial da resistência ao Estado Novo organizou-se maioritariamente à volta de quem tinha saído — os exilados de Paris e Argel, os quadros do PCP em Moscovo, os que tinham fugido para a guerrilha ou para a clandestinidade internacional. É uma memória justa, construída sobre sofrimento real. Mas essa mesma memória, durante décadas, teve dificuldade em encontrar linguagem para outra figura, mais ambígua e mais comum: a de quem ficou, não colaborou, não se calou por completo, e também não fugiu. Miguel Torga é o exemplo mais citado. Médico em Coimbra, escritor que recusou publicamente a Ordem de Santiago da Espada que o próprio Salazar lhe quis atribuir, preso brevemente em 1940 por atividade oposicionista, Torga passou a ditadura inteira em Portugal, a escrever um diário que ia sendo publicado em volumes sucessivos, com cortes da censura em alguns deles, sem nunca deixar o país nem aderir à luta armada nem entrar nos aparelhos clandestinos dos partidos. Alguém que ficou, escreveu o que podia dentro dos limites que ia empurrando, e pagou o preço de não ter uma história fácil de contar depois. Em Portugal, a memória do exílio tornou-se dominante, e só décadas depois se começou a fazer justiça, com mais cuidado, à figura de quem ficou. No Irão, a memória canonizada pelo Ocidente é quase exclusivamente a de quem partiu. Porque é que o exílio é mais fácil de ler A razão prática é de acesso. Quem sai de um país fechado pode falar livremente, pode ser entrevistado sem risco, pode escrever sem medo de represálias contra si ou contra a família que ficou. A razão menos confortável é outra: o exilado conta uma história que o leitor ocidental já sabe como ler. É a história da fuga, da perda, da nostalgia, do recomeço — um arco narrativo familiar, quase sempre com um herói legível e um regime vilão sem ambiguidade. Quem ficou conta uma história mais difícil de arrumar: a de alguém que negociou, todos os dias, durante décadas, os limites exatos do que podia dizer sem desaparecer, que colaborou nalgumas coisas pequenas para poder resistir nas grandes. Shamlou não é uma história simples. É por isso que não está em nenhuma lista. O que se perde quando só se lê quem saiu Quem só lê os livros de quem saiu aprende uma coisa real sobre a revolução iraniana — a violência, o sequestro do movimento popular por uma teocracia, o custo sobre as mulheres —, mas não aprende quase nada sobre a mecânica quotidiana de como se vive, durante décadas, dentro de um sistema que não se pode mudar nem se pode abandonar. Não aprende como se negoceia a censura linha a linha, como se decide o que se publica e o que se guarda numa gaveta durante vinte anos. Satrapi, apesar de escrever já de fora, é a exceção parcial nesta lista — a sua infância aconteceu dentro do país, mesmo que a idade adulta e a escrita tenham acontecido depois de sair. Os portões continuam fechados As mesmas forças que fecham hoje os portões do cemitério de Karaj, todos os anos, no aniversário da morte de Shamlou, são as que garantem que a próxima geração de vozes que ficaram dentro do Irão continuará a ter mais dificuldade em chegar aos leitores ocidentais do que qualquer exilado com acesso a um editor em Nova Iorque ou em Paris. Mais fácil entrevistar quem já saiu, mais seguro publicar quem já não corre risco, mais legível uma história de fuga do que uma história de permanência ambígua. As listas que o Ocidente compõe para "compreender" países como o Irão são, quase sempre, honestas nos factos e cegas na seleção — e essa cegueira não é sobre o Irão, é sobre nós. Os portões de Karaj continuam fechados todos os anos, em julho, e continuarão fechados o ano que vem.
- Waste Land: A World in Permanent Crisis — recensão
Em Waste Land, Robert Kaplan argumenta que a crise da ordem internacional não é uma fase passageira — é a condição permanente de um mundo demasiado conectado para ser coerente e demasiado fragmentado para se governar. O mundo como casa de cartas. Waste Land: A World in Permanent Crisis, de Robert D. Kaplan (Random House, 2024). Robert Kaplan vê a política global como tragédia shakespeariana. Não é a metáfora decorativa — é o método. Os estadistas privilegiam a ordem sobre os valores porque, sem ordem, os valores não têm onde pousar. O centro do livro é uma analogia com precisão incómoda: o mundo inteiro tornou-se Weimar. "O mundo inteiro é agora um grande Weimar", escreve, "conectado o suficiente para que uma parte influencie mortalmente as outras, mas não conectado o suficiente para ser politicamente coerente." A República de Weimar não foi uma exceção alemã — foi um laboratório. O historiador Gordon Craig observou que o "estado normal de Weimar era a crise." Kaplan vê esse estado reproduzido à escala planetária: uma "fase excessivamente frágil de transição tecnológica e política", uma casa de cartas suscetível de colapso a qualquer momento. As três potências que ainda estruturam o sistema estão em declínio simultâneo. A América sofre de divisões políticas e culturais, de guerras que esgotaram recursos e credibilidade, de uma imprensa que tomou partido em vez de relatar. A China enfrenta a armadilha demográfica e a rigidez ideológica de Xi Jinping, que inverteu o pragmatismo de Deng Xiaoping. A Rússia exibe, na Ucrânia, um estado avançado de deterioração — o legado de décadas de comunismo que "deformou e degradou" a sua cultura política. Enquanto os Estados Unidos estavam distraídos no Grande Médio Oriente, os chineses "construíam metodicamente um complexo militar gigantesco, com ênfase em navios de guerra, caças, mísseis e capacidades de ciberguerra." A janela abriu-se; Pequim percebeu-o antes de Washington. A tecnologia digital não é, neste livro, uma força emancipadora — é um multiplicador de instabilidade. "A tecnologia fez de nós simultaneamente mestres e vítimas num grau anteriormente inimaginável." A proximidade digital coexiste com um isolamento real que a história ensina ser o caldo de cultura do totalitarismo. As piores tiranias tiveram as suas origens na solidão do indivíduo. As multidões contemporâneas crescem sem memória de erros passados e sob a influência de sistemas que confirmam o que já pensam. O que Kaplan defende é a primazia da ordem. "A natureza humana sendo o que é, a ordem deve permanecer a virtude política suprema." Mobiliza Solzhenitsyn, Kirkpatrick e Spengler — não como ornamento erudito, mas como argumento. O conflito central do nosso tempo não é democracia contra autocracia. É ordem contra desordem. Waste Land tem os limites do método. O diagnóstico é denso; as saídas permanecem vagas. Algumas especulações carecem da documentação que mereceriam. Mas o livro não promete o que não pode dar — e essa honestidade é, em si, uma forma de rigor. Ficha bibliográfica Kaplan, Robert D. Waste Land: A World in Permanent Crisis. Nova Iorque: Random House, 2024. ISBN 9780593730324.
- A China fecha os seus departamentos de línguas. É geopolítica.
A língua como fronteira do mundo Ao Manyun* lecciona suaíli há mais de vinte anos na Universidade de Comunicação da China, em Pequim. O curso chama-se "Teoria e Prática da Tradução do Suaíli" e existe há seis décadas — mais velho do que a maioria dos seus alunos, mais velho do que muitas das alianças diplomáticas que justificaram a sua criação. Nos últimos semestres, os estudantes começaram a chegar com uma pergunta que ela não esperava tão cedo: para que serve isto, se a máquina traduz em segundos? A China não está a adaptar o ensino das línguas — está a substituí-lo por máquinas que traduzem sem habitar. Ao encerrar departamentos de línguas e redirecionar recursos para robótica, inteligência artificial e engenharia, a China redefine o conhecimento como instrumento de competição estratégica. Manyun não os mandou embora. Redesenhou o curso. O objetivo, disse ela num jornal estatal, já não é ensinar a traduzir — é ensinar a dirigir e a avaliar tradutores de IA em tarefas de tradução complexa. Em trinta palavras, uma disciplina de sessenta anos dobrou o joelho. Em maio de 2026, um inquérito acompanhou setenta universidades chinesas que anunciaram alterações aos seus programas. O padrão era inequívoco: oito licenciaturas em japonês eliminadas, cinco em alemão, cinco em estudos de tradução. Em simultâneo, o Ministério da Educação aprovava nove universidades para oferecer licenciaturas em "inteligência incorporada" — o termo técnico para sistemas físicos autónomos, robôs humanoides, máquinas que atuam no mundo sem intervenção humana direta. Aprovava também programas em "economia de baixa altitude", semicondutores e engenharia de terras raras. A linguagem das decisões era a linguagem da eficiência. Campos saturados. Mercado de trabalho em mutação. Excesso de capacidade instalada. Nenhuma das justificações mencionava a palavra que estava em causa: poder. Durante décadas, os departamentos de línguas estrangeiras foram máquinas de produzir mediadores — pessoas que não apenas convertiam palavras, mas que carregavam dentro de si uma estrutura cognitiva formada por outra língua, outro sistema de imagens, outra maneira de dividir o real. Uma pessoa que fala alemão fluentemente não é um chinês que sabe alemão. É alguém que aprendeu a pensar, durante uma fração do tempo, como pensa alguém criado em alemão. A IA elimina a vulnerabilidade que isso implica. Mas elimina também a força. Traduzir é converter. Interpretar é habitar. Uma máquina pode fazer a primeira com uma fidelidade que nenhum humano alguma vez atingirá na velocidade. A segunda pressupõe que o intérprete entrou em algum momento pelo outro lado — que viveu, mesmo que fugazmente, dentro da lógica do outro, com os seus pressupostos não ditos, as suas omissões reveladoras, as suas formas de não dizer o que se diz. Os diplomatas sabem isto. Os jornalistas que trabalham em países estrangeiros sabem isto. Não é o vocabulário que trouxeram de volta — é a capacidade de perceber quando algo que parece simples na superfície carrega, por baixo, uma estrutura de sentido que não se transfere diretamente. A capacidade de reconhecer o que a máquina não vai assinalar porque não sabe que aquilo é estranho. Ao reduzir sistematicamente a formação de pessoas capazes de habitar linguisticamente o exterior, o Estado chinês está a fazer uma escolha sobre o tipo de relação que quer ter com o mundo que não fala chinês. Uma relação mediada por máquinas é mais rápida, mais barata, mais escalável, mais controlável. É também mais opaca — não para o exterior, mas para o interior. Porque uma máquina não traz de volta o que não foi programada para reconhecer como relevante. A professora de Syracuse que o inquérito cita formula o risco com prudência académica: alguns campos podem ser desvalorizados antes de a sua importância de longo prazo ser compreendida. Mas a formulação pressupõe que a importância existe independentemente da decisão — que está algures à espera de ser reconhecida. O que acontece com capacidades que não são apenas desvalorizadas, mas ativamente não reproduzidas durante uma geração? Uma língua que deixa de ser ensinada não fica adormecida. As pessoas que a sabiam envelhecem. Os departamentos fecham. A cadeia de transmissão parte-se. E quando o Estado quiser voltar a ter pessoas que percebam o interior de outra cultura, não as encontra — porque o mercado que as deveria ter produzido foi declarado obsoleto vinte anos antes. Aconteceu em vários países ocidentais com o árabe, o persa, o mandarim — línguas que eram "menores" até deixarem de o ser, momento em que se descobriu que formar um especialista demora quinze anos e que a necessidade é imediata. A diferença, no caso chinês, é que não é um departamento que fecha por falta de alunos. É uma política nacional que elimina oito licenciaturas em japonês ao mesmo tempo. O argumento de que a IA torna as humanidades mais valiosas tem os seus defensores onde se esperaria encontrá-los: o CEO da Nvidia afirma que uma licenciatura em inglês pode ser a mais valiosa na era da IA; o diretor operacional da BlackRock diz que a empresa coloca ênfase crescente em licenciados em história e humanidades. Mas o argumento aplica-se a quem trabalha em inglês, dentro de estruturas ocidentais, em contextos onde a IA já é infraestrutura invisível. Não responde à pergunta sobre o que acontece a quem precisa de ser a ponte. E ignora uma ironia: se a IA tornou o inglês na linguagem universal da computação, as culturas que não pensam em inglês precisam mais do que nunca de pessoas que o compreendam de dentro — não como utilizadoras de ferramentas de tradução, mas como habitantes temporárias de um sistema de pensamento. A alternativa é usar a IA para aceder ao inglês como se acede a uma base de dados: eficaz para extração, cega para a nuance. Um curso que antes formava pessoas capazes de pensar em suaíli, de ler literatura suaíli, de perceber a lógica interna das sociedades que falam suaíli — esse curso foi transformado num curso que forma pessoas capazes de supervisionar uma máquina que faz isso. O resultado superficial pode parecer semelhante: há ainda uma pessoa no processo, há ainda competência humana envolvida. Mas a competência mudou de natureza. Passou de habitação para auditoria. A habitação produz diplomatas, intérpretes, académicos, negociadores — pessoas que sabem quando a máquina está errada não porque leram o relatório de erros, mas porque alguma coisa soa falso. A auditoria produz gestores de sistemas que são muito bons a verificar o output mas que não têm, por definição, acesso ao que o output pode estar a perder. O paradoxo é que esta reconfiguração acontece precisamente quando a China mais precisaria de mediadores humanos. A competição tecnológica com os Estados Unidos intensificou-se ao ponto de tornar o diálogo técnico difícil. As negociações sobre semicondutores, IA, acesso a mercados e padrões tecnológicos globais desenvolvem-se todas num terreno onde a compreensão do outro lado não é uma vantagem académica, é uma necessidade operacional. A explicação mais benigna é um desfasamento temporal: as decisões foram tomadas com base em dados de mercado de trabalho de curto prazo, e a consequência de longo prazo não foi calculada. A menos benigna — e não menos plausível — é que a mediação humana com o exterior é vista, por alguma fração do aparelho decisório, não como um ativo mas como um risco. Pessoas que habitam o interior de outra cultura tendem a desenvolver opiniões sobre essa cultura que não são facilmente controláveis. Uma máquina que traduz não desenvolve opiniões. Manyun diz que o objetivo já não é ensinar a traduzir — é cultivar competências para dirigir e avaliar tradutores de IA em tarefas complexas. Mas há uma palavra que desapareceu entre a versão antiga do curso e a nova: habitar. Ninguém dirige e avalia algo que habita. Habitar é perder-se, por um tempo, na lógica do outro — e voltar com algo que não se consegue nomear completamente, mas que transforma a maneira como se percebe o próprio lado. Daqui a vinte anos, quando alguém precisar de perceber o interior de uma situação que nenhuma máquina assinalou como problemática — porque a máquina não sabia que aquilo era estranho — essa pessoa terá de existir. A pergunta é onde foi formada. *Ao é o apelido — um apelido chinês, monossilábico, perfeitamente normal.
- Recensão: - O medo com outro nome
A ditadura portuguesa não terminou quando começou a hesitar. Antes disso, adaptou-se. Mudou o vocabulário, ajustou gestos, substituiu alguma rigidez pública por uma promessa de abertura, tentou dar à permanência o ar respeitável da reforma. O marcelismo viveu muito dessa ambiguidade. A PIDE passou a chamar-se DGS, como se uma polícia política pudesse ser transformada por uma alteração administrativa. O país ouviu falar de evolução e continuou vigiado. Recebeu uma linguagem nova, mas reconheceu, por baixo dela, a antiga disciplina do medo. Histórias da PIDE — Volume 2: Quando era a DGS de Caetano ocupa esse lugar incómodo da memória portuguesa: o momento em que o regime já percebia a necessidade de parecer menos imóvel, mas não admitia perder o mecanismo que lhe garantia obediência. A mudança de nome pertenceu ao teatro de sobrevivência de uma ditadura pressionada pela guerra colonial, pela contestação estudantil, pela oposição democrática, por setores católicos inquietos, por militares cada vez menos disponíveis para sustentar indefinidamente o império. A sigla antiga pesava demasiado. A prática continuava reconhecível. Alberto Carvalho fez a recensão — Histórias da PIDE — Volume 2: Quando era a DGS de Caetano, de José Pedro Castanheira. Tinta-da-China, 2026. A polícia política não desapareceu por se tornar mais burocrática na designação. A vigilância, a perseguição, os relatórios, os interrogatórios, a violência exercida sobre opositores e militantes anticoloniais continuaram a fazer parte do funcionamento do Estado. O nome DGS parecia menos carregado, menos salazarista, menos brutal à primeira vista. A função permanecia. O salazarismo terminal é hoje mais fácil de identificar. Tem uma iconografia própria: a censura, a imobilidade, a escola obediente, o chefe envelhecido, a polícia política como sombra natural do regime. O marcelismo é mais traiçoeiro para a memória pública. Apresenta-se com linguagem de transição, com promessa de modernização, com a ideia de que a ditadura poderia corrigir-se sem deixar de ser ditadura. Essa zona cinzenta permite, décadas depois, uma nostalgia mais limpa: não a nostalgia declarada da repressão, mas a nostalgia da ordem sem custo visível. José Pedro Castanheira tem trabalhado contra essa limpeza posterior. O arquivo da PIDE/DGS não é apenas um depósito de papéis antigos. É uma cartografia de vidas atravessadas pelo poder: nomes, escutas, processos, denúncias, prisões, carreiras, cumplicidades, vítimas. A polícia política não foi uma abstração sombria instalada algures fora do quotidiano. Foi uma máquina concreta, com funcionários, métodos, hierarquias e rotinas. A sua violência não existiu à margem do regime; ajudou a mantê-lo de pé. Há hoje em Portugal uma forma insistente de tornar o Estado Novo moralmente discutível, como se a ditadura pudesse ser reavaliada através de uma contabilidade seletiva: obras públicas de um lado, pobreza do outro; ordem de um lado, censura do outro; autoridade de um lado, perseguição política do outro. Esse jogo exige sempre a redução da polícia política a excesso episódico. Para que o autoritarismo pareça disciplina, é necessário afastar os corpos que ele prendeu, interrogou, silenciou ou empurrou para o exílio. O segundo volume de Histórias da PIDE devolve peso a essa parte mais cómoda de esquecer: a fase em que a ditadura já se sabia observada, já se sabia desgastada, já tentava negociar a própria imagem, mas conservava os seus instrumentos essenciais. A repressão podia falar com menos aparato. Continuava repressão. A expressão quando era a DGS de Caetano contém quase todo o problema. O regime não renunciou à polícia política; tentou torná-la compatível com a sua nova encenação. O país recebia pequenos sinais de abertura e, ao mesmo tempo, mantinha uma estrutura de vigilância preparada para defender a ordem estabelecida. Na metrópole, a promessa de mudança podia alimentar prudências e ilusões. Nas colónias, a violência do império permanecia ainda mais exposta, ligada à guerra, ao controlo dos movimentos de libertação e ao medo de que a queda começasse pela periferia. A memória democrática não se conserva apenas em datas solenes. Conserva-se na capacidade de reconhecer mecanismos antigos quando regressam com vocabulário novo. A história da PIDE/DGS pertence aos arquivos, mas não fica fechada neles. Interpela a cultura política de um país que ainda se vê, por vezes, tentado a confundir autoridade com ordem moral, polícia com estabilidade, silêncio com paz. Este livro chega num tempo em que a discussão sobre a ditadura deixou de ser apenas histórica. Tornou-se novamente política. Não porque o passado se repita intacto, mas porque as sociedades cansadas da complexidade procuram, com frequência, imagens simples de poder. A polícia política é uma dessas imagens quando se apaga a sua realidade: deixa de ser instrumento de medo e passa a ser lembrada, por alguns, como mecanismo de disciplina. A mudança de PIDE para DGS não absolveu a ditadura. Alterou-lhe a superfície. O nome mudou; a lógica permaneceu.











